Você percebe a mudança antes mesmo de entender o motivo. O escritório continua o mesmo — o vidro, a luz neutra, o silêncio calculado — mas algo em você se recolhe para dentro, como se o mundo externo tivesse diminuído alguns graus. Sua respiração desacelera sem esforço. Um detalhe invisível chama sua atenção para o próprio corpo. Você está presente. Inteira.
Você se senta à mesa de reuniões com a postura correta, profissional, impecável. As mãos repousam onde devem. A mente acompanha números, cláusulas, prazos. Ainda assim, por baixo da superfície, existe uma outra escuta. Mais profunda. Mais lenta. Você sente o ar entrar e sair, sente o calor sutil sob a pele, sente a expectativa que não tem nome — ainda.
Então você percebe o olhar.
Não é insistente. Não invade. Apenas permanece. Um reconhecimento silencioso, preciso demais para ser casual. Você não reage de imediato. Não precisa. Algo em você entende antes de decidir. É proibido não por regras escritas, mas porque ambos sabem exatamente o que está em jogo. Parcerias não atravessam certas linhas. Pessoas lúcidas mantêm distância. E, mesmo assim, o espaço entre vocês parece… menor.
A voz dele surge baixa, controlada, enquanto explica um ponto do contrato. Cada palavra é clara. Cada pausa, intencional. Você acompanha, mas nota o efeito secundário: o som parece encontrar um lugar específico dentro de você. Não é o que ele diz. É como diz. Sem pressa. Sem excesso. Como quem sabe que o ritmo é parte do controle.
Você ajusta a respiração. Sutilmente. O corpo responde antes que a mente formule qualquer pensamento. Há um leve aquecimento no centro do peito, uma tensão doce que se acumula sem pedir permissão. Você mantém o rosto neutro. A compostura intacta. Por dentro, algo começa a se alinhar.
Quando o silêncio se instala entre uma fala e outra, ele não o quebra de imediato. Deixa que exista. Você sente esse silêncio como um toque que não aconteceu. Uma aproximação que ainda não foi feita — e exatamente por isso se torna mais presente. Seu corpo registra. Um arrepio discreto percorre as costas. Você permanece imóvel. Atenta.
Os olhos dele encontram os seus por um segundo a mais do que o necessário. Não há sorriso. Não há convite explícito. Apenas a certeza compartilhada de que ambos sabem. E esse saber pesa. Não como culpa. Como consciência. Você sente a pulsação interna se intensificar, lenta, profunda. O desejo não se impõe. Ele se instala.
A reunião continua. Decisões são tomadas. Assinaturas aguardam. E, no entanto, você percebe que está sendo conduzida — não para fora do controle, mas para dentro dele. Ele ajusta o ritmo da conversa, aproxima a cadeira apenas o suficiente para que você note a mudança de temperatura no ar entre vocês. Não toca. Não precisa. A proximidade faz o trabalho sozinha.
Você percebe o quanto está consciente do próprio corpo agora. Do modo como cruza as pernas. Do peso do tronco apoiado na cadeira. Do movimento mínimo da respiração quando ele se inclina para apontar algo no documento. Cada gesto é pequeno. Cada efeito, ampliado. A espera se torna parte da experiência. A antecipação, quase tangível.
Há um momento — breve, preciso — em que a mão dele passa perto da sua ao recolher uma folha. Não encosta. Mas o espaço deixado entre a pele e o ar é suficiente para acender algo mais intenso. Você inspira mais fundo. Sente o calor subir. O corpo responde com honestidade silenciosa. Você permite. Sem pressa. Sem entrega precipitada.
Quando tudo termina, quando a formalidade se recompõe, vocês se levantam com a mesma dignidade com que entraram. Nenhuma palavra a mais. Nenhuma promessa. Apenas um último olhar, firme, calmo, que parece dizer não agora — e exatamente por isso permanece.
Você sai da sala consciente de cada passo. O desejo não se dissipa. Ele fica. Ativo. Organizado dentro de você. Não como urgência, mas como presença. Algo que desperta o corpo e ocupa a mente com uma calma intensa. Você sabe que nada aconteceu. E sabe, com a mesma clareza, que algo foi profundamente iniciado.
E enquanto o dia segue, enquanto outras decisões exigem sua atenção, esse resíduo permanece — um calor discreto, uma respiração mais lenta, uma sensação contínua de estar… desperta. Como se a mente tivesse aprendido um novo ritmo. Como se o corpo estivesse apenas esperando o momento certo para lembrar.