Fazia duas semanas desde a última vez que Rafael estivera ali. Duas semanas desde o toque, da presença física, do jeito atento que ele tinha quando estava de verdade no mesmo espaço. Desde então, o que havia sido constante eram as mensagens. Todos os dias. Sem falhas.
Rafael perguntava se Marcos havia comido, comentava do trabalho, reclamava de cansaço, às vezes mandava uma foto qualquer do caminho para casa. Havia cuidado ali, havia interesse, e isso era o suficiente para manter Marina confortável dentro de si. Com ele, Marcos não precisava se vigiar tanto. Podia ser Marina nas entrelinhas, nos horários tarde demais, nos áudios mais longos, nos silêncios compreendidos.
Mas sempre que Marcos sugeria um encontro, de forma leve, quase casual, vinha a recusa. Trabalho acumulado. Semana cheia. Cansaço. Não era a primeira, nem a segunda. Já eram várias, espalhadas ao longo daquelas duas semanas. Marcos entendia. Sempre entendia. Ainda assim, algo se acumulava no fundo do peito: a sensação de estar disponível demais para alguém que nunca estava.
Lucas havia aparecido uma semana depois da última visita de Rafael. Uma visita inesperada, direta, física, sem planejamento. O corpo de Marcos ainda guardava aquela memória como algo recente, quase quente demais para ser organizada. Eles haviam trocado algumas mensagens após, mas tudo parecia muito nebuloso.
Naquela sexta-feira à noite, Marcos estava cansado de pensar nisso.
O dia havia sido comum demais. Trabalho, transporte, calor. Ao chegar em casa, tomou um banho rápido, vestiu uma camiseta escura e uma calça jeans simples. Não havia intenção de se produzir. Não havia espelho. Não havia Marina declarada. Ainda assim, ao sair, algo nele já estava levemente inclinado para frente, o corpo se apoiando mais na ponta dos pés do que nos calcanhares, um detalhe quase imperceptível, mas antigo.
Ele não tinha destino. Apenas andou algumas quadras, sentindo o ar da noite mais fresco que o de dentro de casa. Parou em frente a um bar que já havia passado inúmeras vezes sem entrar. Luz amarela, mesas simples, televisão ligada acima do balcão. Não estava cheio, mas também não estava vazio. Um meio-termo confortável.
Marcos hesitou apenas alguns segundos antes de entrar.
Sentou-se em uma das cadeiras altas de frente para o balcão. Apoiado levemente para frente, os cotovelos próximos às coxas. A postura fazia com que o quadril se projetasse um pouco mais para trás, mesmo sem intenção consciente. Pediu uma cerveja ao barman, quase sem voz, e ficou observando o ambiente enquanto esperava.
O bar tinha um cheiro misturado de álcool, fritura e fumaça antiga. Algumas pessoas conversavam em mesas ao fundo. Dois homens discutiam algo baixo perto da porta. A televisão transmitia um jogo, mas Marcos só percebeu isso depois.
Quando a cerveja chegou, ele deu um gole pequeno, mais para ocupar as mãos do que por gosto. Não tinha costume de beber. Sentia o corpo atento demais, como se estivesse fora de casa pela primeira vez em muito tempo.
Foi quando alguém se sentou ao seu lado.
Marcos percebeu primeiro pelo peso deslocando o ar, depois pelo cheiro de cigarro recente. Virou o rosto de leve. O homem era mais alto que ele, por volta dos trinta e cinco anos, talvez um pouco mais. Tinha uma barriga discreta que esticava a camiseta, braços peludos apoiados no balcão e uma barba por fazer que dava ao rosto um aspecto cansado, mas firme. Não era bonito de forma óbvia, mas havia algo sólido ali.
— Boa noite — disse o homem, já sinalizando ao barman com familiaridade.
— Boa — Marcos respondeu, quase automático.
O barman trouxe a bebida dele sem perguntar o que era. Isso chamou a atenção de Marcos.
— Sempre isso — o homem comentou, levantando o copo em agradecimento.
Havia algo no jeito como ele ocupava o espaço. Não expansivo, mas seguro. Como alguém que sabia exatamente onde estava e por que estava ali.
— Bruno — disse ele, depois de alguns segundos, estendendo o copo levemente na direção de Marcos. — E você?
— Marcos.
Bruno assentiu, como se confirmasse algo para si mesmo. Olhou rapidamente para a televisão, depois voltou o olhar para Marcos.
— Jogo tá feio hoje — comentou. — Mas sexta à noite aqui nunca foi sobre a TV.
Marcos sorriu de canto, sem responder. Sentiu o olhar de Bruno deslizar rapidamente por ele, não de forma escancarada, mas suficiente para ser percebido. Passou pelos ombros, pela postura inclinada, demorou um pouco mais nas pernas.
— Não te vejo muito por aqui — Bruno disse. — Ou talvez eu só tenha começado a reparar agora.
Marcos deu outro gole na cerveja, sentindo o amargor se misturar com um calor leve no estômago.
— Primeira vez — respondeu.
— Faz sentido.
Bruno tirou um cigarro do bolso, levou à boca e acendeu, inclinando-se um pouco para frente. A chama iluminou o rosto por um segundo. Quando soltou a fumaça, falou com a voz baixa, quase casual demais:
— Costumo vir aqui e raramente vejo alguém dando mole assim sem nem perceber.
Marcos sentiu o impacto da frase antes mesmo de processá-la. O coração acelerou de leve. Não havia sorriso provocador exagerado no rosto de Bruno, apenas um canto de boca levantado, como quem diz algo óbvio.
— Não estou dando mole — Marcos respondeu, mais rápido do que pretendia.
Bruno riu baixo.
— Quase ninguém acha que está.
O silêncio que se seguiu não foi desconfortável. Pelo contrário. Havia uma tensão simples, direta, sem floreios. Marcos percebeu como Bruno era diferente de Rafael, menos cuidadoso, menos observador, e ainda mais diferente de Lucas, que parecia sempre em movimento. Bruno era estável. Presente. O tipo de homem que não precisava se explicar muito.
Bruno terminou o cigarro, apagou no cinzeiro e virou o corpo um pouco mais para Marcos.
— Olha — disse, sem rodeios — ali perto tem uma rua mais tranquila. Costumo ir lá quando quero conversar sem barulho… ou quando a conversa pode ficar menos conversa.
Falou isso já se levantando da cadeira, como se a decisão estivesse tomada antes mesmo da frase terminar.
— Vou indo — completou. — Se quiser, aparece.
Bruno saiu primeiro, empurrando a porta do bar com o ombro. Marcos ficou parado, a cerveja ainda pela metade na mão. Sentia o coração bater forte demais para algo tão simples. Apesar de tudo o que já havia vivido, aquilo era diferente. Não havia promessa, não havia vínculo, não havia histórico.
Havia apenas a escolha.
Marcos terminou a cerveja de uma vez só, deixou o dinheiro no balcão e respirou fundo antes de se levantar.
Do lado de fora, a noite parecia mais silenciosa do que antes.
Ele deu o primeiro passo sem saber exatamente por quê.
E isso, por si só, já era novidade demais.