Consuelo puxou Inocência pelo braço.
"Vamos por aqui."
Desceram por caminho estreito no meio de azaleias e algumas mangueiras.
"A madre não vai gostar sinhá, recomendou que não queria atrasos."
"Não vamos atrasar, é só um desvio para vosmecê falar mais dele. Deixaste me curiosa."
"Só curiosa?"
Riram juntas de mãos dadas, aproveitando que estavam sozinhas.
"Fala mais desse padre."
"Diácono, Afonso ainda não é padre."
"Então é um jovem mancebo."
"Belo, eu acho."
"Só belo, não fiste mais nada."
"Só desconfio que ele excitasse com as histórias que eu lhe contava."
"Achei que tivesse visto o homem nu ao menos."
"Não, só uns ruídos vindos da cabine do confessionário."
"Mas nem olhaste pela treliça?"
A irmã pensou no que ia falar, olhou envolta confirmando que não havia ninguém a espreita. Mesmo assim baixou o tom de voz.
"Uma das vezes, eu criei coragem e olhei rápido. Mas estava escuro e eu vi de relance ele... sinhá sabe."
"Fala! Não precisa fingir que não gosta. Eu sei que gosta, mas viu?"
Irmã Inocência parou de andar, mordeu a língua com os lábios.
"Não vi muito, mas ele pareceu segurar entre os dedos. Menor que Miguel, mesmo assim."
Riram dividindo o segredo.
"Eu nunca vi, homens fornicando a si mesmos. Gostou?"
"Estranho, meio abrutalhado. Esquisito."
"Conta vai, quero detalhes, os mínimos."
Foi quando viraram a direita saindo da alameda e deram de cara com um homem montado num cavalo malhado, um chapéu de feltro de aba larga, as feições de um índio jovem, trajando uma camisa de algodão remendada, por cima um gibão. Calça de couro gasta, assim como de couro cru eram as perneiras e as botas. Na cintura um facão e amarrado na sela um porongo.
As duas se assustaram com a figura do tropeiro. Não eram comuns pelas bandas de São Roque, mas ele não lhes deu atenção. Gritou e acenou e só então elas viram o velho Garcia, da barba hirsuta e quase branca, um dos mais antigos moradores da região, quando ali não era mais do que um povoado com meia dúzia de casebres.
O velho veio enrolando um cigarro de palha entre os dedos e guardando o fumo de rolo no bolso da calça. Chegou perto, cumprimentou as mulheres com um aceno e segurou as rédeas do malhado.
E eles entabularam uma conversação
"Abá porã, ereikó porã?"
"Iko porã. Mba'é erepotar?"
"Aipotár y-ûasu. Mamô oikó?"
O velho pareceu levar um tempo a pensar no que ia responder, a escolher as palavras.
"Y-ûasu oikó upé ka'a rupi."
"Mbyky rupi, térá puku rupi?"
"Puku rupi."
O velho Garcia apontou o braço na direção de um capão de mato. O índio acompanhou com o olhar o que outro apontava.
"Aguyevete. A-só."
"Ikó porã!"
Num jeito ríspido o índio saiu trotando pela estrada de terra, mas não na direção para onde o velho apontara, justamente o contrário.
"Que foi que ele perguntou seu Garcia?"
"Dia irmã, dona Consuelo. Queria saber onde ficava a queda d'água mais próxima. Indiquei a queda da Virgem.
"Que língua é essa, é tupi?"
"Não, é língua geral."
"Ainda falam essa língua? Nunca tinha ouvido, achei que fosse lenda."
O velho acendeu o cigarro. Pitou e o cheiro característico entrou pelas narinas de todos.
"Quase ninguém mais fala. Eu mesmo custei a lembrar quando ele começou."
"Mas aqui não é caminho de tropa, de onde será que eles vieram?"
"Não é tropa grande, uns três ou quatro vendo daqui. Desgarrados, devem ter comprado erva mate em Castro e vão vender em Sorocaba."
"Vamos dona Consuelo, temos o que fazer no convento."
"Inté seu Garcia."
"Inté!"
Seguiram as duas apressadas a picada na direção da vila, mesmo assim Consuelo não deixou de inquirir a amiga. Queria mais que respostas, queria os detalhes mais imorais.
"E ele?"
"Sinhá!"
"Gemeu ao menos?"
"Um tanto, um pouco, eu acho."
"Não viste mais nada?"
"Ele não voltou mais. Tem uns dois meses."
"Que pena!"
Riram juntas se dando as mãos novamente enquanto o sino da capela aparecia ao longe.
"E como sabes que ele volta por agora?"
"O padre avisou, mais uns dois dias."
***
As noviças formavam uma fila a espera de serem chamadas para a sua confissão. Consuelo e Inocência deixaram ficar entre as últimas.
Haviam combinado o que falariam ao diácono. Ainda que Consuelo não estivesse encantada por ele.
"Esperava algo melhor. Magro e narigudo."
"Sinhá é muito exigente, aqui não temos escolha."
"Espero que seja ao menos um libertino."
Chegou a vez delas, combinaram que Inocência iria primeiro provocar os primeiros impulsos nos diácono desafisado. Levou não mais que uns dez minutos saiu de lá com os olhos faiscantes. Um riso malicioso estampado no rosto.
"Deixei ele pronto para sinhá."
Consuelo moveu as sobrancelhas como um gato focando a presa. Respirou e entrou.
"Padre pequei. Preciso de sua bênção para ser salva."
Houve um silêncio maior do que ela esperava. Consuelo olhou pela treliça e viu o volume elevando a bata branca do jovem Afonso. Pelo jeito Inocência fizera um trabalho impecável.
"Padre, o senhor está me ouvindo?"
Afonso raspou a garganta e mostrou a face imberbe pelos vãos da madeira.
"De quem se trata?"
"Sou a esposa do coronel Belmiro, dona Consuelo."
"Mas a senhora não é uma das carmelitas?"
"Não padre, meu esposo entregou-me aos cuidados da madre, viajou para a corte a negócios."
"Ah! Não lhe conheço, sou novo na vila, mas sei quem é o coronel. E o que foi que aconteceu, o que lhe aflige?"
"Pequei. Um pecado da carne."
Consuelo deixou a voz mais baixa, mais rouca, atiçar a curiosidade alheia.
"Quando? Quer dizer, como?"
"Aqui?"
"Aqui! A senhora também?"
"Ela contou? Falou sobre nós, sobre o que fizemos nos meus aposentos? Fornicamos padre. Duas mulheres possuídas pelo demônio, sera?"
"Demônio? Provável, mas era a senhora? Achei que fosse com outra noviça o que a irmã confessou."
"Fui eu, e acabamos fazendo o impensável. Estamos sujas, padre? Eternamente marcadas pelo pecado?"
"Nada é eterno se houver a vontade verdadeira de buscar a remissão."
"Mas não foi só isso."
"Não! O que mais?"
"Não sei se devo, é até pior."
"Como pior?"
"Copulei com um... negro. Um escravo do convento."
"Um outro que não era o seu consorte!"
"Foi padre."
"Eu não sou padre."
"Para mim é, minha unica salvação. Quer os detalhes?"
Houve no silêncio prolongado. Consuelo voltou a examinar Afonso pela treliça, a bata ereta, a mão apertando o falo.
"Diga tudo filha, não esconda nada. Afinal é a Deus que confessas."
A esposa do coronel floreou a história toda, até exagerou no tamanho do membro, nos beijos obscenos. Nos detalhes mais pérfidos. Até perguntar como se fosse uma donzela virgem.
"Bem é isso, padre. Em resumo foi o que aconteceu."
"Tem mais? O resumo não redimi um pecado o teu."
"Tem mais, muito mais. Mas não gostaria de falar aqui. A madre anda desconfiada de mim, de nós. Eu e Inocência."
"Bem, talvez, noutro lugar. Algo mais recluso, mais recatado?"
"E se for no bosque do Jambreiro. Conheces o lago da Lua?"
"Sei onde é?"
"Daqui a meia hora, se for do teu agrado?"
***
Afonso andava apreesado, olhando para os lados, a sensação de estar sendo vigiado. O coração aos pulos, o membro turgido de desejo. O que afinal a esposa do coronel Belmiro tem mais a contar além das perversões ditas na confissão?
Não demorou muito para descobrir o que era. Deu de frente com uma cena inusitada que o deixou com a boca aberta, a língua seca e os olhos arregalados.
As duas nuas, abraçadas no meio do lago.
"Afonso, vieste?"
O diácono tentou esconder a ereção tampando a bata.
"Entra padre, a água está tépida. Vem."
Ela riram abraçadas, as mãos explorando as curvas, as costas nuas, os seios espremidos.
"Isso, isso é..."
"Isso é pecado padre. Tanto quanto fornicar a si mesmo. Entra, vem, deixa que Inocência pratique a arte de agradar um homem com as mãos."
"Só eu, tu não sinhá?"
Elas foram chegando na beirada, Afonso foi se despindo, até mostrar os seus dotes de um macho novo.
"Não falei que devia ser belo?"
"Não tem a 'altivez' de Miguel, mas agrada a vista. Vem aqui, se achegue padre."
Ele aproximou receoso, até ficar num abraço íntimo, os três juntos. As mãos delicadas acaricaram o torso viril, desceram lentas até o quadril.
"Não temas padre. Nem tremas. Pega Inocência, mostra tua arte. Afaga o padre."
O rosto moreno sorriu, a mão pequena apertou a haste, torceu a cabeça com força. O homem gemeu dolorido.
"Até lateja, sinhá."
"O mais puro desejo, diga se não Afonso?"
Eram duas mãos femininas a brincar com o tronco novo. Mãos curiosas, um tanto atrevidas e maldosas a provocar grunhidos no jovem cristão.
"Oooh! Aaah!"
Ambas esfregaram as vulvas na cintura de Afonso. Os pelos crespos, arranhando a pele suave, aquilo esquentando e suando. Duas ninfas bolinando juntas, masturbando o moço virgem.
"Alguém já te vez gozar Afonso. Já sentiste o espasmo seminal?"
"Nunca."
Os toques devassos tornaram-se intensos, uma riscando com as unhas a pele dos escrotos, a outra agitando o membro viril com força. Afonso sentia as vaginas queimando seu quadril.
"Aaah! Aaaah! Ooooh!"
"Isso padre, vem, descarrega o teu desejo. Espele seu sêmen. O pecado em gotas grossas."
"Háháhá! Sinhá nunca vi tanto. Afonso devias casar, sabia?"
As manchas brancas flutuavam nas águas, balouçavam nas ondas. Inocência mostrou os lábios e o diácono a língua. Beijaram em pecado, um beijo molhado, no mais puro desejo.
"E eu, não mereço seu apreço?"
Foi a vez de agradar Consuelo. Um beijo mais tenso, mais bruto. Beijo de mulher experiente.
"Preciso ir para sacristia."
"E nós não merecemos a tua atenção? Um afago ao menos. Põe a mão aqui. Sente."
Consuelo levou a mão de outro homem até os seus pelos, o grelo inchado, os lábios desabrochados.
"E o meu Afonso, não queres?"
De repente, não era só uma, ele afagava as duas ao mesmo tempo. Carinhos lascivos nas vulvas nuas.
"Me preenche padre."
"Eu também quero."
"Mas, mas..."
"Mas nada! Apenas deita e provas. Aposto que gostas."
Afonso se viu bolinado e deitaso. Foi possuido pelas loucas do convento. Foi obrigado a invadir as bocetas alheias, agarrado os seios cheios.
Consuelo trepava como uma mundana. Uma depravada sentada nele, engolindo seu membro entre as carnes quentes. Já Inocência era suave, se oferecia como uma donzela, abraçando o padre com as pernas. Como se fosse uma virgem, como se fosse o primeiro.
"Come Afonso, come essa puta. Anda! Depois goza, engravida Inocência!"
Consuelo desbocava, tarava, a entregar-se aos beijos com Afonso. Até finalmente ele regurgitar o seu sêmen na gruta úmida de Inocência.
"E tu, Consuelo? Não vais querer o homem?"
"Eu quero você. Mostra ao padre como foi que fizeste comigo na cama."
"Aqui? Estão loucas, as duas!"
Não deram ouvidos aos pedidos de Afonso. Esfregaram os corpos, chuparam os seios, morderam as tetas. Foderam esfregando as vulvas na frente do padre. Se exibindo como duas putas da zona. Inocência cavalgando a sinhá, xingando a esposa do coronel dos nomes mais baixos.
Afonso boquiaberto sem saber o que era aquilo. Safadeza de mulheres ou demo possuindo os seus corpos. O fato é que aquilo começava lhe deixar com desejo. Vendo as duas sem pejo, fodendo a si mesma na frente de um homem da Igreja.
"Aaah! Goza Consuelo, grita como uma cabrita."
"Uuuh! Então me bate, estapei que eu bem gosto!"
Inocência dominou a dama mais importante da vila. Fez dela sua serva, uma escrava de cama.
"Vadia! Faz o que eu mando. Anda! Goza, rameira!"
A esposa do coronel vibrou corpo inteiro. Sinhá não entendia, mais gritos devassos de dona deixavam-na com a libido a flor da pele.
"Bate, bate mais irmã!"
Gemeram juntas. Gozaram ao mesmo tempo.
"Aaah! Uuuuh!"
As faces vermelhas, as duas extenuadas. A loucura foi dando lugar ao carinho, um chamego de mulheres mais que amigas. Amantes, possuídas pelo diabo. Foi o que veio a Afonso vendo ambas abraçadas.
"E agora padre? O nosso crime tem cura?"
Riram vendo as feições de Afonso. O diácono estava mais que assustado, confuso, sentindo uma repulsa de ter visto o que viu.
"E vosmecê agora é um pecador ou não, Afonso? Vais arder no Inferno como nós?"
