Hello gente!!! Depois de muitos anos eu volto aqui a escrever para vocês.
O conto, meus queridos e queridas, é um livro imersivo, a sugestão é que para que a experiência seja completa, vocês leiam enquanto escutam as músicas citadas no início do capítulo e no decorrer do mesmo!!!!!
Mais um romance que em breve será publicado em forma de livro. Sâo capítulos e capítulos.
A Irmandade Secreta do Sexo eBook Kindle
A sugestão de leitura do autor é que à medida que leiam ouçam as músicas citadas no capítulo!!
Um abraço e segue o conto!!!
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CAPÍTULO V – OLHARES TROCADOS - DIE FLEDERMAUS - STRAUSS II
Parte 1 – O elevador
Paulo e João agora faziam parte da família La Caipo. Começaram a frequentar sempre o bar de Mirta e Pablo e por fim, então, acabaram sendo como os filhos que Mirta e Pablo não tiveram. Curiosamente os dois de certa forma lembravam Mirta e Pablo quando mais jovens. Mirta com seu jeito mais contido e delicado e Pablo com seu jeito falastrão lembravam Paulo e João, respectivamente.
Com todas essas presenças marcadas sempre aos finais de semana e agora também na casa do casal mais velho, os dois se tornaram praticamente peças da família.
Participaram do jantar de Natal na casa do casal González, da festa de ano novo também, e essas divertidas reuniões, acabaram por render ao casal jovem uma bela amizade também com o casal bailarino, Martin e Malena.
Logo iriam começar os concertos de Inverno na Orquesta de La Plata e a abertura do tradicional concerto de inverno do dia 21 de junho seria preparada com o luxuoso auxílio de Paulo, que se mostrava cada dia mais capaz no que diz respeito à orquestração e a todo o trabalho de um maestro.
O concerto de Inverno deste ano destacaria as obras de Strauss, principalmente as suas valsas famosas, como Die Libele, Der schönen blauen Donau e abertura de operetas como Die Fledermaus.
O maestro titular, Nikolai Somininov se afeiçoara muito ao aluno, apesar de haver uma diferença de idade, pouca, mas havia, os dois começaram a compartilhar além dos espaços do teatro enquanto profissionais, um espaço próximo no convívio enquanto amigos em construção da amizade.
A primeira noite de apresentação da Orquestra, sob a batuta do maestro Simoninov havia sido puro sucesso. Nunca a orquestra de La Plata havia tido um maestro russo, com percepções tão diferentes e com um talento incontestável.
Strauss sob a regência dele parecia tomar notas dos maiores maestros, tais como Carlos Kleiber, Arturo Toscanini, Wilhelm Furtwängler. Ele possuía uma elegância ímpar no trato da composição, no entendimento da composição e no trato com os músicos. Seus gestos eram leves, precisos, naturais e finos. A vinda do maestro russo parecia ser um ponto absolutamente acertado para o crescimento do nome e da qualidade da orquestra.
Na próxima noite, haveria a reapresentação, dessa vez em menor escala, com o maestro estudante Paulo, grande promessa que o Maestro Simoninov parecia apostar e parecia também acertar.
Na platéia seus amigos mais queridos, alguns já bastante íntimos e outros que a amizade lhes fora aparecendo à medida que o tempo passava. Estavam ali Mirta e Pablo, os donos do La Caipo, os irmãos Fernanda e Lucas, conhecidos como Irmãos Cirurgia, um casal de irmãos médicos que jogava vôlei por diversão aos domingos junto a João, Malena a dançarina de tango e seu companheiro de dança Martin.
Dessa vez se apresentariam na opereta de Strauss, Die Fledermaus, O Morcego, com o conjunto de ópera completo. A história cheia de comédia, toda em alemão bem cantado, contava a história de uma noite em que dois amigos foram participar de um baile a fantasia.
Tudo começa quando um dos amigos, depois de uma noite de intensa bebedeira, acaba dormindo vestido de morcego, e por isso o nome da peça, e então, em virtude disso, começam a caçoar dele e da situação em que estivera, e isso fez que a peça tivesse diversas piadas cantadas.
A peça também tem algumas tramas, como os casos de traição e dramas complexos, com seus personagens planejando vinganças, chacotas, exposições e expressões que até hoje, mesmo considerada uma obra clássica do século XVIII, retrata muito bem a expressão dos dias de hoje e suas complexidades.
Palco pronto, músicos prontos, maestro nervoso, porém, pronto, começou-se a apresentação de Die Fledermaus sob a batuta debutante do recém empossado diretor de óperas, Maestro Paulo Damasceno.
O nervosismo o corroía por dentro, era sua estreia como maestro principal de uma peça, agora sem qualquer ajuda. A vida de um maestro mesmo experiente já é bastante complicada. Tudo passa pelas suas mãos. A escolha de repertório, a escolha de ritmos, manter a orquestra sempre em conjunto, prestar atenção a todas as entonações, volumes, dificuldades que todo um trabalho de uma orquestra dá. Como se tudo isso já não fora suficiente e como se tudo isso não lhe rodeasse a cabeça, em sua estreia, Paulo tinha que fazer tudo aquilo enquanto mantinha o conjunto de cantores unidos à orquestra. Aquilo não era uma masterclass, era a vida real de um maestro.
Ao adentrarem o Fosso do teatro, onde a orquestra ficava enquanto os músicos cantores se apresentavam, fazia-se um silêncio, o tradicional silêncio pré cortinas abertas, que era tanto temido quanto amado. Era exatamente aquele momento em que tudo se tornaria real a partir de agora, ele se tornaria um maestro. O ar estava suspenso e o clima era cortante naquele fosso. Eram segundos que pareciam minutos até que Paulo ergue sua batuta, tangendo as primeiras notas que saem dos instrumentos de cordas, tradicional primeiro ato daquela peça. Ele segue bem.
O nervosismo se esbate nos primeiros minutos. Era como seu professor havia lhe dito, os primeiros 5 minutos são os mais difíceis, logo após isso não há separação, você é a música, a música é você e isso é ser um maestro. Ele então segue regendo e conduzindo os ritmos e acentos da orquestra a serem entoados pela próxima hora.
A peça arrancava risadas do público e suspiros do público, já que era uma ópera em forma de comédia, toda em alemão, com cenas engraçadas de amigos caçoando de amigos, de festas e bailes na antiga Áustria.
A orquestra parecia sempre em boa forma, e mesmo com toda sua inexperiência, Paulo estava se saindo melhor que podia-se imaginar. Tudo soava absolutamente no lugar, era notável o talento do jovem para a orquestra em ópera.
Os projetos de novos cantores e novos maestros seriam um sucesso, com toda certeza. O conjunto de cantores e cantoras era simplesmente fantástico. Em especial Maria Aleida, a soprano que havia sido contratada, vinda do Metropolitan para ali. Tudo parecia estar “on point” e o clima era de magia.
O maestro Simoninov assistia tudo de um camarote, tomando pequenas notas de tudo o que parecia querer melhorar junto ao seu colega-amigo-estudante, ambos se davam muito bem e isso fazia parte do trabalho. Corrigir o que precisa ser corrigido, tornar bom o que não é tão bom assim e melhorar ainda mais o que já é bom, essa é a sina de um maestro.
Na platéia João assiste à apresentação às gargalhadas, junto a outros amigos que o acompanhava. Havia nele e em Paulo um clima de surpresa, não somente pela apresentação, mas ambos planejavam alguma coisa e logo depois da apresentação isso com certeza se sucederia.
A orquestra dava seus últimos sons, finalizando a apresentação sob o caloroso aplauso de 5 minutos. Sobe o maestro Paulo ao palco sob muitos aplausos e ovações, quando lhe entra o maestro Simoninov, tomando a palavra para dizer ao público que aquela era a apresentação de estreia do novo maestro de ópera da Orquestra, lhe entregando um bel buquê de rosas brancas.
De suas cadeiras, os convidados de Paulo o ovacionavam. Assobiavam, gritavam seu nome e o público os acompanharam, os músicos acompanharam o público, Simoninov acompanhou a todos e o aplauso, fazendo do jovem maestro se emocionar, naquela que seria a primeira das suas várias apresentações.
Do lado de fora, algumas pessoas esperam Paulo. Mirta, Pablo, Malena, Martin e João esperam ansiosamente para que ele venha e que conte a eles como foi a experiência. Dali iriam para a casa de Lucas e Fernanda afim de para celebrar aquela noite com um bom vinho.
Paulo chega na antessala do teatro onde estão seus amigos e os abraça calorosamente, emocionado do que houvera e com a cabeça ainda em maresia. Ele pede licença aos seus, puxando João consigo afim de resolver um último pormenor que havia ficado por finalizar.
Ele leva João aos camarins do teatro e param ante a uma porta branca com os dizeres “Maestro titular – Nikolai Simoninov”. Ele dá três batidas na porta e então escuta-se a autorização para que entre. Havia apenas uma intenção ali, apresentar seu marido para Simoninov, seu maestro e amigo. Ambos se cumprimentam educadamente, Nikolai dá os parabéns ao amigo e diz que havia acertado quando o houvera escolhido para ser diretor de ópera.
João então toma a palavra, altivo como era e diz a Nikolai que depois dali, iriam a casa de dois amigos para comemorar a noite de estreia, uma noite simples, mas de boas conversas, boas histórias, com amigos legais e interessantes e claro, com bons vinhos e boa comida.
Ao fazer menção que poderia recusar, Nikolai é cortado por Paulo, dizendo que ele faria questão de que o amigo fosse à sua comemoração. Não tendo outra maneira, ele então aceita a celebração e se rende à festa.
Ao voltar, eles notam que ele vem acompanhado de um moço jovem, alto e esguio, parecendo um pouco tímido, porém com uma presença muito firme, elegante e conspícua.
Quando chegando junto aos outros, Nikolai, João e Paulo, a estrela do dia, perguntam aos dois irmãos se eles se incomodariam ao levar um convidado a mais
Aquiescendo, dizem a ele que seria um prazer ter o maestro em sua casa na noite de comemoração. Paulo apresenta um a um a seu mestre e agora amigo, maestro Nikolai Simoninov, que fora recebido pelos amigos com alegria, e, deixando que fosse apresentado por último um rapaz de aparência elegante, vivaz com uma estonteante beleza.
O jovem Martin, que recém fora apresentado a Nikolai não consegue deixar de notar que aquele homem que estava cumprimentando possuía uma rara beleza e olhos tão belos quanto a própria visão de uma pintura. Seu coração de repente batera um pouco mais forte, perdendo o compasso quando pousou os olhos nos olhos daquele que parecia tanto mais que uma pintura de Renoir.
Nikolai, por sua vez, não conseguiu dizer muitas palavras quando aquele jovem de rara beleza tocara sua mão. Martin era a visão de um tango de Gardel em sua essência mais pura, engoliu em seco quando pousou seus olhos nos olhos do argentino que definitivamente afetara sua respiração. Engoliu seco ao tentar responder a saudação do jovem rapaz.
O ar ficou suspenso entre os dois. O movimento calculado surtira efeito e um efeito tão forte que ninguém ali poderia ter imaginado que aquilo cujos acontecimentos estavam por vir ainda, poderia acontecer.
Mais uma vez os centésimos pareciam segundos e os segundos pareciam minutos e o tempo se dobrou em horas por uma brevidade muito forte, tomada de corações descompassados, acelerados, disrítmicos palpitantes por um simples toque mãos que parecia suspender o tempo.
Apenas os dois existiam naquele momento, não se via outra coisa, não se ouvia outra coisa. Ele ouvia a respiração de um e o um ouvia a respiração do outro, num afã que poucos percebiam que acontecia, mas acontecia. Estava surgindo naquele momento, ali, agora, sem que percebessem, uma história de amor. Uma linda, forte e real história de amor.