Hoje estou revirando o barraco. Decidi fazer uma surpresa para Jojo e deixar tudo brilhando. É o mínimo que posso fazer, ela trabalha até tarde tirando a roupa na boate para nos sustentar, enquanto eu não faço nada.
Não consigo escrever por conta de uma certa confusão mental que vem me ocorrendo, então Jojo nos sustenta até eu melhorar. Mas logo eu me recupero e volto a ganhar uma grana, não há de ser nada, só uma fase.
Limpando embaixo da cama, encontrei algo interessante. Entre o colchão e o estrado, uma folha de papel preenchida com minha letra - apesar de não lembrar que o fiz, provavelmente devido aos lapsos de memória que me afetam.
Não sabia que eu tinha voltado a escrever. Parece interessante, são como notas para uma ficção baseada na minha história com a Jojo desde que a conheci.
Estava numa boate stripper e apareceu aquela morena no palco, vestindo só um biquininho amarelo. Seu corpo era fantástico, bem proporcionado e com tudo no lugar certo: cintura fina, cadeiras redondas, glúteos empinados e seios duros.
Contudo, confesso: o que mais me chamou a atenção foi a maneira como ela se movia em sua performance. Seus gestos eram delicados, os giros e passos precisos, tudo perfeitamente sincronizado com a música escolhida: A Lua Me Traiu, da banda Calypso.
Como se não fosse suficiente, Jojo tinha um jeito de olhar para a plateia e sorrir como se estivesse prestando atenção exclusivamente em você - e você, no caso, era eu.
A última coisa que eu pensaria era que uma mulher como ela estivesse mesmo prestando atenção em mim. Porém, durante o intervalo, Jojo voltou ao salão vestindo novamente o biquíni e veio falar comigo, perguntando se eu aceitava um drink por conta da casa.
Segundo ela, havia me reconhecido pela contracapa de um livro de sucesso que escrevi - e era minha fã. E o inquietante é que eu sequer me lembrava desse livro - já comentei que ando tendo uns lapsos de memória, não é?
Qual a probabilidade de encontrar uma stripper linda que seja sua fã e te reconheça, em meio à vários homens num salão escuro, de uma foto antiga que você nem lembra? Praticamente nenhuma!
Por isso, apesar de não ser dado a crendices nem esoterismos, achei que aquele encontro era obra do destino. Nós estávamos destinados a nos apaixonar, simples assim.
Naquela noite, Jojo ainda se apresentou mais umas duas vezes e eu fiquei por ali, na esperança de sair de lá junto a ela. Horas depois, quando terminava seu turno, ela voltou ao bar da boate e sentou-se ao meu lado.
Foi exasperante. Sou tímido, sempre fui, e não sabia o que dizer. O tempo passava, ela tomava seu último drink e o silêncio se estabelecia entre nós. Eu iria perdê-la por pura incompetência.
Felizmente, foi ela que tomou a iniciativa. Jojo disse que, se eu não me incomodasse, ela gostaria muito que eu autografasse o tal livro de minha autoria, que estava em sua casa. Topei no ato.
O que não se faz por uma mulher? Jamais imaginei que estaria subindo o morro naquele horário da noite. Várias coisas se passaram pela minha cabeça: sequestro, extorsão, assassinato…
Quando chegamos no barraco e Jojo trancou a porta, eu só queria fugir dali. O que eu estava pensando? Subir o morro de madrugada com uma stripper que, inusitadamente, me deu bola pedindo para eu dar um autógrafo? Isso só podia ser uma armadilha!
Perguntei à Jojo pelo livro, querendo fugir dali o quanto antes. Quando ela respondeu secamente que não tinha livro nenhum, meu coração quase saiu pela boca. Era agora que meu roteiro se tornaria realidade: sequestro, extorsão, assassinato…
Andando sensualmente como fazia no palco, Jojo veio até mim com um sorriso malicioso no rosto, enquanto eu estava completamente sem reação, paralizado.
“Você achou mesmo que eu te trouxe aqui por conta de um autógrafo num livro? Não, bobinho… o autógrafo que eu quero não vai ser escrito com caneta, nem vai ser em livro nenhum!” - ela sussurrou com voz doce em meu ouvido já enlaçando meu pescoço e passando a língua em mim.
De todas as coisas que aconteceram desde que a conheci, o beijo entre nós foi o que mais me surpreendeu. Nossas bocas se juntaram e senti uma familiaridade imensa, como se fosse a continuação de algo que já acontecia há tempos, ao invés de uma primeira vez.
Sobre a cama, a união carnal entre nós provocava a mesma sensação, agora mais intensa.
Quando a penetrei por primeira vez, tendo-a deitada com as pernas encolhidas e abertas deixando sua vulva exposta e pulsando adiante de mim, apertando seus seios e beliscando os mamilos escuros, foi como se eu já houvesse feito aquilo tantas vezes que até conhecia seus pontos mais erógenos, os que lhe provocavam maior prazer.
Com Jojo de quatro sobre a cama e suas nádegas redondas me chamando para dentro de si, seu corpo provocante e as coisas que ela pedia que fizesse, como tê-la segura pelos braços presos às costas enquanto a invadia com vigor e até certa brutalidade, eram totalmente parte de mim e eu sabia que faria assim ainda que ela não pedisse.
Desde aquela noite, passei a viver com Jojo essa loucura e nunca mais nos separamos. Somente agora, ao reler estas anotações, percebo quão estranha é nossa vida desde então: uma eterna repetição de estas mesmas sensações.
Contudo, o mais insólito são as notas feitas por mim para a estrutura do romance que escrevi, uma série de perguntas e afirmações um tanto criativas:
– Não lembro de nada da minha vida antes de conhecer a Jojo.
– Sou um escritor famoso, mas não sou capaz de dizer um nome sequer de algum livro que já escrevi.
– O relógio sempre anda para trás, parecendo uma contagem regressiva.
– Já moramos em diferentes favelas. Boréu, Maré, Rocinha, Penha e muitas outras. Mas não lembro de quando, ou como, saímos de uma para outra.
– A Jojô me suga. Me suga! Fazer sexo com ela é inigualável, mas quando acabamos, fico exausto e apago em seguida.
– Qual é o segredo da Jojo? É uma feiticeira? Um demônio? O que me mantém preso a ela?
Nossa, eu não faço ideia do que estava pensando quando escrevi estas notas, mas aqui tem muito potencial! Fico entusiasmado. Acho que vou lá na zona sul, discutir isso com o Germain.
Ele é meu melhor amigo e tem um sebo, é um cara super culto e saca muito de livros. Preciso revisar estas notas com alguém, ter uma segunda opinião - e ele é a pessoa ideal para isso.
É certo que não o vejo já faz tempo, desde que conheci a Jojo e tenho esses lapsos de memória, nunca mais escrevi nada e, portanto, não fui mais visitá-lo. Mas agora, sinto que estou devendo uma visita ao Germain, ele provavelmente vai gostar dessa proposta de livro, sendo tão esotérico como ele é.
Bem, eu não estava preparado para aquele encontro, descobri depois. O Germain pareceu muito surpreso e agia como se não me conhecesse. Contudo, depois que insisti e mostrei minhas notas para o livro, meu amigo pigarreou, ajeitou seu monóculo, olhou-me com ar sério e comentou: “Ah, agora eu entendo. Você é mesmo o Eduardo, mas, ao mesmo tempo, não é. Não como eu me lembro de você, lá na Alemanha!”
Porra, Germain, eu nunca estive na Alemanha!
Agitado, meu amigo que não se lembrava de mim disse que era perigoso para ele eu permanecer ali, mas que tinha feito muito bem em procurá-lo, pois somente ele poderia me ajudar. Revirou o sebo à procura de alguma coisa, até que voltou com um calhamaço de papel manuscrito.
“Toma aqui, cara. Esse é o texto místico do Putamatri. Vou te emprestar, me devolve quando tudo termine. Para isso, você precisa copiá-lo, mas fazendo sua própria versão. Só assim você se livrará dela, dessa… Jojo, você chama ela assim agora, não é?” - ele falou baixinho, como se nos escutassem.
Ainda tentei questioná-lo, mas o velho estava com um medo verdadeiro e seguia me mandando embora, dizendo: “Acorda, Eduardo! Isso que você escreveu aqui… Não são notas para um livro! Isso aqui é a sua falsa realidade! A Jojo não é o que parece e você foi capturado há muito tempo! Essas coisas são reais, mas apenas para você, seu idiota!”
Caramba, eu tenho lapsos de memória e é bem ruim, mas o Germain… O Germain está completamente doido!
Voltei para o barraco bem preocupado pelo Germain. Mas isso só durou até eu perceber que o relógio da parede efetivamente andava para trás, que eu realmente não lembrava do passado antes de conhecer a Jojo e que era impossível eu ser famoso por ter escrito algo de que sequer me lembrava!
Bem, ou eu estou tão doido quanto o Germain, ou ele tem razão! Pelo sim e pelo não, resolvo dar uma olhada no tal manuscrito e, sem entender o motivo, sinto um impulso enorme de escrever sobre aquilo.
Avanço páginas e páginas. Nada faz sentido, mas tudo vai se encaixando aos poucos. É assombroso. Pulo entre idiomas que eu nem conheço, não sabia que eu falava alemão, ou inglês. As ideias surgem de mim não como novidades, mas como se as redescobrisse.
Anoto rapidamente no canto da folha um código que não faz sentido: “Bubba = Haylin = Jojo = ???”. Não sei porque o faço, fora o nome da Jojo, os outros me são estranhos, mas senti que necessitava fazê-lo. Sim, estou escrevendo por impulso, sem racionalizar mais nada.
É um tormento e um prazer escrever assim, da mesma maneira que estar na cama com a Jojo, ou comer a Bubba, ou meter na Haylin… Mas… O que é isso? Eu já estive com essas mulheres todas? Porque escrevi isso? Porque?
De repente, Jojo ingressa furiosa no barraco e tudo trava, o momento estanca, tudo congela com o ar frio em meio ao calor de dezembro que entra junto com ela.
Com a minha versão do Putamatri nas mãos e as notas que tomei, Jojo lê aquilo espantada e rosna entredentes: “Não… Até aqui o maldito Saint Germain ainda nos persegue! Este perfil foi comprometido, deletar agora!”
E tudo girou à nossa volta, desfazendo-se, até só restar a escuridão que antecede uma outra “falsa realidade”, como as chamou o Germain.
