O silêncio depois da confissão não foi dramático. Foi pior: foi funcional. Depois da conversa, nada foi resolvido. Mas algo tinha sido quebrado.
Heitor correu atrás de mim e me acompanhou até o portão da minha casa, mas sem me tocar. O gesto, que antes seria inevitável, agora parecia impensável. Não havia abraço. Não havia beijo de despedida. Apenas aquele intervalo constrangedor entre duas pessoas que já se conheceram demais.
— A gente conversa depois — disse Heitor, como se fosse uma promessa.
Eu assenti. Não respondi.
Enquanto caminhava rua abaixo, senti algo novo, não culpa, não excitação, não medo, mas sim clareza. Ela não veio como revelação súbita. Veio como cansaço acumulado. Só que, pela primeira vez, eu percebia que toda conversa com Heitor terminava do mesmo jeito: comigo explicando, cedendo, justificando. Com Heitor ferido e, ainda assim, no controle.
Nos dias seguintes, passei a observar Heitor como quem olha uma casa antiga depois de uma rachadura no muro. Nada havia mudado e, ainda assim, tudo parecia diferente.
Heitor continuava dormindo a manhã toda. Continuava tocando violão no fim da tarde, como se o tempo fosse um elemento estético, não um recurso finito. Continuava falando do pai com uma melancolia bonita, quase performática, por trás dos olhos azuis tristes e da jogada encenada dos cabelos que insistiam em cair pela testa. Mas eu comecei a notar o que não existia.
Heitor tinha 23 anos de idade. Tinha dinheiro, autonomia e independência. Podia seguir o caminho que quisesse. Mas não estudava. Não trabalhava. Não parecia procurar nada. Não tinha ambição, propósito ou futuro. Vivia na casa da mãe, por conveniência, por opção, por conforto, por medo de seguir seu próprio destino.
Ele e os irmãos viviam da herança que haviam recebido e da boa condição financeira da mãe e do padrasto. Viviam da memória do pai. Do prestígio silencioso do sobrenome. Mas era só isso.
Heitor era considerado “o irmão talentoso”. Antes, isso parecia charme. Agora, parecia ilusão. Que talento era esse, que não era usado para nada?
Eu percebia que Heitor falava muito sobre sensibilidade, mas evitava qualquer conversa que exigisse decisão concreta. E percebi algo mais incômodo ainda: Heitor precisava ser desejado para existir.
Nós ficamos dias sem nos falar. Depois, mais alguns dias sem sequer se cruzar. Eu achei que o afastamento traria alívio. Trouxe só um vazio inquieto, desses que não doem, mas incomodam o tempo todo, como um dente frouxo que a língua insiste em testar.
Foi nesse intervalo que Gabriela apareceu. Morena bonita, sorriso fácil, minha vizinha antiga. A casa dela ficava no caminho entre a minha rua e a de Heitor. Ela sempre olhara Heitor como se ele fosse uma promessa vaga: algo que um dia, quem sabe, poderia acontecer. Ao saber que eu era tão próximo dele, não perdeu tempo.
— Você podia falar com ele por mim — disse, casual demais — Só pra ver se ele toparia sair comigo.
Eu ri, curto.
— Você tem coragem.
— Tenho interesse — corrigiu ela, piscando.
Eu prometi falar. E, ao prometer, percebi que já tinha decidido o que fazer.
A tarde estava morna quando atravessei a rua até a casa de Heitor. Eu caminhava devagar pela calçada, o sol queimando as minhas costas, as mãos enfiadas nos bolsos, o coração batendo mais rápido do que deveria.
Eu não avisei. Não planejei. Apenas fui.
Respirei fundo antes de empurrar o portão de ferro da entrada, sentindo o rangido familiar como um estalo na memória. Já fazia dias, dias que se arrastaram como semanas, desde que Heitor e eu havíamos trocado qualquer palavra. A confissão incômoda sobre Rafael ainda pendia entre nós como uma lâmina invisível, cortando qualquer mensagem que eu ousasse começar.
Não que eu me importasse, ou pelo menos era o que eu tentava me convencer. Mas o corpo não mentia: só de pensar em Heitor, uma onda de calor subia pela minha espinha, a memória dos dedos dele em minha pele ainda fresca demais.
A casa estava silenciosa demais para um lugar que costumava pulsar. Nenhuma música. Nenhuma voz. Entrei chamando baixo, sem resposta. A casa parecia deserta. Por um momento, pensei em desistir, virar as costas e fingir que nunca tinha vindo.
Foi quando ouvi o barulho da máquina de lavar, o barulho de água correndo, vindo dos fundos da casa, um som constante, ritmado, como se alguém estivesse esfregando alguma coisa com força. Meus pés ecoaram no corredor lateral, enquanto o cheiro de sabão em pó e amaciante tomava conta do ar, enchendo as minhas narinas.
E lá estava ele. Heitor estava na área de serviço, curvado sobre a máquina, de costas para a entrada, a água jorrando no tanque, a pele pálida brilhando com uma fina camada de suor, os músculos das costas se movendo sob a tensão enquanto torcia uma camisa com as mãos firmes.
Lavava roupa como quem cumpre um ritual automático: movimentos lentos, precisos. Usava apenas um short velho e feio, surrado, de cor marrom, que deixava à mostra as pernas compridas e peludas, o elástico marcando levemente a cintura estreita, a pele clara contrastando com o azulejo frio.
O peito nu, magro e definido, subia e descia com a respiração tranquila. A correntinha de ouro que ele sempre usava, aquela maldita correntinha que tantas vezes eu brincara com a boca, brilhava sob a luz lateral da tarde, vibrando contra o peito pálido de Heitor, acompanhando cada movimento dos músculos nas costas.
Meu estômago se revirou antes mesmo que eu pudesse articular um “oi”. Eu senti o impacto antes de qualquer pensamento. Era físico. Era imediato. Era injusto. Mas eu desejava Heitor terrivelmente. Ele era tão bonito que chegava a doer. A atração que sempre existira agora soava como um trovão, ensurdecedor.
Eu senti a boca secar. Não era a primeira vez que via Heitor assim, na verdade, era uma cena quase comum e banal, mas dessa vez era diferente. Dessa vez, eu não podia fingir que não estava ali exatamente para isso.
Heitor se virou ao ouvir o meu passo, pegando uma camiseta branca no cesto. Ao me ver, largou a peça de volta, estalando a tampa da máquina de lavar com um som seco. Nós dois paramos. Nenhum de nós sorriu. O olhar dele, azul acinzentado, colidiu com o meu, cheio de cautela, mas também pronunciado com algo mais antigo, mais selvagem.
— Você — disse Heitor, sem surpresa, mas com algo rígido na voz.
— Eu — respondi, sentindo a garganta secar.
Houve um silêncio constrangedor. Não do tipo confortável. Mas do tipo cheio de memória.
— Não sabia que você vinha — disse Heitor.
— Eu também não — respondi, honesto demais.
Os olhos de Heitor desceram por um segundo, se fixando em mim com uma intensidade que fez o meu estômago revirar. Não havia sorriso, nem cumplicidade. Apenas uma expressão fechada, como se estivesse medindo cada palavra antes de deixá-la escapar. Seus olhos voltaram. Avaliaram. Guardaram.
— O que você quer? – disse Heitor, a voz baixa, quase suave demais – Achei que você estivesse fugindo de mim pra sempre.
– Tive que vir – respondi. Não era bem verdade, mas soava melhor do que "Vim porque não aguento mais te evitar".
Eu engoli em seco. A garganta parecia raspada. Eu podia mentir. Podia dizer que era só pra conversar, que tinha saudade, que precisava dele. Mas a verdade era mais suja, mais quente, e eu não tinha forças para disfarçar. Mesmo assim, segui com o plano. Respirei fundo. Era agora ou nunca.
— É sobre a Gabriela… — comecei, observando a reação dele com cuidado — Ela me pediu pra falar com você.
Heitor arqueou a sobrancelha, lento, depois cruzou os braços, a postura tensa.
— Que Gabriela? – perguntou, como se o nome não lhe fosse familiar.
— Da rua da frente. A que sempre te olha como se quisesse te comer vivo – esclareci, sentindo um prazer doentio em ver a sombra da irritação passar pelo rosto de Heitor – Disse que queria sair com você, caso você também quisesse.
Um silêncio. O nome ficou suspenso entre nós como um objeto estranho, uma terceira pessoa que não pertencia ao cômodo espaçoso, de paredes ladrilhadas e altas. A água ainda pingava da torneira mal fechada, caindo no tanque com um som hipnótico. Heitor não se mexeu, mas eu vi o maxilar dele se contrair, os dedos apertando os próprios bíceps com força suficiente para deixar marcas.
Finalmente, ele soltou uma risada curta. Sem humor.
— Engraçado — disse — Logo você.
Eu senti o golpe. Avancei um passo, reduzindo a distância entre nós, meus pés descalços batendo no chão frio. Senti o cheiro de amaciante misturado ao suor de Heitor, algo cítrico, masculino. Não sabia por que estava fazendo isso, se era para ver até onde Heitor aguentaria, ou se era só porque precisava sentir o calor do corpo dele de novo.
— Ela... tá a fim de você. Me pediu pra tocar no assunto – tentei soar casual, mas minha própria respiração tremia – Disse que aceitaria se você a chamasse pra sair, se você animar. Eu só achei justo falar.
— Justo — Heitor repetiu, seco — Depois de tudo?
— Depois de tudo.
Heitor cruzou os braços, os antebraços riscados de veias salientes. Nenhum sorriso, nenhuma resposta imediata. A expressão dele permaneceu fechada, mas os olhos percorreram o meu corpo, descendo da minha garganta para o peito, parando na minha cintura. Eu sustentei o olhar. O silêncio cresceu, denso, até eu sentir o som do meu próprio sangue nas têmporas.
Heitor não respondeu com palavras. Em vez disso, se aproximou um passo também. Depois outro, tão rápido que eu não tive tempo de recuar. Não invadiu, cercou. Agora estávamos tão perto que eu podia sentir o cheiro do suor de Heitor, misturado ao aroma adocicado de amaciante, o calor irradiando da pele dele como uma fornalha. Os olhos de Heitor queimavam, uma mistura perigosa de raiva e algo mais primal, mais faminto.
— E você? — ele perguntou, a voz mais áspera agora — Você está sugerindo isso como amigo… ou como alguém que resolveu me devolver ao mercado? Você veio aqui pra me apresentar uma menina? Ou veio falar de outra coisa?
Eu senti o coração acelerar. A pergunta me desarmou, de certa forma. Eu abri a boca, mas nada saiu. O desejo contido disparava faíscas entre nós dois, e eu sabia que Heitor percebia. O ar parecia cada vez mais pesado, impregnado de calor e sabão. A máquina de lavar saltava novamente, rangendo, como se protestasse pela demora.
— Estou sugerindo como alguém que não é dono de você – finalmente respondi.
A resposta pegou Heitor desprevenido. Ele fechou a expressão, como se tivesse levado um tapa invisível.
— Você ficou com a Julia, depois com o Rafael, com meus dois irmãos, enquanto saía comigo — disse, finalmente. A frase saiu baixa, quase contida demais — E agora vem me falar de uma garota da rua.
Eu engoli em seco.
— Não tô falando de nada – murmurei, minha voz trêmula – Só tô passando um recado. E eu nunca disse que isso apagava o que existe entre nós.
Heitor riu outra vez. Agora, amargo.
— E o que existe, Mateus?
A pergunta era uma armadilha. Eu dei um passo à frente. A proximidade fez o ar pesar.
— Existe isso — disse, baixo — Isso que volta toda vez que eu te vejo. Mesmo quando eu não quero.
Heitor ficou imóvel. O maxilar tenso. A mão ainda molhada apoiada na borda da máquina.
— Você não tem ideia do que fez comigo — disse ele — Do que ainda faz.
— Tenho — respondi, quase num sussurro — É por isso que eu estou aqui.
— Você me evita há dias — a voz de Heitor era um rosnado, quase um gemido — Fica sumido, não atende mensagem, e agora aparece aqui falando de uma mulher como se fosse nada.
Eu senti o fôlego faltar. Não havia como negar, eu o tinha evitado. Porque doía. Porque ver Heitor depois de confessar ter ficado com Rafael era como esfregar sal em uma ferida aberta, uma traição que nem eu mesmo entendia direito. Mas agora, com o corpo dele tão perto, com o cheiro dele invadindo meus sentidos, eu não conseguia me lembrar do motivo pelo qual eu tinha me afastado.
Heitor não disse mais nada. Por um instante, ele pareceu prestes a recuar. A escolher o orgulho. A manter a ferida aberta. Mas o corpo traiu o plano.
Ele avançou. Em dois passos, o corpo alto já bloqueava a luz, projetando uma sombra sobre mim. A mão direita dele se ergueu, primeiro apenas se apoiando na parede fria ao lado do meu rosto, depois a esquerda também, me cercando. O cheiro de pele, misturado a algo queimado, talvez desejo retido, invadiu as minhas narinas, que recuei até sentir a parede fria atrás.
Heitor me tocou. Não com urgência. Mas com reconhecimento. Os dedos roçaram o meu braço, subiram devagar, como se perguntassem permissão ao invés de tomar. Eu fechei os olhos por um segundo. Quando abri, já estávamos perto demais.
— Isso não é justo — murmurou Heitor — Você não pode me desmontar assim e ir embora depois.
— Eu não prometi ficar — eu disse — Só não prometi mentir.
Heitor segurou o meu rosto, firme. Os olhos azuis acinzentados estavam turvos, de raiva, de desejo e de medo misturados.
— Você ainda é perigoso — disse — Mesmo quando finge maturidade.
Eu sorri, triste.
— E você ainda acha que controla tudo.
— Você quer me ver com a Gabriela? – sussurrou Heitor, os lábios tão perto que o hálito quente acariciou o canto da minha boca.
Tentei responder, mas o som que saiu foi mais um gemido abafado. Meu coração disparou. Heitor inclinou a cabeça, o nariz roçando a minha têmpora, descendo devagar até a orelha. Um calor líquido percorreu a minha espinha quando os lábios de Heitor se fecharam sobre o meu lóbulo, mordiscando com dentes leves.
— A gente precisa... conversar... – consegui balbuciar, mas o meu corpo havia derretido, meus joelhos estavam bambos.
— A gente conversa depois – murmurou Heitor, a voz rouca.
(continua)
