O Negão Está Cobrando A Dívida Histórica Com Juros De Pica

Um conto erótico de negaopirocudo
Categoria: Heterossexual
Contém 2737 palavras
Data: 15/01/2026 13:21:03

Meu nome é André, mas desde que cheguei ao mundo na Favela da Maré — ali naquele beco entre a Vila do João e a Nova Holanda, onde o esgoto corre mais rápido que a água limpa e o som do tiroteio é a única balada que a gente conhece —, todo mundo me chama de Negão. Não porque eu sou negro, embora eu seja, sim, um preto retinto com pele que brilha quando o sol da baía bate de frente, mas porque Negão é nome de quem tem dez centímetros a mais na cueca e uma conta bancária de dívidas históricas pra cobrar. E eu cobro.

A primeira vez que senti que precisava cobrar não foi quando vi minha mãe, dona Conceição, 58 anos, com as costas curvadas de tanto carregar saco de cimento para construir a casa de quem nunca ia pagar, dormindo no chão porque o colchão tinha sido levado pela enchente que o prefeito branquelo de Copacabana jurava que “não era problema da prefeitura, era problema da topografia”. Também não foi quando meu irmão mais novo, Paulo, de 19 anos, levou um tiro de raspão na perna dado por um PM branco que testava a mira da 12 na parede do campo de futebol.

Não. Foi quando vi a Marina — essa siririca branca de Ipanema que veio pro projeto social “Rio de Paz” trazer livros pros moleques — postar uma foto sorrindo ao lado do meu primo Lucas, 8 anos, sem dente da frente, com a legenda: “Meu pequeno guerreiro da favela! Tão grata por poder ser a luz dele! ✨”. Naquele instante eu senti. Senti que precisava existir um jeito de cobrar essa dívida que o Instagram não quita com curtida. Um jeito que fizesse a conta bater. Que fizesse a conta gemer. Que fizesse a conta implorar.

Então comecei a estudar. Não como os playboys, com faculdade de administração e MBA em explorar pobre. Estudei a burguesia. Estudei elas. As esposas. As que casam com os homens de terno que assinam os papéis que despejam a gente. As que vivem em apartamentos de 300 metros quadrados com vista para o mar que a gente limpa mas nunca pisa. As que tomam antidepressivo porque a empregada demorou para responder “sim, sinhá” e acham que isso é trauma.

E descobri. Descobri que todas elas têm algo em comum: fome. Não fome de pão — fome de pica. Fome de pica que não seja do marido que goza em três minutos e dorme. Fome de pica que tenha história. Fome de pica que seja real. E a gente, nóis da favela, nóis somos real pra caralho. Nóis somos a cara do Brasil que elas fingem que não existe quando estão no Consulado americano pedindo visto, dizendo que “o Rio tá muito perigoso, né? Tanta violência”.

A violência é nóis. E a gente tá cansado de ser violência gratuita. Agora a gente é violência com propósito. Violência com recibo. Violência com gozo.

A primeira que peguei foi a Carol. Carolzinha. Carol dos Salles. Carol que casou com Marcelo Salles, aquele playboy branco que herdou a construtora do pai e cujo único trabalho na vida foi decidir se a grama do campo de golfe seria bermuda ou zoysia. Conheci a Carol num desses eventos de gala beneficente pro “desenvolvimento comunitário” — leia-se: lavagem de imagem com open bar de champagne e umas duas artistas plásticas de presépio. Ela usava um vestido vermelho que custava mais que meu barraco inteiro, com decote que exibia silicone de 400 ml que o papai pagou quando ela fez 18 anos e disse que ia ser modelo.

Ela me viu. Eu sabia que ela tinha me visto. Porque a gente sabe. A gente sente. O olho branco, quando desce da nossa cara e desliza pro nosso pau, tem um brilho específico. É o brilho de dívida reconhecida. É o brilho de “eu sei que devo, e ele sabe que eu devo”. Eu estava de smoking alugado — R$ 200,00 mais R$ 50,00 de multa porque sujei de cerveja no bolso —, mas o smoking não escondia. Não escondia minha altura (1,92 m), não escondia meus ombros (70 cm de envergadura), não escondia a marca na testa: COBRADOR.

Ela veio falar comigo. Com aquele sorriso de quem acha que solidariedade é lubrificante. “Oi! Você é do projeto, né? Adorei sua… sua presença! Vocês têm uma energia tão…” Ela procurou a palavra. “…autêntica!”

Eu ri. Um riso sem dente de ouro, mas com o peso de quem já viu gente como ela virar as costas quando o projeto acaba e o Instagram já tem foto suficiente. “Autêntica é o que nóis somos mesmo, sinhá. O resto é mentira.”

Ela não entendeu. Elas nunca entendem. Mas sentiu. Sentiu o “sinhá” que não era deferência — era cobrança. Sentiu o “mentira” que não era insulto — era diagnóstico.

“Eu…” Ela hesitou. A mão dela — unha de gel de R$ 500,00, anel de brilhante de R$ 50 mil, pele tratada com ácido hialurônico — tocou meu braço. Tocou como quem toca objeto de museu. “Eu queria saber mais sobre o trabalho de vocês. Posso… posso visitar? O projeto?”

Eu sabia o que era. Não era visita. Era missão. Era reconhecimento de campo. Era turismo de favela deluxe, onde o guia é um pobre formatado pra falar bonito e não mostrar onde o esgoto passa.

“Pode, sim, sinhá. Mas o projeto fecha às seis. Depois disso, só eu.” Sorri. Um sorriso que não era bonito. Era eficiente. “Aí a gente pode conversar sobre… dívida.”

Ela engoliu em seco. O pescoço dela — aquele pescoço branco que nunca viu sol sem protetor solar FPS 100 — fez um movimento de galinha engolindo pedra. Porque ela sabia. Elas sempre sabem. No fundo, no fundo branco da alma delas, elas sabem que a dívida existe.

E ela veio. Três dias depois, às 19h47, porque elas nunca batem na hora exata, sempre atrasam sete minutos pra mostrar que podem, ela estava na boca do aterro, com seu SUV blindado, com seu motorista negro e favelado que usa terninho e a chama de “dona” com um “a” tão comprido que parece que ele está lambendo o chão.

Eu estava lá. Só de bermuda, chinelo Havaianas de dedo rachado e uma camiseta do Flamengo que tinha sido do meu irmão antes de ele morrer. Meu corpo — esse corpo que Deus (ou o diabo, que na favela é o mesmo) me deu — era o único uniforme que eu precisava.

Ela desceu do carro. O motorista tentou falar alguma coisa. Ela mandou ele esperar. Ele esperou. Porque eles esperam. Sempre esperam. O pobre, quando vê branco com cara de dono, espera. É treinamento. É sobrevivência. Mas eu não estava esperando. Eu estava cobrando.

“Oii,” ela disse. A voz dela estava diferente. Não tinha mais o filtro de champagne. Estava rouca, estava real. “Você… você disse que podia me mostrar o projeto.”

“Posso. Mas o projeto é barra pesada, sinhá. Tem que ter estômago.” Fiz um gesto em direção ao beco. “Lá dentro a gente não tem champagne. Tem cerveja quente. E a gente não tem solidariedade. Tem realidade.”

Ela engoliu em seco outra vez. O olho dela — aquele olho azul que devia ter sido herdado de alguma avó alemã que veio para o Brasil fugindo de guerra, mas não fugiu da maldade — brilhou. Não era medo. Era excitação. Porque elas gostam. No fundo, elas adoram. O perigo controlado. O perigo que pode pagar. O perigo que vem com recibo e pode parar quando o Uber chegar.

Levei-a para o meu barraco. Não era o barraco onde eu morava de verdade — era o barraco que uso para isso. O barraco de cobrança. Tinha sido do meu avô, que foi cobrador de outra forma — cobrava de trem de valorizona que não tinha passagem. Mas a dívida é a mesma. Sempre a mesma.

Quando entramos, o cheiro bateu nela. Vi o rosto dela contrair. O cheiro era de mofo, de esgoto, de comida queimada, de pobreza. Mas também tinha incenso de alfazema — meu toque pessoal. Porque a gente pode ser pobre, mas não pode ser sem classe. Classe é o único luxo que a gente não paga imposto.

“Senta,” mandei. Não perguntei. Mandei. Porque mandar é parte da cobrança. É o começo do recibo.

Ela sentou na cama. A cama era um colchão de mola fina sobre caixotes de feijão. A roupa de cama era limpa — eu lavava. Porque ser pobre não é ser sujo. Ser pobre é ser cobrado todos os dias por quem é sujo de alma.

“Carol,” falei, parado em pé na frente dela. “Você sabe o que é dívida histórica?”

Ela tentou rir. Um riso fraco, de quem não está acostumada a ser chamada pelo nome sem o título. “Eu… eu fiz questão da minha carreira. Eu não devo nada a ninguém.”

Eu ri. Um riso que ecoou no barraco de zinco de um jeito que a fez tremer. “Todo mundo deve, sinhá. Mas você deve mais. Você deve o que seu marido constrói. Você deve o que seu pai roubou. Você deve o que sua mãe ignorou enquanto tomava antidepressivo pago com dinheiro de aluguel de favela que seu avô despejou.”

Ela abriu a boca para falar. Não deixei. Coloquei a mão no queixo dela. A mão que eu lavara, mas ainda tinha a textura de quem carrega peso. Não era uma mão suave. Era uma mão real.

“Você não vai falar. Você vai ouvir. E depois você vai pagar.” Aproximei-me. Podia sentir o perfume dela — Chanel Bleu, o mesmo que o marido usa. O perfume de quem vive num casamento onde até o cheiro é compartilhado por falta de identidade. “O pagamento não é dinheiro. Você tem dinheiro demais. O pagamento é sinceridade.”

E beijei-a. Não foi um beijo gentil. Não foi um beijo de sedução. Foi um beijo de invasão. Foi o beijo que entra pela boca e sai pela alma, levando consigo as mentiras que ela conta todo dia no espelho. Foi o beijo que sabe a codeína de remédio de rico e a cachaça de quem nunca teve plano de saúde.

Ela resistiu. Porque elas sempre resistem no começo. Porque é preciso resistir para manter a ilusão de controle. Mas não dei opção. Puxei o cabelo dela — aquele cabelo loiro que custava R$ 800 por mês para manter — e forcei a cabeça dela para trás. Não com violência. Com necessidade. A necessidade de que ela sentisse o pescoço exposto, que sentisse a jugular pulsando, que sentisse que a vida dela estava na minha mão exatamente da mesma forma que a vida dos meus estava na mão do marido dela.

“Carol, você sabe quantos pretos morreram para você ter esse colar?” perguntei, enquanto minha outra mão puxava o colar de diamantes que estava no pescoço dela. Não era uma pergunta retórica. Era pergunta com peso. Peso de osso. Peso de terra. Peso de história.

“Você…” ela tentou falar. A voz saiu cortada, porque minha mão no pescoço dela apertava só o suficiente para cortar o ar, não a vida. Porque vida a gente devolve. Mas ar? Ar a gente controla.

“Não fala. Sente.” Soltei o colar. Ele caiu no chão de cimento. O som foi de vidro quebrando. Porque diamante em cimento de favela faz esse som. “Agora tira a roupa.”

Ela hesitou. Não esperei. Puxei o vestido. Ele rasgou. Não porque eu fosse violento. Porque vestido de R$ 5 mil é frágil. Porque luxo é frágil. Porque real é resistente. O vestido caiu no chão como a bandeira de um país que nunca existiu. Ela ficou só de calcinha e sutiã — aqueles da Victoria’s Secret que custam R$ 400 o conjunto, mas que não aguentam a realidade de uma favela.

“Tira tudo.” Mandei de novo. E ela obedeceu. Porque elas obedecem. No fundo, elas querem obedecer. Porque obedecer é o único jeito de pagar a dívida que elas sabem que têm.

Quando ficou nua, eu vi. Vi o corpo perfeito. Silicone nos seios, lipo na cintura, academia cinco vezes por semana, dieta de R$ 3 mil por mês. Um corpo que custa mais que minha vida. E eu ia usar. Usar cada centímetro. Usar cada centímetro como moeda de troca. Usar cada centímetro como recibo.

“Deita.” Apontei para o colchão. Ela deitou. O colchão fez um barulho de mola velha que reclama de peso. Mas reclama de peso real. Peso de gente. Peso de história.

Tirei minha camiseta. Meu corpo era outra coisa. Era músculo de obra. Era cicatriz de faca de bar. Era marca de tiroteio no braço esquerdo — entrou e saiu, graças a Deus, ou ao diabo. Era pele que brilha de suor que não é de academia, é de sobrevivência. Meus peitorais não são de silicone. São de carne. Carne que dói. Carne que sente. Carne que cobra.

Quando tirei a bermuda, meu pau saltou. Não porque estivesse duro. Porque estava pronto. Pronto para a cobrança. Pronto para a justiça. Pronto para a vingança. Era um pau de 25 centímetros — medi com régua de carpinteiro, porque na favela a gente mede tudo com ferramenta de trabalho. Era grosso como cano de obra, com veias que pulsavam como se tivessem vida própria. A cabeça era roxa de tanto sangue pulsando, com um furo no meio que eu já sabia que ia deixar marca. Marca que não some. Marca que registra.

Ela viu. E o rosto dela fez uma expressão que eu conheço. Era a expressão de quem reconhece dívida. Olho azul brilhando com lágrimas que não caíam porque eram lágrimas de reconhecimento, não de tristeza.

“Você…” ela começou.

“Não.” Parei-a. “Você não fala mais. Você recebe. Recebe a cobrança. Recebe a justiça. Recebe o que você deve.”

Entrei nela sem preliminares. Não porque eu não saiba fazer preliminares. Porque dívida não tem preliminar. Dívida tem entrada. Entrei seco, porque ela já estava molhada. Molhada de medo, molhada de desejo, molhada de necessidade de pagar. E quando entrei, ela gritou. Mas não era grito de dor. Era grito de reconhecimento. Era grito de quem finalmente entende o tamanho do que deve.

Fiquei parado. Não movi. Porque o primeiro momento é registro. É meter o recibo. É deixar o corpo dela ler o tamanho da dívida. E senti. Senti a buceta dela — raspada a laser, apertada de academia, mas fria de faltar sentimento — se adaptando ao meu tamanho. Ela se abriu, mas não com vontade. Com necessidade. Porque precisava. Precisava pagar.

“Agora,” eu disse, e minha voz era outra. Era a voz de todos os meus avós que trabalharam de graça. Era a voz de todos os meus primos que morreram cedo. Era a voz de toda a favela que silencia quando o rico passa, mas grita quando o rico não está olhando. “Agora você sente.”

Comecei a mover. Devagar. Porque cobrança lenta é cobrança que evita dívida no futuro. Cada centímetro que eu tirava era um ano de escravidão que eu lembrava. Cada centímetro que eu voltava era um ano de favela que eu cobrava. O ritmo era de batucada de terreiro. Era de tambor de Umbanda que chama ancestral. Era de raiva convertida em movimento.

Ela gemeu. Mas o gemido dela era diferente. Não era gemido de novela. Era gemido de quitação. Era gemido de quem está pagando e descobrindo que o pagamento dói, mas dói bem. Dói do jeito que dói quando se arranca uma bala do braço — dói, mas é alívio.

“Você sente o que seus antepassados fizeram?” perguntei enquanto entrava com força. A força era calculada. Era força que ensina. “Você sente cada chicotada que seu bisavô deu no meu bisavô? Cada estupro que sua bisavó fingiu que não via enquanto escravizava a minha?”

Ela não respondeu. Porque não tinha como responder. A única resposta era gemido. Gemido que subia de tom. Gemido que virava grito. Grito que eu tapei com a mão. Porque grito na favela chama atenção. E atenção na favela, quando você está cobrando dívida, é ruim. É que nem pedir para o Estado pagar o que deve — ele não paga, ele mata.

“Não grita.” Mandei. “Grava. Grava na memória. Grava no corpo. Grava na buceta que está sendo usada para pagar dívida histórica.”

Aumentei o ritmo. O ritmo era de escravos construindo cidade. Era de pretos carregando ouro. Era de favelados construindo condomínio. Cada estocada era um tijolo. Cada estocada era uma obra. Cada estocada era história sendo escrita com a porra dela como tinta.

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