Vítima, Cúmplice Ou Predadora?

Um conto erótico de mascara
Categoria: Heterossexual
Contém 3665 palavras
Data: 16/01/2026 11:49:41
Última revisão: 16/01/2026 11:51:18

>> Gente, antes de começar a ler esse conto, saiba que eu escrevi ele para ser extremamente polêmico, reflexivo e gere debate/discussao. Comentem sobre o que acharam. Sobre a sua interpretação acerca dos eventos. Quem errou? Alguém? Ninguém? Todos? Oq mais houve aqui? Isso só fará sentido com a ajuda de vocês! Obrigado e boa leitura! 🔥

~~~~~~~~~~

A campainha tocou às 23h47. Daniel verificou o horário no relógio da parede da cozinha antes de verificar no celular, como se precisasse de confirmação dupla de que alguém realmente estava à porta daquela hora. Sexta-feira. Fim de expediente há cinco horas. Ele tinha passado a noite alternando entre a Netflix e um processo trabalhista que precisava revisar até segunda.

Pelo interfone, a imagem granulada mostrava uma mulher. Cabelo escuro preso de qualquer jeito, casaco bege. Ela olhava para baixo, não para a câmera.

"Daniel." Não era pergunta. A voz atravessou o interfone com aquela textura que ele reconheceria mesmo se tivesse oitenta anos e Alzheimer. "Abre."

Ele segurou o botão do interfone sem apertar. Cinco segundos. Dez.

"Por favor," ela disse, e dessa vez havia algo frágil na voz, algo que não combinava com a Mariana que ele conhecia.

O zumbido eletrônico da tranca liberou. Daniel ficou na porta do apartamento, deixou entreaberta. Ouviu os passos dela no corredor - salto alto, ritmo irregular. Quando ela apareceu na curva do corredor, ele notou três coisas: a maquiagem estava manchada, como se ela tivesse chorado ou esfregado os olhos; o casaco era caro, provavelmente novo; e ela trazia uma garrafa de vinho pela gargalha, o líquido balançando lá dentro pela metade.

"Posso entrar ou vai me fazer pedir outra vez?" Mariana parou a meio metro da porta.

Daniel recuou. Ela entrou, o salto clicando no piso de madeira. O apartamento estava em penumbra - só a luz da cozinha acesa lá no fundo. Ele não ofereceu mais iluminação.

"Pensei que você tivesse mudado de endereço," ela disse, olhando em volta. "Três anos. Maioria das pessoas muda."

"Maioria das pessoas não desaparece por três anos sem dar satisfação."

Mariana riu. Não tinha humor na risada. Ela foi até a sala, se jogou no sofá sem tirar o casaco, ergueu a garrafa de vinho como se fizesse um brinde ao nada e bebeu direto do gargalo. Um fio escorreu pelo canto da boca. Ela limpou com as costas da mão.

"Queria beber comigo?" Estendeu a garrafa na direção dele.

"Você bebeu quanto antes de vir pra cá?"

"Não o suficiente." Outro gole. "Senão não teria vindo."

Daniel cruzou os braços, ficou encostado no batente que separava a sala da cozinha. Tinha ensaiado esse momento dezenas de vezes nos primeiros meses depois que ela sumiu. As coisas que diria. As perguntas que faria. Agora nenhuma parecia adequada, ou talvez todas parecessem banais demais.

"Cadê o noivo?" ele perguntou.

Os olhos dela se estreitaram. "Como você—"

"Instagram. Sua irmã posta. Muito. Vi o anel há dois meses."

Mariana baixou a garrafa, apoiou entre as coxas. Usava calça de alfaiataria preta, camisa de seda branca por baixo do casaco. Roupa de jantar caro. Ou de término de jantar caro.

"Tivemos uma briga," ela disse.

"Que pena."

"Você não parece achar uma pena."

"Porque não acho." Daniel finalmente se moveu, contornou o sofá, pegou a garrafa da mão dela antes que pudesse protestar. Bebeu. Vinho tinto, encorpado, tânico. Provavelmente caríssimo. Devolveu a garrafa. "Você veio aqui pra quê, Mariana? Quer que eu diga que sinto muito? Que espero que vocês resolvam?"

Ela o observava. Sempre tinha aquele jeito de olhar - direto, sem piscar, como se estivesse tentando ler algo escrito na parte de trás do crânio dele.

"Vim porque não tinha pra onde ir."

"Bullshit. Você tem apartamento. Tem família. Tem amigos. Tem um porra de um noivo."

"Ex-noivo." A correção veio rápida, afiada. Ela tomou outro gole. "Pelo menos por essa noite."

"Isso não explica por que você tá aqui."

Mariana se levantou. Cambaleou um pouco - o salto, ou a bebida, ou ambos. Ficou perto demais. Daniel conseguia sentir o cheiro do vinho no hálito dela, algo floral do perfume, e por baixo disso, suor. Ela tinha suado. Ansiedade ou esforço físico, ele não saberia dizer.

"Lembra da última vez que a gente se viu?" ela perguntou.

"Você quer mesmo fazer isso agora?"

"Estou perguntando se você lembra."

Ele lembrava. Claro que lembrava. O apartamento dela, menor que esse, com aquela vista horrível pro estacionamento de um supermercado. Madrugada de domingo. Ela tinha dito que precisava de tempo, que estava confusa, que ele era intenso demais. Ele tinha dito que ela era covarde, que fugia de qualquer coisa que parecesse real. Ela tinha pedido pra ele ir embora. Ele foi. No dia seguinte, bloqueio nas redes sociais. Uma semana depois, ela não atendia mais o telefone. Um mês, e ele descobriu por terceiros que ela tinha mudado de cidade.

"Lembro," ele disse.

Mariana ergueu a mão, pousou na base do pescoço dele. A pele dela estava fria. Os dedos se moveram devagar até a nuca, brincaram com os fios de cabelo ali.

"Mari—"

"Você me odiou?" A voz dela saiu baixa, quase um sussurro.

"Sim."

"E agora?"

A mão dele subiu, envolveu o pulso dela. Não apertou. Apenas segurou.

"Ainda não decidi."

Ela se inclinou, ficou na ponta dos pés. O rosto a centímetros do dele. Daniel podia contar as manchas de rímel abaixo dos olhos dela, ver onde o batom tinha desbotado nos lábios.

"Posso te beijar?" Mariana perguntou.

"Não."

Ela beijou mesmo assim.

Ou ele se inclinou no mesmo segundo. Depois, nenhum dos dois conseguiria dizer com certeza quem fechou a distância primeiro. A boca dela tinha gosto de vinho e algo amargo - café velho, talvez. A língua dela se moveu contra a dele com uma urgência que parecia mais desespero do que desejo. As mãos dela agarraram a camisa dele, enrugando o tecido.

Daniel a empurrou. Não forte, mas firme o suficiente para criar espaço entre eles.

"Não," ele repetiu.

"Por que não?"

"Porque você tá bêbada. Porque terminou com seu noivo três horas atrás, pelo jeito. Porque você não devia estar aqui."

"Mas eu estou." Ela deu um passo, eliminando a distância novamente. "Estou aqui. Vim porque queria estar aqui."

"Você não sabe o que quer."

"Não me diga o que eu sei ou deixo de saber." A voz tinha ganho uma aresta. Ela jogou o casaco no sofá, começou a desabotoar a camisa. O primeiro botão. O segundo.

"Mariana, para."

"Você não quer?" O terceiro botão se abriu. Renda branca do sutiã apareceu. "Porque três anos atrás você queria. Queria bastante. Lembro de você implorando pra eu ficar."

Isso cortou. Foi feito pra cortar. Daniel segurou os pulsos dela, impediu que continuasse com os botões.

"Eu não vou ser seu mecanismo de vingança contra o noivo. Ou sua válvula de escape. Ou seja lá o que você acha que isso vai ser."

"Quem disse que é sobre ele?" Ela tentou soltar os pulsos, mas Daniel segurou com mais força. Não o suficiente pra machucar, mas o suficiente pra imobilizar. "E se for sobre nós? Sobre terminar o que a gente nunca terminou direito?"

"Nós terminamos. Você terminou quando sumiu."

"Então isso aqui é o quê? Encerramento?" Havia algo perigoso no jeito que ela disse isso, um tom de desafio.

Daniel a soltou. Recuou dois passos, passou a mão pelo cabelo. Precisava pensar. Precisava que ela saísse. Precisava—

Mariana terminou de desabotoar a camisa sozinha. Deixou escorregar pelos ombros, cair no chão. Ficou ali, calça de alfaiataria, sutiã de renda, olhando pra ele como se o desafiasse a fazer algo.

"Você não vai me mandar embora," ela disse.

"Não?"

"Não. Porque você ainda me quer. Vi no jeito que você me olhou quando abriu a porta. Vi quando você segurou meu pulso. Vi agora há pouco quando me beijou."

"Você me beijou."

"Você retribuiu."

Silêncio. O barulho distante de um carro passando lá embaixo, na rua. O zumbido da geladeira na cozinha. A respiração dos dois, levemente ofegante.

"Por que você veio realmente?" Daniel perguntou.

Mariana não respondeu de imediato. Desabotoou a calça, abriu o zíper, deixou cair. Ficou só de lingerie e salto. O corpo dela era como ele lembrava - quadris largos, cintura fina, uma cicatriz pequena acima do umbigo de uma cirurgia na infância. Mas havia algo diferente na postura, na forma como ela se apresentava. Antes, ela tinha uma hesitação, uma vulnerabilidade que fazia ele querer protegê-la. Agora parecia uma provocação. Ou um teste.

"Vim porque passei três anos tentando esquecer você e não consegui," ela disse. "Vim porque quando o Felipe me pediu em casamento, eu disse sim mas pensava em você. Vim porque essa noite, durante o jantar, ele percebeu. Viu no meu rosto. E quando perguntou sobre quem eu ainda pensava, eu não consegui mentir." Ela se aproximou novamente, lenta dessa vez. "Vim porque se eu não fizesse isso, eu ia passar o resto da vida me perguntando."

"Perguntando o quê?"

"Se a gente ainda funciona." As mãos dela subiram pelo peito dele, pelos ombros, entrelaçaram atrás da nuca. "Se foi real ou se eu inventei na minha cabeça. Se você ainda me quer do jeito que me queria."

"E o que você vai fazer com essa resposta?"

"Não sei." Ela encostou a testa na dele. "Mas preciso saber."

Daniel tinha duas escolhas. Podia mandá-la embora, trancar a porta, bloquear o número. Autopreservação. Higiene emocional. O que qualquer terapeuta recomendaria.

Ou podia fazer o que toda célula do corpo dele estava gritando pra fazer desde que ela entrou pela porta.

Ele a beijou. Dessa vez não havia ambiguidade sobre quem começou. A mão dele foi pra nuca dela, dedos entrelaçando no cabelo, puxando com força suficiente pra fazer a cabeça dela se inclinar pra trás. A outra mão desceu pela lateral do corpo dela, pela curva da cintura, apertou a carne do quadril. Ela gemeu contra a boca dele - um som baixo, gutural.

"Quarto," ela disse quando se separaram por ar.

"Não." Ele a girou, prensou contra a parede da sala. O corpo dele colou no dela por trás, o volume da ereção pressionando contra a bunda dela. "Aqui mesmo."

"Daniel—"

Ele mordeu o ombro dela, a linha do músculo trapézio. Não foi gentil. Deixaria marca. Mariana arqueou contra ele, a bunda esfregando contra o pau dele.

"É isso que você quer?" Ele perguntou, a voz rouca contra o ouvido dela. "Vir aqui, se despir, me provocar, e achar que vai controlar como isso acontece?"

"Eu não—" Ela engasgou quando a mão dele envolveu a garganta dela por trás, não apertando, apenas segurando. Posse. Controle. A outra mão subiu pela barriga dela, deslizou por baixo do sutiã, encontrou o mamilo já enrijecido. Ele rolou entre os dedos, apertou.

"Você não o quê?" Ele puxou o corpo dela contra o dele com mais força. "Não veio aqui sabendo que ia acabar assim? Não passou três anos fodendo ele e pensando em mim?"

"Filho da puta," ela sibilou, mas a voz saiu trêmula, excitada.

"Diz que quer que eu pare." A mão na garganta dela deslizou pra frente, o polegar acariciando a linha da mandíbula. "Fala 'para' e eu paro. A gente senta, conversa feito adultos civilizados, e você vai embora."

Mariana não disse nada. A respiração dela vinha rápida, irregular. Daniel esperou. Cinco segundos. Dez. Deu a ela tempo de sobra pra recuar.

Ela empurrou a bunda contra ele mais uma vez, esfregou com movimentos lentos e deliberados.

"Não me trata como se eu fosse frágil," ela disse. "Não é por isso que eu vim."

Algo escuro se expandiu no peito dele. Raiva misturada com tesão, com três anos de mágoa que nunca tinham cicatrizado direito. Ele a virou de frente, empurrou ela de volta contra a parede. Beijou com violência - dentes chocando, lábio inferior dela preso entre os dentes dele, puxado até ela fazer um som entre gemido e reclamação.

As mãos dele foram pro sutiã dela, puxaram os seios pra fora sem desabotoar. Massageou, apertou, beliscou os mamilos com força suficiente pra arrancar um grito abafado dela. Mariana agarrou o cabelo dele, puxou de volta, e havia fogo nos olhos dela - desafio, excitação, algo selvagem que ele não lembrava de ter visto antes.

"Mais forte," ela disse.

Daniel congelou. Olhou pra ela - o rosto corado, os lábios inchados, a respiração ofegante.

"Mari—"

"Eu disse mais forte." Ela puxou o cabelo dele de novo, com violência dessa vez. "Para de ter medo de me quebrar. Eu não quebro."

Havia uma linha e ele sabia disso. Havia consentimento e tesão e raiva e mágoa tudo misturado, e em algum lugar no meio disso havia um ponto onde as coisas podiam virar, onde ele podia se transformar em algo que nunca quis ser.

Mas ela estava pedindo. Estava o provocando. Estava ali, nua exceto pela calcinha e salto, olhando pra ele como se o desafiasse a ser o monstro que ela parecia querer que ele fosse.

Ele caiu de joelhos na frente dela. As mãos dele foram pra calcinha dela, puxaram pra baixo num movimento brusco. Ela levantou um pé, depois o outro, ainda com os saltos. Ele jogou a calcinha de lado, abriu as pernas dela, e enterrou o rosto.

Mariana gritou. As mãos dela foram pra cabeça dele, tentando empurrar pra longe ou puxar mais perto, ele não tinha certeza. A língua dele encontrou o clitóris dela, lambeu, sugou. Ela estava ensopada, o gosto dela forte e almiscarado. Ele trabalhou com a boca, a língua, os dedos - dois pra dentro dela, curvados, encontrando aquele ponto que sempre a fazia perder controle.

"Porra, Daniel, eu—" Ela não terminou a frase. Os quadris dela se moviam contra o rosto dele, fodendo a boca dele sem coordenação, perdida no próprio prazer. Ele manteve o ritmo, adicionou um terceiro dedo, sentiu ela apertar em volta deles.

Quando ela gozou, foi com o corpo inteiro - pernas tremendo, mãos puxando o cabelo dele até doer, um gemido longo e alto que ela tentou abafar mordendo o próprio punho.

Daniel não deu tempo pra ela se recuperar. Ficou de pé, abriu o cinto, o botão da calça, empurrou tudo pra baixo junto com a cueca. O pau dele estava duro, a ponta brilhando de pré-gozo. Ele a ergueu - as mãos debaixo das coxas dela, as costas dela contra a parede - e a penetrou numa estocada.

Mariana soltou um som entre gemido e soluço. Ela era quente e apertada e perfeita, e por um segundo Daniel se permitiu apenas sentir. Só isso. A sensação de estar dentro dela de novo, de tê-la envolta em volta dele.

"Olha pra mim," ele ordenou.

Ela abriu os olhos. Havia lágrimas nos cantos, mas não eram de dor. Ele conhecia a diferença.

"Você me pediu pra não ter pena," ele disse, começando a se mover. "Então não vou ter."

Ele fodeu ela contra a parede com estocadas profundas e brutais. O corpo dela balançava com cada investida, os seios sacudindo, a cabeça batendo de leve contra a parede. Ela arranhava as costas dele por cima da camisa, enroscava as pernas em volta da cintura dele, tomava tudo que ele dava e pedia mais.

"Assim," ela ofegava. "Porra, assim, não para."

"Você me odiou?" Ele jogou de volta, ecoando a pergunta dela de mais cedo. "Quando foi embora, quando sumiu, você me odiou?"

"Sim." Sem hesitação.

"Mentirosa." Ele mordeu o pescoço dela, sugou até ter certeza que deixaria marca. "Você me amava. Por isso que fugiu."

"Vai se fuder."

"Fala a verdade." Outra estocada, mais funda. Ela gemeu alto. "Fala."

"Eu—" A voz dela falhou. "Porra, Daniel, eu não consigo—"

"Você consegue." Ele diminuiu o ritmo, torturantemente lento. Mariana choramingou, tentou empurrar os quadris contra ele pra forçar mais. Ele segurou ela no lugar. "Fala a verdade e eu deixo você gozar de novo."

"Isso é—" Ela o encarou, e havia raiva ali, mas também algo mais vulnerável, mais assustador. "Isso é tortura."

"É honestidade." Ele se moveu de novo, mas devagar, controlado. "Você me amava?"

Os olhos dela se encheram de lágrimas. Uma escorreu.

"Sim," ela sussurrou. "Te amava. Te amo. Sempre te amei, porra. Feliz agora?"

Algo se partiu dentro dele. Ou se recompôs. Ele não sabia qual.

Ele a carregou pro sofá, deitou ela de costas, ficou em cima. Fodeu ela mais devagar agora, mais fundo, olhando nos olhos dela. As mãos deles se entrelaçaram acima da cabeça dela, dedos emaranhados. Mariana chorava - lágrimas silenciosas escorrendo pelas têmporas pro cabelo.

"Por que você voltou hoje?" Ele perguntou de novo, a voz suave agora.

"Porque cansei de fugir." A voz dela era crua, honesta. "Porque percebi que não importa pra onde eu vá ou com quem eu esteja, eu sempre volto pra você. Mesmo quando não quero. Mesmo quando sei que vai doer."

"Vai doer," ele confirmou. "A gente sempre dói um no outro."

"Eu sei."

Eles gozaram juntos - ela primeiro, as contrações dela puxando o orgasmo dele, e ele se derramou dentro dela com um gemido abafado contra o pescoço dela.

Ficaram ali depois, entrelaçados, a respiração se acalmando. Daniel se moveu pra sair de cima dela, mas Mariana segurou.

"Fica," ela disse. "Só mais um pouco."

Ele ficou. O peso dele devia estar esmagando ela, mas ela não reclamou. As mãos dela acariciavam as costas dele por cima da camisa - ele nem tinha tirado a camisa, percebeu vagamente.

"Eu preciso ir embora de manhã," Mariana disse depois de um tempo.

"Eu sei."

"Tem coisas que eu preciso resolver. O Felipe. O apartamento. Minhas coisas."

"Eu sei."

"Mas eu quero voltar. Depois. Quando resolver tudo. Se você quiser."

Daniel se apoiou nos cotovelos, olhou pra ela. O rímel tinha escorrido pras têmporas. Os lábios estavam inchados. Havia uma marca roxa se formando no ombro onde ele tinha mordido.

"Você tem certeza?" Ele perguntou. "Porque eu não vou passar por aquilo de novo. Você não pode voltar, ficar seis meses, e surtar porque ficou intenso demais."

"Eu sei."

"Não, você não sabe. Três anos, Mariana. Você me deixou pra morrer, e eu quase morri. Não vou deixar você fazer isso de novo."

Ela ergueu a mão, tocou o rosto dele.

"Então não deixa," ela disse. "Não deixa eu fugir. Da próxima vez que eu tentar, me segura. Me obriga a ficar e enfrentar."

"Isso não é responsabilidade minha."

"Eu sei. Mas estou pedindo mesmo assim."

Ele a beijou. Suave dessa vez, quase casto. Ela tinha gosto de sal das lágrimas e vinho e algo que era unicamente dela.

"Fica essa noite," ele disse. "A gente vê o resto amanhã."

Mariana assentiu. Daniel finalmente se levantou, a puxou junto. Eles foram pro quarto cambaleando, ainda entrelaçados. Caíram na cama sem ligar pras roupas espalhadas pela sala, pro celular dela que vibrava insistentemente do lado de fora.

Ela dormiu primeiro, encolhida contra o peito dele. Daniel ficou acordado, olhando pro teto, tentando decidir se era vítima ou cúmplice, se tinha sido usado ou se tinha usado, se o que aconteceu foi recomeço ou erro repetido.

Quando o sol nasceu às 6h23, a cama estava vazia exceto por ele.

Na mesinha de cabeceira, um bilhete escrito na letra apressada dela:

*"Desculpa. Eu tento. Eu juro que tento. - M"*

Daniel amassou o papel na mão. Jogou na parede. Depois levantou, pegou do chão, alisou o melhor que pôde, e guardou na gaveta ao lado de outros dois bilhetes idênticos de três anos atrás.

Lá fora, a cidade acordava. O telefone dele vibrou - mensagem de trabalho. Segunda-feira se aproximando. A vida continuando.

Ele tomou banho, deixou a água quente escaldar até a pele ficar vermelha. No espelho embaçado, conseguiu ver os arranhões no ombro, no pescoço. Marcas que ela deixou. Ou que ele permitiu que ela deixasse.

Às 11h da manhã, a campainha tocou de novo.

Mariana estava na porta com duas malas e os olhos vermelhos.

"Posso ficar?" Ela perguntou. "Só até achar um lugar. Duas semanas no máximo. Eu prometo não—"

"Entra," ele disse.

Ela entrou. Arrastou as malas pro quarto, começou a desempacotar. Daniel a observou da porta, café esfriando na mão.

"Você disse que ia resolver as coisas," ele falou.

"Resolvi. Terminei com ele por mensagem. Mandei minha irmã buscar minhas roupas. Pedi demissão do trabalho por email."

"Isso não é resolver. Isso é fugir."

"Não." Ela parou de tirar as coisas da mala, o encarou. "Fugir é voltar pra ele e fingir que ontem não aconteceu. Isso aqui é a coisa mais corajosa que já fiz na vida."

"Coragem ou desespero?"

"Ambos, talvez."

Eles ficaram ali, separados por três metros de piso de madeira e três anos de histórico complicado.

"Eu não sei se vai dar certo," Daniel disse.

"Eu também não."

"A gente provavelmente vai se destruir de novo."

"Provavelmente."

"Mas você quer tentar mesmo assim."

Não foi pergunta, mas ela respondeu. "Sim."

Daniel tomou o último gole do café frio, deixou a xícara na cômoda.

"Duas semanas," ele disse. "Depois a gente reavalia. E você vai pra terapia. E eu também. E nós vamos, juntos."

"Ok."

"E se você sumir de novo, não volta. Entendeu? Não volta porque eu não abro a porta."

"Entendi."

Ela terminou de esvaziar a primeira mala. Roupas amontoadas na cadeira do quarto dele, produtos de maquiagem se espalhando no banheiro, a vida dela invadindo os espaços vazios que ele tinha aprendido a tolerar.

Naquela noite, eles pediram comida chinesa e assistiram um filme que nenhum dos dois prestou atenção. Ela dormiu no peito dele de novo. Dessa vez, quando o sol nasceu, ela ainda estava lá.

Duas semanas viraram um mês. Um mês virou três. Às vezes era bom - risadas, sexo, momentos de conexão que pareciam justificar tudo. Às vezes era horrível - brigas, portas batidas, silêncios que duravam dias.

Seis meses depois, ela tinha aliança no dedo de novo. Dele dessa vez.

Um ano depois, ele acordou sozinho na cama. Bilhete na mesa da cozinha.

*"Fui comprar pão. Volto logo. Te amo. - M"*

Ele guardou o bilhete junto com os outros. Prova ou maldição, ele ainda não tinha decidido.

***

**FIM**

Siga a Casa dos Contos no Instagram!

Este conto recebeu 4 estrelas.
Incentive oincestuoso a escrever mais dando estrelas.
Cadastre-se gratuitamente ou faça login para prestigiar e incentivar o autor dando estrelas.

Comentários

Foto de perfil genérica

Não entendi porra nenhuma, oq teria pra avaliar nisso?

0 0

Listas em que este conto está presente