8 anos atrás:
Mariana:
Eu não descobri a traição do Ricardo sozinha. Eu suspeitei, estranhei a troca de senha do celular dele e pedi ajuda, mas lá no fundo, nunca acreditei que receberia uma resposta tão brutal.
Bruno, inicialmente, parecia não querer me ajudar. Mas depois, e eu só fui entender o motivo mais tarde, mudou de ideia. Ele parecia triste, genuinamente abatido. Foi essa empatia forjada que me desarmou. Sem dizer uma palavra, ele apenas virou o tablet na minha direção.
No vídeo, Ricardo ria. Não era aquele riso protocolar e polido que ele usava em eventos da agência. Era um riso solto, visceral, íntimo. Larissa segurava a mão dele com uma familiaridade que me sufocou, antes de ambos entrarem no motel. Meu marido não parecia culpado. Ele parecia leve, como se tivesse finalmente se livrado de um peso.
— Eu pensei muito antes de te mostrar isso, Mari … — Bruno disse, num tom baixo, quase fúnebre. — Mas você merece saber a verdade.
Eu não chorei de imediato. Fiquei paralisada, olhando para a tela como se fosse uma estranha assistindo a um recorte de outra vida. Não era só uma traição carnal; havia planejamento, rotina, conforto naquela infidelidade.
O que me destruiu de verdade não foi apenas ver meu marido com outra mulher. Foi descobrir que aquela mulher específica estava ali, orbitando nossa vida, por causa de mais uma traição dele ao Bruno. Meu marido não tinha traído apenas a mim. Ele tinha traído o melhor amigo, o sócio, o homem que ele chamava de irmão, com a única mulher que o Bruno dizia ter amado de verdade.
Eu me senti pequena. Ridícula. Uma peça ingênua em um tabuleiro de gente muito mais cruel. E foi exatamente ali, naquele vácuo de autoestima, que o um jogo de manipulação calculada começava a ser jogado.
— Não confronta ele agora — Bruno recomendou, com uma autoridade calma. — Você está em choque.
Ele falava como quem me protegia de mim mesma, como quem conhecia um padrão de autodestruição que eu ainda não enxergava. Eu queria odiá-lo por estar certo, por ter trazido aquela podridão à tona, mas eu precisava desesperadamente que alguém estivesse do meu lado.
Eu não confrontei o Ricardo naquela noite. Bruno implorou que eu não fizesse nada de cabeça quente. Disse que eu precisava pensar, organizar as peças, não entregar minhas cartas antes de entender o jogo dele. E aquilo fazia um sentido terrível.
Bruno sempre fez sentido para mim. Para o bem ou para o mal. Ele nunca foi o homem que escolheu ficar ao meu lado para construir um futuro, mas sempre foi o homem que "estava lá". Nunca me viu como uma potencial parceira, é verdade, eu era mais como uma última opção, quando todas as outras, falhavam. Mas ele nunca me alimentou com ilusões ou promessas de um "nós".
Por outro lado, ele nunca me deixou cair. Mesmo quando ele quis cortar os laços de intimidade sexual, para que eu seguisse em frente, ele me apresentou um porto, que eu me enganei ser seguro, para que eu pudesse me ancorar nas tempestades.
Quando eu e Ricardo quase cancelamos o casamento, quando vieram as promessas que mais uma vez não seriam cumpridas, foi Bruno quem me buscou de madrugada para que eu não dirigisse cega pelas lágrimas.
Eu confiava nele. Sempre confiei. E talvez tenha sido exatamente essa confiança cega que me impediu de ver o óbvio.
Nos dias seguintes, em casa, interpretei o papel de esposa como se estivesse vestindo a pele de outra mulher. Ricardo me beijava antes de dormir com uma ternura que me dava náuseas. Passava a mão na minha cintura enquanto eu cozinhava, perguntava como tinha sido meu dia, se eu estava bem. E eu o encarava, buscando obsessivamente qualquer traço de culpa ou hesitação no olhar dele. Ele escolheu não ser honesto, e a omissão é o pior lado da traição, pois ela sequestra o direito de escolha. Ela priva o traído de seguir em frente, ou escolher ficar.
— Você tem chegado cada vez mais tarde — comentei numa terça-feira, mexendo distraída em uma panela, evitando o contato visual.
Ele suspirou, um som de cansaço que ele já usava como escudo.
— Eu já te expliquei, Mari. Estou assumindo mais trabalho de campo agora. Sou o investigador principal, a demanda aumentou.
Era a resposta padrão: calma, técnica, inquestionável. Eu quase admirei a consistência daquela mentira.
— Engraçado … — eu disse, mantendo o tom o mais neutro possível. — O Bruno sempre consegue sair no horário.
Ricardo fechou o zíper da bolsa com um estalo seco.
— Porque ele não está seguindo ninguém até a meia-noite, Mari. Você sabe que o Bruno cuida da parte administrativa, dos contratos.
Ele se aproximou e beijou minha testa com uma condescendência que doeu mais que um tapa.
— Você conhece o meu trabalho.
Eu conhecia. E foi isso que mais sangrou. Porque tudo o que ele dizia podia ser verdade técnica, mas no fundo, ele estava me traindo com cada palavra.
Naquela mesma noite, Bruno me enviou uma mensagem curta:
“Já se decidiu? Vai confrontar o Ricardo?”.
Demorei alguns segundos, sentindo o peso do celular.
“Não. Ainda não”.
Por alguns dias, Bruno não tocou mais no assunto. Nem Lívia. Eles me deram espaço, ou ao menos a ilusão de que eu estava no controle.
Na semana seguinte, após um jantar na casa dele, mais uma das muitas ausências do Ricardo, foi ele quem puxou o fio da meada. Lívia estava no banho, o som da água caindo era a única trilha sonora da casa, que parecia silenciosa demais para o meu gosto.
— Eu nunca te contei direito o que aconteceu naquela época … né?
Eu já sabia sobre o que ele falava. O nome não precisava ser dito: Larissa. A gênese de tudo.
Ele ficou alguns segundos em silêncio, observando o movimento circular do vinho na própria taça antes de continuar.
— Eu não culpei o Ricardo.
Aquilo me pegou totalmente desprevenida. Eu esperava mágoa, algum rancor, não perdão incondicional.
— A gente era jovem, Mari. Éramos competitivos, idiotas. E a Larissa … — ele soltou um meio sorriso triste, carregado de uma melancolia antiga — ... a Larissa sempre foi o tipo de mulher que desmonta um homem sem esforço.
Ele não falava com a raiva de um traído. Falava com a nostalgia de quem aceitou a derrota.
— Eu estava apaixonado, mas sabia que ela não era uma mulher fácil de lidar. Ela queria viver, experimentar o mundo. Ela dizia que eu era mais intenso do que ela conseguia sustentar.
Ele levantou os olhos para mim, buscando minha conexão.
— Quando ela se envolveu com o Ricardo, eu fiquei destruído. Mas eu também sabia que não tinha sido só culpa dele. Ela escolheu.
Ele suspirou profundamente.
— E eu nunca consegui odiá-lo por isso. Tínhamos uma vida inteira de amizade construída. Não valia a pena perder tudo por uma mulher que já tinha decidido ir embora.
Senti um nó apertar minha garganta. Diante de mim não estava um vilão vingativo, mas um homem que parecia ter aprendido a suportar a dor com uma elegância que eu invejava.
— Mas você ainda tem sentimentos por ela? — perguntei, a pergunta saindo antes que eu pudesse contê-la.
Ele demorou a responder, o que tornou a resposta ainda mais pesada.
— Eu amei a versão dela que eu mesmo criei.
Depois disso, o silêncio na sala ficou espesso, quase físico. Foi quando ele pegou o celular com uma hesitação calculada.
— Eu não pretendia te mostrar isso, mas acho que você precisa do contexto completo.
Ele abriu o Instagram. Meses de histórico. O nome dela brilhando no topo. Ele rolou a tela devagar, me deixando ler o desastre.
Larissa: “Eu pensei muito antes de te chamar”.
Bruno: “Depois de tantos anos? Fiquei surpreso”.
Larissa: “Eu era imatura. Fugi do que era profundo. Você era profundo demais pra mim”.
Mais abaixo. Larissa: “Às vezes eu penso como teria sido se eu tivesse ficado com você”.
Bruno: “Você fez sua escolha”.
Larissa: “Eu fiz. E me arrependi”.
Senti meu estômago revirar em uma náusea quente. Ele continuou rolando.
Larissa: “Eu sempre me senti segura com você. O Ricardo era diferente. Ele me encantava, mas você … você me enxergava de verdade”.
Bruno: “Isso não muda o passado”.
Larissa: “Mas talvez mude o futuro”.
Havia áudios no meio da conversa, mas ele não teve a crueldade — ou a pressa — de abri-los.
— Foi ela quem me procurou — ele disse, com uma calma assustadora. — Do nada. Meses atrás.
Ele deslizou até as mensagens mais recentes, o ponto crítico.
Larissa: “Vou estar na cidade semana que vem”.
Bruno: “Por trabalho?”.
Larissa: “Também”.
Eu senti o sangue subir para o rosto, uma queimação de humilhação e raiva.
— Você sabia que ela estava vindo? — minha voz saiu falha.
— Sabia.
Ele não desviou o olhar nem por um milímetro.
— Mas eu não sabia que o Ricardo estava falando com ela, também.
Aquela frase caiu sobre mim como uma pedra atirada do alto.
— Era para eu me encontrar com ela um dia depois … — Ele travou a tela do celular, o som do clique encerrando a revelação. — Eu já deveria ter aprendido minha lição.
A frase ficou suspensa no ar. Não era uma acusação direta ao Ricardo, mas uma comparação implícita. Bruno tinha aprendido com a dor. Ricardo, pelo visto, estava disposto a repeti-la. Eu não sabia o que doía mais: ver as mensagens dela para o Bruno, ou imaginar as que existiam entre ela e o meu marido.
— Eu não queria que você descobrisse assim — ele disse, por fim. — Mas eu também não podia continuar fingindo que não estava vendo o que estava acontecendo de novo.
“De novo”. A palavra ecoou dentro de mim como um martelo. Não era apenas sobre o passado deles, era sobre a fragilidade do meu presente.
A porta do quarto se abriu e o vapor denso do banho escapou antes dela. Lívia apareceu envolta em uma toalha, o cabelo molhado e a pele avermelhada pela água quente. Ela parou no centro da sala, captando o resíduo da última frase do Bruno. Inclinou a cabeça, observando a nossa proximidade com uma curiosidade felina.
— Ainda bem que você me encontrou, né? — ela disse, caminhando até ele com um sorriso tranquilo. — Comigo você não precisa aprender nada na dor. Comigo você é livre.
Ela beijou o ombro dele de forma distraída, mas o gesto foi uma marcação clara de território. Eu vi o contraste doloroso: Bruno não respondeu com euforia, apenas segurou a mão dela por um instante. Era algo cúmplice, estável em sua liberdade. O que eu não tinha com o Ricardo.
— Acho que eu invejo vocês — confessei, a amargura transbordando.
Lívia virou o rosto para mim devagar, um brilho divertido nos olhos.
— Inveja? Curiosidade eu sei que você tem de sobra, Mari …
— Vocês parecem … resolvidos — tentei me explicar.
Ela soltou uma risada baixa, quase um ronronar.
— Resolvidos nada. A gente só não aceita migalhas emocionais de ninguém.
Bruno permaneceu em silêncio, deixando que a voz dela preenchesse as lacunas. Ela se sentou no braço do sofá, me encarando com um olhar que parecia despir minhas mentiras.
— Eu não aceitaria calada, Mari.
— Aceitar o quê? — perguntei, embora o peito já soubesse a resposta.
— Traição. Desrespeito. Mentira — ela contou nos dedos, como se fizesse uma lista de compras. — Comigo é na base do bateu, levou.
Forcei um meio sorriso defensivo.
— Nós já conversamos sobre isso. Curiosidade é uma coisa, mas daí para a ação existe um abismo.
Ela arqueou a sobrancelha, desafiadora.
— Não é sobre curiosidade, Mari. É sobre o que ele fez com você. E, de novo, o que ele fez com o Bruno.
Ouvir o nome do Bruno ali, colado à minha dor, me fez perceber como nossas histórias estavam sendo fundidas. Lívia se levantou e foi buscar uma taça de vinho na cozinha.
— Ele te traiu, mulher. Simples assim. Quem garante que foi a primeira vez? — ela continuou, a voz ecoando do outro cômodo enquanto voltava. — Você viu como ele age. É natural para ele. Como se enganar você fosse parte da rotina.
Senti meu corpo enrijecer.
— E se ele já fez isso antes e você nunca teve olhos para ver?
Eu não conseguia responder. Ela deu um gole demorado no vinho, me estudando.
— Ele fez isso com o melhor amigo. Com o homem que ele chama de “irmão”. Imagina o que ele faz com o resto do mundo, com quem ele não deve lealdade nenhuma.
O silêncio ficou espesso, sufocante. Bruno continuava calado, e sua mudez dava às palavras da Lívia um peso de verdade absoluta.
— Eu mantenho o que disse — ela arrematou. — Um homem assim precisa de uma lição bem dada.
Franzi a testa, o coração acelerado.
— Que lição?
Ela sorriu. Não era um sorriso cruel, mas sim paciente, como se explicasse algo óbvio para uma criança.
— A única que realmente dói no ego.
Ela se aproximou, diminuindo o espaço entre nós.
— Você está aí, sofrendo, se torturando sobre onde errou. E ele? Está vivendo como se fosse solteiro, se sentindo o dono do mundo.
Aquilo queimou como ácido.
— Eu não estou falando de vingancinha barata — ela tocou meu joelho com a ponta dos dedos. — Estou falando de você parar de se encolher. Parar de ser a "esposa traída" que fica em casa esperando uma explicação que nunca vai ser honesta.
Ela inclinou a cabeça, os olhos fixos nos meus.
— Você já parou para pensar que talvez você seja muito maior do que esse papel minúsculo a que você se acostumou?
Eu a encarava, hipnotizada por aquela possibilidade. Bruno finalmente falou, em um tom baixo e firme:
— A Mari nunca foi pequena.
Não era um ataque direto à Lívia, era uma validação poderosa para mim. E aquilo me desestabilizou por completo. Lívia aproveitou a brecha:
— Então por que você está agindo como se fosse?
O silêncio foi a minha resposta. A semente já estava plantada, criando raízes na minha mágoa. Nos dias seguintes, Ricardo continuou com a rotina de ausências. Não eram mais apenas “investigações”; agora eram tocaias, campanas estratégicas, operações complexas. Ele falava com uma naturalidade técnica admirável, usando o jargão profissional para dar legitimidade à mentira.
— Fiquei de campana hoje. Cliente desconfiando de funcionário. Coisa chata, demorada.
Eu apenas assentia. Sempre havia um caso de vida ou morte, um investigado prestes a ser pego, um relatório sigiloso. E eu ficava em casa. Eu nunca tive medo do escuro, meu medo sempre foi o silêncio. Ser órfã ensina uma lição cedo demais: ninguém fica para sempre. Você aprende a não pedir muito, a não exigir, a ser grata quando alguém decide, por misericórdia ou hábito, permanecer.
Ricardo tinha me escolhido. Mesmo torto, mesmo distante, mesmo falhando miseravelmente, ele ainda era o meu marido. E para alguém que já perdeu todo o seu mundo uma vez, esse vínculo pesa muito mais do que deveria.
Duas semanas se arrastaram assim. Eu observando, ele explicando, e nós dois fingindo uma normalidade que já estava morta. Até o dia do meu aniversário. Eu não fiz festa, não quis alarde. Preparei um bolo simples, apenas algo que dissesse: "ainda somos nós". Coloquei duas velas pequenas e esperei.
21h … 22h … 23h17. A meia-noite chegou e passou, e a casa continuava vazia.
Quando a chave finalmente girou na fechadura, eu ainda estava sentada à mesa, na penumbra. Ele entrou falando ao celular, a voz focada.
— Amanhã cedo eu resolvo isso, sem falta.
Desligou, passou por mim com um olhar distraído.
— Você ainda está acordada, Mari?
Eu abri a boca para falar algo, qualquer coisa, mas ele já estava desabotoando a camisa.
— Estou morto hoje. Acabado.
Ele foi direto para o banheiro. O som do chuveiro abafou qualquer tentativa de diálogo. Ele não viu o bolo. Não viu as velas. Não viu que era dia 14. Eu não chorei alto; apenas tirei as velas do bolo com os dedos trêmulos. Naquele momento, entendi que talvez eu já estivesse sozinha há muito tempo.
No dia seguinte, Bruno apareceu com café e um olhar de quem sabia tudo. Ele sempre lembrava das datas.
— Feliz aniversário atrasado, Mari — ele disse, me abraçando de um jeito mais demorado, mais protetor do que o normal.
Eu não contei sobre a noite anterior, nem precisei. Ele percebeu cada detalhe do meu cansaço. Lívia apareceu atrás dele, com uma energia vibrante demais para uma quarta-feira comum.
— Cancelamos tudo hoje. Hoje é o Dia da Mariana.
Eu tentei recusar, balbuciar sobre o trabalho, mas eles não me deram escolha. Lívia me arrastou para um Spa discreto, com cheiro de eucalipto e luz âmbar. Deitada naquela maca, sentindo o toque das mãos da massagista, percebi o quanto minha musculatura estava rígida, como se eu estivesse em guarda há semanas.
Lívia quebrou o silêncio primeiro, sua voz suave vindo da maca ao lado.
— Ele esqueceu, não foi?
Virei o rosto para o lado oposto, sentindo o nó na garganta apertar. Ela não precisava de uma confirmação verbal.
— Homem que ama de verdade não esquece, Mari.
— Não é tão simples assim, Lívia — murmurei, tentando manter a voz firme. — O Ricardo não é um homem ruim. Ele é dedicado, ele é focado ... ele só se perde no que faz. Às vezes eu acho que ele carrega o mundo nas costas e esquece que eu também faço parte desse mundo.
— Mas você é a base, Mari. E a base está rachando enquanto ele olha para o teto — Lívia rebateu, sem pressa.
— Eu estou cansada, Lívia. Muito cansada — confessei, fechando os olhos. — Não é que eu queira que ele seja perfeito, eu só queria que ele estivesse presente. Sabe o que é preparar um jantar e ver a comida esfriar enquanto você olha para o celular esperando um sinal de vida? Não é raiva, é uma solidão que dói no osso. Eu olho para o lado na cama e ele está lá, fisicamente, mas a cabeça dele está em um relatório, em um suspeito, ou talvez naquela piranha que resolveu voltar para …
Respirei fundo, sentindo o cheiro de eucalipto se misturar com o gosto amargo das minhas palavras.
— Ontem, quando ele chegou ... ele nem me viu. Eu estava lá, com o bolo, com a expectativa, e eu era invisível. Eu não sou desrespeitada com gritos ou grosserias, Lívia. Eu sou desrespeitada com a ausência. É como se eu fosse um acessório da casa, algo que ele sabe que está lá, então não precisa cuidar. Eu me sinto ... descartável. Como se qualquer pessoa pudesse estar no meu lugar e ele nem notaria, desde que a rotina dele não mudasse.
— E você vai aceitar ser "figurante" na vida dele até quando? — Lívia perguntou, o tom agora mais sério.
— Eu não sei. Eu olho para as fotos do nosso início e não reconheço aquele casal. O Ricardo nunca foi atento, mas antes ele me enxergava. Agora parece que eu sou apenas a pessoa que mantém a casa em ordem para ele poder ser o grande investigador. Talvez eu devesse só me separar. Pedir o divórcio e colocar um ponto final nisso tudo.
Pronunciar a palavra “divórcio” em voz alta me fez tremer. Lívia sentou-se na beira da maca, me encarando.
— Separar? — ela repetiu, com um desdém cuidadoso. — E sair dessa história como? Como a esposa traída, a coitadinha que foi trocada e engoliu a humilhação em seco enquanto ele continua achando que não fez nada demais?
Respirei fundo, sentindo o ar pesado.
— Pelo menos eu teria minha dignidade. Eu sairia antes de me transformar em alguém que eu não conheço, alguém amarga.
Ela inclinou a cabeça, um sorriso de canto surgindo.
— Dignidade não é sair correndo quando te chutam, Mari. Dignidade é sair por cima. É fazê-lo entender que você é um prêmio, não um hábito. Se você sair agora, ele vai dizer que você foi instável, que não aguentou a pressão do trabalho dele. Ele precisa sentir o que está perdendo antes de você decidir se vai embora ou não.
Abri os olhos, confusa.
— Ele precisa sentir — ela disparou, com uma clareza cortante.
— Sentir o quê?
— Que você não é algo garantido. Que você não é uma posse dele, um móvel da casa. Que você não é a mulher que vai ficar na sala esperando para sempre enquanto ele se diverte ou trabalha. Você precisa dar a ele o mesmo silêncio que ele te dá, mas com um brilho que ele não consiga ignorar.
Ela se aproximou mais, o olhar intenso.
— Você acha mesmo que o divórcio vai ensinar algo a ele agora? Ele vai virar a vítima para os amigos, vai dizer que você foi impulsiva, que exagerou. Ele nunca vai entender o peso do que fez. Ele precisa ser confrontado com a possibilidade de outra vida. Uma vida onde você brilha sem ele.
Ela tocou minha mão com firmeza.
— Não. Um homem como o Ricardo precisa de uma lição bem dada. Não por maldade, Mari, mas por justiça com você mesma.
Aquela palavra de novo: lição. Mas agora ela não soava como uma vingança agressiva, soava como um grito de sobrevivência. Antes que eu pudesse formular uma defesa, ela puxou um envelope da bolsa.
— Você merece muito mais do que passar seu aniversário sozinha, olhando para a parede.
Quando abri o envelope, achei que fosse apenas um ingresso comum. Mas eram dois. Levantei os olhos para ela.
— Dois?
Lívia sorriu, com a expressão de quem já previu cada movimento.
— Eu comprei quatro. Dois são seus.
— E os outros dois?
— Meu e do Bruno, é claro. Nós vamos juntos.
Ela cruzou as pernas, relaxada.
— Mas esse segundo ingresso aí na sua mão … ele é para você testar uma coisa fundamental.
Franzi a testa.
— Testar?
— Testar se ele é capaz de te colocar como prioridade uma única vez.
Fiquei olhando para o papel rígido nas minhas mãos.
— Não é uma armadilha, Mari — ela continuou. — É uma oportunidade. Você faz o convite. Ele toma a decisão. O resto é com ele.
Respirei fundo, a coragem vindo de um lugar de pura dor, e mandei a mensagem:
“Amor, hoje tem show do Kid Abelha. A Lívia conseguiu ingressos. Um é seu. Vamos?”.
Ele demorou quase dez minutos para responder, o que me fez contar cada batida do coração.
“Que horas?”.
Senti uma pontada de esperança. Digitei rápido:
“20hs”.
Mais alguns minutos de silêncio torturante.
“Estou no meio de uma investigação importante, Mari. Pode ser que eu não consiga chegar a tempo”.
Eu não desisti. Digitei com os dedos trêmulos:
“É muito importante para mim, Ricardo”.
Dessa vez, ele ligou.
— Mari … — a voz dele estava baixa, mas carregada daquela paciência técnica. — Eu queria muito ir, de verdade. Mas o alvo se moveu, ele está em uma posição privilegiada. Se eu sair agora, jogo fora semanas de trabalho duro.
Fiquei em silêncio absoluto. Ele suspirou do outro lado da linha.
— Eu sei que vacilei ontem. Eu sei. Me perdoa por ter esquecido o seu aniversário, de verdade. Meus dias estão uma loucura completa.
Fechei os olhos, sentindo a esperança escorrer pelos dedos. Ele continuou:
— Eu prometo que vou compensar. Assim que essa fase passar, eu vou compensar tudo o que eu te devo.
Compensar. Como se o meu sentimento fosse uma fatura em atraso, passível de negociação.
— Tá bom — eu disse, a voz seca.
Desligamos. Fiquei encarando o segundo ingresso, sentindo o peso daquela ausência confirmada. Ainda assim, naquela noite, eu me arrumei com um esmero que eu não praticava há tempos. Coloquei o vestido preto, deixei o cabelo solto do jeito que ele costumava elogiar. E esperei.
19h30 … 19h47 … 20h. O ponteiro do relógio parecia zombar da minha expectativa. Às 20h02, o celular vibrou sobre a mesa.
“Não vou conseguir sair. O suspeito acabou de agir. Preciso ir agora”.
Eu olhei para o espelho. Eu estava pronta. Estava bonita. Estava lá para ele. Mas ele simplesmente não viria. O mais cruel de tudo não era o abandono, era o carinho que ele fingia ter. Ele sempre parecia tão sincero em suas desculpas que me deixava sem chão para brigar.
Eu ainda não tinha perdoado a traição, ainda queria respostas, mas só se houvesse um arrependimento verdadeiro por parte dele. O medo de confrontá-lo, o medo da solidão, o pior temor de uma órfã, começava a brigar com meu orgulho. Ricardo continuava a falhar miseravelmente comigo.
Peguei minha bolsa, apaguei as luzes da sala e mandei a mensagem para a Lívia: “Estou indo”.
O estacionamento já estava saturado quando chegamos, um formigueiro de luzes e expectativas. Assim que o motor desligou, Bruno deu a volta e abriu a porta para mim e, só depois, para Lívia. Não foi um gesto coreografado; foi natural, com aquela elegância silenciosa que ele carregava desde a faculdade. Um gesto antigo, automático, que me fez sentir, por um breve segundo, que o tempo não tinha passado.
Lívia desceu logo em seguida, linda demais para passar despercebida. Ela usava um vestido leve que parecia flutuar a cada passo, um sorriso aberto e aquela segurança magnética de quem não pede permissão para existir. Ela caminhava entre nós como se o mundo fosse o seu quintal.
Lá dentro, o ar estava carregado de perfume e eletricidade. As luzes azuis e rosas dançavam sobre a multidão, e quando os primeiros acordes do sintetizador ecoaram, o público explodiu em um só grito.
“Meu coração disparou Quando você me olhou Me apaixonei…”.
“Fixação”. Senti um arrepio subir pelos braços, não pelo frio, mas pela lembrança da letra. Bruno se posicionou logo atrás de mim, protegendo meu espaço no meio do empurra-empurra da pista. Ele não me tocava deliberadamente, mas eu sentia o calor do corpo dele.
Lívia, à nossa frente, entregou-se ao ritmo. Ela girou, rindo, e puxou Bruno pela cintura. Eles se beijaram ali mesmo, sem pudores, sem a necessidade de esconderijos que o meu casamento agora exigia. Era um mundo diferente. Não havia vergonha naquela entrega. E quando a música cresceu, percebi algo que me desestabilizou: eles se beijavam como quem escolhe, a cada segundo, estar exatamente ali.
A música mudou para um ritmo mais cadenciado, as luzes ficaram avermelhadas.
“Eu não sei dizer O que quer dizer O que eu sinto por você...”
“No Seu Lugar”. Pouco depois, dois amigos deles surgiram na multidão. A dinâmica do grupo era fluida, quase hipnótica. Abraços longos, risadas abafadas pelo som, toques que duravam um segundo a mais do que o socialmente esperado. Vi quando Lívia se aproximou de uma mulher no canto da pista. Elas conversaram por um momento e, com a mesma naturalidade com que se pede um copo d'água, Lívia a beijou.
Bruno observava a cena com um sorriso discreto, a mão apoiada casualmente no ombro de outro amigo. Ninguém parecia ameaçado. Ninguém competia. Era uma engrenagem perfeita de afetos sem donos.
Eu observava aquilo tudo, sentindo um misto de vertigem e fascínio, quando um homem se aproximou de mim, os olhos fixos nos meus.
— Você dança? — ele perguntou, a voz rouca perto do meu ouvido.
Eu sorri, um gesto automático de defesa, e levantei a mão esquerda, deixando a luz do palco refletir na aliança.
— Sou casada.
Ele levantou as mãos em sinal de rendição, mas não desviou o olhar.
— Ele deve ser um cara de muita sorte — ele disse, com uma sinceridade que me golpeou.
— Obrigada — respondi, mas a palavra "sorte" ficou ecoando, batendo nas paredes da minha mente. Onde estava essa sorte agora? Onde estava o dono do par dessa aliança enquanto eu era vista por estranhos e protegida por amigos?
“Nada sei dessa vida Vivo sem saber Só sei que eu te amo E isso é tudo…”
“Nada Sei (Apneia)”. Fechei os olhos por um segundo. Nada sei dessa vida. Era exatamente assim que eu me sentia: submersa, tentando respirar em um mar de incertezas. Quando abri os olhos, Bruno estava me olhando. Não era um desejo vulgar ou explícito; era um olhar de quem guardava segredos nossos.
A música ficou mais alta, a batida mais forte. Para falar algo no ouvido dele, eu me aproximei. O espaço era curto e, sem perceber — ou talvez querendo perceber —, meu corpo encostou no dele. O braço dele roçou no meu, pele com pele. Minha respiração mudou instantaneamente. Ele não se afastou. Eu também não. Foi um contato estático, inocente em teoria, mas carregado de uma voltagem que vinha de anos de silêncio.
Foi Lívia quem notou. Ela surgiu ao nosso lado, os olhos brilhando como quem entende um código antigo que eu pensava ter deletado.
— Vai falar que não estava com saudade, Mari? — ela brincou, tocando meu ombro, os dedos descendo de leve pelas minhas costas. — Você já o conhece bem ... sabe como o toque dele acalma.
O tom era leve, quase carinhoso, mas a frase era uma armadilha. Eu ri, sentindo o rosto queimar.
— Para com isso, Lívia.
Ela se inclinou, o hálito quente no meu ouvido, a voz aveludada:
— Relaxa, Mari. Saudade não é traição. É só a memória do corpo reclamando o que já foi dele.
Ela piscou para mim e voltou para o centro da pista. Dessa vez, ela puxou a mesma mulher de antes e a beijou de novo, mais demorado, sob o estroboscópio que fragmentava o movimento. Algo dentro de mim reagiu com força. Era um misto desejo — eu não era inocente, tive minha fase lésbica empoderada na faculdade. — e inveja. Inveja daquela liberdade absoluta. Era a percepção de que eu estava acorrentada a um homem que não me colocava em primeiro lugar.
Bruno percebeu minha inquietação.
— Você está bem? — ele perguntou, a voz grave vibrando perto do meu pescoço.
— Estou — menti. Eu não tinha certeza de nada.
Ao longo da noite, outros dois homens tentaram se aproximar. Recusei todos. Mostrei a aliança como se fosse um escudo, mas o escudo estava ficando pesado, sufocante. Ao mostrar aquele símbolo, eu mesmo me rotulava como a "esposa do Ricardo". A que esperava na penumbra. Eu não era a Mariana. E o fato de o Bruno estar ali, testemunhando que outros me queriam enquanto o meu marido me negligenciava, era a manipulação mais refinada que ele poderia exercer.
Mais uma música começou, um hino que todos sabiam de cor.
“Eu tive um sonho Que você estava aqui Eu tive um sonho Que você gostava de mim…”
“Como Eu Quero”. As luzes brancas varreram a plateia. Eu não sabia se estava vivendo um sonho ou finalmente acordando de um pesadelo. Bruno segurou minha mão para me puxar mais para perto do palco, onde o som era mais limpo. O movimento foi rápido, mas ele não soltou minha mão de imediato. Ele entrelaçou os dedos nos meus, uma pressão firme, segura.
Eu também não puxei.
Lívia ria com alguém logo atrás de nós, e por um momento, a imagem do Ricardo na campana, no escuro, com a Larissa, pareceu uma realidade distante e sem cor. Pela primeira vez em semanas, eu não estava esperando por ninguém. Eu não estava olhando para o celular. Eu estava ali. Presente. Viva. E pela forma como a mão do Bruno apertava a minha, eu sabia que ele não ia me deixar esquecer daquilo.
O show estava no ápice, o som era uma massa física que pulsava contra o peito. A mistura do álcool com a adrenalina da noite tinha deixado tudo mais nítido e, ao mesmo tempo, mais nublado. Lívia se aproximou de mim, os olhos brilhando com uma intensidade que eu nunca tinha visto de perto. Ela não pediu licença. Segurou meu rosto com as duas mãos, e antes que eu pudesse processar o movimento, ela me beijou.
Não foi um selinho de despedida ou uma brincadeira de pista. Foi um beijo direto, profundo, que cheirava a gim e a uma liberdade que me assustava. Eu travei. Meus olhos ficaram abertos por um segundo, o coração batendo forte contra as costelas, mas eu não recuei. Havia algo naquele contato — um reconhecimento, uma validação — que minhas defesas, já esburacadas pela negligência do Ricardo, não conseguiram barrar.
Ela se afastou apenas o suficiente para que nossas testas continuassem coladas. A voz dela veio baixa, cortando o barulho da música diretamente para a minha consciência:
— Eu sei que você está cansada, Mari. Sexualmente frustrada, se sentindo invisível nesse papel de esposa perfeita ... — Ela deu um sorriso de lado, os polegares acariciando minhas bochechas. — Nós estamos aqui. Se o problema é medo, se é falta de confiança, a gente te ajuda a devolver o favor. O Ricardo merece um belo par de chifres pelo que está fazendo com você ...
Eu perdi o ar. A palavra "chifres", dita com tanta naturalidade, soou como um trovão. Eu não sabia o que dizer, as palavras tropeçavam na minha língua, presas entre a moral que eu cultivava e o desejo de revidar a dor que eu sentia.
Foi então que a mão de Bruno pousou suavemente no ombro dela, afastando-a de leve, mas mantendo-se perto de mim.
— Calma aí, apressada — Bruno interrompeu, a voz calma, agindo como o mediador sensato. — A Mari não é como nós, Lívia. Não força a barra.
Ele me olhou nos olhos, um olhar carregado de uma empatia que parecia puramente altruísta, embora eu agora saiba que era o golpe final da sua engenharia.
— Ela ainda está presa a sentimentos românticos, à moral, ao que é tradicional ... — Bruno continuou, como se estivesse me defendendo de um ataque. — Não é justo a gente confundir ainda mais a cabeça dela agora. Ela está sofrendo, não precisa de mais caos.
Aquelas palavras deveriam ter me confortado, mas elas surtiram o efeito contrário. Ao me chamar de "tradicional", de "presa ao romance", ele tocou em uma ferida de orgulho. Eu não queria ser a mulher patética que esperava em casa com um bolo que perdeu o significado.
Aquele beijo da Lívia, ainda queimando nos meus lábios, e a proximidade protetora do Bruno, acenderam uma faísca que eu achava que tinha morrido junto com os meus vinte anos. A Mariana da faculdade — aquela que não tinha medo de aventuras, que era a primeira a subir no palco, que era a farrista da turma — começou a gritar dentro de mim, querendo rasgar a pele da esposa dedicada que eu me tornei.
— Eu não estou confusa — eu disse, a voz saindo mais firme do que eu esperava, embora por dentro tudo estivesse em colapso.
Bruno apenas sorriu, aquele sorriso de quem sabe exatamente o que plantou.
— Eu sei que não está, Mari. Mas vamos com calma. O show está acabando.
Bruno terminou de falar, e o silêncio protetor que ele tentou criar ao meu redor pareceu, de repente, uma cela. "Moral", "tradicional", "sentimentos românticos" ... aquelas palavras soaram como insultos. Eles estavam me tratando como uma boneca de porcelana que o Ricardo já tinha quebrado e colado mil vezes.
Eu não era aquela mulher. Ou, pelo menos, não queria mais ser.
Olhei para a Lívia. Ela ainda me encarava com aquele desafio nos olhos, a verdade nua e crua sobre a minha frustração exposta entre nós. Senti um calor que não vinha do álcool, mas de uma fúria acumulada, um asco profundo por cada noite que passei esperando um homem que preferia o fantasma da Larissa ao meu corpo vivo.
Antes que o Bruno pudesse dizer mais uma palavra de "bom senso", eu dei o passo que mudaria tudo. Segurei o pescoço da Lívia e a puxei para um novo beijo.
Não houve hesitação ou susto da minha parte. Foi um beijo faminto, agressivo, carregado de todo o desprezo que eu sentia pela “Mariana esposa dedicada" que eu tinha interpretado até ali. Eu queria apagar o gosto da negligência do Ricardo com o gosto do perigo que a Lívia oferecia. O mundo, ao redor, sumiu. Só existia o toque, o hálito dela e a sensação de que eu estava, finalmente, destruindo a redoma de vidro onde fui colocada.
Quando nos separamos, minhas mãos ainda tremiam, mas minha voz estava firme como nunca. Olhei para os dois, sentindo a adrenalina percorrer cada veia.
— Vocês têm razão — eu disse, o tom cortante, sem um pingo de dúvida. — O Ricardo merece mesmo um belo par de chifres. Ele merece o troco.
A revolta era visceral. A Mariana carente, que chorava por bolos de aniversário esquecidos e velas que não foram sopradas, morreu ali mesmo, no meio daquela pista de dança. Eu não queria mais explicações, eu não queria mais "compensações". Eu queria o que o Ricardo tinha me tirado: a sensação de que eu ainda podia incendiar alguém.
Lívia sorriu, um sorriso de triunfo absoluto, e olhou para Bruno. Ele não disse nada, mas o brilho nos olhos dele confirmava que o "teatro" tinha chegado ao ato final que ele tanto planejou. Ele estendeu a mão para mim, não como quem protege uma vítima, mas como quem recebe uma aliada.
— Então vamos sair daqui — Bruno disse, a voz grave, carregada de uma promessa implícita.
Saímos do show sem olhar para trás. No carro, o silêncio não era mais de desconforto, mas de uma antecipação elétrica que tornava o ar pesado. Eu olhava para as luzes da cidade passando pela janela e sentia que cada quilômetro me afastava mais daquela versão de mim que aceitava migalhas.
Quando o carro finalmente entrou na garagem do prédio do Bruno, eu soube que não havia mais volta. O elevador subiu em um silêncio absoluto, interrompido apenas pelo som da nossa respiração. Bruno abriu a porta do apartamento e deu passagem.
Entrei, ouvindo o clique da tranca sendo fechada atrás de mim. O jogo de detetive do Ricardo tinha acabado de encontrar o seu ponto cego mais perigoso. E eu estava pronta para queimar no escuro.
Continua…
{Nota do autor}: Esse arco da série, com a visão da Mariana, foi dividido em duas partes.
