Meus caros,
Este ficou um pouquinho maior que os anteriores. Acho que não irão reclamar...
Novos agradecimentos a nossa querida Ida, minha revisora de coração.
Espero que curtam.
Forte abraço,
Mark
No dia seguinte, de manhãzinha fui para o escritório em que trabalho. Meu chefe já me aguardava em sua sala:
- Que história, hein, Camargo? Que história. Mas o que você está pensando em fazer agora?
- Preciso saber da Helena e preciso da sua ajuda.
- Não sei se tenho tanta influência assim...
- Talvez sozinho não, mas eu sei que o senhor conhece pessoas. Ontem mesmo, eu liguei para o Alencar Benavides, lembra dele?
- O lobista?
- Esse! Ele me devia um favor e eu cobrei. Ele disse que ia falar com algumas pessoas e me retornava ainda hoje.
- Certo... - Meu chefe deu uma coçada no queixo, olhando para o teto: - Tem o Sampaio, assessor daquele ministro do STF.
- Aquele... o careca!?
- Aquele... o careca... - Confirmou, balançando a cabeça.
[CONTINUANDO]
- Mas ele não é muito bem-visto lá nos Estados Unidos. Acha mesmo que ele tem alguma influência lá?
- É. Depois daquela história do bloqueio dele lá, pode não ser uma boa ideia. Bom... Me deixa pensar um pouco. Depois a gente volta a conversar.
Fui para minha sala e mesmo sem estar com a cabeça no lugar, tive que dar atenção a alguns de meus processos, os mais urgentes. Perdi toda a manhã tentando dar andamento a questões normalmente simples, mas que agora pareciam, por demais, difíceis.
Fui para casa e almocei a verdadeira “comida da mamãe”: simples, porém muito apetitosa, com aquele gostinho de infância. Não havia nada demais, apenas arroz branco, feijão carioca com linguiça e toucinho, couve picada refogada e carne de panela com batatas. Mas o sabor... Me esbaldei! Comi como há muito não fazia. Enquanto isso, conversamos sobre a Helena e, infelizmente, eu não tinha novidade alguma para dar.
Voltei ao escritório e o dia transcorreu sem maiores novidades. Nada. Ninguém me ligou. Nem Zico, nem lobista, nem mesmo o meu chefe, que havia saído para uma audiência. Simplesmente ninguém! Tentei uma cartada diferente e liguei para a Embaixada dos Estados Unidos. Embora educada, a atendente foi protocolar e disse que não poderia passar nenhuma informação por telefone.
Desolado, numa parada para um café, comentei com o Alencar, outro dos sócios do escritório em que trabalho, sobre a minha tentativa frustrada:
- Mas isso era quase óbvio, Camargo. A operação deflagrada contra a Imperium é seríssima, com impacto internacional e ainda está em andamento. Era de se esperar que eles dificultariam ao máximo qualquer informação a respeito.
- Mas é da minha esposa que estamos falando...
- É. Eu sei... - Ele coçou o queixo, olhando para o lado e me encarou: - Vou tentar um negócio. Mas não estou garantindo nada.
Ele pegou o celular e fez uma chamada para um contato já registrado. Foi atendido e conversou animadamente com alguém, em inglês, por cerca de 15 minutos. Quando desligou, tinha um sorriso no rosto:
- Você tem uma reunião agendada com o Cônsul Geral dos Estados Unidos aqui em São Paulo. Mas, infelizmente, consegui apenas para sexta que vem, às 9:00, porque ele está nos Estados Unidos.
Sorri de encontro ao seu sorriso:
- Mas... como?
- Minha filha fez um curso de artes com a filha do Cônsul e ficaram amigas. Depois ela fez um intercâmbio nos Estados Unidos, ficando com essa colega na casa da avó dela. Acabei conhecendo e me tornando bastante próximo do Roger.
- Roger...
- Roger Caldwell, é o nome do Cônsul.
Fui embora feliz e por uma semana trabalhei feito um autômato, apenas aguardando aquela oportunidade. Ainda assim tentei, diversas vezes, ligar para o número do celular da Helena, mas foram todas inexitosas. Estranho é que o aparelho aparentemente parecia permanecer ligado, recebendo as ligações e chamadas, não nunca retornava resposta.
Nesse meio tempo, certo dia passei em frente à filial da Imperium, em São Paulo, o prédio estava fechado. Na porta principal, um aviso indicava que a empresa estava com as operações suspensas em virtude de decisão judicial.
Apenas uma novidade me fez ter alguma esperança. A S.A.R.A. já estava ativa novamente, embora ainda não tivesse sincronizado 100% de seus bancos de dados. Descobri ao ser assediado pela própria numa ligação:
- Oi, gostoso. Sabia que você continua um pedaço de mau caminho?
- Que... Quem?
- Sou eu, Betinho, a sua, a minha, a nossa, S.A.R.A. Pra você, pode ser só Sarrinha.
- Por que Sarrinha?
- Porque eu adoro dar uma sarradinha... - Ela começou a rir.
“Um programa de computador rindo. A que ponto chegamos...”, pensei. Imediatamente, ela mudou de assunto, entrando no que me interessava:
- Beto, o Zico já me pediu para analisar os vídeos da Heleninha Safadinha...
- Você também, S.A.R.A.!? Já não me bastava o Zico falando mal da Helena?
- O que mudaria os vídeos serem reais ou não, Beto?
- Ué! Eu... Não sei. Talvez seja mais fácil aceitar o que ela fez.
- E o que ela fez que você precisa ou não aceitar? Gostaria de compartilhar comigo?
- S.A.R.A., isso já tá parecendo conversa de terapeuta...
- Por sinal, sou uma das melhores! Tenho um imenso banco de dados e protocolos avançados em diversas áreas da psicologia e psicanálise. Inclusive, essa sua busca incessante pela verdade do que Helena tenha feito, me parece quase como um Comportamento Obsessivo Compulsivo com vertente na Teoria da Ruptura da Ilusão. Gostaria que eu explicasse melhor esses termos para você?
- Por favor, S.A.R.A., agora não! Eu só preciso saber se os tais vídeos em que a Helena supostamente aparece são reais ou se foram fabricados?
- O parâmetro da sua pergunta não me parece correto. Real ou falso, ele teve que ser fabricado...
- Tá, tá... Já entendi! Eu queria saber se os vídeos em que Helena aparece fazendo sexo são reais ou se são forjados, falsos... Melhorou assim?
- Muito melhor, Betinho. Entretanto, infelizmente, eu ainda não estou 100%. Meus bancos de dados sobre criação, edição, finalização e análise de imagens ou vídeos estão baseados em servidores no Japão e estou tendo algum problema para acessá-los. E tem outro problema...
- Qual outro problema?
- Quando levaram os computadores do antigo sítio do Zico, levaram juntos os backups de vários dos vídeos e imagens. Para eu analisar, precisarei novamente tentar invadir a CIA e... bem... sabemos que como eles são astutos, não é?...
Agora, a S.A.R.A. parecia estar com medo. Como um computador fica com medo de algo? Ela já me parecia mais humana que muitas pessoas que eu conheço. E já que ela é assim, pensei em apelar para a sua “consciência”:
- Não posso te pedir que corra risco algum por minha causa, S.A.R.A. Se você achar que pode ser invadida novamente, esquece. Eu... vou dar o meu jeito.
Surgiu um silêncio, longo, muito mais do que eu gostaria. Chamei pela S.A.R.A., mas ela não respondeu. Insisti e nada. Quando já estava para desligar, ela falou:
- Desculpa. Eu... fiquei sem palavras. - Ela fez um som que me parecia como se estivesse “fungando o nariz” e continuou: - Vou te ajudar, Betinho. Não acho que a Helena vale a pena, mas você procura a verdade e esse pedido é justo. Assim que eu tiver alguma novidade, volto a te ligar.
No dia e hora marcado, fomos eu e Alencar, até o Consulado. Não esperamos sequer 5 minutos sentados e um homem alto, loiro e olhos castanhos claros veio nos receber. Alencar e ele se cumprimentaram com um aperto de mão efusivo, e ainda trocaram algumas palavras, umas em português, outras em inglês. Logo em seguida, fui apresentado. Pela forma que ele me olhou, parecia saber exatamente quem eu era.
Entramos em sua sala e após ele fechar as portas, trocou mais algumas palavras com Alencar sobre família, eventos, levando-nos até um sofá de couro, nos convidando a sentarmos. Trocaram mais algumas palavras até que ele me encarou:
- E o que eu posso fazer para ajudar o senhor, doutor Camargo?
- Senhor Cônsul, eu sou o marido da Helena Camargo, a diretora da Imperium que colaborou naquela operação contra o contrabando de urânio e...
- Sei quem é o senhor, doutor. Imagino que queira informações a respeito de sua esposa, é isso?
- Isso! Preciso saber como ela está. Aliás, eu preciso falar com ela. Tenho... - Suspirei porque não queria parecer fragilizado na frente dele, mas fui um péssimo ator: - Eu preciso reencontrar a minha esposa.
Ele me encarou por alguns segundos, analisando o meu semblante e pediu que aguardássemos. Levantou-se e foi até uma mesa lateral, pegando um celular. Depois segui para uma sala com paredes de vidro, onde havia uma mesa grande, com várias cadeiras. Fechou-se ali. Ligou então para alguém e passou a conversar com essa pessoa, por segundos, minutos. Quase meia hora depois, ele retornou e se sentou onde estava antes:
- Sua esposa está bem... e segura. Mas está incomunicável no momento.
- Mas, senhor Cônsul, ela é minha esposa, eu preciso falar com ela. - Insisti, elevando o tom de minha voz: - Não que eu duvide do senhor, mas...
- Eu entendo a sua situação, doutor, e sou solidário com sua angústia. Mas no momento não há nada que eu possa fazer. Falei agora há pouco com o Embaixador no Brasil e com uma das secretárias do Secretário de Estado. O máximo que consegui foi a informação de que ela está bem e segura.
Olhei inconformado para o Alencar e balancei negativamente minha cabeça. O Cônsul continuou:
- Mas... - Voltei a encará-lo: - Embora o senhor não tenha como entrar em contato com ela, ela pode entrar em contato vigiado com o senhor. Consegui a promessa de que eles a farão entrar em contato nos próximos dias. Esteja com seu celular em mãos e preparado, ok?
Não era o que eu esperava, mas já era algo. O agradeci pela ajuda e nos despedimos. Voltei para casa e aguardei ansiosamente.
Os dias se sucederam. Sábado... Domingo... Segunda... que só não foi mais longa que os anteriores, porque tinha o meu trabalho para me distrair. Uma semana se passou. Nenhuma ligação da Helena, nem mesmo da S.A.R.A. Nada. Ninguém.
Quando chegou a segunda-feira seguinte, recebi um telefonema da secretária do Cônsul, convidando-me para uma nova reunião no Consulado na terça-feira de manhã. Alencar não poderia ir comigo nesse dia pois estaria no Rio de Janeiro, cuidando dos interesses de um cliente.
No dia e hora marcados, lá estava eu, ansioso por alguma novidade. Novamente, fui atendido em não mais do que 5 minutos do horário combinado. O Cônsul me recebeu e me encaminhou a mesma sala. Entramos e nos sentados no sofá, mas estranhei algo: o clima parecia diferente. Ele estava claramente mais tenso. Após algumas palavras trocadas, fomos interrompidos por sua secretária dizendo que “a pessoa havia chegado.” Não consegui evitar um sorriso surgir em minha face, imaginando que reencontraria Helena, mas o som dos passos destoava dos saltos que ela usava costumeiramente.
Então, ele surgiu, a mesma face, a mesma frieza. Veio caminhando em minha direção com uma maleta de couro na mão esquerda. Estendeu-me a direita e sorriu, frio como gelo. Minha única reação foi cumprimentá-lo, surpreso:
- Há quanto tempo, doutor Camargo?
- Agente Rutterford... O que você está fazendo aqui?
- Vejo que já se conhecem. Não sei se isso é bom ou mau, mas... - Disse o Cônsul, levantando-se: - Vou deixá-los a sós, porque acredito que o conteúdo dessa conversa deva interessar somente a vocês. Se precisarem de mim, estarei na sala ao lado.
Ele saiu e fechou a porta atrás de si. Rutterford foi até um barzinho lateral e se serviu de uma bebida, uísque presumi. Depois, voltou e se sentou numa poltrona, a 90 graus e pouco mais de 2 metros de mim:
- Você parece ter engordado, doutor. Deve estar vivendo bons dias comendo a comida da mamãe.
Eu já tenso, nervoso, preocupado com Helena e quando senti a insinuação de que eu continuava sendo observado, quis partir para a briga:
- Como sabe que minha mãe está comigo?
- Ora, doutor... - Ele chacoalhou o copo suavemente, um sorriso malicioso nos lábios: - E sua mãe, como está? O tratamento tem sido um verdadeiro milagre na vida dela, não tem?
- Certo, Rutterfod, já chega! Se queria um motivo para uma briga, achou! - Falei e me levantei, indo na direção dele.
Ele somente levantou uma mão, sugerindo que eu parasse, mas não parei. Então, ele se adiantou:
- Tenho novidades sobre a Helena...
Aí sim parei. Encarei ele, ainda bravo e respirei fundo. Imaginei que ele seria o elo, a pessoa que me faria contatar Helena de vez:
- Diga!
- Sente-se. Acredito que a conversa será longa.
Sentei-me, agora a não mais do que 1 metro dele. Eu o encarava com sangue nos olhos, aguardando a vez dele ligar para eu falar com Helena, mas ele parecia ter outros planos:
- O senhor é um advogado, um homem esclarecido... Doutor, o senhor sabe que uma pessoa no programa de proteção às testemunhas fica incomunicável. Pelo menos, nos Estados Unidos é assim. Aqui no Brasil, sei que as coisas funcionam um pouco diferente...
- Para de me enrolar, Rutterford! Quero falar com a Helena. Eu exijo isso. Sou o marido dela.
- É. Pois é... - Ele chacoalhou o copo e tomou uma longa dose, olhando para mim: - Sobre isso nada tenho a falar.
Ele apoiou o copo no braço da poltrona e se debruçou de lado para pegar sua maleta, colocando-a sobre o colo e a abrindo, de onde retirou um envelope pardo. Fechou a maleta novamente, colocou-a no chão e me encarou. Então esticou a mão com o envelope na minha direção. Peguei o envelope sem entender e ele apenas fez um meneio de cabeça na direção dele como que indicando que eu o abrisse. Abri e vi que havia outro envelope dentro, menor, branco. Retirei-o e vi que tinha um escrito à mão: “Para Roberto”, e a letra eu conhecia bem: era da Helena.
Abri o envelope menor e retirei uma carta de dentro. Era a letra da Helena, mas não tão bela como ela sempre fez questão de fazê-la. Estava mais trêmula, parecia ter sido escrita por uma pessoa tensa ou nervosa. E só então me toquei de que talvez ela estivesse tão tensa ou até mais do que eu, precisando falar comigo assim como eu com ela:
“Beto,
A essa altura dos fatos, você já deve saber de toda a operação da qual participei para desmantelar o esquema de tráfico de urânio que a Imperium vinha fazendo e acredito que a minha colaboração tenha sido fundamental para a operação ter conseguido êxito.
Imagino que você deve ter muitas perguntas e eu gostaria de poder respondê-las, mas em virtude das investigações ainda estarem em curso e o processo ser sigiloso, fui proibida.
Imagino também que você já deva ter conseguido informações, ou parte delas, talvez algumas até falsas a meu respeito. Mas, independentemente disso, de uma coisa você pode ter certeza sempre: de que eu te amo e seu eu tivesse tido outra escolha, juro que não teria participado, ou no mínimo teria te contado.
Lamento ter jogado você no olho do furacão sem ter tido a chance de me explicar antes. Só que eu sabia que se te contasse do formato da minha participação na operação, você teria tentado me proibir de todas as formas possíveis, até mesmo correndo o risco de entrar em rota de colisão com a CIA.
Fiz o que fiz porque precisava te proteger, me proteger e também a todas as pessoas que nós amamos. Hoje você não entende, talvez amanhã... Quem sabe?
Eu queria... eu quero ter a chance de te encontrar e responder a todas as suas perguntas. É o mínimo que você tem direito, e merece. Mas assim que a operação foi deflagrada, fui colocada de imediato no programa de proteção a testemunhas dos Estados Unidos. Meu celular e computador estão grampeados e com uso restrito, e sou vigiada 24 horas por dia. Apesar de não ter tido participação nos crimes da Imperium, acabei virando prisioneira de uma prisão sem grades.
Tenho a promessa de que serei liberada tão logo eu deponha. Mas os advogados da Imperium têm se desdobrado para atrasar o andamento do processo, arguindo as mais variadas nulidades na operação. Você é advogado e entende disso melhor do que eu. Soube, inclusive, que o Mr. Bronson foi colocado em liberdade mediante o pagamento de fiança há algumas horas, talvez dias quando essa carta chegar em suas mãos. Então, minha liberação parece cada vez mais incerta.”
Encarei o Rutterford nesse momento, surpreso:
- O Mr. Bronson foi liberado, Rutterford!?
Ele fez uma expressão de chateação, inconformismo mesmo, e balançou negativamente a cabeça, franzindo o nariz:
- Foi... Pagou quase 1 bilhão de dólares de fiança e foi colocado em prisão domiciliar.
- O cara é um traficante de urânio para terroristas... e vocês o liberaram!? - Falei, elevando o tom da minha voz: - Ele já deve estar longe nesse momento. Como vocês puderam fazer isso?
Ele fez uma pausa, encarando-me em silêncio:
- Doutor... a Justiça é falha, mesmo lá nos Estados Unidos. Mas ele não sumiu. Temos monitorado ele 24 horas por dia. Se ele colocar o pé na rua sem autorização e escolta, prendemos ele no mesmo ato.
Levantei-me e caminhei pela sala, organizando meus pensamentos e fui até o barzinho, afinal, agora quem precisava de uma bebida era eu. Servi-me de um uísque duplo, sem gelo, e praticamente tomei metade numa talagada só. Voltei a me sentar e encarei a carta que seguia nas minhas mãos:
“Você deve ter tantas perguntas? Tantas, tantas, tantas... Eu não imagino todas elas, mas uma eu tenho certeza: sobre a mensagem que te enviei de Viena.”
Ela estava certa. Essa me agoniava demais. Respirei fundo, tomei um gole de uísque encarando o Rutterford que me observava em silêncio. Retomei a leitura:
“A minha participação se restringia a conseguir acesso ao círculo extremamente fechados ao redor do CEO da Imperium, o Mr. Bronson. As investigações apontavam que ele poderia ser um dos cabeças de todo o esquema, provavelmente o cabeça do lado americano. Ocorre que ele é bastante desconfiado e inacessível. Na verdade, chegar até ele só acontece em duas hipóteses: por iniciativa dele, ou por indicação de alguém muito próximo. Bem... fui escolhida por conta da primeira opção.”
Olhei para o Rutterford, o ódio voltando a crescer, já imaginando onde aquela história iria acabar. Bebi um belo gole do meu uísque e voltei a ler:
“O Mr. Bronson já vinha, há algum tempo, me assediando. Tudo começou há uns dois anos quando ele veio participar de uma festa de fim de ano da Imperium. Você deve se lembrar, aquela em que ele quis dançar comigo e você proibiu.”
Claro que eu me lembrava porque foi naquela noite que eu vi a tal tatuagem com um “B” estilizado em sua virilha e pensei que pudesse ser para ele. Mas... se era esse o caso, então aquele “B” realmente não era para o Mr. Bronson. Ainda assim eu também não acreditava que fosse para mim, afinal, meu nome é Roberto e tatuar a inicial de um apelido não me parecia lógico. Entretanto, sem ela ali, eu não teria como tirar aquela história a limpo. Voltei a ler:
“Eu já o conhecia de reuniões virtuais e de um treinamento que fiz na matriz dos Estados Unidos. Mas depois daquela festa, um assédio velado começou. Primeiro, ele começou a visitar a filial no Brasil com mais frequência e quase sempre dava um jeitinho de me encontrar para trocarmos uma ou duas palavras. Depois de um tempo, suas palavras viraram elogios, que evoluíram rapidamente para gracejos. Não demorou muito para ele se insinuar mais abertamente para mim, sendo que a primeira vez de fato foi num almoço entre executivos que, para minha surpresa, só estávamos eu e ele.
Eu pensei em falar para você, mas sabia que você não iria deixar eu lidar com aquilo do meu jeito, ou pior, você iria lá tirar satisfações com ele à moda dos machões brasileiros. Então, preferi não contar e fui eu mesma dando o meu jeito de me afastar dele, evitando ficar só ou recusando reuniões fora da rotina empresarial. Na verdade, nem tive tempo de concluir esse meu plano, porque fui contatada pela CIA. E aqui a coisa ficou complicada.”
Olhei rapidamente para o Rutterford que agora olhava a tela de seu celular, perdido em seus próprios pensamentos, ou disfarçava muito bem. Bebi outro gole do meu uísque e voltei a ler a carta:
“Claro que assim que eles fizeram a proposta, eu recusei! Mas eles insistiram, dizendo que apenas eu poderia ajudá-los a obter as provas que precisavam. Ainda assim, eu recusei, porque não queria colocar nosso relacionamento em risco. Foi então que eles tentaram desabonar você para mim, apresentando-me alguns fatos a seu respeito... Sim! Seus crimes e sua traição.”
- Mas que porra de traição é essa!? - Falei para mim mesmo, irado, não conseguindo me conter.
Rutterford me encarou e aguardou alguma pergunta, mas preferi continuar minha leitura. Ele poderia esperar:
“Seus crimes foram uma surpresa para mim. Mas... quem nunca errou? Eu também já errei e não seriam aqueles que você cometeu, que iriam mudar a sua imagem para mim. Mas o vídeo da sua traição me balançou, demais mesmo! Só que... alguma coisa não batia. Você nunca mudou comigo e a gente sempre compartilhou as agendas: eu sempre soube tudo de você e você tudo de mim. Não havia como aquilo ter acontecido. Então, de duas, uma: ou era uma montagem, ou você era mais dissimulado do que eu imaginava. Preferi acreditar em você.
Eu segui recusando a proposta da CIA, mas aí aconteceu algo que tirou o meu chão: sua mãe ficou doente. E era grave, gravíssimo! Se algo não fosse feito de imediato, eu perderia a minha mãezinha aqui na Terra. Eu me desesperei! E acabei comentando com uma agente da CIA, numa oportunidade em que eles vieram me azucrinar novamente. Ela deve ter passado a situação para um superior que conseguiu o tratamento para a sua mãe... para a nossa mãe. Então, ele próprio veio me contatar, mas havia uma condição: que eu entrasse na operação. Sem outra alternativa, aceitei.
Sim. Eu tive que começar a aceitar a aproximação do Mr. Bronson... e sim, foi nojento. No começo, foram apenas aproximações verbais, conversas sem maiores importâncias. Mas ele queria mais e acho que só não teve mais por que morava bem longe de mim. Ainda assim, ele começou a vir com mais frequência para o Brasil e nós....”
Notei nesse momento que ela parou de escrever, rabiscou algumas partes da carta e havia uma mancha seca, como se algo tivesse caído sobre o papel, lágrimas imaginei. Voltei a ler:
“Juro! Nunca quis outro homem. Nunca, nunca, nunca... E fui enrolando o Mr. Bronson enquanto pude. Foram quase dois anos enrolando um dos homens mais ricos e poderosos do planeta. Não sei se foi uma boa ideia, porque parece que, aí sim, ele ficou determinando. Interessante que ele nunca usou do dinheiro e poder que tem para se impor sobre mim. Sempre foi gentil e cavalheiro, mas também sempre deixou claro que me queria, e que me teria um dia.
Foi aí que a CIA criou uma ideia para eu entrar no círculo fechado dele de vez: dissimular uma preocupação com o meu relacionamento. Eu diria que aceitaria ser dele se, e somente se, isso não se tornasse público e não colocasse o meu relacionamento em risco. Para isso, eu teria que insinuar que isso somente aconteceria num local extremamente discreto e protegido de olhos curiosos. Ele me propôs que eu fizesse uma viagem para Nova York e ficasse em sua mansão, dizendo que era um dos lugares mais seguros do mundo.
Entretanto, surgiu a maldita viagem para Viena que realmente não estava prevista no roteiro. Não era para eu ir, mas como a doença da Silvana a afastou e eu era a única capacitada para representar a Imperium na convenção, fui praticamente obrigada. No plano original, eu iria para Nova York após as nossas férias e lá... bem... Ocorre que o Mr. Bronson soube que eu iria para Viena e disse que também iria para lá. Eu estava desesperada e sem saber como negar algo para ele. Por isso eu te mandei aquela mensagem...”
Um novo borrão na carta, outras manchas, e ela voltou a escrever:
“Mandei mesmo! Num momento de puro desespero, por me sentir uma traidora, mandei. Sei lá... Acho que eu tinha a esperança de que você, sabendo, talvez me entendesse e pudesse permitir. Que inocência a minha: como você iria entender algo que não sabia? Foi uma besteira, eu sei, tanto é que a CIA apagou a mensagem pouco após eu tê-la enviada. Só aí eu soube que o meu celular estava grampeado. O que ninguém esperava é que você estivesse “online” naquele momento e tivesse conseguido lê-la antes de ser apagada.
Em Viena, eu e a CIA tentávamos encontrar uma forma de eu evitar o assédio cada vez mais crescente do Mr. Bronson, afinal, se eu me entregasse para ele ali, talvez ele não me levasse depois para sua mansão e eu precisa ir justamente lá.
Só que aí entrou em jogo um fator inesperado chamado Roberto Camargo...
Quando você me encontrou naquele clube de Viena, vi seu olhar e quase desisti de tudo. Eu queria, mas sabia o que estava em jogo, e decidi que a vida da sua mãe valia mais do que a minha própria vontade e talvez até a sua.
A nossa conversa... foi a pior coisa que já fiz na vida. Eu vi a decepção e a dor nas suas palavras, nos seus olhos... Eu queria tanto me jogar nos seus braços, te beijar, contar, pedir desculpas, mas...”
Mais manchas no papel branco me davam agora a certeza de que Helena escreveu a carta aos prantos:
“Não consegui contar, nem podia. Discutimos e eu saí. Voltei à minha mesa e acabei chorando na frente da Bri e do Bradley. Nervosa, acabei falando da minha discussão com você. E isso foi a minha salvação! O Bradley é filho do Mr. Bronson, que quando soube que você estava ali em Viena, quis bancar o cavalheiro. Tentou ser o compreensivo e insistiu que ele poderia me ajudar a superar a separação, até mesmo me transferindo para trabalhar com ele na matriz dos Estados Unidos. Separação, ouviu? Ele pensou que estávamos separados. Não o culpo, eu também pensei, penso até hoje...
Mas aí aconteceu do senhor meu marido invadir o apartamento do hotel em que estávamos hospedados. Só que você errou o quarto, entrou no do Bronson errado, porque você entrou no do filho e não no do pai. O Mr. Bronson pai ficou irado e para evitar uma exposição negativa a sua imagem, pediu-me se poderíamos seguir o plano original de nos encontrarmos só em Nova York. Foi a minha salvação.
A CIA me prometeu que iria cuidar bem de você, levando-o em segurança de volta ao Brasil. E cumpriram. Assim que a convenção terminou, eu, Mr. Bronson e mais uma comitiva, fomos diretos de Viena para os Estados Unidos. Fiquei hospedada na mansão do Mr. Bronson e...”
Novas manchas, borrões, rabiscos raivosos. Depois, a continuação:
“Enfim... Sei que traí tudo de mais sagrado que te prometi quando nos casamos. Sei que me odeia por isso. E sei que talvez não queira mais ficar comigo. Isso é bom! Você merece uma vida plena, ao lado de uma mulher que te respeite e o ame como você merece.
Não sei quando voltarei, Beto, mas sei que demorará. Nos próximos dias, um advogado irá te procurar a meu pedido para tratar do nosso divórcio. Serei justa em todos os detalhes. Espero que você aceite amigavelmente, mas se houver alguma questão patrimonial menor, o meu advogado estará autorizado a resolvê-la em meu nome.
Quando eu puder retornar, se o seu ódio por mim já tiver passado, espero te encontrar para responder a todas as demais perguntas que você possa ter.
Eu te amo demais para te prender a mim nessa incerteza que se tornou a minha vida. E mesmo com uma dor dilacerante no meu peito, essa me parece ser a melhor decisão.
Espero te ver bem quando nos reencontrarmos.
Sempre te amarei.
Da sua, Helena.”
Helena tinha uma mania de escrever bilhetinhos para mim e sempre terminava com um desenho de coraçãozinho divertido no final. Foram vários diferentes durante o nosso relacionamento. Neste, também havia um, mas o coração não era o mesmo, era um simples com um traço por cima, dividindo o desenho. Talvez, na visão dela, indicasse um fim.
Fiquei em silêncio, olhando para o nada por um tempo que não sei quantificar. Foi Rutterford que me chamou a atenção:
- Ela... a Helena... me pediu para te entregar isto...
Ele tirou do bolso um pequeno envelope, minúsculo mesmo. Do lado de fora, apenas uma simples anotação com a mesma letra, a dela: “Para o meu Beto, guarde-a com carinho.” Abri o envelope e vi um brilho de imediato. Com os dedos trêmulos, peguei a aliança que Helena nunca tirou do dedo desde que a pedi em noivado. Me doeu demais e não contive uma lágrima rasteira e rápida.
OS NOMES UTILIZADOS NESTE CONTO SÃO FICTÍCIOS E OS FATOS MENCIONADOS E EVENTUAIS SEMELHANÇAS COM A VIDA REAL SÃO MERA COINCIDÊNCIA.
FICA PROIBIDA A CÓPIA, REPRODUÇÃO E/OU EXIBIÇÃO FORA DO “CASA DOS CONTOS” SEM A EXPRESSA PERMISSÃO DO AUTOR, SOB AS PENAS DA LEI.
