Caso de polícia
Ele se inclinou na minha direção e, por um segundo que pareceu muito maior do que foi, o mundo lá fora deixou de existir.
A rua estava vazia, iluminada por um poste que piscava intermitente, e o rádio da viatura chiava baixo, como se também respirasse com dificuldade. Minha respiração estava ofegante pela adrenalina que senti misturada com tesão e medo. Eu conseguia ouvir meu próprio coração batendo contra o colete, pesado, insistente, como se quisesse me lembrar quem eu era. Mas eu não era só aquilo.
Eu era o homem sentado ao volante, farda alinhada, arma presa à cintura, aliança no dedo. Mas era também o homem que não afastou a mão dele quando ela pousou na minha coxa e subiu em direção ao meu pau ereto dentro da calça.
Não foi um gesto brusco. Não teve pressa. Foi como se ele estivesse confirmando algo que já sabia há anos. Eu poderia ter rido, feito uma piada, quebrado o clima. Poderia ter ligado o giroflex só para espantar o que estava desabrochando ali. Mas fiquei imóvel. E quando ele se aproximou mais, eu fechei os olhos, receptivo.
Não foi só desejo. Foi reconhecimento.
Quando tudo terminou — rápido demais e longo demais ao mesmo tempo — a gente ficou em silêncio. Voltamos para o banco da frente como se nada tivesse acontecido. Ajustei o retrovisor, engatei a marcha. A ronda continuou.
Mas eu já não era o mesmo homem de antes de entrar naquela rua.
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Meu nome é Ronaldo. Tenho 35 anos. Sou policial militar há dez. Casado há doze anos com Cíntia. Tenho uma filha linda de cinco anos que ainda acredita que o pai dela é invencível. Sou loiro, olhos claros, corpo forte de quem corre atrás de ocorrência e carrega equipamento pesado o dia inteiro. Nunca fui o mais definido da academia, mas sempre fui o que impõe presença. Coxas grossas, quadril firme, bunda grande, postura ereta. Sempre ouvi elogios sobre meu físico e minha aparência. Sempre soube que chamava atenção. Eu sorrio fácil. Sou engraçado. Sou o cara que organiza churrasco, que escuta os problemas dos outros e tenta ajudar, que paga a primeira rodada nos bares. Sou protetor. Sou leal.
E em casa eu sou inteiro. Eu amo muito a minha esposa Cíntia. Amo o jeito como ela me espera acordada quando chego tarde. Amo como ela passa a mão no meu cabelo curto enquanto conversamos na cama. Amo como ela é carinhosa, inteligente, madura emocionalmente, uma excelente esposa e mãe. A gente se deseja muito. Transamos quase todo dia, especialmente pela manhã. Nosso sexo nunca foi obrigação. É vivo. É quente. É verdadeiro. Há sempre o cuidado de que ambos cheguem ao orgasmo. Quando éramos só nós dois, fazíamos sexo pela casa e até no quintal, pois é cercado por um muro alto, sempre nus. Hoje em dia, transamos praticamente apenas no quarto por causa da nossa filha. Cíntia não tem reservas comigo e nem eu com ela: gostamos de experimentar posições diferentes, sensações diferentes, desde que ambos sintam prazer.
É justamente isso que me assusta, porque com ela eu nunca senti falta de nada.
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Eu conheço o John desde os 18 anos. A gente estudava junto no Ensino Médio. Eu falava demais, ele ouvia mais do que falava. Eu fazia piada, ele ria com o canto da boca. A amizade foi crescendo sem esforço, como se sempre tivesse estado ali.
Teve uma época em que eu comecei a perceber que meu cuidado com ele era maior do que deveria ser. Eu reparava quando ele ficava triste antes de qualquer outra pessoa notar. Eu me incomodava quando alguém falava mal dele e até o defendia quando precisava. Eu sentia uma coisa estranha no peito quando ele não estava por perto, uma saudade sem medida.
E eu senti ciúme. Senti quando ele começou a namorar uma garota da nossa turma. Ele vinha me contar das brigas, das reconciliações, dos planos. Eu escutava, aconselhava, fazia piada — mas voltava para casa com um peso que eu não sabia nomear. Não era inveja. Era uma sensação de perda antecipada, como se eu estivesse sendo deslocado de um lugar que nunca foi oficialmente meu. E ele percebia. Disso não tenho dúvidas.
Quando ele me contou, rindo, que perdeu a virgindade com ela. Eu ri também. Fiz comentário de amigo. Mas naquela noite eu fiquei acordado imaginando a cena, imaginando ele entregue daquele jeito a outra pessoa, e senti algo que misturava tristeza e irritação. Eu não tinha direito nenhum sobre ele. Mesmo assim, doía.
O mesmo eu percebi nele quando eu comecei a namorar, quando contei a ele sobre minha primeira vez que foi com ela... Ele me ouvia, mas no fundo dos seus olhos, por trás do sorriso, eu conseguia ver o mesmo sentimento de perda... E às vezes eu parava de falar porque parecia que doía mais em mim.
Uma vez, numa festa, John ficou perto demais de mim... Nossos olhares se encontravam o tempo todo, o sorriso dele me causava um tsunami de sentimentos, o cheiro dele me causava uma vertigem gostosa. Eu passei a noite inteira tentando entender por que aquilo mexia tanto comigo. Mas eu nunca disse nada. Minha criação não permitia esse tipo de “fraqueza”. Meu pai ensinou que homem aguenta. Minha mãe ensinou que homem constrói família e honra sobrenome. Qualquer coisa fora disso era desvio, vergonha. Então, eu calei o que sentia.
Entramos juntos para a polícia. Passamos pelo curso de formação lado a lado. Aprendemos a atirar, a correr, a nos endurecer. Mas tem coisa que não endurece.
Depois que eu me casei, achei que a gente ia se afastar. Não aconteceu. Ele foi meu padrinho e me abraçou forte para me ajudar a conter o nervosismo que já tinha extravasado em lágrimas. Mas talvez não fosse apenas nervosismo; talvez fosse o pensamento de estar me casando com outra pessoa e que por conta disso, ele estaria menos presente na minha vida. Mas enquanto me dizia para me acalmar, ele me assegurou de que estaria sempre comigo, sem eu nem ter dito nada. Nos olhamos longamente naquele dia. Me imaginei tomando uma decisão radical; minha boca se moveu para dizer o que sentia por ele... mas apenas o agradeci e segui com o casamento.
Um ano depois, já estávamos na polícia. Ele segurou minha filha recém-nascida no colo com um cuidado que me emocionou mais do que deveria. John sempre esteve em casa, nos almoços de domingo, nas comemorações pequenas e grandes. Minha esposa confia nele como se fosse da família, como se ele fosse meu irmão.
A gente continuou dividindo turno, dividindo viatura, dividindo silêncio. Às vezes, depois do plantão, ficávamos sentados no meio-fio conversando sobre a vida enquanto o sol nascia. Ele me perguntava se eu era feliz. Eu dizia que sim. Ele sorria, mas havia algo nos olhos dele, como uma frustração pela minha resposta.
Por um tempo, devido aos acontecimentos da minha vida – casamento, paternidade, emprego na polícia – eu sustentei o pensamento de que o que o que tínhamos era apenas uma amizade sólida, adulta, limpa. Por um tempo, sentimento por ele ficou engavetado. Às vezes eu lembrava de que ele estava lá na gaveta, mas o mantive lá... por um tempo.
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Quando fizemos 9 anos de carreira na polícia, algo mudou. Foi em uma noite de uma segunda-feira pacata, feriado da cidade. Estávamos na viatura fazendo rondas por um bairro aqui da cidade. Conversamos sobre muita coisa, até que lá pela 01:00 h da madrugada, John resolveu comentar sobre Luiz, um colega nosso que tinha sido assunto no batalhão no fim de semana. Luiz contou durante o happy hour da sexta-feira que já tinha comido outro cara na juventude. Ele contou isso com uma tranquilidade absurda, levando em consideração o contexto mais hétero machista em que vivemos na polícia. O assunto virou piada geral, mas, por incrível que pareça, não se estendeu, parou logo. Talvez acharam que ele estava de zoação e ninguém mais fez piada. Então, John me perguntou com um meio sorriso:
— Você acha que é verdade?
Eu dei de ombros, tentando parecer indiferente.
— Cada um sabe da própria vida. Mas acho que ele falava sério. Fernando é um cara de boa, e também é bem sem-vergonha.
John ficou em silêncio por alguns segundos. Depois disse:
— E você?
— Eu o quê? — Eu ri, desconversando. Mas tinha entendido a pergunta.
— Ficaria com outro cara?
Meu coração deu uma batida descompassada quando ouvi a pergunta. Minha cabeça parece que girou. Fiquei em silêncio, ouvindo o som do meu próprio coração, sentindo-o estremecer meu peito. Vendo que a pergunta me travou, e logicamente entendendo que meu silêncio já era uma resposta, John começou a falar.
Contou que, na verdade, ele perdeu a virgindade com André, um colega da escola, na época da sua primeira namorada. E disse que nunca tinha me contado por medo da minha reação. E completou dizendo que isso se repetiu várias vezes... John me contou isso como se estivesse relatando um fato corriqueiro. Eu fiquei surpreso com a revelação.
Então, ele repetiu a pergunta, e eu travei mais uma vez. Mas então, não sei por que respondi. Talvez porque era ele. Talvez porque ele tinha acabado de confiar em mim contando sobre si. Talvez porque a madrugada deixa a gente mais vulnerável. Talvez porque já não dava mais para guardar aquele sentimento comigo.
Falei, em tom de brincadeira, que tinha deixado esse mesmo André chupar meu pau. Mas John não riu. Ficou me olhando de um jeito diferente, como se já esperasse algo do tipo. Confesso que meu sentimento quando ele me contou foi o mesmo.
— Eu sempre imaginei que você tinha alguma coisa guardada — ele disse, baixo, me olhando nos olhos.
Meu estômago virou, meu coração acelerou. A conversa mudou de tom, ficou mais lenta, mais próxima. O ar dentro da viatura parecia estar faltando. E então a mão dele tocou a minha perna. Não foi impulso. Foi escolha. E eu não afastei.
Nenhum de nós falou coisa alguma; houve apenas um encontro de olhares de cumplicidade, de sintonia em sua forma mais pura. Entrei em uma rua deserta, onde não havia casa nenhuma, e desliguei os faróis do carro. Ele se inclinou na minha direção e, por um segundo que pareceu muito maior do que foi, o mundo lá fora deixou de existir.
A rua estava vazia, iluminada por um poste que piscava intermitente, e o rádio da viatura chiava baixo, como se também respirasse com dificuldade. Minha respiração estava ofegante pela adrenalina que senti misturada com tesão e medo. Eu conseguia ouvir meu próprio coração batendo contra o colete, pesado, insistente.
Senti a mão dele deslizar pelo interior das minhas coxas, depois pousar sobre meu pau, que já estava latejando de tão duro. John abriu meu cinto, desabotoou minha calça, e eu facilitei descendo a calça até o meio das coxas. Meu pau bateu de volta na minha barriga quando desci a calça, e John o segurou com uma firmeza gostosa.
Sem demora, ele se abaixou e o abocanhou até a metade, pois tenho um pau avantajado: 22 cm, grosso, pesado, veiúdo; saco grande, e tudo sem pelos. Eu segurei o gemido e me contorci no banco do carro ao sentir sua boca macia, quente e úmida envolver meu mastro com muita expertise. Aos poucos, John conseguiu engolir meu pau quase todo, em meio a engasgos, deixando-o muito babado e seu rosto vermelho.
Após alguns minutos de mamada, ele pegou algo na mochila e fez sinal para eu ir para o banco de trás. Não pensei, apenas o segui. Ele tirou a calça e se encostou de joelhos no banco e empinou a bunda para mim. E que bunda! Lisinha e bem volumosa, bundão mesmo, assim como a minha. Ele então me entregou um pequeno frasco de lubrificante. Lambuzei meu pau e a entrada do cuzinho dele e comecei a forçar até que entrou tudo. John sentiu dor, mas eu tentei tranquilizá-lo beijando suas costas e seu pescoço. Contudo, o pau dele, um belo instrumento de 20 cm, continuou duro o tempo todo.
Passei meus braços por baixo dos braços dele e o agarrei enquanto socava deliciosamente naquele cuzinho quente e apertado. John se segurava para não gemer, mas vez ou outra, deixava escapar gemidinhos que me faziam delirar.
Não demorei a chegar perto de gozar — e nem podia. Foram três ou quatro minutos apenas desde a penetração. Tirei meu pau rapidamente e John se virou batendo uma punheta. Gozei em seu peito e, quando ele começou a gozar, me puxou pelo pescoço e me beijou. Eu o beijei de volta. Um beijo longo, ardente, apaixonado, há muito tempo sufocado dentro de nós. Ao final, nos limpamos com as cuecas e nos vestimos rapidamente.
Quando tudo terminou — rápido demais e longo demais ao mesmo tempo — a gente ficou em silêncio. Voltamos para o banco da frente como se nada tivesse acontecido. Ajustei o retrovisor, engatei a marcha. Continuamos os últimos minutos da ronda normalmente, como se nada tivesse acontecido. Porém, ambos tinham um sorriso no rosto.
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Depois daquela noite, a gente atravessou uma linha invisível. As rondas ficaram mais longas. As pausas mais estratégicas. Os abraços mais calorosos. Os olhares mais amorosos e apaixonados. O silêncio entre a gente passou a ter peso. Não é só físico. É o jeito como a gente se olha, se cuida, se beija, se toca... Como se finalmente tivéssemos acesso a uma parte um do outro que sempre esteve ali, protegida.
Eu continuo indo para casa. Continuo abraçando minha filha. Continuo beijando minha esposa com desejo verdadeiro. Mas agora eu carrego outra verdade comigo: eu espero ansiosamente a hora de vê-lo no trabalho, a hora de sairmos para as rondas e entrar naquela rua escura para ao menos um beijo ou uma transa rápida, a oportunidade de irmos para a casa dele para ficarmos a sós. Eu percebo quando ele está diferente. Eu sinto falta quando passamos dias sem ficar sozinhos.
Mas também carrego uma paranoia que eu mesmo alimento. Minha esposa não mudou. Não faz pergunta diferente. Não mexe no meu celular. Não confronta nada. Sou eu que vejo ameaça onde não existe. Quando ela pergunta como foi o plantão, eu escuto acusação no que é só rotina. Quando ela menciona o nome dele num comentário qualquer ou em uma pergunta boba — “Ele vai vir no churrasco domingo?” —, eu sinto o corpo endurecer como se tivesse sido descoberto. Mas ela fala com naturalidade, como sempre falou. É a minha cabeça que cria abismos.
Eu comecei a ter cuidado excessivo com coisas que antes eram simples. Apago mensagens mesmo quando não dizem nada demais. Evito trocar olhares com ele em público. Mantenho a mesma rotina de horários, o mesmo padrão de carinho, o mesmo desejo por ela, a mesma frequência de sexo.
Às vezes eu exagero no cuidado, como se compensasse algo invisível. Ela me abraça na cozinha, distraída, e eu sinto um aperto no peito que não é culpa — é medo de que aquele abraço seja o último sem que ela saiba. Mas ela não sabe. Ela confia. E é essa confiança intacta que me desarma.
Eu invento sinais que não existem. Leio silêncio onde há apenas cansaço. Interpreto normalidade como suspeita. Talvez porque, se um dia ela realmente desconfiar, eu não tenha coragem de mentir olhando nos olhos dela.
Eu digo para mim mesmo todas as noites antes de dormir que preciso parar antes que alguém descubra. Antes que vire escândalo. Antes que machuque quem não merece. Antes que destrua a única estrutura sólida que eu construí na vida. E ainda assim, mesmo com esse medo crescendo devagar dentro de mim, basta ele me olhar com um sorriso no rosto pela manhã que meu coração se preenche de uma alegria sem precedentes, uma completude que me faz sentir em casa.
Eu amo minha esposa. Eu amo minha filha. Mas enquanto escrevo isso, a verdade está se formando com uma clareza que dói: o que eu sinto por ele não é só desejo reprimido. Não é curiosidade. Não é só sexo. Não é carência. É amor...
E sempre tem sido amor... Eu amo meu amigo John e ele me ama!
Mas isso é muito mais perigoso do que qualquer confronto armado que já enfrentei.
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