Numa quinta-feira abafada, a mãe avisou antes de sair:
— Hoje vou direto do trabalho para a casa da sua tia. Volto só à noite.
A frase ficou ecoando na cabeça de Carlos o dia inteiro.
Só à noite.
Ele passou a manhã inquieto, andando pela casa, sentindo aquela mistura de nervosismo e expectativa. Não era mais apenas experimentar uma peça ou outra. Ele queria viver aquilo por inteiro — nem que fosse por algumas horas.
Quando o portão finalmente fechou e o silêncio tomou conta da casa, decidiu.
Seria o dia da primeira montagem completa.
Foi para o banheiro e tomou um banho demorado, diferente dos outros. Usou o sabonete perfumado da mãe, deixou a espuma escorrer devagar pelos braços, pelas pernas. Lavou o cabelo com o shampoo dela, que tinha um cheiro doce e floral. Fechou os olhos debaixo do chuveiro e imaginou que estava se preparando para algo especial.
Ao sair, passou o hidratante com cuidado, espalhando nos ombros, nas pernas, no pescoço. O toque deixava a pele macia, e aquilo já o fazia sentir diferente. Borrifou um pouco do perfume da mãe no ar e atravessou a névoa, como a via fazer às vezes.
— Hoje eu sou a Carol — sussurrou para si mesmo.
No quarto, começou pela lingerie. Escolheu uma peça de renda preta, delicada, que vestiu com mãos trêmulas. Ajustou no corpo, sentindo o tecido abraçar suas curvas ainda discretas. Depois colocou um sutiã simples, preenchendo com cuidado para dar forma. Quando se olhou no espelho, respirou fundo.
Era um começo.
Escolheu então uma saia de cintura alta, que marcava o quadril, e uma blusa mais ajustada, de tecido leve, que caía suavemente sobre o corpo. Parou por um instante diante do guarda-roupa, até que seus olhos pousaram sobre um par de salto alto que a mãe quase não usava.
Pegou-os com respeito.
Sentou na cama para calçá-los. Quando ficou de pé, precisou se apoiar na parede. O equilíbrio era difícil, mas a sensação… a sensação era transformadora. A postura mudava automaticamente. As costas mais retas. Os passos mais calculados.
Foi até a penteadeira improvisada no quarto da mãe.
A maquiagem começou simples. Passou base com cuidado, espalhando até uniformizar a pele. Um pouco de pó para tirar o brilho. Rímel nos cílios — piscando devagar para não borrar. Tentou um delineado leve, não ficou perfeito, mas melhor do que imaginava. Nas bochechas, um toque suave de blush.
Por fim, o batom vermelho.
Dessa vez, a mão estava mais firme.
Quando terminou, ficou alguns segundos em silêncio diante do espelho.
Carol estava ali.
Não era apenas um reflexo com roupas diferentes. Havia algo no olhar — mais seguro, mais suave e ao mesmo tempo mais vivo. Ela sorriu, inclinou levemente a cabeça, testou um passo, depois outro, atravessando o quarto com cuidado sobre os saltos.
Passou a tarde assim.
Sentou-se na sala com as pernas cruzadas, tentando manter a postura elegante. Colocou uma música baixa e caminhou pelo corredor como se desfilasse para um público invisível. Olhava o próprio reflexo nas superfícies da casa e se reconhecia.
Não era encenação.
Era pertencimento.
Em alguns momentos, conversava sozinha diante do espelho, experimentando uma voz mais suave. Em outros, apenas existia — sentindo o tecido roçar na pele, o perfume acompanhando cada movimento, o som delicado do salto tocando o chão.
Pela primeira vez, não parecia estar apenas vestindo algo. Parecia estar sendo.
Mas o céu começou a escurecer.
O relógio marcava que a mãe voltaria em menos de uma hora.
O coração apertou.
Foi para o quarto devagar, como quem sabe que uma festa está terminando. Tirou os saltos primeiro, sentindo-se imediatamente mais baixa. Depois a saia, a blusa, a lingerie. Cada peça dobrada com cuidado parecia carregar um pedaço daquela tarde.
No banheiro, removeu a maquiagem com algodão e demaquilante. O vermelho do batom desapareceu, o delineado virou sombra borrada até sumir. Quando terminou, o espelho mostrou apenas Carlos outra vez.
Ele ficou ali parado, encarando o próprio rosto limpo.
Sentiu uma tristeza inesperada, pesada.
Não era arrependimento.
Era saudade — de algo que ainda estava ali dentro, mas que precisava ser escondido.
Quando a mãe chegou, encontrou o filho como sempre: camiseta simples, cabelos ainda úmidos do banho.
Mas naquela noite, ao deitar na cama, Carlos fechou os olhos e pensou:
Carol tinha vivido um dia inteiro.
E agora ele sabia que não queria que fosse o último.