Os anos passaram.
Carlos cresceu, amadureceu, aprendeu a esconder melhor seus horários e seus silêncios. Carol nunca deixou de existir — apenas aparecia em momentos raros, cuidadosamente calculados. Algumas tardes, algumas noites rápidas, sempre com o relógio como inimigo.
Até que, numa terça-feira comum, a mãe anunciou durante o jantar:
— Vou viajar com sua tia. Fico fora três dias.
Três dias.
Não eram horas roubadas. Não era pressa. Eram dias inteiros.
Dessa vez, Carlos não deixou para improvisar. Com antecedência, fez pequenas compras online — discretas, entregues em embalagem neutra. Uma base no tom certo. Um delineador melhor. Um par de cílios postiços. E, principalmente, uma peruca loira de fios longos e levemente ondulados.
Quando a caixa chegou, ele trancou-se no quarto para experimentar. Ao colocar a peruca pela primeira vez, sentiu algo se alinhar. O loiro emoldurava o rosto, suavizava traços, completava a imagem que sempre imaginara.
Na sexta-feira pela manhã, o portão fechou e o carro da mãe sumiu na esquina.
A casa era dele.
Ou melhor — dela.
Carol respirou fundo.
Foi para o banheiro e começou o ritual com uma calma quase cerimonial. Depilou-se com cuidado, cada parte do corpo sendo preparada como se fosse tela em branco. O toque da lâmina exigia atenção, mas havia prazer na transformação gradual. Ao terminar, passou o creme pós-depilatório, sentindo a pele lisa sob os dedos.
Tomou um banho demorado.
Usou o sabonete líquido perfumado, o shampoo que deixava os fios macios, o condicionador que ele sempre associara à feminilidade da mãe. Esfoliou a pele levemente, enxaguou, saiu envolto no vapor quente que deixava o espelho embaçado.
Secou-se devagar.
Passou hidratante nas pernas, nos braços, no colo. O perfume floral foi aplicado com generosidade — pulsos, atrás das orelhas, pescoço. Cada gesto parecia dizer: você pode existir sem pressa.
Enrolado apenas na toalha, caminhou pelo corredor até o quarto da mãe com passos leves, quase tímidos, mas cheios de expectativa.
Diante do guarda-roupa aberto, ficou alguns minutos escolhendo.
Queria algo confortável para ficar em casa… mas com a sensação de quem vai passear no shopping numa tarde de sexta.
Escolheu uma lingerie clara, delicada, que vestiu primeiro. Depois, um short de cintura alta que valorizava o quadril e uma blusa soltinha de tecido fino, que caía sobre os ombros com naturalidade. Separou também uma sandália de salto médio — elegante, mas possível de usar por horas.
Sentou-se para fazer a maquiagem com atenção redobrada.
Base bem espalhada. Corretivo nas pequenas imperfeições. Contorno leve para afinar o rosto. Blush rosado nas maçãs. Delineado mais preciso do que nunca, agora com prática acumulada. Máscara de cílios generosa. Batom em tom nude rosado para o dia.
Por fim, colocou a peruca loira.
Ajustou a touca, posicionou os fios, penteou com cuidado. Quando terminou, ergueu os olhos para o espelho.
Carol estava completa.
Não improvisada. Não adolescente curiosa. Completa.
Ela caminhou pela casa como se cada cômodo fosse cenário. Sentou-se no sofá com as pernas cruzadas, mexeu no celular, tirou algumas fotos só para si. Foi até a cozinha preparar um lanche, sentindo o short roçar suavemente nas pernas lisas.
Ligou a TV, depois desligou. Preferiu música.
Passou o dia inteiro assim — andando, dançando discretamente na sala, admirando o próprio reflexo nas janelas. Experimentou óculos escuros da mãe diante do espelho, pegou uma bolsa e ensaiou como se estivesse realmente saindo para o shopping.
Não saiu.
Mas sentiu como se pudesse.
Quando a noite chegou, não houve pressa para desmontar.
Pela primeira vez, ela não precisava desaparecer antes do pôr do sol.
Tomou outro banho leve para tirar a maquiagem do dia e decidiu que dormiria montada.
Abriu a gaveta da mãe e escolheu um babydoll delicado, de tecido leve e alças finas. Vestiu a lingerie novamente por baixo, colocou o babydoll por cima e voltou ao espelho. Refez a maquiagem de forma mais suave — apenas um brilho nos lábios, máscara leve nos cílios.
A peruca foi escovada e ajustada com carinho.
Ao deitar na cama, sentiu o tecido deslizar sobre a pele depilada. Puxou o lençol devagar, olhando para o teto com um sorriso que misturava realização e incredulidade.
Era a primeira vez que Carol atravessaria a noite inteira existindo.
Sem medo do barulho do portão.
Sem pressa para apagar o batom.
Sem tristeza imediata.
Antes de dormir, passou a mão pelos próprios fios loiros e pensou:
Três dias.
E, pela primeira vez, não seriam horas roubadas — seriam dias vividos.