Eu sou Sofia. Vinte anos. Adotada aos três. Cresci chamando de “mãe” a mulher que me salvou de um orfanato que eu nem lembro direito. Isabel. A mulher que me ensinou a rezar antes de dormir, que me levava à igreja de mãos dadas, que me dizia que Deus me amava tanto quanto ela. A mesma mulher que, numa noite de chuva, ouviu meu desabafo e decidiu que a única forma de me salvar era se tornando parte do meu pecado.
Eu não sei quando o fogo começou. Lembro de ter uns quinze anos e sentir aquilo pela primeira vez: um calor que subia do ventre e tomava tudo. Um menino me olhava no recreio, e meu corpo respondia antes da minha cabeça. Depois veio o remorso. Depois a repetição. Depois as mentiras. Depois as reprovações. Depois o medo de que eu fosse mesmo possuída por algo que nem a Bíblia explicava direito.
Naquela madrugada eu desabei na cama dela. Chorei tanto que minha garganta doeu. Contei tudo: os encontros escondidos, os corpos que eu usava e descartava, o ódio que sentia de mim depois. Eu esperava bronca, castigo, talvez até expulsão de casa. Em vez disso, ela ficou quieta. Depois disse, com a voz baixa como quem reza:
— E se eu te ajudasse? Aqui. Todos os dias. Sem homem nenhum. Só eu. Pra você não se destruir mais.
Eu olhei pra ela. A luz do abajur batia no rosto dela, destacando as rugas que o luto tinha cavado. Ela parecia tão frágil. E ao mesmo tempo tão decidida.
— Você faria isso… por mim?
Ela assentiu.
Eu disse sim porque não tinha mais nada a perder. Porque eu queria parar de me odiar. Porque, no fundo, eu confiava nela mais do que em qualquer pessoa no mundo.
A primeira noite foi estranha. Ela trancou a porta depois do culto online. Eu me deitei de lado, camisola levantada. Ela sentou atrás de mim. A mão dela tremia quando tocou minha pele. Eu fechei os olhos. Tentei não pensar que era minha mãe. Tentei só sentir o alívio quando o fogo começou a ceder. Quando terminei, meu corpo relaxou como nunca. Ela beijou minha testa e sussurrou:
— Agora dorme, meu anjo. Amanhã você estuda.
E eu estudei. Pela primeira vez em anos, eu abria o livro sem raiva, sem distração. As notas subiram. Eu comecei a chegar cedo em casa. Comecei a ajudar na cozinha. Comecei a sorrir de verdade quando ela me elogiava.
Mas algo mudou em mim também.
No começo era só gratidão. Depois veio curiosidade. Eu percebia que gostava do cheiro dela depois — um misto de sabonete de lavanda e suor leve. Percebia que meu corpo reagia diferente quando era ela quem me tocava. Não era só alívio. Era… prazer de verdade. Prazer que eu não sentia com os outros.
Uma noite ela pediu que eu me virasse de frente. Olhasse pra ela enquanto fazia. Eu obedeci. Nossos olhos se encontraram e não desviaram. Ela desceu beijando meu corpo inteiro. Quando a língua dela chegou lá embaixo, eu agarrei o lençol com força. Gemi o nome dela pela primeira vez sem pensar:
— Mãe…
Ela não parou. Me levou ao limite devagar, como se tivesse todo o tempo do mundo. Quando gozei, chorei. Não de vergonha. De libertação. Ela subiu, me abraçou. Eu enterrei o rosto no pescoço dela e senti o coração dela batendo rápido.
Depois daquela noite, as coisas mudaram de vez.
Ela começou a se deitar nua ao meu lado. Começou a guiar minha mão até ela. “Pra mim também ficar em paz”, dizia. Eu obedecia. Dedos tímidos no começo. Depois mais confiantes. Eu via o rosto dela se contorcer de prazer e sentia um orgulho estranho. Como se estivesse retribuindo o que ela me dava.
Os beijos vieram depois. Primeiro na boca, suaves. Depois com língua, urgentes. Eu comecei a tomar iniciativa: subia em cima dela, beijava o pescoço, os seios, descia lambendo a barriga. Ela gemia baixo, chamava meu nome como se fosse uma oração profana. Nós nos movíamos juntas, quadris contra quadris, suor misturado, gemidos abafados no travesseiro pra ninguém da rua ouvir.
Eu me convenci de que era amor. Que o que estávamos fazendo era mais puro do que qualquer coisa que eu tinha feito com estranhos. Que ela me salvava e eu a salvava de volta. Que o vazio que o pai deixou nela era preenchido por mim, assim como o meu era preenchido por ela.
Mas às vezes, no meio do ato, eu pensava na igreja. No pastor falando sobre sodomia, sobre incesto espiritual, sobre demônios disfarçados de afeto. Eu pensava na cruz na parede do quarto e sentia um frio na espinha. Depois ela me beijava e o frio ia embora.
Uma tarde eu cheguei do cursinho com nota máxima em biologia. Mostrei pra ela na cozinha. Ela me abraçou forte, chorou no meu ombro. Depois me levou pro quarto. Naquela tarde não foi ritual. Foi devagar. Foi carinhoso. Foi quase sagrado. Quando acabou, deitei a cabeça no peito dela e disse:
— Eu te amo, mãe. Não como filha. Como mulher.
Ela ficou quieta um segundo. Depois me beijou com força, como se quisesse apagar o que eu tinha dito. Mas eu sabia que ela sentia o mesmo.
Eu sei que isso não pode durar pra sempre. Um dia ela vai se dar conta da culpa. Ou eu vou me apaixonar por alguém da minha idade. Ou alguém da igreja vai desconfiar dos olhares que trocamos no culto, dos sumiços depois da ceia do Senhor. Ou o peso vai nos quebrar.
Mas enquanto durar, eu vou continuar.
Porque parar agora seria matar o único lugar onde eu me sinto inteira.
Porque o fogo que eu carregava não foi apagado.
Foi passado pra nós duas.
E queimar juntas é melhor do que queimar sozinha.
Fim — por enquanto.