Escravo de quarto do Visconde de Araguaia, eu Bento, sentia o peso como correntes nos pés na manhã seguinte a visita surpresa do Conde, quando meu sinhô me chamou ao gabinete soube que algo mudará. Ele estava pálido, os olhos fundos ainda marcados pela visita do Conde de Barbacena na noite anterior.
— Bento — disse ele, voz baixa e firme, como quem toma uma decisão amarga —, você irá à capital. Ao Rio de Janeiro. Preciso que descubra de onde vêm esses rumores venenosos. Quem os espalha, quem os alimenta. Fale com os criados dos paços, com os cocheiros, com quem for preciso. Leve ouro suficiente para soltar línguas. Mas seja discreto, como uma sombra.
Eu assenti, sem perguntas. Um escravo não questiona ordens, especialmente quando vê o desespero nos olhos do senhor. Ele me entregou uma bolsa de moedas de ouro, pesadas como culpas, e algumas cartas, duas delas lacradas com o selo em cera vermelha, com instruções especiais, a primeira para um velho amigo da família, um advogado na corte que talvez pudesse abrir portas e uma segunda para uma senhorita que deveria procurar na rua do ouvidor apenas se minhas buscas não resultassem em nada.
Parti no dia seguinte, montado no cavalo baio, a estrada enlameada se abrindo no horizonte. A viagem foi longa, chuvas torrenciais, noites em estalagens barulhentas onde eu ouvia cochichos sobre a corte e seus pecados. No último dia, com o sol poente tingindo o céu de vermelho-sangue, eu apertava as rédeas com uma mão e, com a outra, segurava a bolsa de ouro contra o peito, o peso frio queimando a pele através do couro.
Meu coração batia descompassado. E se eu fugisse agora? Virasse à esquerda na encruzilhada, rumo ao norte, aos quilombos escondidos nas matas? Esconderia o ouro sob raízes antigas, trocaria por roupas de homem livre, uma faca, um nome novo, João, simples, invisível. Por um instante, provei o doce da liberdade.
Mas logo vinham os latidos dos cães farejadores rasgando a noite, os capitães do mato galopando com chicotes e espingardas, estiveram presentes durante toda viagem. Pudia sentir as cordas cortando meus pulsos, o corpo arrastado de volta à Casa Grande, olhares de pena dos outros escravos. Via o sinhô me encarando com olhos magoados, como quem perde um servo fiel. O ouro confiscado, as costas rasgadas por açoites que iam até o osso, sangue e lágrimas na boca. A liberdade era ilusão, mesmo que escapasse eu só trocaria uma corrente por outra, mais pesada, invisível. Já carregava tantas no peito. Sacudi a cabeça e segui em frente, rumo ao Rio.
Cheguei ao Rio numa noite abafada, o cheiro do mar misturando-se ao fedor das ruas estreitas do centro. A cidade pulsava como um coração doente: carruagens correndo, damas em sedas passeando sob lampiões a gás, e nos becos, sombras de mendigos e prostitutas. Hospedei-me numa pensão modesta no Largo do Machado, fingindo ser um mensageiro de uma fazenda distante. Após entregar todas as cartas, guardando a última, comecei minha investigação pelos lugares onde o amigo advogado de meu Sinhô me indicou, onde as línguas se soltavam: tabernas dos portos e casas de jogo, todos mencionavam alguém da côrte, alguém sem nome, que espalhava tais boatos sobre a Casa Araguaia.
Somente quando lancei mão da ultima carta, encontrando Catarina na rua do ouvidor é que meus caminhos se clarearam. Ela me colocou no Cabaré Mère Louise, um antro de veludos vermelhos e luzes douradas na Rua do centro da capital. O lugar era frequentado por nobres e arrivistas, com música de piano ecoando modinhas francesas, e mulheres em corsets apertados servindo champagne em taças de cristal. Catarina me colocou lá com o ouro do sinhô como um serviçal extra, contratado por uma noite, carregando bandejas e ouvindo conversas. Os garçons, todos jovens de pele clara e sorrisos fáceis, cochichavam entre si sobre os clientes ilustres. Um deles, um rapaz liberto chamado Joaquim, de olhos verdes e cabelos cacheados, aceitou uma moeda para falar.
— Os boatos sobre o Visconde de Araguaia? — murmurou ele, enquanto limpava copos atrás do balcão. — Vêm do alto, homem. O Marquês de Jacarepaguá, é dele que andam espalhando nos salões do paço. Diz que o visconde é "pouco viril nos negócios", que gasta com "luxos inconfessáveis". Ouvi do próprio secretário dele, que vem aqui toda quinta. O marquês quer as terras de São Lourenço para si, para expandir os engenhos dele. Pressiona os banqueiros, fecha as portas. É intriga de corte, pura.
Meu coração apertou. O Marquês, pai de Dona Isabel, noivo do Conde... era ele o autor, a cobra no ninho. Confirmei com outros, ali todos sabiam: o cocheiro da casa, a cortesã que servia o intendente e até o porteiro. Todos citaram o nome do marquês, faminto por mais poder, usando rumores como lâminas afiadas. Mas antes que pudesse partir de volta, algo me deteve.
O Conde de Barbacena entrou no salão, tarde da noite, casaca desabotoada, o rosto embriagado como quem carrega um fardo. Ele pediu uma mesa reservada, bebeu absinto sozinho, os olhos vagando pela sala. Eu sabia que meu sinhô, em São Lourenço, sofria com a desconfiança que Pedro plantara: "Você encontra mais alguém?", ecoava em sua mente, a acusação velada que machucava Dom Luís como um chicote. Ele passara dias trancado, murmurando sobre lealdade, bebendo mais do que comia, o peito apertado pela dúvida quase acusatória do conde.
Na mesa reservada do Mère Louise, Pedro não ficou sozinho por muito tempo. Joaquim, o garçom de língua solta, aproximou-se com um sorriso cúmplice, servindo-lhe uma taça extra de absinto. Trocaram olhares carregados de fogo, palavras baixas e roucas que mal disfarçavam a tensão. Quando o conde pagou e saiu, Joaquim o seguiu, fingindo o fim do turno, mal se despediu de mim. Eu o segui também, primeiro pelas ruas úmidas da noite, o som de meus passos abafado pelo burburinho da Rua do Ouvidor, com suas lojas iluminadas e vendedores ambulantes gritando. Continuei seguindo o Joaquim que nitidamente seguia o Conde, agora por umas vielas escuras e fétidas e atrás de uma confeitaria fechada, onde o cheiro de doces velhos se misturava ao de urina e suor rançoso só a luz fraca de um lampião distante.
Ali, nas sombras densas, o conde perdeu toda a compostura nobre. Ele empurrou Joaquim contra a parede de tijolos úmidos e rachados com violência, as mãos grandes cravando-se nos ombros do rapaz, marcando a pele com deixando sulcos vermelhos instantâneos. Seus lábios colidiram num beijo selvagem, dentes se chocando com força, mordendo o lábio inferior de Joaquim, misturando-se às salivas enquanto línguas se invadiam com fúria, como se quisessem devorar um ao outro.
Joaquim gemeu alto, um som animalesco que rasgou o silêncio da viela, as mãos enfiadas nos cabelos castanho claro do conde, puxando com brutalidade. Pedro rasgou a camisa do rapaz com um puxão violento, pude ver os botões voando pelo chão imundo, expondo o peito suado, os mamilos endurecidos pela excitação do jovem de olhos verdes. O conde mordiscou-os com força, dentes apertando até Joaquim arquear as costas em dor misturada a prazer, sussurrando palavrões roucos e desesperados: “Mizerável… rasga-me de uma vez… fode-me até eu não poder mais aguentar”
O conde, ofegante, desceu as mãos com urgência insana, abrindo as calças de Joaquim num gesto brusco, libertando o pau rígido, veias pulsantes, a cabeça já babando de pré-gozo. Minha mente não se conteve em fazer a comparação e verificar que o garçom do Cabaré Mère Louise era mais bem dotado do que o Visconde. O Conde ajoelhou-se na sujeira pegajosa do chão, ignorando a imundície que sujava suas calças caras, e engoliu o membro com uma voracidade feroz, garganta se contraindo ao redor da glande grossa, saliva escorrendo pelos cantos da boca enquanto sugava com força brutal, a língua chicoteando a fenda sensível, a mão apertando as bolas pesadas e puxando com rudeza. Joaquim agarrou a cabeça do conde com as duas mãos, empurrando fundo, forçando-o a engasgar, lágrimas de esforço escorrendo pelos olhos de Pedro enquanto ele gemia em torno do pau, vibrações subindo pelo comprimento, sons molhados e obscenos ecoando pela viela como um ritual profano.
Pedro ergueu-se de repente, olhos injetados, rosto vermelho de luxúria e raiva contida. Virou Joaquim de costas com um giro violento, prensando-o contra a parede fria, as nádegas alvas, firmes e peludas expostas ao ar úmido. Cuspiu na palma várias vezes, espalhando a saliva grossa e quente, e entrou nele de uma estocada selvagem, sem preparo, sem misericórdia. O anel cedendo com um som quase audível de resistência, arrancando um grito rouco e dolorido de Joaquim, o corpo inteiro se contraindo com a invasão repentina e profunda. Pedro movia-se como um animal possuído, estocadas rápidas, brutais, os quadris batendo contra a carne com força que fazia o corpo de Joaquim tremer contra os tijolos, suor escorrendo em rios pelas costas de ambos, misturando-se à umidade da viela.
Uma mão do conde tapava a boca de Joaquim com violência, sufocando os gemidos que se transformavam em soluços abafados, enquanto a outra descia para masturbar o pau do rapaz com vigor cruel, apertando a base, puxando a pele para cima e para baixo num ritmo frenético que beirava a tortura. "Silencia essa boca maldita e suporta tudo o que te dou", rosnou Pedro entre dentes cravados no ombro do garçom, mordendo até deixar marcas roxas, cada palavra pontuada por uma investida mais funda, mais violenta, o pau pulsando dentro do corpo apertado que o apertava de volta com desespero. Joaquim empurrava para trás, querendo mais apesar da dor lancinante que se misturava ao prazer insuportável, os músculos internos contraindo em espasmos, arrancando grunhidos primitivos e guturais do conde.
O clímax veio como uma explosão de fúria: Joaquim gozou primeiro, jorrando forte e abundante nas pedras sujas do chão, o corpo sacudindo em espasmos violentos, um grito abafado escapando apesar da mão que o sufocava, sêmen grosso escorrendo pelos dedos do conde que continuava a bombear. Pedro seguiu logo depois, enterrando-se até o fundo com uma estocada final que pareceu romper algo dentro dele, derramando-se em jatos quentes e violentos, o corpo colapsando contra as costas de Joaquim, ofegante, trêmulo, suor pingando como sangue de uma ferida aberta, o pau ainda pulsando dentro do corpo que o ordenhava até a última gota.
Eu me escondi nas sombras opostas, coração martelando no peito como um tambor de guerra, uma náusea de raiva, nojo e pena subindo pela garganta até quase me sufocar. O conde, que acusara meu sinhô de infidelidade, traía a si mesmo com um prostituto, garçom de cabaré, numa viela imunda que cheirava a mijo e sêmen. Hipocrisia da corte, onde todos pecavam com a mesma ferocidade, mas só os fracos eram julgados.
Voltei a São Lourenço pela manhã, com verdades amarga na bolsa. Relatei ao visconde sobre o marquês, o autor dos boatos, mencionei ter visto Pedro no bordel, mas calei sobre o conde e Joaquim. Não era minha a vingança. Dom Luís ouviu, olhos escurecendo, e murmurou: "Então Pedro sabe! Ele sabe de onde vem os boatos". Eu via a dor em seu peito, a desconfiança que Pedro plantara crescendo como erva daninha.
Porque eu via tudo. E calava tudo.
