Rede de Amor

Um conto erótico de Lore <3
Categoria: Lésbicas
Contém 2508 palavras
Data: 21/02/2026 13:49:17
Assuntos: Lésbicas

Eu estava completamente engolida pela rotina, adiantando tudo o que conseguia na Filial e tentando manter o projeto nos trilhos. Para mim, era como se antecipar tarefas fosse me dar alguma sensação de controle. Também estava dormindo pouco, às vezes quase nada, e isso só me deixava ainda mais cansada, enquanto eu ainda me esforçava para estar presente em casa, para não deixar que a exaustão roubasse de mim os pequenos momentos com a minha família. Júlia já estava com vinte e uma ou vinte e duas semanas de gestação e, finalmente, a barriguinha tinha aparecido de verdade, toda redondinha. Ainda assim, toda vez que ela dizia que estava entrando no sexto mês de gestação, as pessoas arregalavam os olhos, surpresas, jurando que parecia menos.

— Isso está começando a me irritar um pouco — Juh disse, após ouvir de uma senhora, na recepção da clínica de Sabrine, que ela tinha aquela barriga com três meses, e não no meio de uma gestação.

— Não liga, essas comparações não servem de nada — falei, rindo, para amenizar.

— Quem conhece o meu corpo sou eu, e eu nunca estive desse tamanho — minha gatinha continuou.

Eu percebi que também havia cometido alguns erros ao comentar, algumas vezes, que ela não tinha mudado muito. Foi com as melhores intenções, contudo, como estavam repetindo isso o tempo inteiro no ouvido da minha bichinha, aquilo começou a incomodá-la. Anotei mentalmente para não repetir aquilo.

Juh estava muito empenhada na alimentação e fazia tudo exatamente como tinha sido planejado. Mesmo não gostando de quase nada daquela rotina, da comida mais saudável, da academia, da vergonha que ainda sentia na fisioterapia pélvica, ela não falhava. O Pilates era a única parte de que ela realmente dizia gostar, e eu percebia que saía das aulas mais leve e menos tensa. No restante, era disciplina pura. Ainda assim, estava se saindo muito bem. Era visível o esforço diário, a forma como levava aquilo a sério. Ela já tinha ganhado cinco quilos, e a meta era fechar as vinte e seis semanas com seis. Tudo estava caminhando para que isso acontecesse. Eu via o quanto estava sendo importante, não só pelos números, mas pela dedicação que ela colocava em cada detalhe.

— Preciso comprar roupas, as minhas estão todas desconfortáveis — Júlia disse, com certa satisfação no tom de voz.

— Saindo daqui, não vamos dar início ao enxoval? Acredito que também dá tempo de você fazer umas comprinhas... — disse-lhe, conferindo o horário.

— Vai ficar comigo? — ela quis saber.

Tentei fazer uma expressão pensativa, e Juh riu.

— Fico, amô... Claro que fico! — respondi, e ela me deu um selinho, toda contente.

Estávamos na clínica para o ultrassom morfológico do segundo trimestre. As imagens começaram a aparecer na tela, e Sabrine começou a conferir, olhando órgão por órgão. Ela também falou sobre o crescimento, o tamanho dos ossinhos e a quantidade de líquido amniótico. Foi uma verdadeira avaliação minuciosa do nosso menininho, que ainda seguia sem nome. Para mim, tudo parecia absurdamente emocionante. Cada confirmação de que estava tudo bem era como se tirasse um peso invisível do meu peito.

— Passamos do temido quinto mês — Juh falou, olhando para mim e sorrindo, com lágrimas nos olhos.

— Agora faltam somente mais seis — confirmei, me emocionando junto.

Era inevitável não lembrar da gestação de Maya.

Saímos de lá mais leves e, talvez por isso, ainda mais animadas. Fomos direto resolver as compras com uma lista imensa, que já vinha sendo atualizada havia semanas. Andávamos pelos corredores comentando cada item, conferindo tamanhos, tecidos e utilidades. Entre um macacão e outro, entre fraldas, mantas e produtos que eu nem sabia que existiam, eu só conseguia pensar que aquele menino sem nome já ocupava todos os espaços da nossa vida.

— Tenho certeza de que estão inventando coisas, amor. Não comprei nada disso para Mih — brinquei, e ela riu.

— Eu já estava me sentindo péssima por não reconhecer esses nomes estranhos — Juh respondeu, rindo.

Demoramos mais do que o esperado, mas preferimos resolver tudo naquele dia por causa da correria da nossa rotina. Se deixássemos para depois, provavelmente não faríamos tão cedo.

Quando chegamos em casa, tivemos uma surpresa.

A porta do quarto do bebê estava encostada, e o cheiro de tinta denunciava antes mesmo de eu abrir. Meu pai, Lorenzo e Kaique tinham pintado tudo. As tintas estavam lá havia semanas, mas nunca encontramos tempo para chamar um pintor. Eles resolveram por conta própria. O quarto estava em um tom claro e clean e tinha ficado melhor do que imaginávamos.

— Ahhhhhh, não acredito... — falei, abraçando meu irmão e meu pai.

— Oxente, quem fez tudo foi Kaká — meu pai desconversou.

— Valeu mesmo, coroa — falei sério, olhando nos olhos dele e depois bagunçando a cabeleira.

— Para o meu novo netinho... — ele respondeu, quando Juh o abraçou.

— Meu sogro, muito obrigada... — Júlia falou, já chorando.

Meu pai ficou todo sem graça, coitado.

— Eta, que tio vai mimar esse menino demais — Lorenzo disse, agachando para ficar à altura da barriga.

— Você é meu cunhado preferido, sabia? — Juh brincou com ele.

— Você também é minha cunhada preferida — ele falou, convencido, e os dois riram.

Nesse momento, Kaique e Milena chegaram ao quarto.

— Quer dizer que você foi o pintor que fez isso tudo aqui, cara? — perguntei, balançando meu filho pelos ombros.

— Ficou muito lindo, amor. Vocês arrasaram — Júlia disse para ele.

— O vovô e o tio Lorenzo me deram uma forcinha — Kaká zoou, e nós rimos.

— Carinha relaxado, por isso que não pode dar moral — meu irmão brincou.

— Eu estou toooodo quebrado — Kaká disse.

— A mamãe faz uma massagem em você antes de dormir — brinquei.

— A mamãe depois vai precisar de uma também, aí você faz — Júlia me respondeu, e eu confirmei que faria, óbvio.

Dona Jacira e minha mãe fizeram um cafezinho para todo mundo e nos chamaram para a mesa. Sentamos, e ela começou a contar que as funcionárias tinham passado o dia lá, se familiarizando com o espaço. Disse que, no outro dia, Juh iria conhecê-las com calma e comentou também, toda orgulhosa, que Mih fez questão de apresentar a casa inteira, mostrando cada canto e explicando onde ficava o quê.

— Eta que todo mundo trabalhou hoje — disse, enquanto puxava Milena para o meu colo.

— Elas são legais, mamãe, a senhora vai gostar. Prometo! — Mih exclamou, sabendo que Juh não simpatizava muito com a ideia.

— Se minha filhinha está dizendo, eu acredito — Júlia falou, roubando-a do meu colo.

Eu ri quando minha mãe contou que Milena também mostrou os cardápios que Júlia estava seguindo, explicando como se entendesse tudo de nutrição, e ainda revelou, em segredo, o prato preferido de cada um de nós, como se estivesse dividindo informações confidenciais.

Dona Jacira então olhou para o relógio e disse que ainda teríamos uma surpresa naquela noite. Eu troquei um olhar com Juh e claramente não fazíamos ideia do que se tratava. Era uma surpresa de verdade.

Minutos depois, meu sogro e meus cunhados chegaram. Eu achei, de verdade, que aquela era a tal surpresa. A gente não tinha combinado nada, então fez sentido na minha cabeça, mas não era. Eles abriram a caçamba da caminhonete e começaram a descarregar as coisas com cuidado. No começo, eu não entendi, mas reconheci antes mesmo de ver inteiro.

Era um berço.

Mas não era só um berço.

Era o berço que foi de Juh. O mesmo que tinha sido montado para Maya. O mesmo que, depois de tudo o que aconteceu, minha esposa pediu que fosse jogado fora. E agora ele estava ali, de novo, entrando pela porta da frente da nossa casa, como se estivesse retornando para o lugar de onde nunca deveria ter saído.

— Vocês querem me matar hoje, não é possível — Júlia disse, se agarrando ao pai.

— Marcaram um encontro de família sem a gente? — Sr. José brincou.

— Poooorra, o senhor guardou... — falei, assim que o cumprimentei.

— Não tinha como jogar fora, não... Mesmo que vocês não quisessem outro bebê, eu ia deixar lá escondidinho — ele me respondeu.

— Ai, meu sogro... Sem palavras para essa nossa família, viu?! — falei.

— Tá faltando gente aqui... Sarah, Loren, Victor, as crianças... — meu irmão comentou.

— Chama! Churrasquinho, anima? — perguntei.

— Nossa, animo muito — ele respondeu, batendo as mãos na mesa.

— Ajeita aí, que eu e essa princesa precisamos de um banho — disse e dei um selinho demorado em Juh.

Já íamos subindo quando percebi que Milena nos seguia.

— Mamães, vocês conseguiram comprar tudo? Como está meu irmãozinho? — ela quis saber.

Foram tantas emoções que esquecemos de tirar as compras do carro e contar sobre a saúde de ferro do nosso garotinho.

— Seu irmãozinho está muito bem, amor, ele está crescendo todo fortinho — falei para Mih.

— Compramos tudo e acabamos deixando no carro. Amanhã, cedinho, antes da mamãe sair, você me ajuda a tirar tudo? — Juh perguntou e, animada, ela confirmou.

Entramos no quarto, e ela veio junto. Eu conheço meu gado, sabia que Milena queria dizer algo.

— Não vou ficar para o churrasco porque estou com cólica, vou tentar dormir — ela falou.

Algo me dizia que não se tratava somente disso.

— É só isso mesmo? — perguntei, sentando no tapete e chamando-a para o meu lado.

Minha filha veio toda quietinha, sentou entre as minhas pernas, e eu a abracei bem forte, enchendo o pescocinho dela de beijos.

— Aconteceu uma coisa chata hoje — ela disse.

— E você quer me dizer o que foi? — questionei, ainda dando alguns beijinhos.

— Foi legal apresentar a casa e tal, eu juro que me diverti bastante e me senti útil, mas não demorou muito... Eu queria mesmo era pintar... — Mih falou, com um tom de voz triste.

— E por que não foi também? — perguntei, sem entender onde estava o problema.

— A vovó Jacira meio que separou os afazeres entre homens e mulheres... E eu não queria chatear ela — Milena explicou.

— Aaaaaaaaaah... Aí você se chateou? — eu quis saber.

— Um pouco, eu me senti deslocada — ela disse.

— Poxa, filha... Sinto muito... — falei, pensativa.

— Já passou... — disse Mih.

— A vovó Jacira foi criada nesses rótulos, ela mudou bastante e se esforça muito por cada pessoa da nossa família, mas tem ações que ela não controla e não vê problema... Entende? — comecei a dizer.

— Entendo... Por isso eu não pedi para ir, acho que ela ia ficar magoada — ela falou.

— Bonito você compreender e pensar nas emoções da sua avó... Mas, se acontecer de novo, você pode tentar propor para ver no que dá — sugeri.

— Acho que eu só precisava conversar... Já me sinto bem melhor — Milena falou, sorrindo para mim.

— Que bom, porque eu quero a senhorita no churrasquinho — falei e apertei o rosto dela para um beijo.

Juh saiu do banho vestindo um short e um top e foi direto procurar uma camisa minha.

— As roupas da mamãe não cabem mais — cochichei no ouvido de Milena, e nós rimos.

— Do que vocês estão rindo, hein? — minha gatinha perguntou e se juntou a nós.

— De você sem roupas — falei.

— Preciso urgentemente de umas roupinhas folgadas e confortáveis — ela fingiu lamentar, mas ria.

— Depois a gente vê isso — falei para minha muié.

— E você, tá tudo bem? — Júlia perguntou, tocando o cabelo de Mih.

— Ela queria pintar também, mamãe — disse para Juh, e Milena confirmou, acenando positivamente.

— Ohhhh, não deixaram você participar? — Juh quis saber.

— Enquanto vocês conversam, eu vou tomar banho para adiantar — falei e fui me direcionando ao banheiro.

Quando voltei do banho, encontrei as duas deitadas no tapete, lado a lado, completamente entretidas no celular de Juh. Milena estava apoiada no braço dela, e Júlia mantinha a mão pousada na barriguinha enquanto deslizava o dedo pela tela, mostrando alguma coisa que fazia as duas rirem baixinho. A cena me arrancou um sorriso imediato, e eu fiquei alguns segundos parada na porta, só observando minhas meninas no mundinho particular delas.

— O que estão aprontando? — perguntei, curiosa, enquanto secava rapidamente o cabelo.

— A gente encontrou um lugar que faz uns moldes e pensei em deixar nossa artista pintar algo naquela parede acima do berço. O que você acha, amor? — Juh me perguntou, sorrindo.

A minha resposta era óbvia.

— Nossa... Que ideia fantástica! Vai ficar incrível! — exclamei.

— Pode ser o nome dele — Milena sugeriu.

— Orion — brinquei.

— NUNCAAAA — Júlia enfatizou, e nós rimos.

Quando descemos, Loren, Victor e Sarah já tinham chegado e, pelo horário, os gêmeos ficaram em casa com D. Sônia. Minha irmã tinha praticamente sequestrado, temporariamente, a mulher das nossas vidas, e eu aproveitei o encontro para avisar, de forma bem-humorada, que ela tinha seis meses exatos para me devolver a melhor pessoa que existia para nos auxiliar em momentos críticos.

O churrasco foi daqueles momentos leves, com conversa besta, gargalhada alta, provocações de todos os lados e aquela energia boa de família reunida. Serviu como um esquenta perfeito para o final de ano que planejávamos passar juntos.

Ao fim da resenha, aos poucos, todos foram se recolhendo. Milena subiu primeiro, e Kaique eu precisei acordá-lo, porque o bichinho morgou bem no meio do rolê. Quando finalmente entramos no quarto, Juh se jogou na cama e deu um suspiro com um sorriso nos lábios, típico de quem teve um dia cheio, mas gratificante. Eu apaguei as luzes, deitei ao lado dela e ficamos algum tempo em silêncio.

— Você tem noção da família que a gente tem? — falei, olhando para o teto.

— Eu estou pensando exatamente nisso… Meu pai guardando o berço, seu pai pintando o quarto. Todo mundo aqui, junto… É muito amor — Júlia disse e deitou dentro do meu abraço.

— É, e dá para sentir que é verdadeiro. Não é obrigação, é só vontade de estar perto — completei.

— Somos muito abençoadas, sabia? — Juh sussurrou e depositou delicados beijinhos em mim.

— Somos, e eu agradeço por isso todos os dias — confirmei, deixando meu pescoço livre para ela.

Juh segurou minha mão por cima da barriga, e ficamos assim até que eu comecei a rir.

— Orion, não? — perguntei.

— Não, amor... Esquece essas estrelas... — Júlia disse.

— Dante? — tentei.

— Ravi? — ela sugeriu.

— A gente chama um e vêm quatro... Arthur? — propus.

— Gosto de Arthur, mas todo Arthur é arteiro... Dom? — Juh perguntou.

— Bonitinho, mas curto demais... Quando eu estiver brigando com ele, não dá aquele efeito sonoro bom — falei, e ela riu.

— Theo? — Júlia tentou mais uma vez.

— É, Ninho, não vai ser hoje ainda que a gente vai te chamar por um nome — falei, acariciando a barriguinha.

— Ninho? — Juh perguntou, rindo.

— Meu menininho já está muito formal, e nós somos íntimos... Ele até chuta quando ouve minha voz de manhã — respondi, convencida, e minha gatinha riu mais ainda.

Naquela noite, quando minha esposa dormiu, eu pensei muito sobre a nossa rede de apoio. Eu via amor em cada gesto daquele dia: na tinta espalhada pelas mãos do meu pai, do meu irmão e do meu filho, quando chegamos; no berço guardado em silêncio por anos pelo meu sogro; na empolgação da Milena querendo participar; nos cuidados de Dona Jacira e da minha mãe; nas risadas dos meus irmãos e cunhados. E, mais do que isso, era visível a felicidade de todo mundo em viver aquele sonho com a gente, e isso fazia tudo parecer infinitamente mais bonito.

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Foto de perfil de Lore Lore Contos: 164Seguidores: 48Seguindo: 5Mensagem Bem-vindos(as) ao meu cantinho especial, onde compartilho minha história de amor real e intensa! ❤️‍🔥

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