36. O estranho
Eu não me apaixonei por Murilo, nem posso dizer que o amei naquele primeiro mês, era algo diferente. Uma calma por saber que ele era meu e estava ali por mim. Foi tranquilo como receber de volta o carro que deixei na oficina, como reconhecer meu celular em uma capinha nova, era familiar, como se nos últimos seis anos a gente continuasse a ter se visto sempre.
Depois daquela conversa com Renato e Caio, quando eles disseram que a dor de cabeça de Renato, e as quedas de pressão, o desmaio e as febres noturnas eram apreensão por causa da adoção, iriam ser pais de uma menina com Down de catorze, seu irmão de nove e a caçula de oito, o apartamento que escolheram estava em reforma, mas estava sendo entregue no dia de meu aniversário, meu número de afilhados estava crescendo. bem, depois daquela conversa fomos para nosso quarto e dormimos até às dez da manhã, liguei para Luana e ela estava tendo um dia de cão na oficina, me senti culpado, mas ela disse que eu podia tirar uma semana inteira, o problema era em fevereiro.
Daniel me ligou e conversamos muito meses antes, explicou que o Murilo dele estava precisando de um mecânico e pensaram em Tiago e Luana, propor sociedade, cinquenta cinquenta, mas antes tinham de falar comigo e com Sebastião, eu mesmo quis falar com Sebastião, nem foi necessário convencer o pedreiro a deixar o porteiro ter a mesma oportunidade que ele. Desse modo eu vou ter Luana até o fim de janeiro, ela recebeu o visto de dois anos, tudo dando certo, visto renovado, Daniel e Murilo não pensam mais em voltar, na cidade onde moram tem uma pequena comunidade brasileira. E eu vou ficar sem meu braço direito.
Perder Luana me angústia, ela é a organização; mas me afastar de Tiago é como perder Murilo (o da Europa) pela segunda vez. Caio não deixou eu procurar substituto para Luana porque pensava em Murilo (meu namorado) - ainda bem que ele não falou isso na frente de Murilo, nem a pau! Primeiro porque eu não quero ver a cara dele no meu trabalho e depois dormir ao lado dele, segundo porque eu quero dar dois anos a ele para ele estudar e passar em uma faculdade pública de enfermagem, fisioterapia ou qualquer coisa do tipo. Caio torceu o nariz, Renato disse que se a oficina é um problema meu, minhas decisões não são da alçada de Caio. Caio ficou puto e disse que antes de adotar os filhos dele quer passar a oficina para mim, disse que agora que não seremos mais amantes quer que eu o chame de tio, nem a pau, vamos foder nem que seja uma vez ao ano.
Enfim, naquela manhã, tomando suco de goiaba enquanto a cozinheira falava algo sobre o almoço e eu lhe apresentava meu namorado, recebi uma ligação. A Luana perguntou se eu podia dar um pulinho de meia hora no trabalho, eu disse que levaria quinze minutos pra sair de casa. Meia hora depois eu estava de frente para Rui: que vergonha! Mas eu nem posso continuar sem dar uns passos para trás nessa história, eu o conheço desde que dei a surra em Joel, ele estava sendo corneado pela ex e ela o tratou pior que lixo, o cara ficou péssimo quando ela levou o filho deles para longe, a situação agora é melhor, eles mal se falam, ela está com uma mulher e ele galinhou um pouco e depois que ficou só, talvez essa descoberta tenha a ver com as conversas longas que nós mantínhamos quando ele e eu fomos advertidos pelo mestre, ele achou engraçado um magrelo como eu era ter mandado um valentão para o hospital, me parabenizou e fez festa, nós dois fomos punidos, mas ficamos amigos, ele me ajudou muito, e eu acho que fiz bem a ele também.
Rui estava com aquele cabelo desgrenhado, sujo, suas roupas estavam sujas, ele me disse que usava o pouco dinheiro que tinha para pagar a pensão alimentícia, foi demitido, todo mundo havia sido demitido sem mais nem menos, a escola inteira, os donos deram uma volta nos impostos e fugiram, os funcionários estavam terminando o ano letivo como dava para evitar prejudicar os alunos, dois anos e meio de dedicação integral àquela empresa, e ele chorando, eu parecia feito de gelo, claro, respirava fundo e ficava puto, “Rui, seu retardado, porque você demorou a me procurar, seu arrombado, eu achei que era teu amigo…”, e daí le chora como um retardado. Eu o levo pra casa.
Rui toma banho, peço para as meninas darem prioridade às roupas dele, ele veste uma coisa de Benjamim, e ainda não tive tempo de dar atenção à Murilo, talvez fosse desinteresse, talvez fosse medo, talvez fosse raiva do que na noite anterior me deixou excitado e agora me dava raiva, Benjamin ofereceu o rabo a ele, meu macho, eu que mando em Benjamin, no corpo todo dele, os quatro se dando a foder aquele puto, mas na verdade, isso não me irritaria se fosse Samuel, estranho, mas eu sou assim, contraditório. Rui sai do banheiro e parecia um homem, eu conhecia de vista o prédio onde era a escola em que ele trabalhou, pois informações, disse que a gente ia almoçar, ele estava muito cheiroso com meu xampu, meu sabonete. Por sorte Joel estava em casa para o almoço, falei que ia contratar Rui como meu auxiliar para substituir Luana, falei do prédio a Joel, com sorte ainda dá para fazer um acordo com os professores e contratar essa galera, Joel gostou, estava mesmo com dificuldade de encontrar bons profissionais.
A tarde eu queria foder, mas nem pensei em Murilo, Joel de cara pergunta sobre a vida de Rui, quer saber porque ele vestia a camisa que era de Benjamim, deixo que Rui fale rapidamente sobre a vida dele de quando nos conhecemos até aquele momento, Murilo pergunta se ele é gay, eu digo que não, mas no mesmo instante ele diz que sim, “Desculpa te decepcionar, Mateus, mas eu sempre fui bi, nunca tive problema com isso, você sabia, não é, a gente chegou a foder aqueles estudantes metidos a importantes, a gente se revezavam, semana era eu metendo em um e tu no outro, revezava, descansava e começava de novo. Por onde eles andam?”, Murilo se entrega quando pergunta pra que ele queria saber. Eu ri, eu ri alto. É meu talento natural formar casais.
Muito timidamente um foi se aproximando do outro, o rapaz magricela de tom de chocolate e o preto retinto com mais de cento e dez quilos de músculos, Joel impaciente diz que ambos poderiam foder em qualquer lugar da casa desde que fosse longe dos olhos das funcionárias, ambos me olham como se pra me pedir autorização, digo que no meu banheiro tem gel lubrificante e camisinha, Rui olha pra mim e diz que me ama, eu volto a gargalhar vendo a pressa deles para chegar no quarto discretamente. Nossa cozinheira, pergunta se vão ficar ou se era uma hospedagem mais curta, digo que não tenho a menor ideia. Ela diz que ia sentir saudades de Caio e Renato, pergunto se Caio pediu para ela ir junto e prometeu aumento de salário, ela se faz de sonsa e diz que não, mentirosa, eu digo que vou pular no peito dele, ela fica nervosa, é uma senhorinha, rio mais, ela diz que não tem saúde para lidar com moleques mais novos que eu. Sou obrigado a lhe cobrir de beijos, e digo que meus primos precisam de uma vó, que ela está velha e isso era um pedido de Renato para lhe amparar na velhice, já que ela era uma mula teimosa. Ela chora e diz que eu sou um anjo.
Meu aniversário, Natal e Ano novo passam, acaba que Rui vai trabalhar com Joel e Murilo comigo, se por um lado nutre ele e eu não houve uma interação sexual bacana, para todos os outros assuntos ele é minha cara metade, vem mitigado a falta que sinto do outro Murilo, de Samuel e antecipadamente de Luana e de Tiago, eu estava péssimo, feliz e frustrado ao mesmo tempo. Ele entendia.
Rui segue fazendo o que sabe fazer de melhor, sendo o melhor mestre de capoeira do mundo, o melhor coordenador pedagógico do estado, um amigo maravilhoso que entende minha tristeza e um pau de vinte e três que fica ao lado de um cu guloso… trepar com ele e Murilo é mágico. Numa noite de segunda Rodrigo aponta para Murilo e pergunta quando eu ia enxotar o casal, “Rodrigão… eu quero, mas já dourarem meu quarto… estou dependente desse sujeito, ele é um funcionário maravilhoso e quando estou estressado bate punhta pra mim no trabalho (mentira, mas riram), acho que essa história deles de ir embora é mentira. Ainda bem.” Primeiro Murilo e depois Joel me beijaram. Rodrigo diz que nunca acreditou que Murilo e eu ia dar liga, Murilo confirma que ele lhe disse isso duas vezes antes do reencontro, Rodrigo diz que contava com a ida dos dois depois do Reveillon, mas estava feliz, mas tinha um problema.
Ele realmente acreditou que haveria uma suíte livre durante aquela semana, (nunca saberei se ele contou mesmo com isso ou se estava blefando), mas garantiu a um amigo que poderia vir para nossa casa passar quanto tempo quisesse, enquanto o apartamento dele era reformado, era o filho de um amigo de meu irmão mais velho por parte de pai, (meus outros meio irmãos não são próximos, nem hostis, na verdade são agradáveis e distantes), ele falou que eu podia ser muito generoso e ceder o quarto para esse hóspede, ia morrer de vergonha em desconsiderar, até porque ele é uma conta de sua carteira no banco, e… seguiu com uma ladainha de motivos, eu acabei cedendo quando Murilo disse que em dois dias Rui e ele podiam ir para outro lugar… cedi para não ter de me despedir de Rui Murilo. Eu ficaria com Hélio e Joel - ia arrumar um espaço no closet para o hóspede, mas não ia abrir mão de meu espaço.
O nome dele é Marcos. Ele veio na quarta, eu não estava em casa, estava na capoeira, Benjamim estava na mesma pilha de Rodrigo, dizendo que eu ia me apaixonar por Marcos assim que eu colocasse meus olhos nele. Eu bem queria, mas estava conformado que no meu caso era de ficar solteiro para todo o sempre, rodeado de amantes e amigos e enteados, mas sem alguém ao meu lado. Enfim…
Faltou luz em parte do bairro e a roda de capoeira terminou meia hora depois de começar, Rui ficou enchendo minha paciência que era sinal do destino, mas eu achei que era uma merda o que ia me acontecer, Rodrigo disse que Marcos usava uns óculos grossos e suspensórios, e eu gargalhei e eledddisseque eu ia gostar. Cheguei em casa e fui tomar uma ducha, olhei no relógio, era umas sete e meia ou oito, mas ele disse que chegaria às oito, lembro bem disso, saí de pijama do meu quarto, chinelo e secando o cabelo, ele ligou exatamente às oito, entrou na garagem com um daqueles quatro por quatro, e desceu. E era lindíssimo, acho que nunca conheci ou vi um homem mais lindo que ele.
Ele usava uma calça risca de giz escura com barra italiana, paletó cinza claro e camisa com dois botões abertos, suspensórios pretos sobre a camisa de um bege quase branco, sapatos de couro caramelo, óculos grossos azuis, o cabelo loiro que vai perdendo a cor conforme cresce levemente despenteado, uma barba feita para parecer relapsa, olhos atentos e uma boca rosa que ele umedeceu quando me viu, as tatuagens dele vinham dos dedos de uma mão até a outra, passava pelo pescoço inteiro, olhos como os meus azuis bem claros, mas nele eram lindos, eu devo ter parecido um idiota, eu fiquei sem chão, sem saber como respirar, minha toalha caiu e eu me senti nu como se não estivesse de pijama, peguei ela rapidamente até para esconder meu pau duríssimo. Ele pigarreou antes de perguntar se eu era o Mateus, eu balancei a cabeça e ele sorriu o sorriso mais lindo do mundo, ele sorri muito pouco, se irrita quase nunca, não tem esse humor tão instável como o meu, tudo nele é constante, estável e seguro.
“Estou me sentindo um idiota, eu não sabia o que trazer e comprei algumas coisas para a casa, você se importa em me ajudar?”, ele havia comprado lírios cor de rosa e amarelos num buquê enorme e me deu, pegou uma caixa com uma dúzia de garrafas de vinho e colocou em cima dela outra caixa, eu disse que era melhor eu ajudar com aquela outra caixa e ele me olhou, ficou vermelho e concordou. O cheiro dele era maravilhoso, eu ainda iria descobrir, ele falou que adora meu irmão, diz que ele lhe contou como nos encontramos de forma tão milagrosa, entramos na casa e ele se desculpou por estar sendo chato, estava muito nervoso perto de mim.
Que vontade de fazer tudo ao redor desaparecer, eu estava amando a primeira vista, eu sei que se Marcos pedisse para eu ir com ele para o purgatório com ele, eu iria. Rodrigo chegou cheio de abraços e me apresentou formalmente depois que eles se apresentaram, “Abraça meu amigo, seu merda, eu sou o confidente de Marcos e eu exijo que ele seja tratado como um lorde aqui”, “Você não está na posição de exigir nada aqui, seu merda!”, “Que flores lindas!”, essa observação de Rodrigo me deixou vermelho, senti meu sangue inteiro no rosto, minha mãos suando, olhei para Marcos rapidamente e ele estava como eu, vermelho, nervoso, envergonhado.
Jantamos e ele disse que as flores eram para enfeitar a casa, mas ela era linda o suficiente, exceto por Rodrigo, tudo parecia perfeito em nossa casa. Benjamin lamentou ter de acordar cedo, disse que seus chefes eram monstros, Joel disse que ia mostrar o tamanho do monstro, mas era verdade, com a história de poderem reabrir a escola fechada com as ideias e recursos do cursinho, aquele planejamento de acontecer em agosto tinha de acontecer em dez dias, eles estavam trabalhando além do limite. Rodrigo disse que ia fazer um boquete no marido no chuveiro e colocar o gordo na cama, quem sabe até enrabar Ben, Benjamim levantou dizendo que eu ia mostrar a casa, e onde o hóspede ia ficar.
Todos foram se recolher, ele ficou me ajudando a organizar a cozinha, disse que acordava tarde e dormia tarde, era um prazer poder me ajudar, eu o ajudei a levar duas malas até meu quarto, mostrei um canto onde ele poderia pendurar algumas peças, prometi organizar as coisas para ele poder se acomodar de verdade naquele quarto, ele olhou a parede e disse que era um amarelo mais escuro que meu cabelo, eu respondi que era mais claro que o dele, aí eu liguei o foda-se, era quase onze da noite, eu estava de pau duro e não queria mais esconder, ele estava tirando o paletó.