A formatura não foi apenas a entrega de um canudo de papel; foi a nossa alforria definitiva, o ponto final em um roteiro de superação que escrevemos com suor e coragem. Anos se passaram desde aquela noite, e a vida, generosa, encarregou-se de consolidar o que antes eram apenas sonhos audaciosos. Nossa agência, agora batizada e respeitada, não era mais um projeto de recém-formados; estabelecida no coração do Batel, o bairro mais elegante e vibrante de Curitiba, ela se tornou um farol de criatividade e luxo audiovisual.
A nossa rotina no Batel exigia uma logística que acompanhasse nosso ritmo, e nossa garagem tornou-se o reflexo das nossas identidades. Tínhamos três veículos que eram extensões de quem nos tornamos. O Caio mantinha sua essência indomável acelerando uma moto esportiva de alta cilindrada, preta e agressiva, que cortava o trânsito da cidade com a força que ele sempre imprimiu em nossas vidas. Martina, por outro lado, prezava pelo conforto e pela segurança para nossas viagens, conduzindo um SUV de luxo, espaçoso e tecnológico, que servia como nossa fortaleza móvel nas estradas paranaenses.
E havia a minha grande paixão: uma Harley-Davidson Fat Bob branca, uma máquina imponente que parecia esculpida em marfim e metal. Nos dias de reuniões importantes, eu escolhia o asfalto. Pilotar aquela moto não me fazia perder um grama de feminilidade; pelo contrário, realçava a mulher poderosa que eu havia me tornado. Eu cruzava as avenidas de Curitiba sentindo o motor vibrar entre minhas pernas, vestindo calças de alfaiataria de corte seco e botas tratoradas de couro que me davam a postura necessária. Por cima, uma camisa de seda com as mangas dobradas até os cotovelos, revelando a pele macia que contrastava com a agressividade do metal.
O meu toque de mestre era o capacete em tom rosé, adornado com desenhos orgânicos e sofisticados também em rosé, que traziam um ar chique e exclusivo à peça. O cabelo loiro acastanhado, agora longo e sedoso, ia preso em tranças soltas que Martina fazia questão de trançar antes de eu sair. Elas repousavam sobre as minhas costas e, a cada acelerada mais forte, eu sentia os fios vibrarem com o vento, dançando em sintonia com o ronco do motor. Nas mãos, eu usava luvas de couro sem os dedos, um detalhe funcional que permitia acomodar minhas unhas de gel, sempre em cores vibrantes e impecáveis, que se destacavam contra o guidão escuro.
Eu me mantinha feminina em algo tão bruto porque a minha essência não dependia da delicadeza das formas, mas da confiança com que eu ocupava o meu espaço. Parar a Fat Bob branca na frente da nossa agência no Batel, descer e tirar o capacete enquanto as tranças se soltavam sobre o ombro, era o meu momento de maior plenitude. Eu era a prova viva de que a força e o glamour podiam, sim, acelerar juntos.
Mas o que mudou nossa vida mesmo foi a descoberta da vinda de Bianca não foi um anúncio planejado, mas um daqueles momentos em que a vida se revela nos detalhes. Estávamos na agência, em uma tarde de sol forte no Batel, quando Martina começou a reclamar de uma indisposição que já durava dias. Ela sentia um cansaço que o café não resolvia e uma sensibilidade olfativa que a fazia recuar de perfumes que antes amava. Foi o olhar atento de Caio, com seu instinto protetor e seus conhecimentos médicos, que pescou o sinal. Quando ela empurrou o prato de comida japonesa que tanto amávamos, reclamando de um enjoo súbito, ele sorriu de canto e colocou a mão sobre a dela. "Marti, seu corpo está tentando nos dizer algo", ele sussurrou. O teste positivo, horas depois, foi o início de um épico de nove meses.
Os dias de gravidez foram uma mistura de desafios e sonhos. Martina enfrentou o cansaço e os desejos mais loucos que já vi — como a vez em que nos fez cruzar Curitiba às duas da manhã atrás de uma combinação improvável de batata frita com mel. Caio revelou-se o pai que sempre sonhou ser, um pilar de cuidado absoluto. Ele massageava os pés dela todas as noites, montava o berço com uma precisão cirúrgica e sussurrava promessas de proteção para a barriga que crescia. Enquanto ela gerava a vida, eu me preparava para sustentá-la através do rigoroso protocolo de indução de lactação. Quando minha mãe soube, as lágrimas dela selaram nossa paz definitiva: ver que eu compartilharia o ato sagrado de nutrir meu próprio filho era a prova de que minha transição chegara à sua plenitude máxima.
O nascimento foi um triunfo de luz. Martina, exausta e suada, exibia uma expressão de êxtase quando Bibi finalmente chegou, com sua pele rosada e olhos curiosos. O momento em que a amamentei pela primeira vez foi a experiência mais visceral da minha existência. Sentir aquela boquinha pequena e ávida encontrando o meu mamilo foi como se um circuito de amor puro se fechasse. Eu não tinha o mesmo fluxo que Martina, mas tínhamos o suficiente para sermos, as duas, a fonte da sua vida. Esse vínculo de leite e sangue nos uniu de uma forma que nenhuma palavra conseguiria descrever.
O nascimento de Bibi não arrefeceu a chama entre nós três; pelo contrário, nosso sexo continuava com a mesma urgência e paixão de adolescentes. Descobrimos novas formas de nos pertencermos em meio aos brinquedos espalhados pela sala, onde o desejo se misturava à cumplicidade de sermos pais. Bianca crescia em um lar onde o amor não tinha fôrmas, apenas fundamentos sólidos. Eu florescia como mãe e profissional, sentindo que meu corpo, que um dia fora meu campo de batalha, era agora o santuário perfeito para abrigar tanto afeto.
O tempo, em nossa casa, não passava em segundos, mas em centímetros de crescimento marcados no batente da porta e em novas palavras que floresciam na boca de Bianca. Ver nossa pequena Bibi crescer foi o espetáculo mais bonito que a nossa agência jamais produziu. Ela se tornou uma mistura fascinante de nós três: herdou a determinação silenciosa e o olhar observador do Caio, a sensibilidade poética e o sorriso aberto da Martina, e de mim... de mim ela herdou a coragem de ser quem se é, além de uma paixão precoce pelas cores e pelo brilho do sol no metal das nossas motos.
Nossa família era uma fortaleza de afeto que desafiava as definições do mundo. Bianca nunca teve dúvidas sobre quem éramos; para ela, o amor não era uma conta matemática de dois, mas uma soma infinita de presenças. Ela cresceu sendo ninada por três pares de braços, educada por três perspectivas diferentes e amada com uma intensidade que transbordava as paredes do nosso casarão. Mantivemo-nos felizes, protegidos por esse pacto de verdade que selamos anos atrás no restaurante do Alto da XV. O sucesso no Batel nos trouxe conforto, mas foi o som das risadas de Bibi correndo pelos corredores que nos trouxe a verdadeira paz.
E então, o dia que parecia um horizonte distante chegou: o primeiro dia de aula da nossa pequena.
Era uma manhã típica de Curitiba, com aquele frio que pede casaco e um sol pálido tentando romper a neblina que abraçava a cidade. Estávamos todos no SUV, a nossa "nave" familiar, que naquela manhã parecia pequena para o tamanho da nossa emoção. Caio estava no volante, com as mãos firmes, mas o olhar constantemente voltado para o retrovisor. Martina, ao seu lado, apertava um lenço de papel, já com os olhos marejados antes mesmo de sairmos da garagem.
Eu estava no banco de trás, ao lado de Bianca. Ela usava o uniforme novo, imaculado, e uma mochila que parecia grande demais para suas costas pequenas. Eu ajustava seu laço de cabelo — um laço em tom rosé, minha pequena homenagem que ela agora carregava com orgulho. Bibi segurava a minha mão com força, e eu sentia a pulsação dela, um ritmo que batia em sincronia com o meu.
Ao chegarmos na porta da escola, o mundo pareceu desacelerar. Vimos outros pais, outras famílias, mas não havia medo em nós, apenas um orgulho transbordante. Descemos os três. Caio pegou-a no colo para um último abraço de urso, Martina beijou suas bochechas com uma prece silenciosa, e eu me agachei à sua altura, segurando seu rosto. — Vá lá, meu amor. O mundo é seu — sussurrei.
Bianca deu o primeiro passo em direção ao portão, parou, olhou para trás e acenou, com o sorriso mais confiante que já vi. Vê-la entrar, pequena e corajosa, foi como ver um pedaço do meu próprio coração caminhando livre pelo mundo.
Voltamos para o carro em silêncio, as mãos se encontrando sobre o console central. Caio fechou a porta, e aquele som abafado isolou todo o ruído, todo o julgamento e toda a pressa do mundo exterior. Ali dentro, naquele espaço confinado e quente, envolta pelo cheiro do perfume da Martina e pela presença sólida do Caio, eu desabei em um choro de alívio e gratidão. O "Garoto Rosa" que um dia fugiu de casa com medo do futuro não existia mais. No seu lugar, havia uma mulher, uma mãe, uma esposa, amada além de qualquer medida. Meu coração, finalmente e para sempre, repousava no único lugar onde ele sempre soube que seria lar: entre os amores da minha vida.
Fim
