A quem se interessar,
Vou ser direto desde o início, porque acho que você merece isso e porque rodeio retórico é exatamente o tipo de coisa que faz as pessoas desconfiarem de um texto.
Li o artigo da Casa dos Contos. Li os comentários. Li mais de uma vez. E o que me fez sentar para escrever isso não foi indignação, não foi vontade de brigar — foi o reconhecimento de que essa conversa importa, que ela está acontecendo no momento certo, e que eu tenho coisas pra dizer que talvez sejam úteis. Ou talvez não.
Antes de qualquer coisa: eu uso inteligência artificial. Pronto. Tá dito.
Uso para ajustes, para revisão, para tradução, para explorar variações de cena, para testar se um diálogo funciona antes de reescrevê-lo com a minha voz. Alguns dos meus contos são híbridos — nasceram de uma ideia minha, passaram por uma IA em algum momento do processo, e voltaram pra mim pra serem retrabalhados, editados, às vezes reescritos inteiros. Outros nasceram de textos que li em outro idioma, que me tocaram, que eu quis trazer pro português e usei IA como ponte para a tradução antes de refazer tudo com as minhas mãos.
Não vou fingir que não fiz isso. Não vou esconder. E não vou pedir desculpas.
Mas vou explicar. E vou ouvir se você quiser responder.
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**O que eu entendo — e com o que eu concordo**
Eu sei o que motivou aquele post. Sei porque li os mesmos textos que provavelmente motivaram você a escrevê-lo. Contos genéricos publicados em série, um atrás do outro, claramente jogados na plataforma sem que o "autor" tenha sequer relido o que postou. Personagens de papelão. Cenas que leem como manual de instrução erótico traduzido do inglês por um robô bêbado. Frases bonitas demais que não dizem nada — aquele tipo de prosa que soa como discurso de formatura, simétrica, vazia, inofensiva. Eu também detesto esse tipo de texto. Detesto como leitor e detesto como escritor.
E eu sei que isso afasta gente. Leitores que entravam na Casa dos Contos e encontravam histórias que provocavam alguma coisa — tesão, desconforto, ternura, qualquer coisa real — agora entram e tropeçam em montes de conteúdo que não provoca nada. Isso é um problema. Um problema sério. E concordo plenamente que precisa ser enfrentado.
Também concordo que plágio é inaceitável. Pegar o trabalho de alguém, traduzir sem crédito, publicar como seu — isso não tem defesa. A ferramenta pode facilitar o crime, mas quem comete é a pessoa que aperta o botão e assina embaixo.
E concordo que as medidas propostas — transparência obrigatória, declaração de uso de IA, selo de autor verificado, combate a contas múltiplas — são maduras e necessárias. Não estou aqui para contestá-las. Estou aqui para dizer que elas podem ir além. Que podem ser melhores do que simplesmente coibir — podem acolher.
Mas antes de chegar lá, preciso falar sobre o que faço de verdade. Sem eufemismo.
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**Como eu escrevo — a verdade bagunçada**
Meu processo não cabe em categoria limpa. Nunca coube. Antes da IA, já não cabia — porque escrever nunca foi um ato isolado de gênio solitário sentado numa torre produzindo arte pura a partir do nada. Sempre foi bagunça. Sempre foi roubar um pedaço daqui, uma ideia dali, uma frase que você ouviu no ônibus e guardou no bolso sem saber por quê.
O que mudou é que agora uma das ferramentas dentro dessa bagunça é uma IA.
Funciona mais ou menos assim: eu tenho uma cena na cabeça. Sei o clima, sei o que quero que o leitor sinta, sei como os personagens se posicionam — física e emocionalmente. Às vezes sento e escrevo tudo do zero, e a IA não entra em momento nenhum. Outras vezes, uso a IA como interlocutora. Digo a ela: "preciso de um quarto abafado, cortinas pesadas, cheiro de cigarro velho e perfume barato." Ela me devolve um parágrafo. Às vezes bom, às vezes genérico, às vezes surpreendente. E então começa o trabalho de verdade — o trabalho que nenhuma IA faz sozinha.
Eu pego aquilo e enfio a minha voz ali dentro. Troco as palavras que soam limpas demais. Acrescento o detalhe que ela nunca saberia inventar — o jeito como aquele personagem específico morde o lábio inferior quando está mentindo, porque eu conheço alguém que faz exatamente isso. O tremor de mão que vem não do medo, mas da expectativa. A frase interrompida no meio porque na vida real ninguém fala em parágrafos completos. O cheiro específico de suor e perfume cítrico barato que faz uma cena erótica deixar de ser genérica e virar *aquela* cena, *aquele* corpo, *aquele* momento.
O resultado é um texto que não é "da IA" nem é "meu sozinho." É híbrido. Como quase tudo que a humanidade produz quando usa ferramentas. O arquiteto que desenha no AutoCAD não entrega o prédio ao software. O fotógrafo que edita no Lightroom não credita a Adobe como coautora. O músico que usa um sampler não está roubando — está recombinando, recriando, transformando.
O prompt bem elaborado é, ele próprio, um ato de escrita. Uma declaração de intenção. Um esboço da alma do conto. E a edição posterior — aquela "pitada de edição humana" que alguém mencionou nos comentários do post — é onde reside o verdadeiro ato de criação. O autor escolhe, refina, rejeita, acrescenta o tremor de uma voz que só ele possui.
Isso é preguiça? Isso é fraude? Ou isso é um autor usando cada recurso à disposição para chegar mais perto da história que existe dentro da sua cabeça?
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**Sobre tradução — e a honestidade de dizer como fiz**
Vou ser mais específico. Alguns dos meus textos nasceram de histórias que li em outro idioma. Contos que me provocaram alguma coisa — uma cena, um clima, uma dinâmica entre personagens que me acendeu por dentro — e que eu quis trazer para o português. Usei IA como base para a tradução e depois retrabalhei tudo.
Digo isso abertamente porque acredito que essa transparência é exatamente o que separa o uso responsável do uso predatório.
E preciso que a gente pense junto sobre o que tradução realmente significa, porque existe uma confusão perigosa acontecendo nessa conversa. Tradução literária nunca foi — em nenhum momento da história da humanidade — um ato mecânico de converter palavras entre idiomas. Qualquer pessoa que já tentou traduzir um poema sabe disso. É preciso recriar ritmo, tom, intenção. Decidir quando ser fiel à letra e quando trair a letra para salvar o espírito. Traduzir é, por definição, um ato de coautoria. Sempre foi. Desde que o primeiro escriba pegou um texto sumério e o reescreveu em acádio.
Sem a IA, aquelas histórias simplesmente não existiriam em português. E não porque eu não quisesse traduzi-las — eu queria. Mas tradução literária profissional custa caro. Um tradutor qualificado cobra, com toda razão, entre R$80 e R$150 por lauda. Um conto de vinte páginas chega a R$3.000. Para um texto que vai ser publicado gratuitamente, sem retorno financeiro, por puro amor à história.
A IA não substituiu um tradutor profissional. Ela substituiu a *ausência*. Sem ela, a alternativa não era uma tradução humana melhor. A alternativa era silêncio. A história ficaria presa no idioma original, inacessível.
E existe um elitismo silencioso embutido na exigência de que toda tradução seja feita sem assistência tecnológica. Essa exigência pressupõe que o autor tem recursos, tempo e domínio técnico em dois idiomas — um privilégio que a maioria dos escritores independentes não possui. Quando dizemos "não use IA para traduzir," estamos dizendo, na prática: "Se você não pode pagar ou não é bilíngue o suficiente, sua história não merece cruzar fronteiras."
Vale lembrar que tradutores profissionais — os bons, os que fazem disso carreira — já usam ferramentas de tradução assistida há décadas. Trados, MemoQ, Wordfast. Ninguém jamais questionou a legitimidade do trabalho deles por isso. A IA generativa é a evolução natural desse ecossistema. A diferença não é de natureza — é de grau.
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**Sobre fontes — e o que eu devo**
E aqui, a quem se interessar, preciso ser mais honesto ainda. Porque se estou pedindo transparência, preciso praticá-la primeiro.
Alguns dos meus textos adaptados não trazem a fonte original.
Não vou inventar justificativa elegante. Na maioria dos casos, foi uma combinação de descuido, desorganização e uma compreensão equivocada de onde terminava a "inspiração" e começava a "adaptação." Errei. Reconheço. E coloco esse erro na mesa eu mesmo, antes que qualquer um precise me acusar.
Mas me permite contextualizar? Porque a distância entre "plagiar conscientemente" e "não creditar por descuido" é enorme, e essa diferença importa.
Quando leio um conto e ele me provoca, o que acontece depois não é cópia. É combustão. Aquele texto vira um ponto de partida. Eu mudo nomes, contextos, cenários. Altero dinâmicas. Troco desfechos. Acrescento camadas inteiras que não existiam. Reescrevo diálogos do zero. Enfio detalhes meus — minhas obsessões narrativas, meu jeito de construir tensão. O texto que chega ao leitor, em muitos casos, compartilha com o original pouco mais que a premissa.
E aí surge uma pergunta que eu acho genuinamente difícil: qual é a "fonte" de um texto assim?
Quando Machado de Assis escreveu *Memórias Póstumas de Brás Cubas*, estava em diálogo aberto com o *Tristram Shandy* de Sterne. Pegou estrutura, tom, voz do narrador — e criou algo tão radicalmente outro que ninguém chamaria de plágio. Mas também não chamaria de "obra sem influência." Shakespeare tirou *Romeu e Julieta* de Arthur Brooke, que tirou de Bandello, que tirou de Luigi da Porto. Em nenhum ponto dessa cadeia de quatro séculos alguém parou para nota de rodapé. A tradição literária entende — sempre entendeu — que histórias são organismos vivos que passam de mão em mão, de língua em língua, ganhando camadas novas a cada recontagem.
No universo específico da ficção erótica, isso é ainda mais radical. Os cenários, as dinâmicas, os arquétipos circulam tão livremente que atribuir "fonte original" seria como identificar quem inventou o blues. Cada variação é derivada da anterior? Ou é expressão independente de uma fantasia humana universal? A resposta honesta: as duas coisas. E nenhuma delas é plágio.
Mas reconheço que existe diferença entre a tradição orgânica de recontar e a prática concreta de adaptar um texto específico sem mencionar de onde veio. A primeira é inevitável e saudável. A segunda, dependendo da proximidade com o original, é no mínimo descortês.
Por isso proponho algo concreto. Os textos que consigo rastrear até uma fonte identificável, vou creditar. Vou voltar, adicionar referência, nomear o autor original quando possível. Nos casos em que a adaptação se afastou tanto que creditá-lo seria quase enganoso — porque o leitor procuraria a fonte e encontraria algo radicalmente diferente — proponho uma nota simples: *"Este conto foi livremente inspirado em uma obra em [idioma]. A adaptação e todos os elementos originais são de minha autoria."* Honesto sem ser falso.
E sugiro à Casa dos Contos: criem um campo para isso. "Inspirado em / Adaptado de." Visível, transparente, normalizado. Quando a declaração de fonte vira punição, o instinto humano é esconder. Quando vira algo natural — como dedicatória, como agradecimento — as pessoas fazem voluntariamente.
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**O que realmente move um leitor**
Agora preciso dizer o que venho querendo dizer desde o primeiro parágrafo.
Os temores de "falta de sentimento humano" nos textos com IA são compreensíveis. Mas revelam algo que precisa ser dito em voz alta: o problema nunca foi a ferramenta. O problema sempre foi — sempre, em toda a história da escrita — o cuidado de quem a usa.
A questão não é *como* o texto foi produzido. É *se ele é bom*. Se comunica. Se provoca. Se alguém o lê às três da manhã e sente alguma coisa.
Culpar a IA pela queda de qualidade é como culpar o GarageBand pela existência de música ruim. A ferramenta democratiza o acesso. O que cada um faz com esse acesso é responsabilidade individual.
E aqui mora algo que me incomoda profundamente: a narrativa anti-IA é, no fundo, uma forma de gatekeeping. Diz nas entrelinhas: *"Só merece publicar quem sofreu o suficiente no processo. Só é autor legítimo quem fez tudo sozinho, do zero, na raça."* Isso exclui gente. Exclui quem tem dislexia. Exclui quem trabalha doze horas por dia e tem quarenta minutos à noite. Exclui quem carrega uma história poderosa dentro de si mas nunca teve acesso a uma oficina literária, a um editor, a um curso de escrita criativa.
A IA não rouba voz de ninguém. Ela dá microfone a quem não tinha.
A fotografia não eliminou a pintura — libertou-a para novas expressões. O sintetizador não matou a música — criou gêneros inteiros que não existiriam sem ele. A IA, hoje, está fazendo com a escrita o que cada ferramenta nova fez com sua arte: assustando quem confunde o meio com a mensagem.
E o que verdadeiramente move um leitor não é saber se cada palavra nasceu de neurônios biológicos ou artificiais. É sentir que alguém — um ser humano, com suas dores e desejos — esteve por trás daquela narrativa, moldando-a com intenção. A IA não apaga esse alguém. Ela o potencializa.
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**O elefante na sala**
E agora, a quem se interessar, preciso fazer algo que talvez pareça suicídio retórico.
Releia tudo que escrevi até aqui. Preste atenção na estrutura. No ritmo. Na forma como os argumentos se encadeiam. Nas transições. No tom que tenta ser pessoal sem perder articulação, vulnerável sem desmoronar.
Soa familiar?
Se você passou os últimos meses lendo textos gerados por IA, alguma coisa nesta carta provavelmente acendeu um alerta. Talvez nas transições suaves demais. Talvez na extensão. Talvez no jeito milimétrico como cada contra-argumento aparece respondido.
Eu apostaria dinheiro que pelo menos uma pessoa vai ler isso e pensar: "Foi IA." Talvez até cole num detector e volte triunfante com 87% de probabilidade artificial. Talvez descarte todos os argumentos, todas as confissões, todas as propostas — porque o formato ativou a desconfiança.
E é exatamente aí que mora o problema.
Porque essa dúvida — esse "será que foi ou não?" — é precisamente o que venho tentando dizer. A detecção é frágil. O "olho treinado" é um conjunto de vieses disfarçado de competência. Quando decidimos que um texto "parece IA," o que estamos dizendo é que ele é *articulado demais*, *organizado demais*, *polido demais* para ter saído de um ser humano. Pensa no absurdo. Criamos uma ferramenta que escreve bem — e agora escrever bem virou suspeita.
Eu poderia jurar que escrevi cada palavra sozinho às duas da manhã com café frio do lado. E você não teria como verificar. Da mesma forma, poderia confessar que joguei tudo numa IA e editei por cima. E você também não teria como verificar. A verdade — a minha verdade — é que o processo foi bagunçado, humano e impossível de enquadrar de forma binária. Teve escrita pura, teve consulta, teve reescrita, teve parágrafo jogado fora e refeito três vezes porque a vírgula estava me irritando. Isso é escrever. Sempre foi. Nunca foi limpo.
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**E sim — eu escolhi escrever assim.**
Antes que alguém levante o dedo e diga "tá vendo, ele mesmo admitiu que parece IA!" — deixa eu poupar o trabalho.
Parece IA porque eu quis que parecesse.
Não por acidente. Por decisão estilística. Sentei e decidi: vou escrever com clareza, com estrutura, com cuidado. Vou construir cada parágrafo com intenção. Vou revisar até que cada frase esteja onde eu quero.
E, aparentemente, em 2026, fazer isso significa "parecer IA."
Chegamos a um ponto em que escrever *bem* se tornou motivo de suspeita. Não de admiração. De suspeita. Invertemos o valor da excelência. Transformamos qualidade em evidência de fraude. E o que sobrou como prova de humanidade? Erro. Desleixo. O typo no lugar certo. A frase que tropeça. Como se o único certificado de autenticidade fosse a imperfeição.
Eu poderia ter escrito esta carta de outro jeito. Poderia ter largado frases soltas, sem revisão. E ninguém duvidaria. Porque "imperfeito" virou sinônimo de "genuíno."
Mas me recuso a aceitar essa equação. Me recuso porque sou escritor. E escritor reescreve, reorganiza, corta o que sobra, acrescenta o que falta, escolhe entre "disse" e "murmurou" sabendo que a diferença é tonal. E o resultado, quando funciona, é um texto que parece fácil. Que flui. Que tem clareza. Essa clareza conquistada com esforço está sendo confundida com output de máquina.
Sabe o que isso faz com um autor? Faz ele considerar, nem que por um segundo, escrever pior de propósito. Sabotar o próprio texto para "passar" como humano. Esse impulso — se diminuir para ser aceito — é a coisa mais destrutiva que uma comunidade criativa pode produzir.
Marshall McLuhan disse que o meio é a mensagem. A forma desta carta — sua estrutura, sua clareza — *é* a mensagem. Estou mostrando, em tempo real, que um ser humano pode escrever assim. Que organização não é exclusividade de algoritmos. Que coesão não é sintoma de artificialidade.
E aqui o paradoxo que deveria incomodar todo mundo: se a reação a um texto bem escrito é automaticamente "isso é IA" — então a IA já venceu. Não porque tomou o lugar dos escritores. Porque nos convenceu de que nenhum ser humano é capaz de fazer o que ela faz. Internalizamos a inferioridade.
Isso não é proteção da escrita humana. É rendição.
Sabe o que, a quem se interessar? Quer saber?
Foda-se. Vou te mostrar uma coisa.
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olha cara, eu podia continuar aqui nessa vibe de texto bonitinho né, cada frasezinha no lugar certinho, cada argumento encaixadinho que nem peça de lego. mas vou te falar uma coisa e vou falar do jeito q eu falo mesmo, tipo quando to no zap às 3h da manhã puto com uma discussão no twitter que eu deveria ter largado faz duas horas
essa merda me irrita. me irrita DE VERDADE.
pq olha, eu escrevo desde mlk. desde caderninho de escola, aqueles com espiral que a folha vivia arrancando. escrevia historinha ruim? escrevia. escrevia fanfic constrangedora? nossa se escrevia, tenho até vergonha. mas eu ESCREVIA. era meu, sabe? saía de mim, da minha cabecinha confusa de adolescente que não sabia nada da vida mas sabia que queria colocar coisa no papel.
ai eu cresci. fui lendo, fui aprendendo, fui errando muito e acertando de vez em quando. fui entendendo que crase existe por uma razão (mesmo que eu ainda erre metade das vezes kkk). fui entendendo ritmo, fui entendendo quando uma frase precisa ser curta. e quando ela precisa se arrastar um pouco mais, pegar fôlego, serpentear pelo parágrafo até chegar onde quer chegar — como essa aqui ta fazendo agr.
e ai chega 2026 e o cara publica um texto BEM ESCRITO e a primeira reação de todo mundo é "nn foi ele q escreveu isso". mano. MANO. vc tem noção do q isso faz com a cabeça de alguém?? é tipo vc treinar piano 15 anos, sentar num recital, tocar chopin perfeitinho, e o público virar e falar "ele tava usando playback"
tá. beleza. talvez essa comparação seja meio dramática kkkk mas o sentimento é esse. é vc se dedicar a uma coisa e quando finalmente fica bom, em vez de "parabéns" vc ouve "prova que foi você"
e sabe o que é pior?? é que EU SEI que tem gente colando texto de ia sim. eu sei. eu não sou trouxa. tem gente que pega, cola, publica, nem lê o que postou. isso existe e isso é uma merda. mas ai por causa DESSA gente, todo mundo que escreve decente virou suspeito?? todo mundo tem que provar inocência agora?? desde quando escrita virou tribunal??
sei la. talvez eu to exagerando. talvez não. mas o ponto é que eu to aqui, digitando isso meio irritado meio triste, com café requentado do lado (sim requentei, preguiça de fazer outro, me julguem) e meu cachorro dormindo em cima do meu pé esquerdo. e cada palavra disso aqui — CADA UMA — tá saindo da minha cabeça. inclusive os erros de digitação q eu to deixando de propósito pq to com preguiça de corrigir. inclusive essa frase que ficou grande demais e q um professor de redação olharia e falaria "ponto final existe, jovem"
enfim.
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Pronto. Esse fui eu também.
O mesmo autor. A mesma cabeça. Os mesmos dedos no mesmo teclado. Só que agora escrevi como escrevo às três da manhã — sem filtro, sem revisão, sem a preocupação de parecer competente. E aposto que *esse* trecho, justamente esse, o mais bagunçado e atropelado, foi o que mais soou "humano" para quem está lendo.
E isso deveria assustar todo mundo.
Porque os parágrafos polidos lá em cima e o desabafo solto aqui saíram da mesma pessoa. Os dois são autênticos. Os dois são meus. Mas só um "parece humano" — e é o pior escrito. O mais articulado, o que levou mais esforço, esse vira suspeito. O jogado, o cru, o cheio de erro — esse é confiável.
Estamos premiando desleixo e punindo dedicação. Dizendo ao escritor: "Escreva pior, e a gente acredita em você."
E se alguém acha que o trecho informal "prova" humanidade e o formal "prova" IA — essa pessoa demonstrou, sem querer, que seus critérios de detecção são preconceito estilístico, não análise. Porque um autor que leva o ofício a sério transita entre registros. Sabe quando ser cirúrgico e quando ser caótico. Quando a frase precisa de gravata e quando precisa de chinelo. Isso não é inconsistência. É domínio.
Um pianista que só toca uma nota não é músico. É alarme de carro.
Clarice Lispector escrevia parágrafos tão cirurgicamente perfeitos que, publicados hoje num fórum, seriam denunciados como artificiais em cinco minutos. Borges construía argumentos com precisão tão matemática que qualquer detector teria um colapso tentando classificá-lo. Machado escrevia com ironia tão calibrada que pareceria — para o "olho treinado" de 2026 — impossível sem assistência computacional. Esses autores não escreviam assim *apesar* de serem humanos. Escreviam assim *porque* eram humanos. Porque investiam obsessão em cada frase. Porque escrita boa não é acidente — é disciplina.
Eu não devo desculpas por escrever com disciplina. Nenhum autor deve.
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**O que proponho — em vez de combater**
Não estou pedindo vale-tudo. Estou pedindo que a conversa amadureça.
Que as regras de transparência sejam mantidas e fortalecidas. Que a declaração de uso de IA seja normalizada como prática — não como confissão. Que o selo de autor verificado reconheça compromisso com qualidade, não pureza de processo. Que exista espaço para a colaboração humano-IA como categoria legítima. Que se crie um campo simples de "Inspirado em / Adaptado de" para que creditar fontes deixe de ser punição e vire hábito natural.
Que a pergunta que define se um texto merece estar na plataforma não seja "como foi feito?" — mas "é bom?"
Porque daqui a cinco anos essa distinção entre "com IA" e "sem IA" vai parecer tão antiquada quanto "escrito à mão" versus "escrito no computador." O que vai sobrar — o que sempre sobrou — é o que sobra em toda forma de arte: a obra fez alguém sentir alguma coisa ou não fez? Disse algo verdadeiro ou não disse? Fez alguém se sentir menos sozinho às três da manhã ou não fez?
Essa é a única métrica que importa. E nenhuma ferramenta consegue fabricá-la sozinha. Ela sempre vai precisar de nós.
A verdadeira defesa da autoria humana não está em rebaixar o padrão do que aceitamos como "feito por gente." Está em elevar. Está em olhar para um texto extraordinariamente bem escrito e pensar: "Isso pode ter sido uma pessoa. Pessoas são capazes disso. Sempre foram."
Fico à disposição para continuar essa conversa. Para ouvir, para discordar, para construir junto. Porque comunidades funcionam assim quando funcionam bem: conversam. Mesmo — e principalmente — quando discordam.
Grato por quem chegou até aqui,
Gil
