Capítulo 2: O Reflexo e o Recibo
Já no lanche com o marido foi tranquilo, a minha mente ainda estava lá atrás, naquela sala de aplicação. O gosto do suco de laranja parecia misturado com a adrenalina do momento em que eu senti o olhar do "novinho" — orbitando a porta aberta.
Ao chegarem em casa, o marido foi direto para o banho, deixando o celular e as chaves sobre a mesa. Eu, por instinto, toquei o local da injeção. Ainda ardia um pouco, uma lembrança física da vulnerabilidade de minutos atrás.
Eu me aproximei do espelho do corredor. Estava com aquela aura que só a juventude exalava: a pele viçosa, o corpo que preenchia meu jeans de um jeito que fazia os homens na rua esquecerem o caminho de casa. Eu lembrei do homem mais velho na frente da loja; aquele olhar de "caçador" era diferente do novinho atendente da farmácia. O mais velho era pura cobiça; já o do atendente, no entanto, era um desafio. Ele sabia da aliança. Ele via meu marido. E, mesmo assim, não desviava o foco.
Meu celular vibrou. Não era uma mensagem, era apenas um lembrete mental: ela precisava confirmar se o desconto do convênio tinha passado corretamente. Eu peguei a sacola da farmácia e tirou o cupom fiscal.
Foi então que eu vi.
No verso do papel térmico, bem no rodapé, não havia apenas o valor total. Havia uma sequência de números escrita à caneta, com uma letra firme e levemente inclinada. Abaixo dos números, uma frase curta que fez meu coração dar um solavanco:
"O espelho da dispensa reflete mais do que você imagina.
Gabriel 9xxxx-xxxx"
Eu senti um frio na barriga. Ele tinha visto? Ou ele queria que eu achasse que ele viu? A insistência da atendente em tirá-lo de lá tinha sido o timing perfeito para ele deixar aquele rastro.
Eu olhei para a porta do banheiro, ouvindo o som do chuveiro. O marido estava ali, a poucos metros, enquanto eu segurava um "convite" silencioso de um rapaz que mal tinha saído da adolescência, mas que já sabia exatamente como incendiar a curiosidade de uma mulher.
Eu dobrei o papel em quatro, bem pequeno, e o escondi na capinha do celular. Eu ainda não sabia se iria mandar mensagem, mas a sensação de ser desejada daquele jeito — descarado, perigoso e jovem — era um combustível viciante.
"Eu te respeito", eu pensei, lembrei do que disse ao meu marido. E era verdade. Mas o respeito não impedia o sangue de correr mais rápido quando eu imaginava o que Gabriel diria se, em vez de um espelho, não houvesse porta nenhuma entre nós na próxima vez.
