Caríssimos,
Tive que dividir o final neste e em outro capítulo. Culpem a Ida por ter me dado uma ótima ideia.
Aliás, obrigado Ida pela revisão novamente.
Forte abraço,
Mark
A audiência foi encerrada e o Dr. Assis saiu quase correndo do Fórum, o telefone grudado ao ouvido, mas em distância que não me dava condições de ouvir o que dizia. Antes de sair, o Dr. Lauro me chamou de volta e perguntou o que estava acontecendo. Expliquei rapidamente da situação da Helena e ele disse que agora cobraria oficialmente do Ministério das Relações Exteriores ação na busca de respostas sobre o paradeiro dela.
Assim que eu entrei no meu carro, recebi uma ligação de um número desconhecido. Atendi meio temeroso:
- Gostou do que eu fiz, meu totoso?
- S.A.R.A.!?
[CONTINUANDO]
- E quem mais faria mágica como eu? - Ela deu uma risada e continuou: - Quando você me passou aquele número, tentei acessá-lo discretamente e notei que ele estava transmitindo dois conjuntos de imagens paralelas, ou imagens sobrepostas, para burrinhos humanoides como você entender. Senti cheiro de malandragem. Por isso, pedi que você me roteasse na audiência para eu acessar um dos computadores-destino da transmissão. Achei uma brecha num da secretaria próxima e usei a rede interna do fórum para chegar no da sala de audiência em que você estava e apliquei uma rotina de sobrecarga, ou Negação de Serviço, um DoS, sobre a imagem sobreposta, sabendo que isso iria travar a segunda linha de transmissão. Me deixa adivinhar o que aconteceu na audiência? A imagem sobreposta começou a congelar e pipocar em quadros, não foi?
- Foi. E depois apareceu uma outra mulher atrás da imagem da Helena.
- Isso! Imagem sobreposta. Uma pessoa se passando pela Helena, em tempo real. Hoje em dia, basta ter algumas imagens da Helena que um PCzinho meia boca com uma IA mais espertinha faz todo o resto. - Ela fez um silêncio por um instante e continuou: - Tá. Um PCzinho não dá conta, tem que ser um PUTA com-PUTA-dor para fazer uma PUTA qualquer virar a safada da Helena. Eles só não contavam que euzinha estaria aqui para desfazer isso também em tempo real. - Ela deu uma estrondosa gargalhada.
- Você é demais, S.A.R.A.! - Comecei a rir: - Agora, fala para mim que você conseguiu a localização da Helena?
- Sou mesmo, não sou? Ai, ai... Às vezes, nem eu aguento tanta “deliciosidade” assim.
- Hã... Tá bom. Mas e aí? Conseguiu localizar a origem da transmissão?
- Eu até consegui, mas como não era a Helena verdadeira, muito provavelmente a sua Helena não estaria lá.
Ela estava certa. Seria uma busca para o nada, isso se considerasse que a imagem tivesse sido gerada em um local fixo. Se fosse uma locação temporária, quando conseguíssemos chegar, eles já poderiam ter saído.
Cheguei em meu escritório e após fazer um breve relato do que ocorreu na audiência, o Alencar e o Benavides, os sócios do escritório, ficaram surpresos. Aliás, o Alencar pareceu ter ficado bastante surpreso. Já o Benavides me pareceu apenas ter se surpreendido. Aproveitei para procurar o Zico, mas ele, naturalmente, já sabia de tudo através da S.A.R.A. que, inclusive, seguia tentando acessar o computador central da CIA, mas sem sucesso até então.
Minha rotina voltou a ser a mesma até a sexta-feira, quando recebi uma ligação da Brianna, perguntando se poderíamos nos encontrar para conversarmos novamente. Marcamos para o sábado, às 20:00. Eu queria um restaurante público, mas ela me convenceu a aceitar um jantar informal em sua suíte no Hotel Fasano.
No dia e horário marcado, cheguei ao hotel, sendo acompanhado até sua suíte que, diga-se de passagem, era uma belíssima suíte. Dois funcionários aguardavam para nos servir em uma mesa posta para duas pessoas. Chamei discretamente a Brianna de lado e impus que eles saíssem, afinal, eu já estava meio calejado e não confiava em ninguém, fazendo questão de deixar claro que nem mesmo nela. Ela não pareceu se surpreender e os dispensou, dizendo que ela mesma serviria.
Assim que eles saíram, fui direto:
- Brianna, minha fome é por informações. Por mim, deixamos o jantar de lado.
- Eu imaginei que você ainda pudesse ter perguntas para fazer.
- Tenho. Várias.
- Então, sente-se, doutor Roberto. Posso te chamar de Beto?
- Não! Não pode. Somente a Helena me chamava assim... - Menti, porque meus amigos também me chamavam assim, mas, naquele momento, eu queria manter a conversa num “status” mais formal.
- Ah! Sim. É claro...
Ela se calou, constrangida pela forma como eu falei. Não podia culpá-la, afinal, eu vivia tenso e acabei exagerando. Ouvi ela mexendo em alguns réchauds e um novo silêncio. Balancei negativamente minha cabeça e decidi me levantar para ajudá-la no serviço, prometendo para mim mesmo ser mais educado. Antes que eu fizesse isso, senti o toque de uma mão em meu ombro:
- Não precisa ser tão duro assim, amor.
Foi um choque. Senti minhas pernas tremerem, o ar me faltar e até mesmo minha visão ficou turva por um momento. A voz, antes atrás de meu ombro esquerdo, agora estava bem ao meu lado:
- Calma, Beto. Sou eu. Estou aqui para conversarmos com calma, enfim.
Olhei para o meu lado e ali estava ela: Helena. Depois de tanto tempo, tantas desventuras, tantas incertezas, agora a certeza se fazia presente bem ali do meu lado:
- Helena!? Mas... como? Você... Você não estava no programa de proteção a testemunhas?
Ela deu uma gostosa risada e puxou uma cadeira para se sentar ao meu lado:
- Então... Tecnicamente, eu ainda estou lá.
- Como assim?
- Beto... a CIA quando quer, faz acontecer. - Respondeu, fazendo um leve meneio de cabeça na direção da Brianna.
- Eu... acho que devia esse reencontro de vocês, né? - Disse a Brianna, olhando-nos, mas logo se virando e voltando a mexer nos réchauds.
Voltamos eu e a Helena a nos encararmos. Havia tanto a ser dito, tanto tempo a ser recuperado, mas... Não sei como explicar, mas eu não a via mais como a mesma “Helena” de antes. Algo havia mudado, e não era na forma com ela me olhava e acariciava meu braço. Eu sentia algo estranho, como se uma barreira houvesse sido erguida entre a gente e não consegui corresponder da mesma forma, algo que ela parecia esperar de mim:
- Helena, você vai ter que voltar?
- Infelizmente sim, Beto. O processo lá nos Estados Unidos ainda está em curso e com o Mr. Bronson nas ruas, minha segurança ainda está em risco.
- Mas... Como vai ser isso? Até quando?
- Não sei, amor. Realmente, eu não sei.
- Vocês querem comer agora, ou preferem conversar antes? - Perguntou a Brianna, chamando a nossa atenção.
Helena me olhou e deu um leve apertão em meu braço, sussurrando um “Já volto, querido!” Então, se levantou e foi na direção da Brianna:
- Bri, você não precisa ir.
- Le, não vou ficar de... de... “third wheel”.
- Mas você não vai! Você não me disse que já adiantou parte da conversa com o Beto? Então! Fica e a gente se explica.
- Não, Le. Essa conversa é de vocês. Aliás, essa noite toda é de vocês. Vou para a outra suíte e volto amanhã. Ou você me liga quando tiver terminado aqui.
Então, o inimaginável para mim aconteceu. Elas se olharam em silêncio por um segundo, talvez dois, talvez mais, mas certamente mais do que o necessário, olhos nos olhos mesmo, e se aproximaram, até os lábios se tocarem. Não foi um beijo íntimo, de língua, invasivo, mas foi um selinho, suficiente para mostrar que ali havia realmente algum sentimento.
Aquilo me doeu, profundamente... Instintivamente desviei o meu olhar e balancei minha cabeça em negação, enquanto suspirava pesadamente. Não sei exatamente o que sentia, mas era algo tão inexplicável, tão insustentável que a única palavra que me veio à mente foi “perdi”. Ali, eu comecei a me questionar se algum dia eu fui suficiente para a Helena. E a resposta, mesmo que me doesse, parecia ser bastante óbvia.
Não sei se a Helena notou aquela minha resposta inconsciente, mas ela retornou ao meu lado e novamente colocou as mãos sobre o meu braço:
- Amor, eu... Não sei se seria certo te pedir desculpas pelo que acabei de fazer, ainda mais sabendo que isso é nada se comparado a outras coisas que fiz.
Eu não tinha respostas e apenas dei de ombros, novamente balançando inconscientemente minha cabeça em negação. Ouvi Helena suspirar, chateada, mas não olhei em sua direção:
- Será que a Bri não pode ficar? Ela pode me ajudar a explicar tudo e...
Levantei-me da mesa e sem olhar para nenhuma das duas, apenas disse:
- Claro que ela pode ficar. Aparentemente quem está sobrando aqui, sou eu.
Virei-me então e dei alguns passos no cômodo, acessando o corredor e seguindo para a porta pela qual entrei. Mas as duas correram para se colocar à minha frente. Helena principalmente, colocou as duas mãos no meu peito:
- Por favor, fica! Eu preciso... Eu tenho tanta coisa para te contar. Você não pode sair sem me ouvir, sem entender tudo o que eu passei.
- Você!? E o que eu passei? - Eu a encarei, machucado: - Você tem ideia do que eu passei aqui, sem saber notícias da minha esposa, pegando migalhas de informações aqui e acolá, aliás, péssimas informações?...
- Eu... Eu imagino que não foi fácil. Mas... Mas a gente consegue... juntos...
- Você já tem alguém do seu lado, Helena, e não sou eu. - Falei, enquanto encarei rapidamente a Brianna que também me encarava, surpresa.
- Por favor... - Insistiu Helena, com lágrimas nos olhos: - Não é a mesma coisa, nunca seria! A Brianna é uma pessoa maravilhosa, mas não é você. E...
- E está tudo bem. - Eu a interrompi, ajeitando uma mecha de seu cabelo atrás da orelha esquerda: - Não estou bravo. Fico até aliviado que você não esteja sozinha. - Então suspirei profundamente: - E pode mandar o seu advogado entrar novamente com o divórcio. Vou aceitá-lo sem impor quaisquer condições.
- Divórcio!? Quem disse que eu quero me divorciar de você?
- A sua carta. Recebi uma carta sua há algumas semanas, trazida pelo Rutterford.
- Que carta?
- Helena, isso não importa...
- Importa, sim, senhor! - Ela me interrompeu agora, exigindo uma explicação.
Naturalmente, eu não estava com sua carta em mãos, mas tinha uma foto em meu celular. Abri a imagem no aplicativo e entreguei o aparelho em suas mãos. Seus olhos se arregalaram e suas mãos tremeram. Ela me encarou e devolveu o celular:
- A gente precisa realmente conversar. Essa carta nunca deveria ter chegado as suas mãos.
- Nem a sua aliança?
- Você... Como você achou a minha aliança? Eu pensei que a tivesse perdido em Nova York...
Puxei a minha corrente de ouro uso desde sempre e mostrei sua aliança ao lado do crucifixo que ganhei quando fui crismado. Helena sorriu e era um sorriso verdadeiro, vivo, alegre. Seus olhos dançaram da aliança para os meus olhos uma duas ou três vezes. Era um pedido, claro demais para ser negado. Mesmo que eu achasse que o fim era certo, aquela aliança ainda lhe pertencia. Soltei a minha corrente, tirei a aliança e lhe devolvi, mas sem fazer questão de lhe colocar no dedo. Apenas devolvi, colocando-a na palma da sua mão, friamente:
- Obrigada, amor. Significa muito para mim.
- Tá. - Falei enquanto prendia novamente a corrente em meu pescoço: - Agora se me dá licença, eu preciso ir.
- Não. Você não vai. - Disse a Helena, colocando a aliança no dedo: - Eu não... Eu não consigo imaginar tudo o que você passou, mas vejo nos seus olhos o tamanho da dor que está sentindo. A gente precisa conversar. Depois, quando você souber todos os fatos, você terá condição de tomar uma decisão ponderada. Só me dá essa chance...
Desvencilhei-me das duas e dei alguns passos na direção de uma enorme vidraça, uma porta de correr na verdade, que dava para uma imensa sacada externa. A escuridão da noite só era interrompida pelas luzes dos prédios à frente. Concluí que Helena não estava errada: tomar uma decisão sem ponderar todos os fatos seria um erro, dando margem para equívocos que eu poderia só descobrir no futuro.
Olhei de lado para os vários réchauds e certamente havia comida mais do que o suficiente para duas pessoas. Certamente, ela havia planejado ter a Brianna na conversa. “Por que não?”, pensei e logo concluí: “Por que não deixar a Brianna participar da conversa? Eu posso confrontar as duas para obter uma verdade eventualmente oculta. Sim! Uma acareação”. Era uma decisão óbvia, mas eu precisaria me preparar melhor e talvez o jantar, um momento mais descontraído, me daria as condições necessários de concluir se essa seria uma boa ideia:
- Que tal se jantarmos, então? NósFalei, olhando para a Helena.
Helena sorriu e olhou para a Brianna que pareceu mais surpresa do que feliz. Certamente seu instinto apurado de espiã começava a analisar a minha rápida mudança. Mas seria bom, porque ao distribuir a tensão com ela e sabendo do seu possível envolvimento emocional com Helena, eu também a colocaria na posição de cometer um erro:
- Não sei. Eu acho que talvez não seja o melhor momento e...
- Não! Fique, Brianna. - Eu a interrompi, esticando minha mão em sua direção: - Helena não quer que eu te conheça melhor? Então. Fique...
Não sei se Helena entendeu minhas intenções, ou apenas as ignorou, mas ficou feliz e foi buscar a Brianna pelo braço até mais perto de mim. Ficamos a menos de um metro de distância. Helena, então, querendo quebrar o gelo, fez as apresentações formais:
- Beto, esta é a Brianna. Bri, este é o Beto, meu marido.
Brianna estendeu sua mão na minha direção e eu a peguei, cumprimentando como faria com qualquer pessoa. Mas o sarcasmo e o peso do chifre não me deixaram quieto:
- Beto, esta é a Brianna, minha amante. Bri, este é o Beto, o chifrado.
- Credo, Beto. Para que isso? - Helena reclamou.
- Isso!? Isso é um homem cansado, traído, jogado para escanteio pela única pessoa no mundo que achou que nunca faria algo do tipo.
As duas se entreolharam e Helena suspirou profundamente, procurando encontrar calma no meio da tempestade:
- Tá. Você tem todo o direito de estar estressado, tenso, mas isso não nos impede de tentarmos ter uma conversa educada, não concorda? Já te falei e repito, vou responder a qualquer pergunta que você fizer.
- Certo. Vamos deixar a conversa para depois. Vamos comer e quem sabe a gente não consegue encontrar uma forma de manter um certo respeito aqui. - Retruquei.
A mesa havia sido posta para duas pessoas. Então, Brianna solicitou uma adaptação ao serviço do hotel que ocorreu em não mais do que quinze minutos. Novamente dois rapazes se prontificaram a nos servir e novamente eu pedi que fossem dispensados. Assim que eles saíram, Helena perguntou:
- Eram só funcionários do hotel, amor.
- Sei... - Resmunguei, pegando o meu prato e indo na direção dos réchauds: - Já tive a minha cota de pessoas que diziam ser uma coisa e eram outra nessa vida, Helena. Prefiro não dar sorte para o azar.
Ela olha rapidamente para Brianna que apenas acena sutilmente para ela. Nesse ponto eu me pergunto até onde ia a real preocupação da Helena comigo e o que poderia ser fingimento. Mas decidi continuar, agora mais atento do que nunca.
Elas pegaram seus pratos e também foram se servir. O jantar poderia ser definido como uma sinfonia para surdos, pois quase não conversamos. Entretanto, os olhares... esses sim, disseram muito. Por várias vezes, vi Helena e Brianna trocando estranhas conversas, muito maiores das que ela trocou comigo. Brianna ainda tentou ser agradável, trazendo assuntos culinários e de suas viagens para a mesa, mas, por mais interessante que ela pudesse ser, eu estava pouco, pouquíssimo assertivo.
Quanto terminamos, ela me perguntou se poderia chamar o serviço de quarto para retirar os pratos, talheres e restante da comida. Concordei. Assim que eles saíram, ela me perguntou se aceitava um licor de Amarula. Mesmo desconfiado, aceitei. Acredito que ela tenha imaginado que eu desconfiava dela e por isso trouxe a garrafa e os tacinhas para a mesa central da sala de sua suíte, servindo as três em nossa presença e deixando que nós escolhêssemos qual beber:
- Queria propor um brinde... - Disse a Brianna: - Aos amores verdadeiros, que mesmo machucados, conseguem se reconstruir lindamente.
Elas levantam as taças e eu as acompanho propositadamente atrasado. Bebemos e nos silenciamos. Após um tempo curto, Helena pergunta:
- Não concorda com o brinde da Bri, amor?
- Claro que sim. Amores verdadeiros conseguem tudo justamente por não se traírem frente as dificuldades.
Helena sentiu o baque. Por mais que ela tentasse criar um clima mais leve, eu não conseguia acessar esse estado de espírito. Brianna então tentou:
- Li, certa vez, um livro do psicólogo Roberto Sternberg, Teoria Triangular do Amor... Interessantíssimo, diga-se de passagem, Le... Lá ele ensina que os amores verdadeiros duram por se estruturarem em três pilares, que na ausência de qualquer um deles, desmorona o relacionamento.
- Sério, Bri? E quais seriam? - Perguntou Helena, bebendo outro gole de seu licor.
- Intimidade, paixão e compromisso. - Explicou Brianna, sorrindo para Helena: - E vejo muito disso em vocês. O compromisso do Roberto em te procurar, te proteger, se preocupar com você... foi uma das coisas mais lindas que já vi na minha vida. Mesmo ele sabendo que você participava de uma operação com detalhes... bastante... delicados... - Ela parou por um instante: - Ele nunca deixou de tentar. Achei isso lindo!
- E intimidade e paixão também temos de montão, não é, amor? - Perguntou Helena, piscando um olho para mim.
- E a honestidade e transparência, Brianna... Entram onde nesse tripé aí? - Retruquei, ignorando a insinuação de Helena.
- Ah... - Brianna sentiu o clima ficar obscuro novamente: - Se eu bem me recordo, honestidade seria como uma espécie de cola que compõe o pilar da intimidade. Sem ela, não há uma conexão verdadeira, pois um dos parceiros não conhece o "eu real" do outro, o que impediria a formação de um vínculo profundo.
- Faz sentido... - Resmungo enquanto tomo outro gole de meu licor: - Posso me servir de outra dose?
Brianna acenou positivamente. Fui até a garrafa e me servi. Então, perguntei a elas se queriam outra dose, mas nenhuma parece disposta. Assim que me sentei, Brianna continuou:
- Já a transparência sustentaria o pilar do compromisso, porque se um casal é transparente, a confiança mútua cresce, criando um solo firme que permite ao relacionamento atravessar crises sem quebrar a lealdade.
- Pois é! Transparência... Acho que faltou isso, não acha, Helena? Depois de tantos anos juntos, você entrar numa operação como essa, sem me avisar antes... Não consigo entender que tipo de compromisso você ainda espera de mim?
Ela baixa o olhar e suspira pesadamente, olhando para sua tacinha. Depois, a coloca sobre a mesinha e se vira na minha direção, olhando diretamente nos meus olhos:
- O que você quer saber de mim?
- Tudo.
- Tudo, o quê, Roberto?
- Roberto... - Dou uma rápida risada sarcástica: - Nem me lembro da última vez que você me chamou assim. Acho que a nossa intimidade também não anda bem das pernas...
- Desculpa, amor... - Ela esconde leva as mãos ao rosto, ficando em breve silêncio e só então, me encara: - Eu também estou uma pilha de nervos com tudo o que está acontecendo. Por mais que eu seja uma testemunha, também corro o risco de ser processada, tanto pela Procuradoria dos Estados Unidos como pela própria Imperium.
- Por que você não me conta como tudo começou? - Proponho, calmamente.
- Da operação? Como eu fui escolhida e convidada? - Diz ela, abaixando as mãos apenas o suficiente para eu ver seus olhos, vermelhos e marejados.
- Não. Lá do início mesmo. De antes. Quando você começou a me tra... - Respiro, controlando-me: - Quando vocês duas começaram a se relacionar clandestinamente.
Helena então retira as mãos da face e as deposita sobre o colo, respirando profundamente. Ela olha para a frente, um quadro bonito de motivos florais que eu não havia notado até então e novamente suspira:
- Tá... - Ela resmunga: - O início...
- Isso. O início...
- Como eu vou te falar isso... - Ela resmunga novamente, dando uma rápida olhada na direção da Brianna: - Que Deus me ajude, que Ele te ajude a suportar tudo o que vou te contar e que Ele dê forças para manter o nosso casamento.
- Tente. Só assim saberemos...
- Certo... - Ela então dá um sorriso, mas totalmente desprovido de alegria, bastante soturno na verdade: - Renato Russo já dizia “Quem um dia irá dizer, que existe razão, nas coisas feitas pelo coração”. Acertou em cheio. - Novamente suspirou, olhando para o quadro: - Pouco depois que a Imperium abriu a filial no Brasil, o Richard Gottschalk foi transferido para cá, para agir como o CEO local. Bem, Brianna, sua esposa, veio com ele. Eu a conheci pouco depois, num coquetel de boas-vindas. Você estava comigo, não sei se se lembra?...
Acenei positivamente, mas obviamente não me lembrava, pois havia comparecido apenas como um apoio formal dela, então diretora na Imperium:
- Bem... Não tenho como explicar, mas eu e a Bri acabamos criando algo sem que nenhuma de nós esperasse. E olha que nós nos encontrávamos raramente, normalmente apenas quando ela aparecia para visitar o Richard.
Ela então virou o seu corpo totalmente na minha direção e segurou na minha mão:
- Eu nunca... Juro! Eu nunca senti atração por mulher alguma na minha vida, Beto. Nunca, nunca, nunca! Mas a Bri... Ela tem uma coisa difícil de explicar.
- Eu explico! - Falei, levantando uma mão: - Ela é uma espiã. É treinada em jogos mentais e psicológicos para convencer, seduzir, obter o que for preciso para concluir suas operações.
- Não. Não é isso... - Helena retrucou: - Depois que eu soube que ela era da CIA, cheguei a pensar assim. Mas ela não mudou, até se mostrou ainda mais preocupada comigo, com o risco de me perder.
- Você se apaixonou. É isso que está tentando me dizer?
- Não sei. Acho que não. Bem... Pelo menos, não imediatamente. Você pode não acreditar, mas só a companhia dela me bastava. Sabe aquela conversa agradável, gostosa, que te faz rir de bobeiras sem importância? Era isso o que a gente tinha!
- Deve ser mesmo maravilhoso, porque você colocou todos os nossos anos de relacionamento de lado...
- Não! Eu nunca te deixei faltar nada. Nossa vida continuou a mesma e não iria mudar, porque eu te amo. Só que a Bri ocupou um lugarzinho que antes parecia meio morto.
- Bem... Você não quer que eu acredite que eram só conversas sem intimidade alguma, né? Duvido que não transavam também?
- Você pode não acreditar, mas a nossa primeira vez foi seis ou sete meses antes daquela festa de final de ano da Imperium, aquela em que você se estranhou com o Mr. Bronson. E antes que você me pergunte, a gente não ficava sempre, talvez uma ou duas vezes por mês, às vezes até menos. Já no finalzinho, antes da viagem para Viena, a frequência havia aumentado... bastante...
- E como eu nunca notei isso? Aliás, como vocês faziam, afinal, seus horários continuaram os mesmos?
- Eu era diretora, Beto, e como diretora tenho meus meios. Então, eu simplesmente dizia que ia resolver alguma questão e saía com a Bri. A nossa primeira vez foi num almoço no apartamento dela, numa viagem do Richard para a matriz, outras vezes foram em motéis, enfim...
- E o trouxa do chifrudo sendo sempre o último a saber... - Resmunguei, inconformado.
Eu também olhava irado para a Brianna que não baixava o olhar para mim e ainda complementou:
- Ela chorou depois da nossa primeira vez, Roberto. Chorou! E pela primeira vez na minha vida, senti um arrependimento no fundo do meu coração. Eu vi o tanto que ela te amava e como esse nosso... sentimento... estava fazendo mal para ela. Foi aí então que ela me disse que só continuaríamos juntas se você soubesse de tudo, aceitasse e participasse. Ela não queria te excluir, só não teve tempo para te contar...
- Não teve tempo de me contar!? - Eu interrompi a Brianna: - Vocês começaram seis meses antes da festa e depois da festa foram quase dois anos até a maldita viagem para Viena. Quando foi que te faltou tempo, Helena? Porque tinha uma mulher muito parecida com você dormindo comigo. Não era você!?
Helena baixou a cabeça e uma lágrima rolou por sua face. Brianna insistiu:
- Talvez eu tenha me explicado mal... Foram vários os fatores que foram se acumulando e ela não conseguiu te contar, afinal...
- Não, Bri, o erro foi meu. Ele está certo... - Helena a interrompeu, colocando uma mão sobre a dela agora, mas rapidamente voltando para me encarar: - Tempo, eu tive; só não tive coragem. Além disso, foi uma sucessão de eventos que me sobrecarregaram: a Imperium me cobrando solução de algumas aquisições; depois a doença da sua mãe; depois a CIA me coagindo a participar da operação. Aliás, foi por causa da CIA que eu acabei atrasando mais a verdade, porque quando eu disse que não faria nada que prejudicasse o meu casamento, eles me trouxeram um dossiê sobre você, seus crimes e sua traição.
- Traição!? Que porra de traição foi essa? Eu nunca te traí!
- Eu sei, amor. Só que naquele contexto... Eu já estava abalada por tudo o que vinha acontecendo e me aparece aquele maldito vídeo. Poxa... Eu fiquei irada! Não queria ouvir ninguém. Pensei seriamente, inclusive, em me divorciar de você. E nessa época a única pessoa que me dava algum apoio era a Bri...
- Eu nunca te neguei nada...
- Eu sei! Eu sei... Desculpa! - Ela me interrompeu: - Eu sei que você nunca me negou ou negaria, mas como eu estava brava com a sua “traição”... - Ela fez aspas com os dedos: - Eu não te procurei. Só ela me ajudou. Inclusive, foi ela que me disse para duvidar do seu vídeo. Então fui assisti-lo novamente e notei realmente algumas diferenças que só quem te conhece intimamente saberia, como aquela sua mancha de queimadura na bunda.
- O que tem ela?
- Ela não aparecia no vídeo. Daí eu tive certeza de que o vídeo era falso...
- E quem fez esse vídeo falso? - Perguntei, mas já respondi de imediato: - A CIA, é óbvio! A mesma CIA que tentou me divorciar de você na audiência com um vídeo alterado digitalmente. Só fazendo um aparte: aquela carta... a letra era muito parecida com a sua.
- Fui eu que escrevi...
- Então, você queria se divorciar de mim!? Mas por quê?
- Beto... amor... eu estava surtando! O programa de proteção a testemunhas me colocou um psicólogo à disposição. Numa das sessões, ele me pediu para escrever diversas cartas para as pessoas com quem tenho alguma pendência, imaginando as hipóteses para eu resolver os meus problemas com elas. Uma das que escrevi para você era tratando de um divórcio, afinal, eu não sei até quando ficarei refém do Bronson. Não achava justo você ficar me esperando. Só não sei como essa maldita carta foi parar na sua mão.
- Eu imagino como... - Resmungou a Brianna, chamando a nossa atenção: - Gente... O-Oi! Estamos falando da CIA. Eles têm pessoas infiltradas em todos os lugares, até no programa de proteção a testemunhas. Ou como você acha que eu consegui te trazer aqui hoje?
- Por que eles iriam querer me divorciar do Beto, Bri?
- Para que ele parasse de fazer perguntas e investigações, Le. O Beto conseguiu que o Ministério da Relações Exteriores do Brasil entrasse em contato com o dos Estados Unidos, e já havia uma ameaça de que, se eles não respondessem, eles iriam denunciar os Estados Unidos por sequestro de uma cidadã brasileira no TPI, na ONU e onde mais fosse possível.
Ficamos em silêncio por um instante, assimilando aquelas explicação e falei:
- Ok. Faz sentido. Mas vamos voltar aquela história do meu vídeo falso de traição... O que aconteceu a partir de então?
Helena pensou por um instante e me encarou:
- Recebemos a notícia da doença da sua mãe. Fiquei desesperada. Eu tentei de tudo para conseguir um bom tratamento para ela e consegui, mas todos os médicos eram uníssonos em afirmar que ela não tinha chances de cura, que teríamos que aceitar a ideia de sua partida e... - Ela chorou novamente, agora mais intensamente: - Desculpa. E que o tratamento seria apenas paliativo, apenas para evitar que ela sofresse. Eu contei para a Bri, aos prantos, que estava perdendo a minha mãezinha, e ela disse que iria tentar me ajudar.
Helena olhou para a Brianna que assentiu com um movimento de cabeça e explicou:
- Entrei em contato com uma chefe do departamento de pesquisas inovadoras da CIA, com quem já havia trabalhado, pedindo alguma orientação. Ela contatou a instituição que atende a dona Maria e conseguiu o tratamento experimental que ela está usando. O problema é que eu estava em campo, numa missão de infiltração na Imperium e ela não conseguiu falar comigo. Então, ela falou com o Rutterford que viu uma chance de dobrar a vontade da Helena.
- O Rutterford veio me procurar oferecendo o tratamento em troca da minha ajuda. Não tive outra escolha a não ser aceitar. - Completou Helena, chorando.
Helena começou a chorar ainda mais forte, sabendo que havia chegado um momento de revelações que certamente trariam consequências ao nosso relacionamento. Brianna a abraçou fraternamente, tentando acalmá-la. Foram minutos de lágrimas, até que ela conseguiu voltar a falar:
- Eu não queria. Eu juro! Eu não queria... - Ela falou, enxugando o rosto com o dorso das mãos: - Mas era aceitar, ou ver sua mãe definhar até a morte. Que escolha eu tinha? Perdi minha mãe cedo, ainda minha infância... você sabe disso. Sua mãe me acolheu como uma verdadeira mãe. Eu não queria perdê-la também.
- Podia ter me contado, Helena. Poxa! Eu era o seu marido...
- Contar!? Que eles queriam que eu aceitasse o assédio do Bronson? - Helena me interrompeu, o olhar ficando irado: - Que eu deveria me sujeitar a... a... - Ela me encarou, os olhos voltando a marejar: - Eu tinha que aceitar o assédio para poder entrar na mansão dele e instalar alguns dispositivos, tirar fotos, fazer vídeos, enfim... Eu precisava ganhar a confiança dele para entrar lá, custasse o que custasse.
- Mesmo se custasse o nosso casamento?... - Resmunguei, inadvertidamente.
- Pela vida da nossa mãezinha!?... - Ela agora me encarou, decidida: - Sim! Não me arrependo do que fiz por ela. Só me dói ver o tanto que isso te magoou.
Levantei-me, obrigando-a a soltar o meu braço e fui caminhando até uma imensa janela. Comecei a rir, sarcasticamente:
- E os outros vídeos? - Perguntei, enfim.
- Que outros?
- Havia vários outros vídeos seus transando com outras pessoas... Como justifica isso?
Helena arregalou os olhos para mim e depois encarou a Brianna. Aparentemente, ela mesma não sabia daquilo. Brianna fez uma expressão chateada e balançou a cabeça negativamente. Enfim, ela falou:
- Eram falsos.
- Falsos!? - Repeti.
- Que vídeos são esses, Bri? - Perguntou Helena, afastando-se levemente dela.
- O Bronson não era um homem qualquer, gente. Ele é e está onde está porque é muito inteligente e astuto. Foi um trabalho muito minucioso para traçar um perfil psicológico dele, até concluirmos que ele não se atrai por conquistas fáceis, mas também não perde tempo com conquistas impossíveis. Por isso, eu não consegui avançar no processo de seduzi-lo, porque ele me viu como uma mulher disponível, fácil.
Ela se calou, analisando nossas reações e vendo que tinha prendido a nossa atenção, continuou:
- A Helena, entretanto... Poxa! Ela é inteligente, capacitada, casada, séria, lindamente discreta... Era tudo o que ele queria! E quando ele a conheceu pessoalmente numa reunião em Nova Iorque, ficou fascinado com sua inteligência e carisma. Por isso, ele começou a vir com mais frequência para cá, para ficar perto, tentar te seduzir. Só que a Helena não queria nada com ele, recusou suas abordagens com educação e sutileza, mas de forma firme. Nossa inteligência sabia que ele iria investigá-la também e a CIA decidiu que ele precisava acreditar que ela era inacessível, mas não impossível. Então cooptaram o investigar que o Bronson havia contratado e lhe entregaram aqueles vídeos para que ele acreditasse que ela só precisava do motivo certo.
- Só por curiosidade... Que motivo seria esse? - Perguntei.
- Dinheiro e poder. - Brianna explicou: - A CIA criou uma narrativa de que Helena era gananciosa, mas também preocupada com seu casamento. Os vídeos era dela com alguns homens bem ricos. Ou seja, ele precisava acreditar que a Helena só precisava do estímulo certo. Ele só precisava acreditar que ela era acessível para não desistir dela.
- Daí, com a doença da minha mãe, vocês conseguiram dobrar a vontade dela, obrigando-a a participar. - Retruquei.
Brianna não se abalou:
- Quando se trabalha há tanto tempo para a CIA, você acaba ficando refém de seus próprios pecados, Roberto. Eu não queria envolvê-la, mas a minha vontade não tinha peso algum. A decisão já havia sido tomada e eu só podia acatá-la. Ainda assim, eu impus continuar na operação, como forma de proteger a Helena de tudo e todos. Menos do Bronson, infelizmente...
- E essa é a sua amante, Helena... Aliás, agora eu entendo porque vocês duas estão juntas: são duas mentirosas.
As duas me encararam surpresas, Helena com uma lágrima correndo pelo rosto, Brianna querendo me pegar pelo pescoço. Eu não parei mais:
- Eu vi um vídeo... de vocês duas transando com um cara. Não transando exatamente, porque só você deu para ele. - Falei, olhando para a Brianna: - Mas você e a Helena interagiram sexualmente. Parecia ser um hotel...
- Deve ser o Bradley, o filho do Bronson. Se for o que penso, foi em Viena, pouco antes da Helena... - Brianna se calou.
- Pouco antes de eu... ter... - Helena titubeou.
- Transando com ele? - Perguntei.
- Não. Pouco antes de eu... - Ela se calou novamente.
- Tá. Já entendi. De você dar para aquele filho da puta do Bronson.
Ela apenas fez um movimento de ombro, concordando, mas pouco se importando com o que eu havia acabado de falar.
Voltei a encarar a janela da suíte e vi apenas o reflexo distorcido de mim mesmo, salpicado pelas luzes da cidade lá embaixo. Um choro incontido de Helena foi o único som audível por um bom tempo. Palavras ecoavam na minha mente sem parar: traição, coerção, amor, sacrifício. Eu me sentia o juiz maldito de um julgamento maldito de uma causa maldita, pesando provas e evidências que não se encaixavam de forma alguma. O veredito não seria fácil, muito menos bendito. Brianna mantinha uma postura rígida, analisando-me sem se afastar de Helena, como se esperasse o golpe final. Mas eu não explodiria, não ainda! Havia aprendido, nesses meses de incertezas, que a raiva cega era uma conselheira ruim.
“Como cheguei aqui?”, pensei, revivendo flashes da vida que achava sólida. Helena, a mulher que eu aprendera a amar, mesmo quando ela se achegava mais de livros do que de mim mesmo. Os votos de amor e respeito no altar, o olhar esperançoso de quem havia encontrado um motivo para viver, a aliança que eu devolvera friamente minutos antes. Tudo, simplesmente tudo, havia desmoronado frente a uma teia de mentiras tecida pela CIA: Helena era a mosca; Brianna, talvez uma aranha; Bronson, o veneno; e, eu!? Eu era o coco preso ao pé da mosca.
Doía-me saber que a traição de Helena com Brianna não era só física, mas também emocional e iniciada antes da doença ou do próprio convite para participar da operação. Era uma conexão que Helena jurava não ter planejado, mas que crescia como uma raiz invisível, minando o solo do nosso casamento. Doía admitir, mas parte de mim entendia as pressões que ela sofreu e eu nem imaginava. Mas compreensão não era perdão; e perdão não impunha que eu continuasse com quem não confiou em mim. Aliás, como voltar a confiar nela? E como continuarmos juntos se somente eu não era suficiente para fazê-la feliz?
Virei-me devagar, olhando para as duas. Helena, com os olhos vermelhos, tremia. Brianna era seu apoio, declarado nas atitudes de quem diz amar. Eu olhava para Helena e ainda via a mulher que eu amava. Ou será que não amava mais? Afinal, agora havia camadas de segredos que a tornavam uma quase estranha para mim. Brianna, com sua frieza calculada de espiã, me analisava como se eu fosse uma peça em um tabuleiro de xadrez:
- A CIA salvou minha mãe, mas destruiu o meu casamento... - Ponderei com a voz rouca e baixa, a dor se alastrando pelo meu corpo: - Como puderam ser tão... covardes? Usar a doença da minha mãe para deturpar a vontade da minha esposa e fazê-la se submeter a... a... isso! E é a gente que vai pagar o preço... - Falei, olhando nos olhos da Helena.
- Os meios podem não ter sido moralmente corretos, Roberto, mas a intenção era. O urânio estava chegando em mãos de pessoas que não pensariam duas vezes em explodir uma bomba atômica no coração de Manhattan. A Helena foi uma heroína. A verdade é essa... - Insistiu Brianna.
- E o meu casamento foi só o quê? Um detalhe? Um desvio nesse percurso?
Helena soluçou, estendendo a mão na minha direção, mas eu não avancei nenhum passo:
- Não, Helena. Eu... - Suspirei fundo, calando-me por um instante: - Deixe-me pensar. Eu... só não esperava. Sei lá! Acho que eu tinha alguma esperança idiotamente romântica de imaginar que você... talvez... não tivesse me traído.
- Fiz pela sua, pela nossa mãezinha! - Helena insistiu.
- Talvez você tenha trepado com o Bronson por esse motivo. Mas ainda assim me traiu quando escolheu se envolver com ela pelas minhas costas e também quando escolheu esconder de mim tudo o que estava acontecendo. - Respirei fundo e disse: - Agora eu entendi a história da honestidade e transparência, faltou isso no nosso casamento...
Voltei a dar as costas para ela enquanto Helena voltava a chorar profundamente. Não durou muito, porque eu me virei para encará-las uma vez mais:
- Obrigado pelo jantar. A conversa não foi boa, mas foi esclarecedora. Mas eu... realmente, eu preciso ir.
- Beto, por favor...
- Helena, eu preciso ir, e pensar.
- Roberto, ela tem que voltar amanhã para os Estados Unidos. Não posso mantê-la aqui por mais nenhum dia. - Disse Brianna que, pela primeira vez, pareceu legitimamente preocupada com algo: - Por favor, conversem. Vocês precisam encontrar uma forma de se entender. Eu... Eu... me afasto dela. Se isso garantir que vocês se entendam, eu me afasto.
- Não, Brianna! Agora, mais do que nunca, você deve ficar do lado dela. Ela precisa da sua proteção, algo que eu não posso garantir nas atuais circunstâncias.
Foi o adeus mais doloroso da minha vida. Mas ela não tentou me impedir de ir, nem Brianna, nem mesmo aquela minha parte que ainda acreditava em algo. O choro pesado de Helena ecoava pelo corredor do hotel enquanto eu me afastava e só cessou quando as portas do elevador se fecharam atrás de mim. Era o fim.
OS NOMES UTILIZADOS NESTE CONTO SÃO FICTÍCIOS E OS FATOS MENCIONADOS E EVENTUAIS SEMELHANÇAS COM A VIDA REAL SÃO MERA COINCIDÊNCIA.
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