### Catorze Passos
Eram catorze passos até o mercadinho da esquina. Isso era da minha porta até a porta automática deles. Calcanhar contra ponta do pé. Eram ainda menos se eu conseguisse dar passadas largas. Se eu conseguisse desacelerar e dar sete passos calculados em vez de entrar em pânico e dar catorze trotes rápidos, chegando lá ofegante, com os olhos marejados, praticamente atropelando as senhorinhas na minha pressa para comprar queijo minas e peito de peru fatiado.
Não é que eu contasse por alguma curiosidade ociosa. Não é como se eu tivesse inserido uma meta num aplicativo fitness e estivesse trabalhando obstinadamente pelo objetivo modesto de quinze passos diários. Não, era uma necessidade desesperada e sufocante que me forçava a rastrear a distância. Veja bem, se eu não me concentrasse nos meus pés, no som e no ritmo, na subida e na descida da minha própria marca satisfatória sobre a terra, então, sem dúvida, eu começaria a ouvir os passos atrás de mim. Os passos que não estavam realmente lá e, no entanto, abafavam todos os outros sons do mundo. As pisadas do único homem que eu temia acima de tudo e de todos.
Ele estava em todo lugar. Atrás de cada esquina. Em cada corredor de supermercado e, se eu deixasse, atrás de mim agora, ganhando terreno lentamente, pronto para me atropelar. Sim, eu tinha quase certeza agora: era ele, eram os pés dele atrás de mim. Meu pulso disparou e comecei a correr. Em direção a casa? Em direção ao mercadinho? Eu não me importava. Só queria ficar longe dele. Longe daqueles passos. *Ai meu Deus, eu não conseguia respirar.* Freei bruscamente e entrei voando pelas portas automáticas da loja. Bem a tempo de um corredor de rua passar deslizando alegremente pela calçada, completamente alheio à garota em pânico que quase atropelara.
*Ah, pelo amor de Deus*, pensei, *é só um cara fazendo cooper.* De novo. Claro. Da última vez tinha sido uma mulher empurrando um carrinho de bebê. Que vergonha. Respirei fundo. *Segura a onda, Manu. Só pega a comida que você precisa e vaza.* Eu não comia há dois dias. Não tinha conseguido reunir coragem para essa pequena odisseia ao redor do quarteirão. *Eu sou uma covarde do caralho*, pensei, enquanto circulava rapidamente pelos corredores necessários, tentando ser o mais eficiente possível.
Eu estava saindo da seção de laticínios, tentando lembrar onde ficava a prateleira de paçoca e manteiga de amendoim, quando ouvi os estouros. *Pá. Pá.*
Imediatamente recuei para dentro do corredor, meu mecanismo de sobrevivência bem afiado engatando a quinta marcha.
Acariciei o canivete no meu bolso enquanto ouvia a voz rouca ecoar pela loja:
— Beleza, vamo fazer isso na moral, sem estresse. Geral no chão! Agora! Tira o celular e joga nessa cesta aqui. É, isso aí. Bora, tia, agiliza!
Eu podia ouvir os passos dele chegando mais perto e apertei o cabo do canivete com força, pressionando minhas costas contra a prateleira fria de iogurtes. Eu ficaria ali, imóvel, até que esse assalto de merda terminasse.
Mas, infelizmente, não era para ser, pois a voz gritou:
— Tô te vendo aí, novinha.
Talvez ele não estivesse falando comigo. Talvez fosse outra garota.
— É, tô falando contigo mesmo. A que tá fingindo que não tá mocada aí no leite. Por que tu não sai daí logo pra eu não ter que machucar nenhuma dessas pessoas legais aqui no chão, hein?
*Merda.*
Não tinha jeito. Ele me acharia de qualquer forma. Mesmo que matasse alguns antes. Senti o sangue fugir do meu rosto enquanto me afastava da prateleira e, hesitantemente, saía da segurança silenciosa dos leites e queijos para o domínio fluorescente dele.
Um homem magro, de aparência elétrica e expressão arrogante, mantinha um revólver apontado para mim.
— Ah, aí está você. E é uma gatinha, hein! — Fiz uma careta quando aquele rato ensebado sorriu para mim, gesticulando com a arma. — Por que você não vai ali e pega um lugar no chão, princesa?
Foi aí que notei a tatuagem no braço dele. *Putaaaa que pariu.*
Aquilo era muito pior do que eu tinha pensado originalmente. Um assalto simples eu talvez conseguisse lidar, mas isso... esse babaca tinha que ser um membro daquela facção sombria que eu passei os últimos cinco anos me dedicando ardentemente a despistar. O que diabos ele estava fazendo aqui? Tão longe de São Paulo? Digo, tinha um motivo para eu ter escolhido esse buraco no interior de Minas e não era para esbarrar no meio de um assalto com um dos tatuados da laia deles.
*Ok*, pensei, *só tenho que manter a cabeça baixa e a jaqueta fechada.* Ele não conseguiria ver as marcas com a minha jaqueta. Afundei as mãos mais fundo no bolso e toquei meu canivete de novo. Eu não faria nenhum movimento agora. Seria estupidez com ele apontando a peça para mim daquele jeito. Eu não duvidava que ele soubesse usar. Ele não teria aquelas tatuagens se não soubesse.
Ele deve ter notado algo sobre minhas mãos no bolso, porque disse:
— Ow, preciso ver essas mãozinhas pro alto. Entendeu? Não vamo tentar nenhuma gracinha não, né, novinha?
Fiquei tensa e levantei as mãos lentamente enquanto caminhava em direção aos outros reféns encolhidos no chão. Eu estava tentando desesperadamente manter a manga da jaqueta cobrindo meu pulso direito e quase chorei de alívio quando cheguei perto dos outros reféns e, baixando as mãos, fiz menção de me deitar no chão ao lado deles.
Um segundo depois, percebi que estava sentindo o ar condicionado gelado na pele nua do meu pulso e congelei. De alguma forma, eu tinha soltado o punho da jaqueta e ele tinha escorregado para o antebraço. Lancei minha mão para baixo rapidamente, torcendo com todo o meu coração que ele não tivesse visto. Talvez, só talvez, eu tivesse conseguido cobrir a tempo.
Mas quando olhei para cima, ele já estava em cima de mim, agarrando meu pulso com brutalidade e puxando-o para cima, para seus olhos inquisidores.
— Cadê teu dono, garota?
*Não. Não. Não. Não.*
Ele estava apertando meu pulso com tanta força que eu não conseguia torcer para soltar. Eu não podia rir e esconder de volta sob a manga, com uma explicação debochada na ponta da língua: *Ah, isso? Sabe como é, eu tava tirando uma lasanha do forno quando...* Não, eu teria que enrolar.
— Casa. Ele tá em casa.
Eu sabia que não ia colar, mas estava me dando tempo para alcançar meu canivete com a mão livre. Pelo menos agora que ele tinha visto a marca, ele não achava que eu fosse uma ameaça e baixaria a guarda um pouco. Uma arrogância que eu estava muito bem treinada para explorar. Mantive meu olhar fixo no dele enquanto tateava o bolso com a mão esquerda.
O rato ainda estava examinando meu pulso pensativamente.
— Hmmm. Eu não sabia que tinha gente nossa aqui nessa roça. A quem você disse que pertencia?
— Eu não disse.
E então eu agi.
Passei uma rasteira na perna dele, dando um passo para o lado enquanto ele caía para frente, girando e agarrando-o pelos cabelos oleosos enquanto pressionava a lâmina do meu canivete sob o queixo dele. Eu não tinha passado os últimos cinco anos assistindo e copiando cada vídeo de defesa pessoal e Krav Maga que conseguia encontrar para nada.
Colei minha boca no ouvido dele e sussurrei docemente:
— Eu sei exatamente onde cortar pra você morrer bem, bem devagarinho.
Eu podia sentir o coração dele batendo mais rápido e um suave "por favor" escapar dele num sussurro. Meu medo estava se transformando em pura adrenalina e pressionei a lâmina um pouco mais forte, cortando um pouquinho a pele, só para ouvi-lo prender a respiração e sentir seu pulso martelar contra minha mão.
— Agora, eu vou pegar essa arma que tá na tua mão e vou sair por aquela porta. E você não vai, sob nenhuma circunstância, me seguir ou falar pra alguém sobre mim. E em troca, eu não conto pra polícia o que essas tatuagens me dizem sobre quem você é. E onde você mora. E pra quem você presta conta lá na capital.
Ele assentiu lentamente enquanto eu recuava, de olho na arma que agora estava na minha mão.
— Espera! — gritou uma loira pequena atrás do caixa. — O que você tá fazendo?
Eu tinha esquecido completamente dos outros reféns, mas minha sorte estava acabando e eu precisava desaparecer dali. Rápido. Calcular os passos para outro mercado em outra cidade.
— Relaxa, eu só vou embora. Não vou machucar vocês — eu disse.
Percebi tarde demais que ela não estava falando comigo. Eu estava recuando em direção à porta, meu coração batendo freneticamente, quando acidentalmente bati de costas numa parede. Não, não era uma parede. Paredes não respiram.
Gritei quando um braço serpenteou ao redor da minha cintura e me prendeu, enquanto outra mão arrancava a arma da minha. Lutei violentamente contra a massa implacável atrás de mim, mas a mão no meu estômago me girou e olhei para cima, encarando um par de olhos negros e duros.
Ele me olhava de forma avaliadora, questionadora.
— Ora, ora, ora... o que temos aqui, Joca? Você deixou essa coisinha levar a melhor?
O rato, agora revelado como "Joca", estava se recompondo, lançando um sorriso cruel na minha direção.
— Ela me pegou de surpresa, só isso, Marcão. Dá uma olhada no pulso dela.
Puxei meus braços inutilmente enquanto o gigante chamado Marcão capturava ambos os meus pulsos e os trazia para perto do rosto. Os olhos dele se arregalaram.
— Olha só... você não é uma caixinha de surpresas?
Ele virou o olhar para Joca e inclinou a cabeça na direção dos reféns, todos assistindo àquela pequena troca em alarme confuso, sem dúvida tentando calcular se poderiam usar a distração óbvia a seu favor.
— O dono dela? — Marcão indicou a direção deles.
Joca escaneou as cabeças dos cativos prostrados e disse:
— Não parece. Não vi a marca em nenhum deles e ninguém fez nenhum movimento desde que eu peguei ela. Acho que ela tá aqui sozinha.
Marcão olhou de volta para mim, erguendo as sobrancelhas grossas.
— Nessa cidadezinha? Cadê seu dono, garota?
Olhei de volta para ele com todo o ódio que consegui reunir.
Ele riu, um som grave e seco.
— Ah, beleza, já entendi qual é a fita. Parece que a gente vai ter que descobrir a marca nós mesmos, né não?
Gelei quando a implicação das palavras dele me atravessou. Mas ainda assim, resolvi que não ia dizer porra nenhuma para eles. Nem uma palavra. Eu não ia ajudar eles a me mandarem de volta para São Paulo. Nem. Fodendo. Eu daria um jeito de fugir na primeira chance que tivesse e então partiria para o Acre, ou Roraima, ou Paraguai, ou qualquer outro lugar onde esses desgraçados não estivessem rastejando como formigas.
Marcão se virou para Joca, nunca afrouxando o aperto de ferro nos meus pulsos.
— Só pega o dinheiro do caixa pra viagem e vamo voltar pro cativeiro. Algo me diz que essa garota vale muito mais do que qualquer merreca que a gente ia levar desse serviço.
Joca assentiu e agarrou alguns maços de dinheiro do caixa mais próximo.
Marcão me puxou contra o corpo dele enquanto saíamos para o calor da rua e Joca passava uma corrente rapidamente na porta para que ninguém nos seguisse, derrubando a cesta de celulares no processo. Eles provavelmente tinham um telefone nos fundos, mas quando a polícia chegasse, nós já estaríamos acelerando longe dali, dentro daquela Kombi caindo aos pedaços que esses caras consideravam um carro de fuga adequado.
***
Me remexi desconfortável no colo do Marcão enquanto a gente saía da cidade e pegava uma estradinha de terra batida, cheia de buracos. O aperto dele na minha cintura aumentou.
— Fica quieta aí, garota. Não adianta se debater. A gente te pegou e já era, aceita que dói menos.
Eu imaginava que ele tinha razão. Eu não ia conseguir muito progresso dentro de uma Kombi em movimento, pulando em cada costela de vaca da estrada. Além do mais, eu podia sentir o volume dele endurecendo embaixo de mim e a última coisa que eu queria era incentivar aquilo.
Quando finalmente chegamos a um casebre caindo aos pedaços no meio do mato fechado, fui empurrada para dentro rapidinho, sem nenhuma chance de mapear rotas de fuga. O lugar cheirava a mofo e cachaça velha.
No minuto em que passamos pela porta, Marcão me girou com força e perguntou de novo:
— Agora tu vai abrir o bico e dizer quem é teu dono ou eu vou ter que descobrir sozinho? — Ele tamborilou um dedo grosso na minha coxa.
Me preparei mentalmente, endurecendo o corpo, mas permaneci imóvel como uma estátua, sustentando o olhar dele com todo o desprezo que consegui reunir.
— Beleza então, se é assim que tu quer jogar, vamo arrancar essa calça jeans logo e ver com que tipo de bicho a gente tá lidando, né não?
Fiquei rígida, mas gravei meus olhos num ponto de infiltração na parede e não me movi.
Ele virou minha cabeça na direção do Joca.
— Ow, Joca, chega aí. Arranca as calça dessa mina pra gente dar um confere nela.
— Pode deixar. — Joca sorriu com aquela fome nojenta enquanto vinha para cima de mim, e eu desferi um chute na direção dele.
— Eita, calma lá, isso não é muito amigável, hein? — Joca disse com uma voz doce, falsa pra caralho. — Especialmente quando tudo que a gente tá tentando fazer é devolver você pro seu dono. Que tal um pouquinho de gratidão, hã?
— Eu vou te mostrar a gratidão — cuspi as palavras enquanto mirava um chute seco bem no meio das pernas dele.
Ele desviou rápido, experiente em brigas de bar, e se jogou no chão na minha frente, cravando um joelho pesado em cima de cada um dos meus pés, me prendendo no piso de cimento queimado.
Lutei e me contorci enquanto ele alcançava o botão da minha calça, mas os dedos dele eram rápidos. Ele me lançou um último sorriso sujo antes de arrancar o jeans brutalmente até os meus joelhos.
E então ele simplesmente parou, encarando em choque.
— Puta que me pariu.
*Merda. Merda. Merda.* Senti como se meu peito fosse explodir. Por que eu simplesmente não queimei aquela porra com ferro quente, ou usei uma faca para retalhar e mudar o desenho, ou qualquer uma das mil coisas que fiquei tentada a fazer mas fui covarde demais para tentar ao longo dos anos? Mas agora era tarde demais. Agora aquilo seria minha ruína.
— O quê? — perguntou o outro Zé Ruela, o Marcão.
— Olha isso aqui. — Joca ainda pressionava meus pés com força contra o chão enquanto indicava minha coxa para o parceiro. Eu estava me agarrando à esperança irracional de que poderia explodir o cérebro dele com a força da mente se o encarasse com ódio suficiente.
— Caralho, maluco. Essa é a marca do Guerra? — Agora ele realmente me olhou nos olhos, sem se abalar com meu olhar fuzilante. — Você pertence ao Jonas Guerra?
— Eu não pertenço a ninguém — cuspi na cara dele. Lembrei do dia horrível em que recebi aquela marca que eles agora encaravam com tanta gravidade. Tudo o que o Guerra tinha provado era que ele era mais forte. Aquilo não significava nada.
Joca apontou para a minha coxa.
— É... mas olha só, princesinha, essa marca aí diz o contrário.
— E mão de criancinha é sinal de pinto pequeno, mas cê não me vê te zoando por isso, seu broxa do caralho.
Em um segundo ele saiu de cima dos meus pés e a mão dele voou. A dor explodiu no meu rosto, cortante e quente.
— Puta merda, Joca, segura a onda! A gente não quer ter que explicar pro Jonas Guerra por que a propriedade dele tá toda marcada e roxa, quer?
Joca pareceu envergonhado por um momento, recuando.
— Acho que tu tem razão, Marcão. A vagabunda me tirou do sério por um segundo, só isso. Não vai acontecer de novo.
— Bom mesmo. Vou trancar ela ali no quarto e depois a gente tem um telefonema pra fazer.
***
— E aí, novinha, adivinha só?
Eu estava sentada num colchão velho naquele quartinho mofado onde tinham me jogado, quando o Joca voltou para me dar as "boas notícias".
— Parece que tua estadia com a gente vai ser curta, afinal de contas. Teu dono pegou o primeiro voo saindo de Guarulhos. Vai estar aqui até o começo da noite!
*Começo da noite. Começo da noite.*
Deixei as palavras escorrerem por mim num silêncio atordoado por um minuto. *Hoje. À noite.* Senti o formato delas na minha língua, deixei elas rolarem na minha cabeça até que o significado completo despencou direto no meu estômago como chumbo derretido.
Senti meu coração travar dentro da caixa torácica. Cada respiração parecia uma agonia, como se o ar tivesse virado vidro moído. O sangue martelava nos meus ouvidos e cada instinto meu gritava para eu correr, correr, correr! Só que, dessa vez, não tinha para onde correr. Sem portas automáticas para me jogar, sem velhinhas senis fazendo compras para assustar. Só uma porta trancada e esse desperdício patético de oxigênio sorrindo para mim do outro lado do quarto, com um brilho sádico no olhar.
— Parece que ele tá bem interessado em te ver de novo. Mas eu não ficaria muito preocupado não, vendo que você sumiu por quanto tempo? Cinco anos? Não é tempo suficiente pra ele bolar um castigo muito feio, né? Não, imagina... nem de longe.
E com isso, ele se virou e fechou a porta atrás de si, girando a chave.
Me senti doente. Aquele tipo de enjoo avassalador que o pavor extremo causa. Não tinha foco. O domínio dele era tudo e em todo lugar, e deixei que tomasse conta até que eu estava agarrada à borda do vaso sanitário naquele banheiro minúsculo, purgando toda a água da torneira e a Coca Zero quente que eu tinha conseguido consumir nos últimos dois dias.
***
Passou muito tempo antes que eu ouvisse passos de novo. Inexplicavelmente, nas horas seguintes, consegui recuperar alguma pequena medida da minha compostura. Por mais aterrorizada e abatida que estivesse, estava determinada a não deixar transparecer. Eu o enfrentaria nos meus próprios termos. Eu tinha conquistado pelo menos isso.
Ainda assim, apesar da minha convicção, disparei reflexivamente e recuei contra a parede ao som nítido de novos passos no corredor fora da minha porta.
Eu conhecia aqueles passos. Eram os passos que estavam atrás de mim, dando sete passadas largas para as minhas catorze curtas. Exceto que desta vez, reconheci com relutância, desta vez eu sabia que eles não se transformariam de repente num corredor de rua ou numa mãe jovem ou numa lata de refrigerante empurrada pelo vento. Desta vez, meu medo seria realizado, validado como eu nunca desejei que fosse.
E lá estava de novo o som genuíno dos sapatos dele, sólidos e caros, batendo no piso de madeira velha, trazendo-o lenta e inexoravelmente de volta para a minha vida. Tentei desesperadamente controlar minha respiração. Medindo-a com aqueles passos. Passo. Respiração. Passo. Respiração. Passo.
E então ele estava parado no batente da porta.
Ele estava parado ali, a nem três metros de mim, me encarando diretamente com aqueles olhos frios e escuros que pareciam areia movediça. Meu coração batia forte enquanto eu tentava ler a expressão dele. Tentava pesar o tamanho da encrenca em que eu estava. Mas ele apenas ficou ali na porta, o olhar impiedoso percorrendo cada centímetro de mim, reaprendendo, reivindicando, parando brevemente no hematoma na minha bochecha.
— É, ela ficou meio agressiva e a gente teve que dar uma marcada nela, mas não deve ser nada permanente, Seu Jonas. — A raiva cruzou o rosto dele num flash, mas eu não tinha certeza se era direcionada a mim ou ao puxa-saco inútil ao lado dele.
Não tinha jeito. Dei alguns passos para longe da parede. Eu não ia encará-lo como um animal encurralado. Não depois de todo esse tempo. Sozinha. Longe daquele olhar formidável. Ergui o queixo e encarei de volta.
Captei a inclinação familiar do cabelo preto e espesso, penteado para trás, a forma firme dos braços sob a camisa social e a curva suave do peito forte. Sim, reconheci a contragosto, ele continuava tão bonito quanto sempre fora. Nunca ajudou o fato de que, para um estranho, ele não parecia o demônio cruel que era. Apenas seus olhos traíam uma frieza da qual eu estava consciente até demais.
Por um minuto ficamos assim. Desafiando o abismo que parecia se abrir entre nós. Joca olhava de um para o outro, confuso.
Mas então a boca dele se curvou apenas ligeiramente e, sustentando meu olhar, ele ergueu as sobrancelhas em desafio e apontou para o chão, aos pés dele.
Simples assim. Ele tinha fechado a distância e anos de dor e indignação explodiram dentro de mim. A raiva quase ferveu saindo pelas minhas orelhas. Quem diabos ele pensava que era? Tinham se passado cinco anos! E ele achava que eu ia simplesmente voltar a me ajoelhar aos pés dele e beijar os sapatos italianos dele? Como se nada tivesse acontecido? Ele deve ter perdido o juízo nesses anos todos.
Engoli uma barragem de palavrões enquanto respirava fundo e mantinha minha posição. Eu tinha que me segurar ou não teria chance contra ele. Ele era a paciência personificada. Apertei os dedos em punhos fechados e empinei o queixo ainda mais.
Ele deu de ombros e lentamente deu um passo à frente. E daí? Eu não ia a lugar nenhum. Deixa ele tentar vir me pegar. Ele ia se arrepender. Eu tinha aprendido algumas coisas desde a última vez que me ajoelhei diante dele. Ele deu outro passo. E então outro. Ele não tinha pressa. Minha pele parecia que ia entrar em erupção de fúria. Ou medo. Ou antecipação. E então ele estava na minha frente. Sem tocar.
E foi aí que eu fiz meu movimento.
Saltei para frente e lancei meu ombro com força contra o peito dele, mas em vez de desequilibrá-lo como deveria, ele apenas pareceu surpreso antes que eu subisse meu joelho mirando a virilha dele.
Ele pegou. Segurou meu joelho no ar, me forçando a ficar num pé só, enquanto olhava para mim com um interesse renovado.
— Ora, isso é novidade.
Tentei desesperadamente arrancar meu joelho do aperto implacável dele, tentando parecer o mais desafiadora possível equilibrada numa perna só.
Ele apertou meu joelho com mais força e disse:
— Manu. — Tanto em aviso quanto em cumprimento.
Olhei bem dentro dos olhos dele e disse:
— Jonas. — Com toda a confiança que consegui evocar na minha posição comprometida.
O canto da boca dele subiu ligeiramente e aproveitei a oportunidade para afirmar:
— Eu não vou voltar com você, Jonas.
Agora ele sorriu completamente.
— Bom, então isso vai ser constrangedor... — Ele soltou meu joelho e deu um passo para trás, calmamente. — Porque é exatamente isso que eu digo que você vai fazer e, como tenho certeza que você se lembra... — Ele sorriu de novo e se certificou de que eu estava olhando atentamente para ele. — O que eu digo, é lei.
Tentei manter a calma. Juro que tentei. Mas de repente eu não conseguia respirar. Senti a bile subindo do meu estômago e o sangue fugindo do meu rosto. E então tudo ficou escuro.
Quando recobrei a consciência, eu estava no chão e os braços poderosos dele me prendiam no colo. Ele estava olhando para mim com severidade.
— Quando foi a última vez que você comeu?
Fiz uma carranca, tentando me afastar do aperto dele. Ele apertou as mãos e ergueu uma sobrancelha.
— Me responde, Manuela.
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