O corredor do hospital era longo, branco, infinito. Cheiro de álcool e desinfetante. Luz fluorescente piscando fraco no teto, uma daquelas lâmpadas que deveriam ter trocado há meses. Na maca, lá dentro, atrás da porta de acesso restrito, Roberto lutava entre a vida e a morte. Parada cardiorrespiratória, disseram. Infarto. Palavras que entram por um ouvido e saem pelo outro sem encontrar morada.
Eu deveria estar chorando. Deveria estar de joelhos, rezando, pedindo a Deus por mais uma chance. As outras mulheres da igreja, as vizinhas, todas fariam isso. Mas estou apenas... sentada. Olhando para minha própria mão, para a aliança que ainda brilha no meu dedo.
Foi então que a primeira lembrança veio.
Não como um filme, mas como uma fotografia. Nítida. Dolorosa. Eu com dezenove anos, o cabelo comprido, o rosto mais jovem, mas o vazio já começando a se instalar ali.
Era o nascimento do Felipe.
Quatorze horas de parto. Lembro de cada minuto, das contrações, do medo, da mão da enfermeira apertando a minha porque não tinha ninguém ali para segurar. Roberto estava viajando a trabalho e chegou quando já estava tudo terminado. O bebê limpo, enrolado, dormindo no bercinho ao lado.
- Nasceu! - ele disse.
Pegou o filho no colo por dois minutos. Dois minutos contados. Eu sei porque fiquei olhando o relógio na parede, esperando que ele dissesse alguma coisa, que parecesse emocionado, que olhasse para mim, me desse um abraço e perguntasse se eu estava bem. Queria que ele se desculpasse por não estar lá comigo.
Nada.
- Preciso ir - ele disse, devolvendo o bebê para a cama. - Reunião.
Me deu um beijo seco na testa e saiu. A enfermeira entrou minutos depois, viu o quarto vazio, meu rosto exausto, e perguntou, sem maldade na voz:
- Seu marido não vai ficar?
Eu sorri. Aquele sorriso que ensaiei durante anos.
- Ele tem compromissos importantes.
Outra lembrança me atinge, mais forte.
A casa estava limpa, um bolo pronto, o frango assando no forno. Passei a tarde inteira me arrumando e pedi que Dona Maria, a vizinha da esquina, ficasse com o Felipe até o dia seguinte. Era nosso aniversário de casamento. Comprei um vestido novo azul-marinho, com um decote simples, nada vulgar. Passei perfume nos pulsos, atrás das orelhas. Fiz escova no cabelo, algo que detestava fazer sozinha.
Quando Roberto sentou à mesa, esperei. Ele comeu. Leu o jornal. Bebeu o suco.
- Reparou em algo diferente? - perguntei, a voz mais leve do que deveria.
Ele me olhou com os olhos arregalados.
- Querida, agora que você comentou... Mudou o tempero do frango né? Ficou ótimo!
Lavei a louça em silêncio e, quando terminei, sentei no chão do banheiro e chorei baixinho.
Na época, achei que estava sendo forte. Hoje sei que estava só aprendendo a desaparecer.
O celular vibrou nas minhas mãos, me tirando dos devaneios. Mensagem de Victor perguntando se eu estava bem e como estava Roberto.
Olho para a tela por um longo tempo. Não respondo.
Outra lembrança me atingia, uns dez anos atrás. Lembro exatamente onde estávamos. Na cozinha. Ele tomando café, de pé, já de pasta na mão, pronto para sair. Eu encostada no balcão, as palavras saindo antes que pudesse segurar:
- Às vezes sinto que você nem me vê, Roberto.
Ele se virou para mim devagar. O rosto dele não tinha raiva. Tinha frieza. Pior que raiva.
- Te vejo todo dia, Beatriz. Tenho trabalhado igual um condenado por você. Isso não é suficiente?
Talvez fosse realmente suficiente. Em uma das confissões com Padre Mauro, ele já tinha me falado que Deus abomina divórcios, e a comunidade católica da cidade não aceita mulheres que se divorciam.
Nunca mais toquei no assunto.
Outra lembrança. Essa dói de um jeito diferente.
Apenas uns cinco anos atrás. Em uma tarde, arrumando o armário de Roberto, encontrei uma mancha de batom vermelho na dobra do paletó. Não era da cor que eu usava, eu nunca usava vermelho. Fiquei parada, a peça do paletó na mão, a mancha avermelhada me olhando de volta no tecido.
Esperei sentir alguma coisa. Raiva. Tristeza. Desespero. Qualquer coisa.
Mas não veio nada.
Guardei o paletó no lugar. Fechei o armário. Fiz o jantar.
Nunca toquei no assunto. Não porque tivesse medo. Não porque fosse madura. Mas porque, no fundo, eu já não me importava. O casamento tinha virado um hábito. Um músculo que continuava contraindo por inércia, mesmo depois de morto.
Uma lágrima escorre agora, enquanto eu espero uma notícia do médico. Sinto o gosto salgado no canto dos lábios e me surpreendo. Ainda consigo chorar. Ainda tenho lágrimas depois de tudo.
Mas não é por Roberto.
É por mim. Pela menina de dezoito anos que achou que estava fazendo a escolha certa.
A porta da UTI range. Levanto a cabeça rápido. Um médico sai, caminha em minha direção. Meu coração acelera. Seja o que for, quero que acabe. Eu tremia de frio ou de choque, não sabia dizer.
- Beatriz Rocha?
Levantei num salto.
- Ele está vivo - o médico disse, e minhas pernas fraquejaram de alívio. - Mas foi grave. Um infarto extenso. Conseguimos reanimar, mas ele está em coma induzido. Vamos manter assim pelos próximos dias, para dar tempo do coração dele se recuperar.
- Coma? - repeti, a voz oca.
- É uma medida de segurança. Ele está estável, mas vamos precisar monitorar de perto. Os próximos dias são críticos - o médico fez uma pausa e continuou. - Ele também está com duas costelas quebradas, provavelmente da queda.
Entrei no quarto da UTI quando permitiram. Roberto estava lá, coberto por fios e tubos, o peito subindo e descendo no ritmo das máquinas. O rosto pálido, os olhos fechados. Parecia menor do que era. Parecia frágil.
Sentei ao lado dele e chorei. Chorei por tudo. Pela culpa. Pelo medo. Pela raiva. Pela confusão que era minha vida agora. Por me importar com ele, mesmo que não o ame há tanto tempo.
Disquei no celular o número de Felipe. A voz do outro lado da linha estava grossa de sono, arrastada, e eu precisei ouvir dois “alôs” sem resposta antes de conseguir falar.
- Felipe... sou eu.
Silêncio. Depois um movimento, o barulho de alguém se sentando na cama.
- Mãe? São quatro da manhã. O que aconteceu?
Minha voz falhou na primeira tentativa. Na segunda, saiu um fio:
- Seu pai... ele teve um infarto, filho. Tá no hospital.
O silêncio do outro lado durou tempo demais. Eu imaginava meu filho processando a informação, aquele cérebro jovem tentando encaixar o pai, sempre tão robusto, sempre tão presente na ausência dele, dentro da palavra "infarto".
- Eu vou pegar a estrada agora mesmo - ele disse finalmente, a voz mais firme do que eu esperava. - Manda o nome do hospital e o endereço. Estou indo.
Desliguei e fiquei olhando para a tela do celular. Felipe. Meu filho. Vinte e dois anos. Morava longe, estudando, construindo a própria vida. Uma vida que eu acompanhava de longe, por fotos no Facebook e ligações de domingo à noite, sempre as mesmas perguntas, sempre as mesmas respostas.
O que ele ia pensar quando chegasse? O que ele ia ver no meu rosto?
O hospital de manhã cedo tem uma luz diferente. Mais fria, mais cruel. As lâmpadas fluorescentes revelam tudo o que deveria ficar escondido: olheiras profundas, pele amarelada, o desespero mal disfarçado dos visitantes.
Felipe chegou três horas depois da ligação. Eu estava na porta da UTI quando vi a silhueta familiar atravessar o corredor. Mais magro do que na última vez que o vi pessoalmente, a barba por fazer. Os olhos encontraram os meus e, por um segundo, eu vi a pergunta ali: o que aconteceu, mãe?
Mas ele não perguntou. Apenas me abraçou, um abraço rápido, constrangido, desses que homens trocam quando não sabem lidar com a própria mãe chorando.
- Tô aqui - disse. - Posso ver ele agora?
A UTI permitia apenas alguns minutos por visita. Eu fiquei do lado de fora enquanto Felipe entrava. Fiquei olhando através do vidro fosco, imaginando ele vendo o pai entubado, os fios, os números piscando nos monitores. O que passa na cabeça de um filho quando vê o pai reduzido àquilo?
Quando ele saiu, o rosto estava pálido. Sentou ao meu lado no banco duro do corredor e ficamos em silêncio por um longo tempo.
- Os médicos disseram que foi estresse - ele falou finalmente, a voz baixa. - Que o coração dele não aguentou alguma coisa. O que aconteceu, mãe?
Meu coração disparou. Olhei para as mãos, para a aliança no meu dedo, para o chão de hospital.
- Ele chegou mais cedo do trabalho... eu tinha saído, feito algumas compras... quando voltei, ele estava em casa, subiu as escadas... - as palavras saíam automáticas, a mentira que eu ensaiei a noite inteira. - Depois ouvi um barulho. Ele caiu da escada, filho. Quando cheguei na sala, já estava caído.
Felipe me olhou. Os olhos dele eram os meus, claros, atentos. Por um segundo, achei que ele ia perguntar mais. Que ia sentir a mentira no ar, aquela coisa podre que eu carregava. Mas ele apenas acenou com a cabeça.
- Vou ficar uns dias - disse. - Te ajudar em casa, com as coisas.
O alívio foi tão grande que quase doeu.
Mas a casa estava estranha com Felipe dentro dela.
Não que ele fizesse bagunça ou exigisse alguma coisa. Pelo contrário: ele era discreto, quase invisível, passando a maior parte do tempo no celular ou vendo televisão na sala. Mas a presença dele mudava tudo. Eu não podia simplesmente sentar e pensar. Não podia deixar a mente vagar para Victor, para as noites, para tudo que tinha acontecido.
Mas o corpo não obedecia.
Enquanto preparava o na noite seguinte, sentia a pele formigar. Lavando a louça, lembrava das mãos dele na minha cintura. Tentando dormir, via o rosto de Victor atrás das pálpebras fechadas. Felipe foi deitar cedo. Ele apagou no quarto de hóspedes antes das dez. Fiquei na sala. O celular queimava dentro do meu bolso. Não me aguentei e mandei mensagem pro Victor:
B: Estou com saudades.
Ele respondeu quase instantaneamente.
V: Vem aqui me ver. Tô com saudade também, Bia.
Mordi o lábio. Não era certo. Era uma péssima ideia.
B: Não sei.
V: Vem... Minha mãe já dormiu. Vou deixar a porta dos fundos destrancada.
Atravessei o jardim no escuro como tantas vezes antes. A grama molhada molhando meus pés nas sandálias. A porta dos fundos da casa dele cedeu ao meu toque.
Ele estava na cozinha, esperando. Ele apenas me olhou, e eu vi nos olhos dele o mesmo cansaço, a mesma confusão, a mesma necessidade de sentir algo que não fosse o desespero.
Caminhamos para o quarto dele em silêncio. Subimos as escadas devagar. No quarto, ele fechou a porta e me puxou para perto.
- Bia - murmurou. - Eu senti tanto a sua falta.
- Eu também - respondi, e era verdade.
Ele me puxou para um abraço, e eu me aninhei em seu peito, sentindo o calor do corpo, o cheiro familiar, a segurança absurda de estar nos braços dele.
- Como ele está? - Victor perguntou baixo.
- Estável. Em coma. Os médicos não sabem dizer quando vai acordar.
Ele apertou o abraço.
- Vai ficar tudo bem - murmurou no meu cabelo. - Vai ficar tudo bem.
E ali, no quarto escuro, com o marido em coma no hospital e o amante nos meus braços, eu senti algo que não deveria sentir.
Paz.
Victor inclinou o rosto e me beijou. Foi um beijo suave. Um selinho. Um beijo de consolo, de cuidado. Mas meu corpo traiu minha mente.
Senti, num átimo, minha buceta começar a latejar. Aquele pulsar quente, familiar, que só ele conseguia despertar em mim. Uma vergonha imediata me atingiu: como eu podia sentir tesão depois de tudo? Mas o corpo não obedece à vergonha.
Aprofundei o beijo. Minha língua encontrou a dele, e ouvi o pequeno gemido que ele fez, senti a mão dele apertar minha cintura, vi o volume dele endurecer na bermuda de tecido fino.
Ele se afastou só um pouco, os olhos procurando os meus.
- Tem certeza que quer fazer isso agora?
Respirei fundo. Pensei em Roberto, na UTI. Pensei na confusão, na culpa, no peso de tudo.
- Sim - respondi. - Eu preciso disso. Não quero pensar em mais nada.
Ele não falou mais. Me puxou para o colo dele, e nos beijamos de novo. Dessa vez com mais calma, com mais tempo, como se a gente tivesse toda a noite pela frente, e de certa forma, tínhamos.
Ficamos ali na cama de solteiro dele, nos beijando devagar. A mão dele deslizou para minha bunda, apertando de leve, enquanto a minha subia para o cabelo dele, os dedos se enroscando nos fios crespos.
Ele tirou meu vestido com uma delicadeza que doía. A peça escorregou pelos meus ombros, caiu na cintura, e ele parou para me olhar. Os olhos escuros percorreram meu corpo com uma lentidão de quem tem tempo, de quem quer guardar cada detalhe.
- Você é tão linda, Bia - murmurou. - Tão gostosa.
A vergonha que eu deveria sentir não veio.
Ele me deitou na cama, o corpo dele por cima do meu, e foi me beijando devagar. Pescoço. Ombros. Peito. Cada beijo uma demora, uma promessa. Quando a boca dele encontrou meu mamilo, eu gemi baixo, as mãos apertando os ombros dele.
- Victor...
Desceu mais. Beijou minha barriga, minhas coxas, e quando chegou na minha buceta, já estava toda melada, escorrendo, pronta. Ele passou o dedo devagar, colhendo meu mel, e levou à boca.
- Delícia - sussurrou, os olhos nos meus.
Eu não aguentei. Puxei ele para cima, puxei a bermuda dele, o suficiente para a rola saltar pra fora, enorme, dura, brilhando na penumbra. Senti a buceta contrair de vontade.
Ele se posicionou na minha entrada, mas não entrou de uma vez. Ficou ali, a cabeça pressionando de leve, me olhando nos olhos.
- Assim? - perguntou baixo.
- Assim - respondi.
Ele entrou devagar. Muito devagar. Cada centímetro uma eternidade, um preenchimento, uma volta para casa. Quando chegou ao fundo, nós gememos ao mesmo tempo.
Ficamos assim por um momento, ele dentro de mim, os olhos nos meus, a respiração se encontrando. Depois ele começou a se mover.
Dessa vez não tinha pressa. Não tinha violência. Não tinha palavras sujas, xingamentos, aquela coisa de "cavala" e "puta" que me tirava do sério. Dessa vez era só ele e eu, nos olhando, nos movendo juntos num ritmo lento, profundo, que parecia uma dança.
- É tão bom sentir você - ele murmurou. - Tão bom sentir sua buceta toda melada em volta de mim.
Eu gemia baixo, as pernas enroscadas na cintura dele, as unhas passeando pelas costas.
- Você é tão gostosa, Bia - ele continuou, a voz rouca, mas doce. - Tão linda. Tão perfeita.
Uma lágrima escapou. Não de tristeza. De alguma coisa que eu não sabia nomear. Ele viu, e parou de se mover por um segundo, preocupado.
- Tá doendo?
Balancei a cabeça, puxando ele para mais perto.
- Continua - pedi. - Por favor.
Ele continuou. Mais lento ainda, se possível. Cada estocada uma declaração. Cada gemido uma promessa. Eu sentia o orgasmo se aproximando como uma onda mansa, não como o tsunami de sempre, mas como uma maré subindo devagar, preenchendo tudo.
- Victor - falei entre gemidos. - Vou gozar.
- Eu também, Bia - ele disse, a voz falhando. - Posso gozar dentro?
Assenti com a cabeça, sem conseguir falar.
Ele acelerou um pouco, só um pouco, e eu senti o corpo dele tensionar, senti a rola pulsar dentro de mim, senti o calor do leite inundando minha buceta no mesmo momento em que meu orgasmo explodiu, manso e profundo, me levando com ele.
Ficamos ali, abraçados, ofegantes, por um longo tempo. Ele ainda dentro de mim, os dois sem querer se mexer.
Depois ele rolou para o lado e me puxou para o peito. Senti a porra escorrer devagar para fora de mim, escorrer pela coxa, sujar o edredom de sua cama. E não me importei. Não me importei com nada.
Ele passou os dedos no meu cabelo, afastando os fios do rosto.
- Me sinto culpado pelo que aconteceu com o Roberto - ele falou, baixinho.
- Eu também - falei com sinceridade.
- Naquela noite... quando ele apareceu na escada... a gente tava...
Ele não terminou a frase, mas eu sabia o que ele queria dizer. A cena estava gravada em mim como ferro quente.
- Sim, eu estava dando o cu pra você - falei, com naturalidade. - Eu já ia pedir o divórcio no dia seguinte, de manhã. Se eu tivesse ficado um pouco mais quieta... Talvez ele não tivesse tido um infarto vendo aquilo.
Victor assentiu, em silêncio, e não disse mais nada. Estava com um olhar reflexivo quando eu me levantei da cama pra colocar o vestido de volta.
- Fica mais um pouco - pediu.
Balancei a cabeça.
- Não posso. Meu filho está em casa.
Ele acenou, compreendendo. Me beijou mais uma vez, lento, como quem quer guardar o gosto.
- Vai dar tudo certo, Bia - disse. - A gente vai dar um jeito.
Saí do quarto dele com o coração apertado. Atravessei o jardim de volta, entrei em casa, subi as escadas. Felipe ainda dormia no quarto de hóspedes. Deitei na cama de casal, vazia, e fiquei olhando para o teto até o dia clarear.
Na manhã seguinte, eu preparava o café quando o celular vibrou na bancada da cozinha. O nome na tela fez meu coração parar: Adriana.
Atendi com a mão trêmula.
- Beatriz, querida - a voz dela do outro lado era macia, doce, a mesma de sempre. - Eu soube do Roberto. Que barra, amiga. Ainda está vivo, graças a Deus. Melhoras pra ele.
- Obrigada, Adriana - respondi, confusa.
- Olha, eu fiquei pensando - ela continuou, a voz ainda mais doce. - Sobre o outro dia. Sobre o que eu disse. Fui grosseira, fui injusta. Você estava passando por tanta coisa, e eu só piorei. Queria pedir desculpas.
Fiquei em silêncio, processando.
- Posso ir aí hoje? Levar um almoço pra vocês? Pro seu filho também, coitado, deve estar passando por um momento difícil. A gente precisa se unir nessas horas.
- Adriana, não precisa...
- Quero muito, Beatriz. Me deixa fazer isso. Pra mostrar que não guardo mágoa. Pra gente recomeçar.
Havia algo na voz dela. Algo que me fez hesitar. Mas eu não conseguia identificar o quê.
- Tá... tá bom - ouvi minha própria voz dizer. - Venha almoçar conosco.
Felipe desceu para o café tarde, ainda com a cara amassada de sono. Sentei à mesa com ele, tomei meu café em silêncio, esperando a melhor hora para avisar.
- Uma vizinha vai vir almoçar conosco hoje - falei, tentando parecer casual. - A Adriana. Mãe do... do Victor.
Felipe ergueu os olhos do prato.
- Vizinhos novos?
- Mudaram faz algumas semanas. Pessoas boas. Ela quer trazer almoço, ajudar.
Ele deu de ombros, voltando ao café.
- Tudo bem.
Passei a manhã inteira nervosa. Arrumei a sala duas vezes. Troquei a roupa três vezes. Quando a campainha tocou, meu coração disparou de um jeito que eu não sabia dizer se era medo ou esperança. Adriana estava na porta com uma travessa enorme na mão. Vestia um vestido de cores vibrantes, e o sorriso no rosto era largo, aberto, acolhedor.
- Beatriz! - exclamou, me beijando no rosto como se fôssemos amigas de infância. - Que bom te ver. Espero que goste da comida, é uma receita de família.
Entrou em casa como se fosse dona do lugar, os olhos percorrendo a sala, a cozinha, avaliando. Colocou a travessa na mesa da cozinha e se virou para mim.
- E esse é o Felipe? - perguntou, quando meu filho apareceu na porta da cozinha. - Nossa, que rapaz bonito! Puxou a mãe, hein?
Felipe sorriu sem graça, cumprimentando com um aceno.
Sentamos à mesa. Adriana serviu a comida, elogiou a casa, perguntou sobre o hospital, sobre Roberto. Tudo normal. Tudo perfeitamente normal. Até que ela começou a falar.
- Sabe, Beatriz - disse, colocando mais salada no prato -, esses tempos modernos são complicados, não acha? Antigamente as pessoas tinham vergonha na cara. Hoje em dia, qualquer uma se acha no direito de destruir uma família.
Olhei para ela, o coração começando a acelerar.
- Como assim? - perguntei, a voz controlada.
Adriana sorriu, aquele sorriso doce.
- Ah, você sabe. Mulheres que não respeitam o próprio casamento. Que saem por aí atrás de homem mais novo, achando que vão recuperar a juventude. Enquanto isso, o marido coitado, trabalhando, sustentando a casa, sem saber da traição.
Felipe franziu a testa, mastigando devagar.
- A senhora está falando de alguém específico? - perguntou.
Adriana o olhou com uma expressão de surpresa falsa.
- Específico? Não, não, claro que não. Só filosofia de almoço. Mas é engraçado como essas coisas acontecem, não é? Uma mulher casada, de família, membro da igreja... e de repente se descobre que ela não passa de uma...
- Adriana - cortei, a voz mais alta do que pretendia.
Ela ergueu as sobrancelhas, inocente.
- O que foi, Beatriz?
- Não é hora pra esse tipo de conversa.
Felipe olhou de mim para Adriana, confuso. Colocou o garfo no prato com um baque seco.
- Desculpa, dona... não sei seu nome direito - a voz dele saiu mais firme agora. - Mas meu pai tá no hospital, em coma. Acho que não é o momento pra vir aqui falar de traição e fofoca de vizinhança.
- Felipe! - exaltei, o instinto materno falando mais alto. - Não foi essa a educação que eu te dei!
Meu filho me olhou, e havia algo nos olhos dele que eu não sabia decifrar. Cansado? Desconfiado?
- Desculpa, mãe. Mas é verdade. A gente não conhece essa senhora.
Adriana riu, um som leve, quase doce.
- Não, não, ele tem toda razão, Beatriz. Eu é que fui inconveniente. Me perdoa, Felipe, você está certo. Não é hora pra isso - ela fez uma pausa, colocando o guardanapo sobre a mesa. - Na verdade, eu vim aqui por um motivo específico.
Ela levantou, foi até a bolsa deixada no encosto da cadeira, e tirou de dentro um pequeno objeto. Um pen drive. Colocou sobre a mesa, bem no centro, entre os pratos.
- O que é isso? - perguntei, embora já soubesse. Já estivesse gelada por dentro.
Adriana sorriu. Agora o sorriso não era mais doce. Era triunfante.
- Uma gravação, Beatriz. Linda, diga-se de passagem. Muito... esclarecedora.
Felipe olhava de uma para outra, confuso.
- Gravação do quê? - ele perguntou.
Adriana não desviou os olhos de mim.
- Da noite passada, Beatriz. Você e meu filho. Na cama dele. Transando como dois coelhos no cio.
O ar sumiu da sala.
- A senhora tá maluca? - Felipe se levantou, a cadeira rangendo. - Minha mãe não...
- Coloquei umas câmeras na casa, inclusive no quarto do Victor - Adriana continuou, como se ele não tivesse falado. - Depois da primeira vez que descobri. Queria provas. E consegui.
Minha boca se abriu, mas nenhum som saiu.
- Eu tenho tudo, Beatriz. Você entrando pela porta dos fundos. Você subindo as escadas. Você na cama com meu filho. E tenho também a conversa que vocês tiveram sobre o dia que Roberto infartou.
- O quê? - Felipe disse, pálido.
- Pois é, meu querido - Adriana se virou para ele, os olhos brilhando. - Seu pai não caiu da escada por acaso. Ele pegou sua mãe dando o cu pro meu filho na sala de estar. E o coração não aguentou.
A palavra "cu" na boca dela, dita na minha cozinha, na frente do meu filho, foi como um tapa.
- Sua puta - Adriana cuspiu, agora diretamente para mim, a máscara completamente caída. - Sua vagabunda nojenta. Uma mulher da sua idade, com um filho mais velho que o meu, dando em cima de um menino de dezoito anos. Predadora. Nojenta.
- Chega! - Felipe gritou, a voz ecoando na cozinha. - A senhora vai sair daqui agora mesmo!
Adriana nem olhou para ele. Os olhos dela estavam fixos nos meus, queimando.
- Esse pen drive é só uma cópia - disse, a voz calma novamente, o que era mais assustador. - Eu tenho várias. E vou postar todas. Em todas as redes sociais. Nos grupos da igreja. No WhatsApp das vizinhas. Na página da cidade. A cidade inteira vai saber o tipo de mulher que você é.
Ela se virou, pegou a bolsa, e caminhou em direção à porta. Parou no batente, olhou para trás mais uma vez.
- A verdade, Beatriz, é que você é uma vagabunda que destruiu a própria família e ainda causou um infarto no marido. Agora viva com isso.
A porta bateu.
Ficamos em silêncio, eu e meu filho, olhando para o pen drive em cima da mesa.
Quando Felipe finalmente falou, a voz dele era irreconhecível. Fria. Distante.
- Mãe... do que ela tá falando?
(N.A.: Peço desculpas pela demora! A correria do dia a dia está me tomando muito tempo. A história já está finalizada e só terá mais uma parte para fechar a narrativa. E já estou trabalhando no próximo conto :D)
