O café da manhã terminou, mas a vontade de ir embora não chegou.
Na pia da cozinha, a luz do sol entrava sem cerimônia, iluminando a bagunça feliz de dois adultos que redescobriram a fome. Eu me prontifiquei a lavar a louça, uma tentativa muda de prolongar minha estadia naquele território. Ayandara secava ao meu lado, o ombro dela roçando no meu a cada movimento.
Conversávamos sobre amenidades, rindo baixo do quase flagra da noite anterior.
— A cara que você fez quando o controle caiu... — ela riu, jogando o pano de prato no balcão. — Parecia um leão que virou gatinho.
— Gatinho não — rebati, desligando a torneira e secando as mãos na calça. — Estrategista.
O riso dela morreu quando me virei. A cozinha ficou pequena.
Não pedi licença. Agarrei a cintura dela com as duas mãos, sentindo o tecido do roupão ceder, e a prensei contra a porta da cozinha. O impacto foi suave, mas firme. Ayandara arfou, surpresa, mas logo suas mãos subiram para o meu pescoço.
O beijo foi diferente de todos os outros. Não tinha a urgência da madrugada, nem a preguiça da manhã. Tinha peso. Tinha gosto de "até logo" e de "você é minha". Nossas línguas se encontraram numa dança lenta e profunda, selando um pacto que não precisava de palavras.
— Vai... — ela sussurrou contra a minha boca, os olhos brilhando. — Antes que eu tranque essa porta e jogue a chave fora.
Caminhamos até o carro. O sol já estava alto, a rua movimentada. A despedida teve que ser contida, um teatro para os vizinhos. Dei um selinho rápido, mas meus olhos disseram tudo o que minha boca calou.
— Avise quando chegar — ela pediu, cruzando os braços, a postura de Rainha voltando ao lugar.
Entrei no carro. Liguei o motor. Pelo retrovisor, vi Ayandara parada no portão até eu virar a esquina.
A estrada se abriu diante de mim. O silêncio do carro, antes um alívio, agora parecia um vácuo. Minha mente era um turbilhão. O cheiro dela estava impregnado no cinto de segurança, nas minhas mãos, na minha memória. Cada quilômetro que eu me afastava parecia esticar um elástico invisível preso no umbigo dela.
O celular vibrou no painel.
Não era texto. Era um áudio de dois minutos.
Dei o play. A voz de Ayandara invadiu o carro, preenchendo o vazio.
— "Oi, Rei... você mal virou a esquina e a casa já ficou gigante. O pequeno perguntou quem era o 'tio grandão'. Eu disse que era um amigo..." — A voz dela falhou, embargada, fugindo da compostura de ferro que ela sempre mantinha. — "Mas não é amigo, né, Malik? Amigo não faz o que você fez. Amigo não me deixa com as pernas bambas e a buceta pulsando até agora."
Engoli em seco, segurando o volante com força.
— "Eu tô aqui na sala... sentada onde você sentou... sentindo seu cheiro. E, porra... eu tô molhada de novo só de lembrar da sua boca em mim de manhã. Volta logo, ou eu vou ter que resolver isso sozinha pensando no seu nome."
O tesão me atingiu como um soco. Meu pau endureceu instantaneamente, doloroso contra o jeans, reagindo à voz dela como se fosse um comando físico.
Eu não conseguia dirigir assim.
Avistei um posto de gasolina na rodovia. Entrei cantando pneu. Parei o carro numa vaga afastada e corri para o banheiro individual. Tranquei a porta, as mãos tremendo.
Tirei o pau para fora, a cabeça inchada, latejando de saudade e desejo acumulado. Apontei o celular e tirei uma foto. Crua. Real. O retrato da minha derrota e da minha vitória.
Enviei.
Malik:
— Você quer me torturar a viagem toda? Quer me enlouquecer e fazer eu bater o carro?
— Olha como você me deixou. Assim eu não consigo esquecer... eu vou precisar repetir a dose, Ayandara. E logo.
A resposta veio em segundos. Outro áudio.
— "Hummm... que visão... pena que foto não dá pra chupar. Dirige com cuidado, Malik. Guarda essa energia. Porque a próxima dose vai ser overdose."
Voltei para a estrada com o sangue fervendo, mas com um sorriso bobo no rosto. A viagem passou num borrão de ansiedade e lembranças.
Cheguei em casa no meio da tarde. O silêncio do meu apartamento era diferente do silêncio da casa dela. Era frio. Impessoal.
Joguei a mochila na cama e comecei a desfazer as coisas, separando a roupa suja que ainda tinha o cheiro dela. No fundo da mochila, minha mão tocou algo sedoso e pequeno.
Puxei.
Era uma calcinha. Uma peça minúscula de renda preta, delicada, transparente. Franzi a testa. Ayandara não tinha usado aquilo. Eu vi todas as peças que ela usou (e as que ela não usou). Aquilo era novo. Intocado.
Peguei o celular, confuso, e mandei a foto da peça na minha mão.
Malik:
— Você esqueceu isso na minha mochila? Mas... você não usou essa.
A resposta veio escrita, curta e direta, com a autoridade de quem sabe exatamente o jogo que está jogando.
Ayandara:
— Não esqueci. É um presente.
— E um aviso: é essa que eu vou usar na sua casa no nosso próximo encontro. Prepare o território, Rei.
Olhei para a calcinha preta na minha mão e depois para a minha cama vazia. O jogo tinha virado. Agora, era ela quem viria. E eu mal podia esperar.