Explode Coração

Da série Fora da Ordem
Um conto erótico de Bayoux
Categoria: Heterossexual
Contém 7886 palavras
Data: 27/02/2026 21:06:08
Última revisão: 27/02/2026 21:15:43

O amor é revelador.

Chega de tentar dissimular e disfarçar e esconder, quando o amor chega revira a cabeça da gente e tudo se confunde, mas, no final o que resta é uma clareza absurda e inegável que não dá mais pra ocultar – e não se pode mais calar.

Eu havia negado e renegado, traído e abandonado, havia até mesmo esquecido aquele amor impossível, mas, ainda depois de tanto tempo, bastou um encontro breve com Ivetinha para trazer tudo à tona, gritando em meus ouvidos e me fazendo acordar.

Por isso, dei uma desculpa à Corisco e a deixei vigiando a casa da frente, dizendo que ia fazer o reconhecimento da vizinhança e, às quatro da tarde como combinado, eu chegava ao café do bairro, um lugar aberto com mesinhas sob um caramanchão de teto verde invadindo a calçada e iluminado pelo sol da tarde. Logo a vi sentada, esperando-me.

Ivetinha trazia um vestido floral bem juvenil, parecendo uma camélia no jardim, com o corpete justo ressaltando seus seios morenos e uma saia justa marcando ainda mais suas curvas generosas, parecendo querer reviver o final dos anos cinquenta, quando nos conhecemos. Para mim, olhar para meu amor perdido foi como viajar no tempo.

Um capuccino para ela, um copo d’água para mim e um silêncio incômodo para nós dois – foi assim o início daquele encontro. Ivetinha me olhava com curiosidade, como se estivesse tentando adivinhar quem eu me tornara. Se ela ao menos imaginasse que eu era um subversivo, não estaria sentada ali comigo. Eu sustentava seu olhar com certa superioridade, pois sabia de sua vida mais do que ela imaginava.

Sim, eu tinha visto tudo, o homem corpulento que veio à sua casa de manhã num carro oficial quando o infeliz do Machadinho saiu, os gritos e gemidos de prazer que ecoavam pela rua, até que ele se retirasse todo desarrumado e com uma cara patética de satisfação. Eu sabia dela até mais que seu próprio marido.

– Você está diferente, sei lá. Foi uma surpresa encontrá-lo hoje. Era a última coisa que esperava – ela disse me olhando com aqueles olhos redondos e vivos que eram sua marca, fazendo parecer que não havia nada mais importante que eu.

– E você não mudou nada. Coincidência, não é? Eu vir morar justamente na casa em frente à sua.

– Coincidência ou um sinal do destino… Mas não se engane com minha aparência, eu mudei mais por dentro que por fora, Jôpa. O casamento foi o responsável. E você, casou quando?

– Pouco tempo... Pouco tempo mesmo – respondi dando-me conta de que eu e Corisco não tínhamos combinado uma história conjunta previamente.

Nós não conhecíamos a vida anterior um do outro e não inventamos datas, acontecimentos e detalhes para contar caso nos fizessem este tipo de pergunta.

Não pensamos nem mesmo em nomes falsos, só nos conhecíamos por codinomes e, para piorar, o dela ainda era o de cangaceiro tirado de um clássico da literatura. Entrar no tema do nosso casamento com Ivetinha seria arriscado, podia estragar nosso disfarce. Eu tinha que desviar o assunto o quanto antes.

– Sabe garota, eu lembro com saudade do tempo em que nós paqueravamos. Tempo bom aquele, a vida era mais… simples.

– Sim, você e aquela lambreta vermelha com sua pinta de playboy. Isso é que me causa estranheza. Você, casado, sentado aì de paletó, feito um homem sério… Não combina.

– É vida que segue, os tempos mudaram. Larguei de ser playboy quando entrei na faculdade.

– Faculdade? Nossa, você fez faculdade?

– História. Quase me formei, mas… Enfim, os tempos mudaram, como eu dizia.

– Eu sempre quis estudar história. Te disse, não foi? Mas aí meus pais inventaram o casamento e… É, os tempos mudaram mesmo.

Conversar com Ivetinha sempre fora fácil, mas agora, era como se evitássemos dar detalhes de nossas vidas, escondendo coisas. O que eu podia dizer? “Entrei para a guerrilha urbana, minha companheira é uma terrorista tão perigosa quanto eu e viemos aqui pra vigiar o filha da puta do seu marido”? – cheguei a dar um sorriso pensando na cara de Ivetinha se eu lhe contasse a verdade.

– A última vez que te vi foi meio triste. Você estava bêbado, com uma faca na mão. Lembra?

– Claro. Lá no Copa, em frente à sua família. Eu estava… desesperado, acho. Foi mal, acho que criei problemas pra você, não foi? Eles sequer sabiam que eu existia. O seu futuro marido estava lá. Não aguentei.

– Nada, achei romântico, você ali, todo selvagem. E o mais engraçado é que eles pensaram que você tinha caso com a minha mãe. Aliás, o Machadinho até hoje acha isso.

– Eu e a sua mãe?

– É, a maior doideira. Quer dizer, você não tem nada com ela, não é? Porque o Machadinho diz que viu vocês dois e…

Então, esse era o ponto? Ivete tinha me atraído ali só para tirar aquela história à limpo? Eu tinha o coração saindo pela boca, cheio de ilusões do passado, e ela era capaz de pensar isso? Uma revolta cresceu dentro de mim, mas eu consegui contê-la. O tempo de treinamento no movimento me ajudou.

– Garota, eu nunca… Nunca nem cheguei perto da sua mãe. Seu marido deve estar inventando isso pra te distrair.

– Eu imaginei. O Machadinho tem outra, sabe? Quando o apertei, ele veio com essa história da minha mãe. Daí eu contei. Contei da gente, da nossa paquera.

– Você contou de nós pra ele?

– Sim. Eu precisava desmascarar aquela mentira sobre a minha mãe. Disse que naquele almoço do Copa, você estava lá por minha causa, e não por conta dela.

– Merda. Mas tudo bem, foi isso mesmo o que aconteceu. É justo que ele saiba. Além do mais, já faz anos isso.

– Não Jôpa, eu não devia ter dito. O Machadinho… ele é… enfim, ele não perdoa. Nada. Nunca. E é poderoso.

– Eu sei. Ouvi no rádio um dia. Diretor do DOI-CODI, não é?

– É. Ele ficou puto. Agora, o Machadinho acha que você passou de mim pra minha mãe. Creio que, sem querer, coloquei você na mira. Ele quer te matar.

– Mas eu nunca toquei em você! E muito menos na dona Margot!

– Pois é. Assim como você disse, eu achei que não tinha problema, afinal, faz anos que eu não te via, era como se você nem existisse mais. Mas então, você aparece do nada, casado, morando bem em frente à minha casa… É muita coincidência!

E o pior é que eu aparecer ali não era coincidência mesmo. Mas não era por amor, nem porque eu tinha um caso com alguma delas. Eu estava ali pelo Machadinho. E agora eu entendia porque ele vinha me perseguindo. Também não era porque eu fosse anarquista, ou comunista. Era puro ciúme. Ciúme de Ivete e ciúme da própria sogra, porque quem tinha um caso com Margot era ele.

Era chegado o momento. Esse segredo que eu calara há anos devia vir à tona. Eu precisava alertar Ivetinha, assim como ela estava me alertando sobre seu marido.

– Sim, Ivetinha, uma coincidência estranha. Mas, você já se perguntou por que o assunto da dona Margot surgiu do nada entre vocês?

– Ele achou que eu tinha um caso com outro homem e quis dar o troco, falando isso da minha mãe com você.

– E você tem? Quer dizer, não quero ser invasivo, mas você tem mesmo outro homem? Seria natural, já que você pensa que seu marido tem uma amante.

– Um amante? Eu? Imagina!

Ivetinha mentia, eu sabia. Tinha visto com meus próprios olhos o tal Pinda entrando e saindo de sua casa. Essa era a confirmação de que aquela conversa estava bem longe de ser franca. Mas tudo bem, eu mesmo estava omitindo boa parte da verdade, aliás, eu estava omitindo toda a verdade. Eu não disse nada da minha vida. Não disse que ainda era louco por ela. Muito menos contei que seu marido, o Diretor do DOI-CODI, era um alvo marcado pelos revolucionários do grupo em que eu fazia parte.

E por falar em Machadinho, o capitão também estava com os sentimentos à flor da pele, bem perto dali, na sede do DOI-CODI. Por mais que houvesse um alerta sobre mim por toda a cidade, o tempo em que eu andei afastado havia esfriado a busca e não havia pistas sobre meu paradeiro. Obcecado de ciúmes de sua sogra amante e agora movido pelo desejo de vingar-se de Ivetinha, que havia revelado ser minha namorada antes de que eles se casassem, mais do que nunca, o capitão queria por as suas garras em mim.

A paciência de Machadinho havia se esgotado. Depois de evitar ao máximo chegar a esse ponto, ele por fim concluía que medidas extremas deveriam ser tomadas, se quisesse mesmo acabar comigo. Como ele estava certo de que Margot era minha amante, ela era a pista mais quente que havia. O capitão já havia tentado arrancar dela qualquer coisa sobre meu paradeiro diversas vezes, enquanto a fodia e a submetia a práticas sexuais degradantes, mas sempre sem sucesso. Mas agora, ele iria apelar de vez.

O telefone de sua mesa tocou, era uma chamada interna dizendo que tudo estava pronto. O capitão respirou fundo, buscando encher o peito de coragem e saiu pelos corredores, indo em direção ao porão do edifício, onde ficavam as famigeradas celas. Obedecendo à discrição e ao sigilo das atividades que levavam ali, não haviam grades, só paredes e portas de metal blindadas, de forma que os prisioneiros políticos nunca podiam ver o que ocorria nos corredores nem quem trafegava por ali.

Ao chegar diante da última cela, Machadinho tomou ar uma vez mais, retirou uma balaclava negra do bolso e cobriu a própria cabeça, tornando impossível que fosse reconhecido, mesmo porque estava em trajes civis. Ao abrir a porta, a cena que viu lhe cortou o coração, mas ele pôs aquele sentimento ao lado e adentrou, respirando controladamente e com um olhar frio por trás da máscara.

Em meio à escuridão do local, iluminada apenas por uma lâmpada fraca pendente do teto, amarrada numa cadeira em meio ao recinto e cercada por dois outros homens mascarados, completamente nua, estava Margot. Machadinho fora capaz de ordenar a prisão de sua propria amante, achando que, se fosse devidamente torturada ali, ela por fim entenderia o risco corria ao proteger a um negro subversivo e terminaria contando onde eu estava.

Margot estava em pânico. Ela vinha há meia hora tentando explicar que não me conhecia e que aquilo tudo era um engano, mas os dois homens com forte sotaque gringo seguiam perguntando sobre mim, ignorando tudo o que ela dizia. Mesmo quando ela os ameaçou, dizendo que era sogra do diretor do DOI-CODI, riram de suas alegações e um deles ainda respondeu que “aqui as pessoas sempre mentem, dizem de tudo para conseguir escapar, mas hoje você vai aprender a ser sincera, sua piranha comunista”. E agora isso, um terceiro mascarado com ar de superior entrava na cela, e as coisas pareciam que iam piorar muito.

Margot e Machadinho ficariam marcados para sempre pelo que aconteceu ali. Sentindo-se quebrar por dentro, o capitão presenciou calado e assentindo com a cabeça quando o interrogatório conduzido pelos gringos se tornou agressivo, com tapas no rosto de Margot seguindo-se a cada resposta negativa proferida por sua amante. Viu como eles a tocavam, apertavam seus seios com prazer e beliscavam seus mamilos duros, arrancando gritos de sua vítima. Foi obrigado a ficar olhando dedos serem enfiados impiedosamente entre as pernas da loira, agarrando-a por ali, fazendo com que perdesse a voz.

Ainda assim, Margot seguia insistindo em dizer que não me conhecia - o que, ao fim, era a verdade que o ciúme de Machadinho não conseguia aceitar. Mesmo dividido, ele foi capaz de assentir mais uma vez, quando os dois homens corpulentos o olharam procurando permissão. Com a conivência de Machadinho, eles abriram as calças e expuseram os paus eretos em frente ao rosto de Margot, advertindo: “ Piranha, ou você começa a falar, ou vai levar pica até não conseguir andar mais… Esse è o último aviso!”

Ela era uma dama da sociedade, uma mãe de família, uma senhora de mais de quarenta anos, ela sequer conhecia as tais ideologias de esquerda e nunca havia sido tão ultrajada, nem mesmo pelas bizarrices que o genro a obrigava a fazer quando fodiam, e agora estava ali, rendida, entre dois paus duros e grossos, na iminência de ser abusada no porão da ditadura. O terceiro mascarado, que só observava tudo, deu de costas e rosnou entre os dentes: “Que se foda, eu não quero ver isso…” - e simplesmente deu de costas para sair da cela, deixando-a a mercê dos outros dois.

Enquanto os gringos a arrastavam da cadeira e a atiravam ao piso puxando-a pelos cabelos como uma qualquer, Margot ainda teve a impressão de ouvir um deles dizendo que o “capitão” não se preocupasse, porque aquela “fucking bitch” ia dizer até o que não sabia depois que eles terminassem com ela. E foi aí, nesse exato momento que ela se deu conta: era Machadinho ali o tempo todo, deixando que a torturassem e se retirando para que ela enfrentasse sozinha aquele inferno.

E pensar que Margot, justamente a única dentre todos que dizia a verdade, era a única de nós que sofria as consequências de todas as mentiras. Machadinho a abandonava nas mãos dos gringos torturadores, eu omitia a verdade de Ivetinha e a garota mentia para mim, lá no encontro que tivemos num cafezinho próximo ao prédio do DOI-CODI. Quanto a isso, bem, se eu omitia a verdade, Ivetinha tinha o direito de mentir. Contudo, eu estava determinado a contar ao menos uma verdade a ela, a mais cruel de todas.

– Garota, sobre a dona Margot… Tenho que lhe dizer uma coisa. E não vai ser fácil.

– Minha mãe? Ah não, Jôpa, vai dizer que vocês tem mesmo um caso? Como você pôde? Eu passei anos me arrependendo de não ter fugido com você, enquanto você estava lá, comendo ela? Merda!

– Não é isso. Sua mãe tem mesmo um caso. Eu vi, antes de você se casar com o Machadinho, numa tarde lá no mirante, dentro de um carro. Anos depois, vi de novo, lá no centro da cidade, à noite, ela acompanhada da mesma pessoa…

– Olha cara, eu não sei que joguinho é esse. Você e o Machadinho ficam falando dela. A vida da minha mãe não tem nada a ver com vocês! Deixem ela em paz!

– A vida da sua mãe, no caso, tem tudo a ver conosco. Eu carrego esse segredo há anos. Não te contei na época porque você não iria acreditar. Mas agora, que seu marido está me perseguindo e que você desconfia que ele tem uma amante… está na hora de você saber. Sua mãe tem um caso sim, mas não é comigo… é com o seu marido!

– Como é que é? Jôpa, ficou doido?

– Escute com atenção, Ivete. Essa história que seu marido contou não faz sentido, imagina, eu e sua mãe, juntos… Daí ele tira isso da cartola quando desconfia que você tem outro, só para te dar o troco… Ele inventou isso porque tem um caso com a sua mãe, mas não pode te dizer. Daí a saída mais fácil era colocar a culpa em mim. Entende?

Por breves segundos, Ivetinha ficou de boca aberta, seus olhos fixados em mim, meio perdida, enquanto processava aquilo tudo. Eu jogara uma tonelada de verdade sobre ela e o peso daquilo era insustentável.

A explosão de raiva e negação que veio em seguida, com ela gritando no café que eu era um ser desprezível e vingativo, já era de se esperar. Que ela saísse de lá, revoltada e pisando duro, também era previsível, assim como a culpa incrível que me assolou por ter revelado aquilo.

Sim, obviamente que o desfecho da nossa conversa mexeu comigo. Eu ainda amava Ivetinha e sabia que a verdade a fez sofrer, mas eu precisava que ela entendesse que viveu cercada de mentiras todos esses anos. Só assim, depois de destruir tudo, ela poderia voltar para mim, renovada e inteira. O mais estranho foi que, no caminho até o aparelho onde eu e a Corisco vigiávamos secretamente a casa de Machadinho e Ivetinha, minha culpa foi mudando, dando margen a outros sentimentos.

O rosto de Ivetinha ao olhar para trás quando saía do café irritada comigo era diferente, existia ali algo que eu não percebera antes. O brilho em seu olhar foi traidor e entregou o que tentou conter: ela não devia estar apaixonada por mim havia tempo. Ivetinha não quis desabafar essa verdade, e me cortou. Foi por isso que saiu assim dali, abruptamente.

Ora, Machadinho esnobava e enganava a esposa, o objeto de meu amor, durante anos. Pior que isso, ele havia entrado em sua cabeça de tal forma, que ela agora me odiava por ter lhe dito a verdade. Ivetinha, além de mentir para mim negando haver outros homens em sua vida, não havia proposto aquele encontro para nos reconciliarmos. Só tinha o interesse muito particular de saber se eu estava comendo a sua mãe - e só de achar que ela cogitasse isso, me inquietava mais.

Raiva, esse é o nome do sentimento que substituíra a culpa dentro de mim durante aquele percurso em que eu fiquei perambulando durante mais de uma hora, sem ter coragem de encontrar ninguém. Quando por fim cheguei no aparelho, eu estava como um vulcão, instável, cheio de ódio incandescente transbordando, prestes a explodir. Eu me olhei no espelho da sala, minha cabeça estava um redemoinho e vi meus olhos arregalados e vermelhos, injetados, enquanto meu coração disparava acelerado de tanta inconformidade. Eu precisava desafogar aquilo, extravasar, ou terminaria enlouquecendo de vez.

Quando entrei no quarto, meus impulsos encontraram forma e objeto. A Corisco estava sentada no posto de vigia, mas olhando diretamente para mim, com um cigarro queimando entre os dedos e um sorriso malicioso desenhado nos lábios que deixava aparecer seu lado mais animal, com os dentes brancos à mostra, nua em pêlo.

Essa garota me tentava sempre que podia. Aquilo mal-resolvido entre nós estava ali, presente. Bastava um descuido e eu voltava à sua cabeça, como uma idéia perigosa que pode matar, mas da qual a gente não é capaz de se livrar. Ela não tinha como saber, mas vê-la assim, me esperando para uma nova ronda de provocações logo depois do meu encontro falido com Ivetinha, na situação limítrofe em que eu me encontrava, estava longe de ser uma boa idéia.

– Corisco, agora não. Eu tô mexido, então é melhor a gente nem começar. Posso perder a razão.

– Hum… perder a razão? Sério mesmo, Seu Jorge? Mas e se for exatamente isso o que eu quero? Deixar você doidinho, babando por mim?

– Garota, é melhor me escutar. Eu tô meio puto com a vida. Posso terminar descarregando em você, e não vai ser legal, entende? Eu gosto de você.

– Ai, que tesudo, imaginar você descarregando tudo em mim. Qualé, companheiro, acha que eu não aguento?

– Ninguém aguentaria. Se eu soltar o que está preso dentro de mim…

– Seu Jorge, deixa de titubear e vem aqui soltar de uma vez esse bicho. Chega de temer, chorar, sofrer.

– Sério? Você quer mesmo isso comigo?

– Vamos sorrir e se dar, se perder e se achar, e tudo aquilo que é viver. Porque a vida, para nós, pode acabar amanhã mesmo – ela falou com a voz mais doce que já tinha ouvido sair de sua boca. Essa Corisco, sedutora, eu não conhecia. Vendo que eu fora pego de surpresa, ela continuou. – Seu Jorge, eu quero mais é me abrir, é que essa vida entre assim …

– Como se fosse o sol, desvirginando a madrugada? – Vendo que Corisco tinha dificuldade de terminar a frase, me arrisquei a ser tão doce quanto ela.

– Assim mesmo… quero sentir a dor dessa manhã.

– Sem culpas nem arrependimentos? Promete?

– Sem nada, só tesão, puro e duro, como tem que ser entre nós. Eu prometo.

Talvez seja difícil de entender, assim como é difícil para mim explicar, mas aquela conversa com a Corisco meio que me acalmou. Ela era o que de mais familiar eu tinha, há meses, desde que nos conhecemos. Estivemos ao borde de nos comer várias vezes, mas nunca o consumamos. Até mesmo as provocações entre nós soavam como um carinho. É verdade que eu estava alterado, meio fora de mim, mas ao mesmo tempo eu confiava nela plenamente, afinal, a garota sabia se defender até melhor que eu. Estar ali com ela, naquele momento, parecia ser o que de mais seguro havia em minha vida.

Quando me aproximei e a segurei pelo pescoço, fazendo com que se levantasse e ficasse diante de mim, podendo sentir sua respiração em meu rosto, foi como se um alívio soprasse em minha cara, varrendo a raiva do meu semblante e os todos os anos de espera e frustração desde que perdi Ivetinha. Quem diria?

Eu a levei até a cama e a fiz deitar, as pernas entreabertas e encolhidas no ar comigo ao centro, sempre segura pelo pescoço, sem afrouxar nem apertar demais, na medida certa. Não perdemos tempo em preliminares, nós já havíamos tido muitas, incontáveis e infinitas preliminares. Apenas abri a calça e deixei saltar o pau pra fora, já duro, desejando-a, querendo fazer dela minha conquista.

Quando a penetrei, o pau foi entrando devagar, meu rosto estava a centímetros do seu e nos olhávamos nos olhos, sem exitar nem piscar, os sorrisos se viam em nossas bocas e aquele contato entre nossas carnes marcava um novo capítulo e uma nova descoberta entre nós: era bom fazermos sexo assim, calmo, sem desespero, só um homem comendo uma mulher, uma buceta aconchegando um cacete dentro de si, úmida e pronta para se contrair ao redor dele, como se o convidasse, dizendo: “vem, me possua, faça de mim sua propriedade por este tempo em que estiver dentro de mim, que eu o receberei com gosto e o farei esquecer de tudo mais o que existe.”

Corisco, mesmo sendo fodida segura pelo pescoço, se dedicou a retirar meu paletó e minha camisa para passar as mãos de dedos pequenos pelo meu peito nú, enquanto mordia o lábio inferior e começava a se contorcer embaixo de mim, gemendo baixinho e me deixando entrar por inteiro. Foi só eu bater no fundo, sentir que a possuía inteira com a rola, que uma explosão surgiu entre nós, provocando aquele gozo contido que ansiamos por tanto tempo, com minhas mãos apertando sua garganta e suas unhas cravando-se nos meus braços.

Nós bem podíamos ter gritado, seria provável que chamássemos a atenção de toda a vizinhança, mas o fizemos em silêncio, como se não quiséssemos dividir com ninguém mais aquele segredo, a primeira vez que gozamos, um imerso no outro. Mesmo tendo gozado, permanecemos ainda um bom tempo naquela posição, comigo sobre ela e nos olhando diretamente, como se não quiséssemos que tudo acabasse ali.

Sem dizer nada, quando me retirei de dentro dela e me deitei a seu lado, Corisco veio passando suas mãos sobre mim, correndo pelo tórax, baixando pelo meu ventre, até segurar o pau que ainda estava meio teso, se negando a baixar. A ruivinha começou uma punheta, como se quisesse testar seu poder de me fazer subir novamente, mas eu havia acabado de gozar e aquilo não seria fácil. Mas Corisco era determinada, e disso eu já sabia.

Ela se encolheu sobre mim, sua boca veio até o membro que deveria ceder ante seu desejo e começou a chupá-lo. E chupou, mas chupou com vontade, sugando e lambendo, até me deixar outra vez pronto. Quando virou-se para mim, eu via o orgulho de haver conseguido em seu sorriso e retribui a atenção, beijando-a prolongamente na boca enquanto a envolvia num abraço cuidadoso. Ao despegarmos nossos lábios, ainda sussurrando como se não quisesse ser escutada, ela foi direta como de costume.

– Seu Jorge, isso foi… poderoso. Mas eu quero tudo. O pacote completo. Quero que esse encontro fique marcado para sempre entre nós.

– Corisco… Tudo, assim, tipo… tudo? Mas você sempre disse que não…

– Eu sei, mas agora que já tive uma prova, eu mudei de ideia. Eu quero, e você está aí, todo duro, prontinho para o abate.

– Só para estar seguro, garota. Você está se referindo a… ao que eu estou pensando?

– Pau no cú, Seu Jorge. Eu vou deixar você meter o pau no meu cú, ao estilo anarquista. Só faz com cuidado, tá legal? Eu não quebro, mas queria uma lembrança boa disso, de você. Pra quando a gente se separar.

Ao dizer estas últimas palavras, sua voz soava quase tímida, como se a envergonhasse admitir que queria lembrar-se de mim um dia, mesmo que para isso ela precisasse entregar o cú para aquele pau grande e grosso que eu tinha. E sim, aquilo era capaz de criar um laço do qual nunca nos esqueceríamos, ela estava certa e eu sabia disso, tanto que jamais me esqueci da primeira vez que comi a bunda de Tereza sobre uma caminha mambembe lá no alojamento cinco, ou de quando meti no cú de Mayara, escondidos num beco escuro, com ela de pé apoiada numa parede cinza.

Aliás, cinza é uma cor estranha, não é? É como uma ausência, pior que o negro, uma não-cor: cinza, a cor do nada absoluto. Essa era a cor que dominava os olhos de Margot, numa cela do DOI-CODI, após haver sido prolongadamente abusada por dois gringos de paus enormes, sabendo que cumpriam ordens de seu proprio genro e amante, o Machadinho. Mesmo quando a meteram num carro oficial e a largaram nua numa periferia distante, tudo ao seu redor era cinza.

Se eu e Corisco estivéssemos vigiando a casa de Ivetinha ao invés de estar fodendo, provavelmente a teríamos visto chegar ali, sem sapatos, enrolada num cobertor velho, perdida e atônita. Ao abrir a porta para recebê-la, sua filha imediatamente percebeu que algo se passava. A mãe, sempre tão altiva e equilibrada, estava destruída, com um olhar morto nos olhos cor de cinza, como brasas que se apagaram.

Com sua mãe muda, aconchegada no sofá após um banho quente e com uma xícara de chá adiante, Ivetinha arriscou entrar no assunto. O olhar de Margot a fazia lembrar-se de sua lua de mel, quando olhou-se no espelho após ser possuída pelo marido. Sim, aquele olhar era de perdição, de humilhação, de tormenta passiva. Ela precisava saber o que acontecera, muito embora tivesse uma vaga idéia, depois da conversa que teve comigo mais cedo durante o café: Machadinho deveria estar envolvido naquilo.

– Mãe, não precisa contar tudo. Só me diz uma coisa, só uma coisa. Foi o Machadinho?

– Filha, eu… eu quero contar tudo, você precisa saber… saber de tudo.

– Eu vou largar aquele filha da puta!

– Não, filha, você não pode, sua vida vai acabar se você fizer isso. Mas você precisa saber. Tudo começou há muito tempo atrás…

Sem interrupção, Margot contou o que vinha acontecendo, desde o dia em que eu apareci no Copa com uma faca e as suspeitas que isso levantou sobre ela, passando pela tarde no mirante quando não resistiu e se entregou ao então tenente Machadinho e pelas inúmeras vezes que ela teve que se submeter a ele ainda que não quisesse, contando do ciúme irracional que Machadinho tinha ao pensar que ela mantinha um caso com o rapaz negro do Copa, chegando até aquele dia, quando um carro oficial parou em sua porta, colocou um saco em sua cabeça e ela só entendeu o que estava acontecendo quando despertou nua numa cela do DOI-CODI.

– Mas mãe, você foi levada para lá vendada, como pode ter certeza?

– Filha, eu conheço bem as celas daquele lugar, já fui com seu marido lá, mais de uma vez. Mas sempre fomos só eu e ele, quer dizer, era parte do nosso acordo para que ele deixasse você em paz. Jamais imaginei que um dia me levariam como uma suspeita!

– Ainda assim, o Machadinho podia não estar enterado do que estava acontecendo, de que você estava ali, nas mãos dos gringos.

– Ivete, ele sabia muito bem. Ficou lá de pé, escondido atrás de uma máscara, vendo como me batiam e abusavam do meu corpo! Ele não disse uma palavra, ficou só olhando e balançando a cabeça.

– Mas, se ele estava mascarado, você pode ter se enganado, não é?

– Não, infelizmente eu tenho certeza de que era ele. Vi quando um dos gringos chamou ele de “capitão”, pedindo autorização para para abusarem de mim. E ele assentiu, permitiu aquilo, virou as costas e saiu.

– Mãe, o Machadinho pode ser muitas coisas. Sei bem do que ele é capaz de fazer quando agarra uma mulher, eu vivo isso há anos. Mas daí a permitir que a torturem… É difícil de acreditar, entende? Eu durmo com ele todas as noites!

– Merda, Ivetinha, eu estou lhe dizendo! Eu fui estuprada, eles meteram aqueles paus em mim enquanto me batiam, enfiaram até na minha bunda, os dois ao mesmo tempo! Sabe o que é isso? Eu nunca tinha tomado no cú, e agora… Eu me sinto suja! Suja!

Ivetinha não sabia o que pensar. Muito embora eu já houvesse dito que sua mãe e seu marido mantinham uma relação, aquilo era bem pior do que era capaz de imaginar. Sua mãe tivera um momento de fraqueza há anos atrás e, desde então, vinha sendo chantageada, abusada, dominada, e agora isso, torturada. Tudo por conta da confusão que eu criei no Copa há tempos e de Machadinho e sua loucura por Margot. Era muita sujeira para deglutir, mas de uma coisa ela tinha certeza: alguém pagaria por isso.

E o pior é que sua mãe tinha razão, ela não podia separar-se de Machadinho. Ele era proeminente, poderoso, filho de coronel e capitão do DOI-CODI. Isso acabaria com sua própria vida. A única maneira a seu alcance de evitar que aquilo se repetisse, ou ficasse ainda pior, era acionar a outra ponta daquele triângulo, ou seja, eu. Machadinho queria acabar comigo, e ela sabia muito bem onde eu me encontrava: na casa em frente.

Alheios a tudo o que se passava eu e Corisco nem podíamos imaginar toda a trama que se armava, mesmo porque estávamos entretidos um com o outro. Eu a pusera de quatro na cama, meu pau estava roçando entre suas nádegas brancas, deslizando pelo reguinho e brincando na entrada de sua bucetinha, recolhendo o mel que ela escorria para umedecer seu cuzinho, enquanto minhas mãos deslizavam com a ponta dos dedos suavemente por suas costas e a ruivinha se arrepiava toda, arqueando-se e empinando ainda mais a bunda musculosa de glúteos firmes como rochas.

Minha mão grande espalmada sobre seu sexo parecia ainda maior, Corisco era pequena e tesuda, deliciosamente tesuda. Deixei que meus dedos corressem livremente por ali, entrando e saindo, roçando e apertando, com o dedão pressionando seu cú. A garota entrou em êxtase, rebolando devagar ao ritmo de minha mão, até que eu coloquei a ponta do dedo lá dentro e comecei a girar, explorando aquilo que eu tomaria para mim.

Foi só colocar a cabeça e empurrar que já senti aquele orgasmo dentro dela, nascendo à medida que meu pau avançava, rompendo, rasgando, tomando seu corpo e, então, com ela chorando, sofrendo, gostando, adorando, gritando feito louca, alucinada e criança, sentindo o seu amor se derramando em abundância, não conseguiu mais segurar e gozou enfiando o rosto no travesseiro e deixando que um tremor vigoroso tomasse conta dela.

Corisco estava entregue, sua cabeleira vermelha esparramada pela cama emoldurava o perfil de seu rosto, com uma expressão perdida e distante, deixando-se levar ao sabor de meus movimentos em seu cú, batendo, entrando, avançando, preenchendo cada espaço de seu traseiro, ora devagar e ora veloz, saboreando poder comê-la assim, com a bundinha pra cima já toda aberta, gemendo e gritando ao passo que os orgasmos se sucediam uma e outra vez ao longo do meu pau.

Quando trouxe seu tronco puxando-o para junto do meu, tive que sustentá-la de tão desarmada que estava. Nossas peles se encostaram e eu a abraçava por trás, enfiando até o fundo, sentindo sua bunda alisando minha pélvis enquanto ela se contorcia para beijar-me na boca, até me fazer gozar em múltiplos espasmos. Caímos exaustos comigo sobre ela, sem sair de lá de dentro, até que conseguíssemos ao menos recuperar a respiração.

Naquela noite, acabaram-se as disputas e as provocações entre nós. Ali, nus sobre a cama, rolando e nos absorvendo, éramos só nós dois e o mundo não existia. Nem milicos, nem revolução, nada de política ou bravura, só entrega, sexo puro e duro, como havíamos combinado. Fora uma longa velada e, ao amanhecer, estávamos esgotados.

E por coincidência, do outro lado da rua, a noite também passara sem sono. Horas antes, Machadinho voltou do trabalho e encontrou Ivetinha e Margot sentadas no sofá, esperando-o. O clima era tenso, ele estava tão cansado que daria qualquer coisa para não enfrentar essa situação hoje, com todos os seus segredos vindo à tona abruptamente.

– Machadinho! Enfim, você chegou! Você tem muito a explicar! – arrancou Ivetinha logo de cara, levantando-se e apontando o dedo no rosto do marido.

– Eu? Eu não devo explicações a vocês, suas putas! – ele já foi retrucando, ao segurar a mão de Ivetinha e abaixar seu dedo desafiador.

– Você estava lá! Você viu o que se passava escondido atrás de uma máscara, seu covarde! Sabia o que os gringos iam fazer com a minha mãe e nem se importou! Como pôde? Como pôde deixar isso acontecer?

– Ivete, Margot, eu estava lá sim. Usei máscara porque é o procedimento estabelecido para os interrogatórios. E se os gringos te pegaram, Margot, azar o seu! Quem mandou você se meter com esses comunistas subversivos?

– Eu? Eu não me meti com ninguém, nem conheço nenhum comunista! É mais, eu nem sei direito o que é comunismo!

– Ah, não? E aquele negão? O filha da puta com quem você se esbalda?

– Merda, Machadinho! Do que você está falando? O Jôpa não é comunista e minha mãe nunca teve nada com ele! Ela sequer sabe quem ele é!

– Peraí… Como assim, filha? Você conhece aquele rapaz, o negro do Copa?

– Ah, você não sabia, Margot? Sua filha andou de casinho com ele antes do nosso casamento! E Ivete, fique sabendo que ele é subversivo sim! Tenho testemunhas de que ele é perigoso, um integrante de uma célula anarquista numa faculdade de história, o Grupo Guajira Guantanamera!

– Guajira Guantanamera? Mas que história mais sem sentido é essa? Essa não é uma canção cubana famosa? Acaso eles não são comunistas, em vez de anarquistas?

– E você espera que alguém de esquerda faça sentido? Não importa a qual corrente pertençam, eles são todos uns manipulados por Moscou!

Aquela discussão rendeu boa parte da noite e entrou pela madrugada, até que todos estivessem na mesma página. Agora estava tudo claro, e a verdade doía em todos. Eu era um subversivo considerado perigoso. Fui namorado de Ivete, mas nunca tive um caso com Margot. Quem se meteu com ela foi Machadinho, que vinha no meu encalço há tempos. E Margot fora recolhida ao DOI-CODI e abusada sem que ele pudesse fazer nada, só porque desconfiavam de suas ligações comigo. Essa era a versão controlada a que chegaram.

– Machadinho, depois de tudo isso, eu não consigo viver mais contigo. Não consigo nem olhar pra você, seu crápula!

– Ivete, você nunca vai se separar de mim, entendeu? Nunca! A minha carreira militar depende disso. Nunca chegarei a general se você pedir o desquite!

– Sua carreira? Eu tô cagando pra sua carreira, Machadinho!

– Eu também não me importo, mas o meu pai, que agora é general lá em Brasília, se importa. E muito… seu pai vai perder o emprego no banco, sua mãe vai morrer num porão sendo estuprada diariamente e você… Você vai ter que se virar na rua, porque nunca vai arranjar emprego e tampouco verá um centavo da minha família!

– Ivetinha, calma, minha filha. Seu marido e eu erramos, eu sei. Mas tudo o que eu fiz foi por amor à você, e tudo o que ele fez foi por amor a mim…

– Mãe, por favor, para de falar que vocês… não fala mais nada, isso me enoja!

– Mas filha, tenta entender, nós ainda somos uma família, e temos que achar um meio de superar nossas diferenças e limpar toda a sujeira que caiu em cima de nós! É Deus acima de tudo e a família acima de todos! – Margot agora falava com autoridade maternal, parecendo haver voltado de uma sepultura para recobrar seu equilíbrio e a altivez ensaiada durante tantos anos.

– Mãe, nós vamos resolver esse assunto, mas eu nunca mais quero ouvir sobre vocês dois, entendeu? Só de imaginar você… você com ele… Me dá vontade de vomitar! – Ivetinha gritou, abalada, ao sair da sala chorando. Ela sabia o que devia fazer, era difícil e arriscado, mas necessário.

Enquanto isso, do outro lado da rua, eu e Corisco fomos acordados depois de dormirmos a manhã inteira. O telefone tocava no andar de baixo. Isso nos deixava apreensivos, ninguém devia saber que estávamos ali, provavelmente era engano, mas eu fui ver só para estar seguro. Viver na clandestinidade tem isso, você tem medo de tudo e necessita averiguar as coisas bem, sempre. Meio dormindo, mas com o coração aos pulos, atendi.

– Seu Jorge? Salve, salve – disse uma voz feminina.

– Sim ele mesmo. Salvado está. – eu respondi ao código combinado corretamente. Agora, eu sabia que era alguém do movimento do outro lado e a dona da voz sabia que era realmente eu quem atendia.

– Lemos os relatórios de observação que vocês fizeram, bom trabalho.

– Obrigado. E agora, o que fazemos?

– Determinamos que a melhor hora para entrar em ação é às duas da tarde de sábado. Não tem ninguém na rua nessa hora e é exatamente quando o alvo costuma sair para passar no seu escritório. Sinal verde, vocês devem eliminar o Capitão Machadinho.

– Mas peraí… Sábado é hoje! Você está querendo dizer que temos uma hora para…

– Sim, exatamente. Vocês tem uma hora, não avisamos antes para não vazar.

– Mas… mas assim, sem mais nem menos? E depois? Como saímos dessa?

– Não se preocupe. temos tudo sob controle. Um carro vai passar aí no exato momento para a fuga. Por isso é importante que não se atrasem. Em uma hora, sua missão termina. Boa sorte!

Eu fiquei atônito. Mal havia dormido e agora eu tinha uma missão pela frente! Acordei Corisco todo nervoso, ela também custou a acreditar naquilo mas, assim que entendeu a gravidade da situação, pulou da cama e começou a arrumar as coisas. Machadinho ia morrer em uma hora, e não podíamos nos atrasar.

A poucos metros dali, Ivetinha recobrou o equilíbrio, voltou à sala e encontrou a mãe e o marido mudos, cada um emburrado no seu canto. Nem Margot, nem Machadinho percebiam que Ivetinha, agora, tinha conseguido levá-los ao ponto onde queria.

Bastava que ela me entregasse, e tudo aquilo terminaria. Era conveniente que a culpa fosse minha, afinal, eram todos da mesma família - e eu era um monstro comunista, ou talvez anarquista, porque isso seguia sendo um enigma para eles. Eu não passava de um mero efeito colateral na solução daquilo.

Contudo, por envolver temas muito mais complicados e pessoais para eles que a luta contra o comunismo ou os movimentos de esquerda, Ivetinha convenceu o marido de que eu não podia ser tratado por Machadinho como assunto do DOI-CODI, pois a última coisa que desejavam era que eu fosse interrogado pelos gringos. Eu havia sido namorado de Ivetinha e sabia do caso entre Margot e Machadinho, ou seja, eu devia simplesmente ser eliminado. Isso era o mais conveniente.

Agora que tudo estava entrando nos eixos, Ivetinha finalmente podia seguir em frente e revelar a bomba que vinha guardando.

– Estamos acertados, então. O tal Jôpa vai desaparecer e nós nunca mais voltamos a esse assunto. Agora, só falta eu colocar as mãos nele. Isso não será fácil, sem usar os recursos do Departamento. O sujeito é escorregadio - Machadinho falava como se quisesse se convencer, mas antevendo a dificuldade do plano.

– Machadinho, vai ser mais fácil do que parece. Eu sei onde o Jôpa está escondido.

– Ivete…. você… sabe? Mas como assim você sabe, filha? A polícia inteira está procurando esse terrorista! Ivete, por acaso você…

– Calma mãe, não complica mais as coisas. Eu sei por puro acaso. Ontem fui dar boas vindas aos vizinhos novos e… adivinhem quem se mudou para casa em frente?

– Não… Mais isso é muita coincidência! Filha, por acaso esse negro está lhe perseguindo? – respondeu Margot, custando a acreditar.

– Não Margot, ele não está atrás da Ivete. Ele está atrás de mim, o capitão do DOI-CODI! Ivetinha, você acaba de desbaratar uma célula revolucionária bem em frente à nossa casa!

– Você? Eles querem matar você? Nossa, eu não tinha pensado nisso… – Ivetinha respondeu quase sem conseguir esconder seu nervosismo.

– Isso é ótimo! Providencial! Eu vou avisar a imprensa agora mesmo. Quero que filmem quando eu for lá e pegar ele desprevenido. Vou matar um comunista ao vivo. Eu vou virar herói da pátria! Imaginem só as manchetes: “Capitão do DOI-CODI elimina célula terrorista que queria matá-lo!” – Meu pai se cagar nas calças de orgulho!

Aquilo virou a notícia do dia. Se ao menos houvéssemos ligado a rádio, eu e Corisco saberíamos, mas não o fizemos.

No sábado então às duas horas, todo o povo sem demora foi lá só pra assistir. Mal saí de casa, um homem que atirava pelas costas me acertou e começou a sorrir. Sentindo o sangue na garganta eu olhei pro povo a aplaudir, e olhei pro sorveteiro, e pras câmeras, e pra gente da TV que filmava tudo ali.

E me lembrei de quando era um playboy, e de tudo que vivera até ali, e decidi entrar de vez naquela dança: se a Via Crucis virou circo, eu estava no picadeiro. E nisso, o céu cegou meus olhos e então a Corisco eu reconheci, ela trazia a Winchester 22, a arma que o movimento me deu.

– Machadinho! – Eu me esforcei pra falar, já quase apagando. – Eu sou homem, coisa que você não é, e não atiro pelas costas não! Olha pra cá, filha da puta sem-vergonha, dá uma olhada no meu sangue e vem sentir o seu perdão!

Com a Winchester 22, dei cinco tiros no milico traidor. Corisco me socorreu depois e quase morreu junto comigo, seu protetor. O povo da cidade declarava que eu era um herói porque sabia morrer, e a alta burguesia da cidade não acreditou na história que eles viram na TV.

Nem bem o tiroteio acabou, a multidão corria por todos os lados e sirenes soavam ao redor, enquanto Ivetinha quase chorava com as pernas tremendo de tanta tensão e Margot estava boquiaberta com o resultado terrível do plano que haviam traçado. O que ninguém nunca soube foi que, em meio à confusão, Corrisco me arrastou pro carro da fuga e me tirou dali. Passei um mês na geladeira, entre a vida e a morte. Um veterinário me operou e Maravilha, o Velho e a Corisco cuidaram de mim.

Fui levado pela estrada de célula em célula do movimento até o Araguaia, subimos pela Amazônia e cruzamos até a Venezuela, onde me enfiaram num voo para Cuba. De lá, outro voo, para Genebra. Depois, mais outras tantas horas de carro, e algumas de barco, até parar na Inglaterra.

Ao chegar em Londres, para minha surpresa, fui muito bem recebido por todos os companheiros que fugiram da ditadura, todos renegados e jurados de morte, perseguidos. E minha maior surpresa foi quando me apresentaram à líder do grupo, uma loira alta e esguia de óculos negros e lentes grossas: Tereza!

Eu vivi calmamente escondido no subúrbio durante anos, com uma identidade falsa, trabalhando de mecânico. Estava jurado de morte e tinha que me cuidar, pois tinha assassinado o Capitão Comandante do DOI-CODI. Ninguém fora do movimento podia desconfiar que eu ainda estava vivo.

Eu via Tereza uma vez por mês, e esse era o dia mais alegre. Estar com ela de novo, sentir seu corpo junto ao meu, ouvir seus gemidos até gozarmos e depois poder conversar em português, isso era o que de mais próximo restava de minha vida anterior.

Um dia, Tereza me contou algo que eu não sabia, devido ao maldito compartimento de informação. Naquela tarde do tiroteio, eu fui salvo por pouco. Nossa principal informante, uma pessoa muito ligada aos milicos, deu um telefonema pouco antes de Machadinho sair para invadir nosso aparelho. Foi ela quem advertiu nossa liderança sobre o que estava acontecendo, e por isso me avisaram tão em cima da hora para entrar em ação.

Era Ivetinha. Repassei várias vezes nossa conversa daquela tarde no café. Ela soube que eu pertencia ao movimento assim que abri a porta do aparelho, mas não disse nada, como uma boa espiã. Todo o plano do movimento para eliminar Machadinho veio dela, já que ele nunca aceitaria o desquite - e eu, por puro acaso do destino, fui a arma designada para isso. Contudo, o motivo de apressar nossa ação foi me proteger, me alertar que havíamos sido descobertos. Isso ela não fez pelo movimento, mas simplesmente porque ainda me amava.

Passei ainda vários anos refletindo sobre tudo o que ocorreu. Aquele amor, o amor perdido da juventude, ainda doía no meu peito. Uma dor calada pela impossibilidade do tempo e da distância. Era duro saber que Ivetinha agora estava livre, mas que eu não podia sequer me comunicar com ela. Até que um dia, depois de quinze anos no exterior, a ditadura caiu e a anistia geral foi decretada. Eu não tinha mais ninguém, nem nada no país, mas mesmo assim queria voltar.

Naquele momento, eu estava como sempre estive: pronto para o que der e vier.

Sentei e escrevi uma carta à Ivetinha, aquela moreninha por quem me apaixonei há trinta e cinco anos atrás. As primeiras linhas foram as mais difíceis, por isso usei uma canção da Simone bem conhecida na época: “Pode ir armando o coreto, e preparando aquele feijão preto, eu tô voltando…”

FIM

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Esta parte do conto foi escrita para o “desafio pirata 2: Música” e foi inspirada pelo sucesso "Explode Coração", composto por Gonzaguinha e gravado por Maria BetâniaContudo, é necessário ressaltar que toda a cena que descreve o tiroteio entre Machadinho e Jôpa é uma homenagem à banda Legião Urbana, e foi retirada de um trecho da música “Faroeste Caboclo”Para o desafio, eu planejei uma história maior e queria usar algumas músicas, de forma que terminei fazendo esta série de cinco partes chamada “Fora da Ordem”, título de uma música fantástica de Caetano VelosoOs capítulos seguem nessa ordem:

1 - “Estúpido Cupido” de Celly Campelo "Quero que Vá Tudo pro Inferno", de Roberto Carlos e Erasmo Carlos "Travessia", de Fernando Brant, gravada por Milton Nascimento "Sangue Latino", da banda Secos e Molhados” “Explode Coração”, de Gonzaguinha, gravado por Maria BetâniaAh, sim, em todas as partes da série existem referências sobre muitas outras músicas, mas isso eu deixo para vocês descobrirem. Espero que se divirtam ao ler, tanto quanto eu me divirto ao escrever.

E aquele abraço!

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Comentários

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Fiquei chocada com o que aconteceu com a Margot, eu sei que é o que acontecia e muito muito obrigada de não ter feito a cena descrita como alguns fariam, mas me abalou muito.

Corisco e Seu Jorge um casal muito sensual e sexual até o fim…

Aliás…

( sim, aquilo era capaz de criar um laço do qual nunca nos esqueceríamos)

Fácil dizer isso garantindo que este cu nunca mais será o mesmo.

🤭🤭🤤🤤😵‍💫😵‍💫😵

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Defumei o corredor

Perfumei o elevador

Pra tirar de vez o mal olhado

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Nossa o sexo com a Corisco me tirou o fôlego, Ivetinha comunista, maravilhosa, poderosa, amei de mais. Chupa machado.

Vamos lá... Senti muita pena da Margot tadinha.

Amei Faoreste Caboclo... Bem feito para o milico traidor subiu.

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