Capítulo 2: Sob o Olhar do Predador

Um conto erótico de Paula Crossdresser
Categoria: Trans
Contém 2063 palavras
Data: 28/02/2026 16:31:32

O ar no estúdio fotográfico da Lumière era pesado, saturado com o cheiro de ozônio das luzes de flash e o laquê barato que flutuava no ambiente. Fernanda estava sentada diante do espelho do camarim, observando sua própria imagem enquanto uma maquiadora aplicava uma camada de iluminador em suas clavículas. A pele de Fernanda parecia emitir uma luz própria, um brilho acetinado que destacava a musculatura fina e elegante de seus ombros. Ela estava em silêncio, mas sua mente era um turbilhão. As palavras de Ricardo ainda ecoavam, como um veneno que ela se recusava a engolir, mas que já estava circulando em seu sistema.

— Fernanda, o Ricardo pediu para você usar o conjunto "Lira" para o catálogo de moda praia — disse a assistente de produção, entrando no camarim com um cabide.

O conjunto "Lira" era pouco mais do que tiras de tecido de seda branca. Era uma peça desenhada para ser reveladora ao extremo, quase transparente quando atingida pela luz forte do estúdio. Fernanda sentiu uma pontada de náusea. Ela sabia que a escolha não era comercial; era um teste de resistência, uma tentativa de Ricardo de forçá-la a uma exposição que ela ainda não havia autorizado.

Ao se vestir, a sensação do tecido frio contra seu pênis trouxe uma consciência aguda de sua própria anatomia. Ela se olhou no espelho. A peça mal conseguia conter a força de suas coxas, e o corte baixo na frente exigia uma precisão técnica para esconder o que Ricardo tanto queria ver. Ela respirou fundo, sentindo o abdômen trincar. Seus cabelos pretos foram deixados soltos, propositalmente úmidos para dar um aspecto de "saída de banho", caindo como fios de ônix sobre seus seios.

— Pronta? — perguntou o fotógrafo, um homem chamado Marco, conhecido por seu olhar clínico e pouco empático.

Fernanda caminhou até o fundo infinito branco. Assim que ela pisou sob os refletores, sentiu-se como um animal sob um microscópio. Ricardo não estava na sala, mas ela sabia que ele estava assistindo através do monitor na sala ao lado. A tensão era física. Cada "click" da câmera parecia um disparo.

— Mais quadril, Fernanda! — gritou Marco. — Mostre a curva. Não tenha medo de revelar o que o tecido está sugerindo. Os clientes querem essa... "ambiguidade".

A palavra a atingiu como um tapa. Ambiguidade. Para eles, ela era um quebra-cabeça, não uma pessoa. Fernanda mudou de pose, arqueando as costas e sentindo a tensão em seus glúteos e panturrilhas. Ela era uma estátua de carne e osso, poderosa e vibrante. O tom erótico da sessão começou a mudar de uma sensualidade dirigida para uma agressividade contida. Ela não estava mais posando para eles; ela estava desafiando a lente.

No meio da sessão, a porta do estúdio se abriu. Ricardo entrou, segurando um copo de uísque. Ele se encostou na parede, observando-a em silêncio. A presença dele alterou a pressão atmosférica da sala. O fotógrafo pareceu ficar mais ansioso, tentando capturar ângulos cada vez mais baixos, mais invasivos.

— Pare um pouco, Marco — interrompeu Ricardo, sua voz cortando o barulho do obturador. — Fernanda, esse tecido está muito rígido. Ele precisa se moldar melhor à sua... estrutura.

Ele caminhou até ela. O calor que emanava do corpo de Ricardo era opressivo. Ele estendeu a mão e tocou a alça do biquíni no ombro dela, deslizando o dedo pela pele nua, um toque que durou segundos a mais do que o necessário para um ajuste técnico. O toque dele era possessivo, carregado de uma luxúria que ele mal tentava esconder.

— Você está tensa, querida. Assim os clientes vão perceber que você está escondendo algo. E nós não queremos segredos na Lumière, não é? — Ele sussurrou, para que apenas ela ouvisse. — Se você facilitar as coisas para mim agora, eu posso garantir que esse catálogo será o seu passaporte para Londres.

Fernanda sentiu o asco subir pela garganta. Ela olhou nos olhos dele e viu apenas o vazio de um homem que achava que tudo tinha um preço. Naquele momento, ela percebeu que a roupa que vestia não era uma proteção, mas o campo de batalha dele. Se ela continuasse permitindo que o tecido fosse o limite entre eles, ele continuaria tentando rasgá-lo.

— O que os clientes vão ver é a melhor modelo que você já teve, Ricardo — ela respondeu, afastando-se do toque dele com uma sutileza glacial. — E o que está à mostra.

Ela voltou para a pose, mas algo nela havia mudado. Ela não estava mais apenas fazendo o seu trabalho. Ela estava planejando sua saída.

Após a sessão, Fernanda voltou ao camarim. Suas mãos tremiam levemente enquanto ela tirava o biquíni branco. Ela sentia-se suja, não pelo trabalho, mas pela aura de predação que Ricardo exalava. Ela vestiu sua roupa casual, mas a sensação de confinamento era insuportável. Foi então que ela pegou seu celular.

Com o coração acelerado, ela entrou em seu perfil de influencer. Ela tinha uma foto salva na galeria, tirada na noite anterior em seu quarto gamer. Nela, ela estava de costas, completamente nua, a luz roxa do LED esculpindo cada músculo de suas costas e a curva poderosa de seus glúteos. Era uma imagem de pura arte e poder, sem o verniz comercial da agência.

Ela digitou a legenda com determinação: "A pele é a única roupa que nunca sai de moda. O resto é apenas uma tentativa da sociedade de nos rotular. Hoje eu escolho ser apenas eu."

Ela clicou em "Compartilhar".

Em questão de segundos, as notificações começaram a explodir. O número de seguidores, estagnado em 5 mil, começou a subir. A imagem daquela nudez segura, sem filtros e carregada de uma identidade transsexual orgulhosa, estava causando o impacto que ela desejava. Era erótico, sim, mas era, acima de tudo, um ato de guerra contra as convenções que Ricardo representava.

Ao sair da agência naquele dia, Fernanda sentiu o vento tocar seu rosto. Ela ainda estava vestida, mas em sua mente, ela já estava nua. A tensão na Lumière havia chegado ao ponto de ebulição, e ela sabia que, na próxima vez que entrasse naquela sala de reuniões, não haveria mais espaço para negociações veladas. A liberdade tinha um preço, e ela estava pronta para pagar — ou melhor, para fazer Ricardo pagar.

Ela entrou em seu carro, o motor roncando baixo. O caminho de volta para casa parecia diferente. As ruas pareciam cenários de uma vida que ela não pertencia mais. A cada sinal vermelho, ela olhava para as pessoas nas calçadas, todas embrulhadas em tecidos, escondendo suas verdades, suas peles, seus desejos. Fernanda sentia uma inveja invertida. Ela queria estar lá fora, sem nada, deixando que o sol e os olhares fossem sua única cobertura.

Ao chegar em seu apartamento, ela não acendeu as luzes. Deixou que a penumbra a envolvesse. Tirou os sapatos, o vestido, a lingerie. Ficou ali, parada no centro da sala, sentindo o ar do ventilador de teto percorrer cada centímetro de seu corpo escultural. Ela era livre ali dentro. E logo, ela seria livre em qualquer lugar.

Fernanda jogou o celular sobre o edredom cinza de sua cama e observou a tela brilhar insistentemente. As notificações eram como batidas cardíacas digitais; o número de seguidores subia em uma velocidade que ela nunca experimentara. 5.500, 6.000,A imagem de suas costas nuas, a musculatura estriada pela luz roxa e a curva audaciosa de seus glúteos haviam rompido a barreira do algoritmo. Mas não eram apenas números. Eram comentários.

Muitos eram de apoio, mulheres e homens que viam naquela foto um manifesto de liberdade. Mas, como sempre, havia o lodo comentários carregados de um erotismo agressivo, perguntas invasivas sobre sua genitália e, o que mais a irritava, as mensagens diretas de perfis fakes que destilavam um fetiche doentio. Ela bloqueou três contas seguidas, sentindo uma mistura de náusea e triunfo. Ela estava finalmente sendo vista, mas o preço era a exposição ao que o ser humano tem de mais primitivo.

Enquanto a noite avançava, Fernanda não conseguia pregar o olho. Ela se levantou e caminhou nua pelo apartamento, apreciando o silêncio. No escuro, sem a pressão de ser observada, ela sentia que sua pele era uma membrana vibrante, conectada ao ar, à temperatura, à realidade. Ela foi até a cozinha e tomou um copo de água, observando seu reflexo na porta de vidro do forno. A luz da lua que entrava pela janela da lavanderia prateava suas curvas, destacando o desenho de seu abdômen e a força de suas pernas. Ela era um espécime de perfeição física, e a ideia de esconder aquilo novamente sob um vestido para a agência parecia, a cada minuto, um sacrilégio.

O celular vibrou com uma mensagem no WhatsApp. Era Ricardo.

"Acabei de ver sua postagem, Fernanda. Audacioso. Talvez audacioso demais para a imagem que a Lumière quer projetar. Mas admito... o ângulo estava interessante.

Amanhã, às 9h, na minha sala. Vamos discutir como essa sua 'nova fase' de exibicionismo afeta nossos contratos. Venha preparada para ser transparente comigo."

O uso da palavra "transparente" não foi acidental. Fernanda apertou o aparelho com força. O tom de assédio agora estava despido de qualquer sutileza profissional. Ele estava usando a postagem dela como munição para encurralá-la.

Na manhã seguinte, a rotina de Fernanda na academia foi ainda mais intensa. Ela precisava queimar a ansiedade, transformar a fúria em músculo. Cada agachamento era executado com uma precisão mortal, a respiração pesada ecoando pelos fones de ouvido enquanto ela ignorava os olhares que, agora, pareciam saber da foto. Ela sentia-se marcada, como se a nudez digital tivesse deixado um rastro invisível em sua pele.

Ao chegar na agência, o clima era de velório ou de escândalo iminente. Os outros modelos cochichavam nos cantos. A assistente de Ricardo sequer a cumprimentou, apenas apontou para a porta da sala de reuniões.

Fernanda entrou. Ricardo não estava sozinho. Dois outros diretores da agência estavam lá, homens de meia-idade com olhares que oscilavam entre o julgamento moral e a cobiça descarada. Ricardo estava no centro, com um tablet exibindo a foto dela de costas.

— Fernanda, sente-se — disse ele, sem o sorriso habitual. — Seus colegas e eu estávamos analisando sua conduta nas redes sociais. Você entende que representa uma marca, não é? E essa marca não vende... bom, esse tipo de conteúdo.

— O meu perfil é pessoal, Ricardo. E aquela foto é artística — ela respondeu, mantendo a voz firme, embora sentisse o sangue ferver.

— Artística? — Um dos diretores interveio, soltando uma risada curta. — É um convite, querida. E um convite que levanta muitas perguntas dos nossos patrocinadores mais conservadores. Eles querem saber o que mais você pretende mostrar. Estão curiosos.

Ricardo levantou-se e caminhou até ela, parando atrás de sua cadeira. Ele inclinou-se, o hálito de café e tabaco atingindo o pescoço de Fernanda.

— Eu disse a eles que você é uma mulher de surpresas. Mas que, para mantermos a parceria, as surpresas precisam ser reveladas primeiro para nós. — Ele colocou a mão no ombro dela, o polegar deslizando para perto da base do pescoço. — Se você quer tanto ser livre, por que não começa aqui? Mostre para a diretoria que você não tem nada a esconder. Prove que essa sua "liberdade" não é apenas para ganhar likes, mas que você é capaz de satisfazer a curiosidade de quem realmente investe em você.

O silêncio que se seguiu foi absoluto. Os outros dois homens não protestaram; eles observavam, esperando o desenrolar daquela humilhação orquestrada. O assédio havia atingido seu ápice. Fernanda sentiu a barreira de sua paciência se fragmentar. A humilhação que eles tentavam impor a ela estava prestes a se transformar no maior pesadelo deles.

Ela olhou para Ricardo através do reflexo no vidro da mesa. Viu o sorriso predatório, a certeza de que a tinha sob controle. Naquele momento, Fernanda percebeu que não havia mais volta. O empoderamento não viria de um contrato internacional ou de uma capa de revista. Viria da destruição total daquele jogo de poder.

— Você quer ver, Ricardo? — ela perguntou, sua voz soando estranhamente calma, quase doce. — Você e todos eles?

— É o que estamos discutindo, não é? Transparência total — ele respondeu, apertando o ombro dela.

Fernanda levantou-se lentamente. Ela olhou para cada um daqueles homens, memorizando a mediocridade em seus olhos. Ela sentiu a textura do tecido de seu vestido, a última fronteira entre sua verdade e a hipocrisia deles.

— Então, vamos acabar com o mistério de uma vez por todas.

Siga a Casa dos Contos no Instagram!

Este conto recebeu 0 estrelas.
Incentive Paula Crossdresser a escrever mais dando estrelas.
Cadastre-se gratuitamente ou faça login para prestigiar e incentivar o autor dando estrelas.

Comentários