Conspiração 7.

Um conto erótico de Lukinha
Categoria: Heterossexual
Contém 4808 palavras
Data: 03/02/2026 14:40:41

Ainda no passado:

Quando Mariana saiu da sala, a casa ficou grande demais. Não houve porta batendo. Não houve escândalo. Só o som seco dos passos se afastando e, depois, o silêncio. Um silêncio que não pedia mais explicação nenhuma.

Fiquei alguns minutos sentado, encarando o nada, até entender que a saída de Mariana não tinha encerrado uma briga, tinha encerrado um ciclo.

Me levantei e fui direto ao quarto. Abri o armário e puxei a mala maior, aquela que a gente só usava em viagens longas ou quando o trabalho me tirava de casa por dias. Comecei a separar roupas sem pressa: camisas de trabalho, calças, documentos, notebook, pastas da agência. Tudo o que não dava pra improvisar depois.

Mariana apareceu na porta, curiosa.

— O que você tá fazendo? — Perguntou, sem levantar a voz.

Continuei dobrando uma camisa antes de responder.

— Indo embora.

Ela franziu a testa, como se ainda esperasse um pedido de pausa, um “vamos pensar melhor”.

— Indo… embora? — Repetiu.

Fechei a mala.

— Ficou bem claro pra mim que esse casamento acabou.

Ela deu um passo à frente.

— Você não pode decidir isso sozinho.

Virei-me para ela, finalmente.

— Mas eu não decidi sozinho. Foram as nossas escolhas. As minhas e depois as suas. É apenas o que é.

Mariana cruzou os braços, defensiva.

— Então é isso? Você traiu primeiro e agora faz pose de ofendido?

Respirei fundo. Não para me controlar. Para não desperdiçar palavras.

— Eu sei que traí primeiro. — Disse, cansado. — Não vou negar. Mas a proporção do que você fez… isso foi muito além de qualquer “troco”.

Ela abriu a boca para responder, mas eu continuei.

— Não foi só sobre mim. Foi sobre o Bruno. O tempo todo. Cada justificativa sua, cada discurso… parecia muito mais uma defesa dele do que uma resposta ao que eu te fiz.

— Isso não é verdade — Ela rebateu, mas sem muita convicção.

— Foi o que pareceu pra mim. — Respondi, firme. — Você usou o poliamor como argumento…

Me sentei na cama, pensando se deveria mesmo responder.

— Talvez você até aceite a minha traição… — E decidi ir até o fim. — Mas não aceita nem cogitar que o Bruno tenha sido prejudicado em algum momento.

Ela balançou a cabeça, irritada.

— Você tá distorcendo tudo o que eu disse.

— Talvez. — Admiti. — Mas é assim que eu vi. E é com isso que eu tenho que lidar agora.

Me levantei, peguei a mala e fui até a porta do quarto.

— Se vocês se sentem bem com o que fizeram, ótimo. Vivam com isso. Só não ache que são melhores do que eu.

Ela me encarou, os olhos marejados.

— Você acha mesmo que nós somos iguais?

Parei antes de sair.

— Talvez. — Olhei para ela uma última vez. — Acho que ninguém aqui é melhor do que ninguém. Só erramos… em escalas diferentes. Bem diferentes.

Saí do quarto sem esperar resposta. Não era fuga. Era uma escolha. Eu não senti que estava desmoronando. Senti que estava, finalmente, me movendo.

Dirigi direto para a casa dos meus pais. Era o único lugar que ainda significava abrigo sem perguntas demais.

Meu pai abriu a porta antes mesmo de eu tocar a campainha. Bastou me ver com a mala na mão para entender que não era uma visita comum.

— Aconteceu alguma coisa? — Ele perguntou, já dando espaço para eu entrar.

— Preciso ficar aqui por um tempo. — Respondi apenas.

Ele assentiu, sem insistir.

— O tempo que precisar, filho.

Minha mãe veio logo atrás, me abraçou forte, daquele jeito que mistura acolhimento e preocupação.

— Você parece cansado.

— Eu estou.

Não dei detalhes. Não naquele momento. Eles também não pediram. Às vezes, amor é saber esperar.

Meu pai falou pouco, mas em determinado momento soltou, como quem joga uma boia no mar:

— O casamento passa por tempestades. Sua mãe e eu quase nos perdemos algumas vezes. Não é o fim do mundo… às vezes é só um ajuste doloroso.

Minha mãe, fiel à esperança que sempre carregou, completou:

— Vocês ainda vão se acertar. Eu sinto.

Não respondi. Não por discordar. Mas porque ainda não tinha respostas nem para mim mesmo.

Naquela noite, dormi no quarto onde cresci. Tudo estava igual demais para alguém que já não era mais o mesmo. As prateleiras, o cheiro da madeira antiga, a janela por onde eu costumava olhar o mundo quando achava que ele era simples.

O sono veio quebrado. Fragmentado. Sonhei pouco, acordei muito. Quando amanheceu, eu estava mais cansado do que quando me deitei. Mas decidido.

Fui até a agência. Bruno já sabia, parecia me esperar. Dava para ver no jeito que evitava meu olhar, no silêncio pesado que tomou conta da sala quando entrei. Não havia clima para encenação.

Fechei a porta do escritório, nos isolando de olhares curiosos.

— Não vim brigar. — Falei. — Vim resolver.

Ele respirou fundo, como quem se prepara para algo que já perdeu.

— Ricardo… a gente pode conversar. Nada disso precisa terminar assim.

Balancei a cabeça.

— Precisa sim.

Coloquei as pastas sobre a mesa. Casos em andamento, relatórios, tudo organizado. Como sempre fiz.

— Foi o seu dinheiro que deu origem à agência. É justo que seja você quem fique.

— Isso não tem nada a ver com o que aconteceu entre a gente. — Ele rebateu, finalmente me encarando.

— Tem tudo a ver. — Respondi, sem elevar a voz. — Nós não somos mais amigos.

Ele engoliu seco.

— Eu te machuquei. — Continuei. — Você devolveu. Vida que segue. Cada um no seu quadrado.

Bruno tentou dizer algo, qualquer coisa que soasse como redenção tardia, mas eu já estava indo em direção à porta.

— Não precisa explicar. — Completei. — Já entendemos tudo tarde demais.

Saí da agência sem olhar para trás. Não havia alívio. Nem raiva. Só a sensação estranha de ter encerrado um capítulo longo.

Era hora de seguir em frente. Mesmo sem saber exatamente para onde.

{…}

De volta ao presente:

O barulho metálico me arrancou das lembranças como um puxão brusco. As grades vibraram duas vezes antes da portinhola se abrir, e o cheiro veio antes da visão. Arroz soltinho, feijão grosso, frango assado e farofa. De verdade. Com alho, cebola, tempero feito com calma.

O carcereiro apoiou a marmita no vão e sorriu caloroso.

— Hoje tá caprichado, hein? — Disse. — Você já foi um dos nossos. Não dá pra deixar que saia daqui falando mal da casa.

Peguei a comida ainda quente, sentindo o peso simples daquele gesto.

— Isso aqui tá melhor que muito restaurante. — Respondi, sincero.

Ele deu uma risada curta.

— Ordem de cima. O delegado mandou. Disse que era pra você comer direito hoje.

Assenti, sem saber exatamente o que dizer. Não era amizade. Nunca foi. Mas havia respeito. E, naquele lugar, isso valia mais do que qualquer palavra de conforto.

Quando a portinhola se fechou, me sentei na cama e comi devagar, quase com cuidado. Cada garfada parecia um lembrete estranho de normalidade num lugar onde tudo é suspensão.

Depois do banho frio — rápido, como sempre — fiz a higiene mecânica de quem já decorou os movimentos. Escovei os dentes, lavei o rosto, vesti a camiseta limpa que o advogado tinha trazido mais cedo e me deitei. O colchão fino rangeu sob meu peso, o mesmo som de sempre. O teto manchado me encarava de volta, indiferente.

Fechei os olhos. Não adiantou. As lembranças voltaram com força, mas não era Bruno. Nem a Mariana. Não aquela noite, não aquela discussão.

Era outro nome. Outra época. O primeiro erro: Larissa.

O rosto dela surgiu sem pedir licença, como sempre fazia. O sorriso enviesado. O jeito de olhar que parecia saber mais do que dizia. Aquela sensação incômoda de alguém que entra na sua vida não como tempestade, mas como infiltração.

Ela não foi o motivo do fim de tudo. Mas quase foi. E ali, naquela provável última noite entre as grades, eu soube: era impossível continuar fugindo daquela memória. Ela veio. Querendo ou não.

{…}

14 anos atrás:

Larissa sempre foi fácil de reconhecer antes mesmo de falar qualquer coisa. Loira de um jeito que chamava atenção sem esforço, cabelo liso, brilhante, caindo solto pelos ombros, como se tivesse sido pensado para ser tocado. Os olhos, de um azul suave, tinham aquele brilho que não era ingenuidade, mas cálculo. Observavam, avaliavam, escolhiam.

O corpo era escultural sem parecer exagerado. Nada nela era por acaso. As curvas estavam ali, expostas na medida exata para provocar, nunca para oferecer. Vestia-se como quem conhece o próprio efeito: saias curtas demais para serem inocentes, decotes que não pediam permissão, saltos que alongavam ainda mais o que já era impossível de ignorar.

Mas o mais perigoso não era o corpo. Era o jeito. Larissa transformava tudo em jogo. Um sorriso torto, um olhar sustentado por meio segundo a mais, a voz baixa demais para uma conversa casual. Ela gostava de brincar com os homens. Gostava de vê-los se esforçando, tropeçando nas próprias palavras, se convencendo de que eram especiais… quando, na verdade, eram só mais um.

Era a sedução como esporte. Pelo menos, na minha visão.

Naquela noite, Bruno estava caindo exatamente onde sempre caía. Ele falava demais. Gesticulava. Tentava parecer interessante, confiante, diferente.

Eu conhecia aquele roteiro. Já tinha visto antes. E já tinha visto o final: Larissa apoiada no balcão, corpo inclinado para a frente, só o suficiente, escutando com atenção fingida. De vez em quando, interrompia com uma risada curta, um toque rápido no braço dele. O bastante para reacender a esperança, nunca o suficiente para confirmá-la.

Eu me aproximei quando vi o sorriso dela mudar. Não de interesse. De diversão.

— Bruno. — Chamei, tocando de leve em seu ombro. — A gente precisa ir. Já tá ficando tarde.

Ele se virou para mim com um olhar de alívio misturado com frustração. Como alguém salvo de um afogamento… mas ainda querendo voltar para a água.

Larissa me olhou pela primeira vez então. E foi ali que eu entendi. Nada nela era casual, nada era coincidência.

Seu olhar deslizou por mim devagar. Sem pressa. Sem pudor. Não como quem avalia um homem, mas como quem mede uma possibilidade.

O sorriso surgiu no canto da boca, preguiçoso, confiante.

— Já vai? — Ela perguntou, olhando para mim, mas falando com o Bruno.

A voz era macia. Envolvente. Treinada.

Eu sustentei o olhar, sentindo aquele incômodo estranho que só algumas pessoas causam. Não era desejo. Era alerta.

Larissa não era apenas bonita. Ela era uma femme fatale no sentido mais literal da palavra. Onde passava, deixava caos. Confusão. Rivalidades silenciosas. Promessas que nunca fez, mas que muitos juravam ter ouvido.

E enquanto eu puxava o Bruno para longe, tentando poupá-lo de mais um fora humilhante, tive uma certeza que só faria sentido muito tempo depois: Larissa não escolhia homens por carinho. Escolhia por fraqueza. E naquela noite ela tinha acabado de me notar.

Bruno estava elétrico no caminho de volta. Andava de um lado pro outro da calçada como um adolescente depois do primeiro beijo, falando rápido, rindo sozinho.

— Cara… — Ele disse, passando a mão pelo cabelo. — Você viu ela, né? Não existe ninguém como a Larissa. Eu juro. A gente se encaixa. É diferente de tudo que eu já senti.

Parei de andar e virei para ele.

— Bruno, escuta o que você tá falando…

Ele me encarou com os olhos brilhando, daquele jeito que já não escuta mais ninguém.

— Não, escuta você... — Ele deu uma risada nervosa. — É coisa de pele, de conexão. A gente foi feito um pro outro.

Balancei a cabeça, sentindo um peso estranho no peito. Não era inveja. Era pressentimento.

— Aquela mulher é uma fêmea de louva-a-deus — Falei, sem rodeios. — Atrai, envolve, suga… e depois devora. Quando consegue o que quer, segue pro próximo.

Ele soltou uma gargalhada curta.

— Olha o discurso. — Apontou pra mim. — Tá com ciúmes, é? Fala sério… você também quer ela. Só tá tentando me tirar do páreo.

A acusação veio em tom de brincadeira, Bruno tinha o costume de transformar tudo em rivalidade, mas bateu errado.

— Não é isso. — Respondi, mais duro do que pretendia. — Eu tô tentando te poupar.

— Poupar de quê? — Ele retrucou. — De viver?

Respirei fundo. Já tinha visto aquele filme antes. E sempre acabava mal.

— Acorda, cara. — Falei, encarando-o de frente. — Aquela ali é encrenca. Não vale o batom que usa.

O sorriso dele desapareceu por um instante. Mas logo voltou, mais teimoso, mais cego.

— Você vai ver. — Ele disse, apontando o dedo pra mim. — Ainda vai morder a língua.

Talvez ali eu devesse ter parado. Ou talvez devesse ter insistido mais. Mas naquele momento, tudo o que eu sabia era que palavras já não tinham mais força. E o pior de tudo, é que, no fundo, eu já começava a entender por que Bruno tinha caído tão fácil.

Larissa não quebrava homens à força. Ela só mostrava o que cada um tinha de mais fraco e esperava eles mesmos darem o passo final.

Os dias viraram semanas, e o padrão se repetia como um ritual cruel. Bruno se aproximava, confiante no começo, depois esperançoso, por fim quase suplicante. E Larissa sempre escolhia o palco. Se havia gente em volta, a recusa vinha maior, mais teatral. Um sorriso torto, uma risada alta demais, uma frase dita no volume exato para humilhar sem parecer agressiva. Bruno virava atração. O bobo da corte que ela usava para reafirmar o próprio poder imperial.

E quanto mais ela o afastava, mais os olhos dela buscavam os meus. Era proporcional. Quase matemático. Se Bruno declarava amor, Larissa tocava meu braço ao passar. Se ele insistia, ela se inclinava perto demais de mim para falar qualquer banalidade. Se ele se expunha, ela me lançava aquele olhar lento, calculado, como quem pergunta: e se fosse você?

Eu entendi o jogo cedo demais. Bruno, não. Para ele, aquilo não era disputa. Era destino. Era romance. Era “a mulher da vida dele” sendo arrancada injustamente por forças que ele não compreendia.

E, inevitavelmente, a culpa começou a cair sobre mim.

— Você não ajuda. — Ele dizia, já sem disfarçar o ressentimento. — Nunca ajuda. Parece que torce contra.

No começo, tentei argumentar. Dizer que ele estava se machucando sozinho. Que Larissa não era o que ele imaginava. Depois parei. Porque não era mais amor no olhar dele. Era obsessão.

Bruno nunca tinha perdido. Nunca tinha sido rejeitado de verdade. Sempre foi o cara querido, o escolhido, o que dava certo com mulheres, trabalho, amigos. Larissa era a primeira negativa real. E ele não sabia lidar com aquilo. Quanto mais ele se afundava, mais Larissa se aproximava de mim. Como se quisesse testar tudo: minha paciência, minha ética, minha lealdade, e, principalmente, a amizade que eu tinha com Bruno.

Ela jogava comigo como quem brinca com fogo, esperando o momento em que eu ia me queimar, ou empurrar alguém para as chamas no meu lugar.

Eu fingia que não via. Mas já sentia. Aquela história não terminaria bem.

No dia derradeiro, a festa estava cheia, barulhenta, aquela mistura típica de gente jovem tentando parecer mais certa do futuro do que realmente estava. Música alta, copos se chocando, risadas exageradas... Era uma daquelas noites em que todo mundo falava do amanhã como se tivesse algum controle sobre ele.

Eu e Bruno estávamos encostados perto do balcão improvisado, cada um com uma cerveja na mão, tentando fingir que aquela conversa já não tinha acontecido dezenas de vezes.

— Segundo ano já, né? — Ele comentou, olhando ao redor. — Parece que a gente ainda tá parado no mesmo lugar.

Bruno sempre falou do futuro como algo garantido. Não por arrogância — talvez um pouco —, mas porque a vida tinha sido gentil com ele. Pais bem colocados no serviço público, em cargos de chefia, estabilidade. Se errasse, tinha rede de proteção.

Eu não. Meu pai passava os dias no chão de fábrica, o corpo pagando o preço de escolhas feitas cedo demais. Pouco estudo, poucas chances, agora contando os anos para se aposentar. Minha mãe, dona de casa desde sempre, dedicada, invisível para o mundo fora dali. Eu sabia que, se quisesse algo diferente, teria que arrancar com as próprias mãos.

Mesmo assim, nossas famílias sempre foram amigas, desde sempre. Meu pai e o dele se conheciam desde a infância. Eram próximos, quase irmãos, assim como Bruno e eu.

— Eu não vou ficar nessa. — Bruno continuou, animado. — Faculdade, emprego meia-boca… não é pra mim. Quero mais.

Eu já conhecia aquele papo.

— E o plano? — Incentivei. — Vai mesmo largar a faculdade?

Os olhos dele brilharam.

— Vou sim. Já convenci meu velho. — Ele falou, orgulhoso. Eu quero a Polícia. Mas não começando por baixo.

Ele estudou o peito.

— Escola de oficiais. Comando, estratégia, liderança. Subir rápido…

Aquilo fazia sentido pra ele. Sempre fez.

— E você? — Ele me perguntou. — Vem junto?

Eu ainda ia responder quando senti a mudança no ar. Não precisei virar o rosto de imediato. O burburinho mudou, alguns olhares desviaram, outros se fixaram. Larissa tinha chegado.

Ela entrou como se o ambiente tivesse sido montado para ela, e talvez tivesse sido mesmo. Vestia algo justo demais para ser discreto, curto demais para ser ignorado. O tecido escuro desenhava o corpo com uma precisão quase ofensiva, decote calculado, pernas à mostra, salto alto batendo firme no chão. Os cabelos loiros soltos ao vento, como naqueles comerciais de shampoo.

Não era só beleza. Era atitude. Era a certeza de quem sabia exatamente o efeito que causava.

Bruno percebeu na mesma hora e nossa conversa morreu ali. Ele largou o copo na primeira superfície que encontrou, ajeitou a camisa, passou a mão no cabelo e me deixou falando sozinho, como se nada mais existisse naquela festa.

Eu acompanhei com o olhar. Larissa o viu se aproximar. Claro que viu. E sorriu. Um sorriso doce, quase gentil, como quem recebe alguém querido, só para, segundos depois, esmagar qualquer expectativa com delicadeza cirúrgica.

Eles conversaram por alguns minutos. Bruno gesticulava, se inclinava, tentava parecer confiante. Ela ria, tocava levemente o braço dele, inclinava a cabeça interessada, mas só o suficiente para mantê-lo ali, massageando seu ego.

Então, com palavras suaves demais para doer de imediato, ela recusou. Não foi um “não” seco. Nunca era. Foi algo elegante, quase carinhoso. Uma desculpa qualquer, um elogio vazio, uma promessa vaga que não significava nada. O tipo de negativa que deixa o outro se perguntando se, talvez, na próxima tentativa…

Bruno voltou para perto de mim com um sorriso forçado, bebendo de uma vez o resto da cerveja.

— Ela é difícil. — Disse, tentando rir. — Mas uma hora cede.

Eu não respondi. Porque já tinha entendido há tempos: Larissa não cedia. Ela escolhia. E, naquela noite, de novo, eu senti, com um incômodo silencioso no estômago, que o jogo que ela jogava não tinha Bruno como prêmio. Tinha ele como peça.

Bruno acabou se afastando em algum momento. Outros amigos chegaram, puxaram assunto, e ele foi ficando para trás, engolido pela própria frustração. Eu cheguei a achar que tinha ido embora, e já estava me preparando para sair também, quando senti dois toques leves nas costas.

— Não vai falar comigo? — A voz veio baixa, quase divertida. — Me produzi toda… e você vai fingir que nem me notou?

Virei devagar. Larissa estava ali, perto demais, um perfume doce misturado com algo mais amadeirado. O tipo de cheiro que fica na memória sem pedir permissão. Os olhos claros me encaravam com uma curiosidade calculada.

— Difícil não notar. — Respondi, sincero. — Você está linda. Como sempre.

Ela sorriu, satisfeita, mas não plenamente convencida.

— Com tantos fãs por aí… — Completei, tentando aliviar o clima — Não acredito que uma única pessoa faça tanta falta.

Ela inclinou a cabeça, como quem avalia uma peça rara.

— E se essa pessoa for justamente a única que eu quero impressionar?

Meu estômago deu um nó. Aquilo não era um flerte comum. Era provocação direcionada.

— Eu não sou grande coisa. — Retruquei, mantendo o tom leve. — A rainha da faculdade combina mais com o rei, não acha?

Ela entendeu na hora. Sempre entendia. Aquele era o apelido do Bruno, “O Rei”.

— Exclusividade… — Ela respondeu, sem hesitar. — É disso que eu gosto. Não de coisas que já passaram por muitas bocas… ops, mãos.

O golpe foi baixo. E eu senti. Respirei fundo antes de responder.

— Você tá jogando um jogo perigoso, Larissa. — Falei sério. — Isso raramente termina bem.

Ela suspirou. Não de impaciência. De cansaço.

— Nada disso é real, Ricardo. — Ela disse, com a voz mais baixa. — É defesa. Só isso.

Fiquei em silêncio.

— Ou você prefere que eu seja amarga? — Ela continuou. — Cruel com cada homem que se aproxima de mim achando que eu sou um brinquedo disponível? Um corpo para aliviar frustração?

Aquilo me pegou desprevenido.

— Você já me viu com alguém? — Ela perguntou. — Conhece algum ex meu? Alguma história real? Ou só ouviu versões?

Abri a boca para responder… e fechei em seguida. Eu nunca tinha visto. Só ouvido. Comentários soltos, piadas, suposições.

— Me julgam… — Ela continuou, mas sem sorriso algum. Parecia até triste. — Criam fanfics. E, de tanto repetirem, a mentira vira verdade. Aí acham que têm direito sobre mim. De me pressionar. De invadir meu espaço. Minha paz.

Ela se aproximou um pouco mais, mas sem me tocar.

— Eu só quero terminar meus estudos e seguir minha vida. Sem ser posse de ninguém. Sem dever nada a ninguém.

Fiquei ali, parado, sentindo algo desconfortável crescer no peito. Talvez eu tenha criado uma Larissa que não existia. Talvez o perigo não fosse só ela. Talvez fosse o que ela despertava nos outros. E em mim.

A música mudou. Algo mais lento, menos barulhento. Larissa puxou assunto sobre qualquer coisa banal — uma matéria chata da faculdade, um professor arrogante — e, quando percebi, estávamos rindo juntos.

Sem malícia. Sem segundas intenções explícitas. Ou pelo menos era o que eu dizia a mim mesmo.

Ela dançava perto, mas não colada. O corpo acompanhava o ritmo com naturalidade, sem exagero, sem convite óbvio. Era confortável. Estranhamente confortável. Como se, ali, longe das expectativas alheias, ela pudesse ser apenas uma garota normal. E eu, apenas eu.

Em algum momento, tentei localizar o Bruno no meio da festa. Olhei em volta, procurei aquele jeito expansivo, a risada alta, o copo sempre cheio. Nada.

— Procurando alguém? — Larissa perguntou, percebendo meu olhar inquieto.

— O Bruno. — Respondi. — Achei que ele estivesse por aqui.

Ela deu de ombros.

— Não vi mais.

Fui até a área externa, perguntei a um conhecido, depois a outro. Um deles respondeu quase sem pensar:

— Bruno? Saiu faz um tempo. Vi ele indo embora… e não estava sozinho. Entrou no carro com alguém e saiu. Acho que era uma caloura.

Voltei para dentro da festa com a cabeça cheia de ruído. Culpa misturada com irritação. Eu tinha tentado alertá-lo. Tantas vezes. E, ainda assim, ali estava eu… rindo com a mulher que ele dizia amar.

Larissa percebeu na hora que algo tinha mudado.

— Ele foi embora, não foi? — Ela perguntou, mais séria.

— Foi. — Confirmei.

Ela mordeu o lábio, pensativa.

— Sinto muito.

— Por que? Não é sua culpa. — Respondi rápido demais.

Ela me encarou, como se estivesse prestes a dizer algo, mas desistiu. Em vez disso, estendeu a mão.

— Vamos dançar mais um pouco? Antes que essa noite fique pesada demais.

Aceitei. Não porque quisesse provocar ninguém. Mas porque, ao lado dela naquele momento, após conhecer um lado dela que eu não fazia ideia, eu não me sentia deslocado.

Enquanto dançávamos, percebi algo que me incomodou mais do que deveria: eu não estava pensando em traição, em lealdade, nem desejo ou conquista. Eu estava pensando em como era fácil estar ali com ela. E aquilo, talvez, fosse o mais perigoso de tudo.

A festa continuava pulsando atrás de nós. A música mais alta, as risadas mais soltas, gente demais já passando do limite do álcool. Eu precisava de ar. Larissa também.

Saímos para a lateral da casa, onde a iluminação era mais baixa e o barulho chegava abafado. Ela encostou no parapeito, cruzou os braços, observando o movimento lá dentro como quem assiste a um filme que já não interessa tanto.

— Você sempre fica à margem… — Ela disse, sem me olhar. — Não acho que seja indiferença… é uma escolha, não é?

Franzi a testa, surpreso.

— Como assim?

Ela virou o rosto devagar.

— Você participa, ri, conversa… mas nunca se perde. Parece sempre estar um passo atrás, pensando no depois. No amanhã.

Suspirei.

— Nem todo mundo pode se dar ao luxo de viver só o agora. — Falei. — Meus pais fizeram o que puderam por mim. Nunca sobrou nada. Então eu aprendi cedo que, se eu quisesse algo diferente, teria que correr atrás. Não dá pra desperdiçar tempo.

Ela assentiu, como se aquilo confirmasse algo que já sabia.

— Eu reconheço isso. — Disse. — Vim do interior. Moro com uma tia desde que cheguei aqui. Nada veio fácil. Ninguém segura sua mão quando você cresce assim.

Aquilo me pegou desprevenido. Sempre enxerguei Larissa como alguém inalcançável. Intocável. Mas, ali, a distância parecia menor.

— A gente não é tão diferente quanto parece, Ricardo. — Ela continuou, a voz mais baixa. — Só aprendemos a usar armaduras diferentes.

Ficamos em silêncio por alguns segundos. Não era constrangimento. Era aquela pausa estranha que antecede decisões ruins. Eu ia dizer alguma coisa. Qualquer coisa sensata. Um aviso. Um limite. O nome do Bruno talvez.

Não deu tempo. Larissa se aproximou sem pedir licença, sem ensaio, sem discurso. A mão tocou meu braço, firme, segura. O olhar não deixava espaço para dúvida. E então ela me beijou.

Não foi agressivo. Não foi teatral. Foi simples. Direto. Um beijo que não perguntava se podia. Apenas acontecia.

Por um segundo, fiquei paralisado. A cabeça gritando, o corpo imóvel, o mundo reduzido naquele instante. E ali, naquele espaço mínimo entre a razão e a vontade, eu soube: não era só sobre desejo. Era sobre escolha. E eu estava prestes a errar.

Eu cedi. Me entregando sem ressalvas. A lealdade virando poeira diante de um momento de egoísmo.

Quando o beijo terminou, meu primeiro impulso foi olhar em volta, instintivo, quase policial. O corpo em alerta, o medo tardio chegando antes da razão e Larissa percebeu.

— Calma. — Ela disse, com um sorriso tranquilo. — Eu não quero estragar sua amizade com o Bruno. Fica tranquilo. Eu me certifiquei de que ninguém estivesse olhando.

Aquela frase deveria ter sido o freio definitivo. Não foi. Talvez porque, pela primeira vez, alguém estivesse se preocupando comigo sem me cobrar nada em troca. Sem expectativas. Sem discursos.

Parei de pensar. Foi uma escolha consciente. Então fui eu quem me aproximei. Fui eu quem a puxou de volta, quem tomou a iniciativa, quem colou a boca na dela com mais firmeza.

O segundo beijo foi diferente. Mais longo. Mais intenso. Menos curioso e mais decidido. Não havia romantismo exagerado. Nem promessas silenciosas. Era o peso de sempre ser o responsável, o correto, o que segura a barra dos outros.

Por alguns segundos, eu não queria ser o amigo leal. Nem o filho exemplar. Nem o cara que sempre pensa nas consequências. Só queria existir naquele instante como indivíduo.

Quando nos afastamos, o mundo pareceu voltar rápido demais. A música ainda tocava. As pessoas ainda riam. A festa seguia como se nada tivesse acontecido.

Larissa me puxou pela mão de volta para dentro. Sem pressa, mas decidida. Não havia nervosismo no gesto, só escolha.

A casa era grande demais para aquela festa. Antiga, com corredores longos no segundo andar e portas que davam para cômodos pouco usados, esquecidos no mapa da euforia coletiva. A música chegava abafada ali dentro, como se viesse de outro mundo.

Encostamos perto de uma janela alta, a luz amarelada recortando seu rosto de um jeito quase irreal. Os olhos claros me prenderam por um segundo a mais do que deveriam. Não havia desafio ali. Nem jogo. Só convite.

Ela se aproximou primeiro. Não com urgência, mas com segurança. A mão deslizou pelo meu braço, firme, como se estivesse confirmando algo que já sabia. O beijo veio cheio de expectativas e promessas, menos surpresa, mais intenção. Mais desejo e urgência também.

Minha cabeça gritava nomes, lealdades, promessas. Mas meu corpo… meu corpo estava cansado de obedecer ordens que nunca tinham sido minhas.

Apertei Larissa contra mim. Senti seu calor, o perfume misturado ao álcool leve, à festa, à noite. As mãos exploraram sem pressa, aprendendo contornos, limites que não eram ditos, mas sentidos. Cada toque parecia um acordo tácito: é só isso, é só agora, é só nosso…

Ela sorriu contra minha boca, como quem sabia exatamente o que estava fazendo comigo.

— Relaxa. — Ela sussurrou. — Às vezes a gente só precisa parar de ser forte.

Fechei os olhos. Entregue, desejando, querendo…

Ali, longe dos olhares, das expectativas alheias, eu não era o amigo responsável. Nem o conselheiro. Nem o homem que sempre ficava por último. Eu era só alguém escolhendo, pela primeira vez, não pensar nas consequências. E aquilo, mais do que qualquer toque, foi o que realmente me fez cruzar a linha.

Mas eu sabia. Alguma coisa tinha mudado. Não fora um acidente. Não fora impulso puro. Tinha sido uma escolha. E escolhas… sempre cobram seu preço.

Continua…

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Comentários

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A dúvida é, pq ele voltou ?

Ele parece ser um cara decidido.

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Não só voltou, né? Outras traições ocorreram...

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Reli o primeiro capítulo, a relação entre ele e o Bruno é estranha, o Bruno faz algumas piadas sobre o relacionamento dele. E é o Bruno que dá o colar para entregar a Mariana e ainda diz que ela está ansiosa pelo aniversário de casamento, que haviam conversado.

Tipo, além do Ricardo voltar com ela, a relação entre ela e o Bruno parece ser intima e mesmo assim ela se diz ansiosa ela data comemorativa.

Além de que o Bruno simplesmente não comprou nada para a Mariana, como se ele continuasse o mesmo, não se importando, não ligando, frio e distante.

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Conto ainda bem complicado explicando alguns pontos mas ainda longe do crime.

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Uma dúvida, o nome dela não era Helena?

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Ele mudou para não causar confusão com a série do Mark.

Mas não adianta.

O pessoal já tem certeza que o B não é de Beto nem de Bronson. É de Bruno.

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Era. Mas eu expliquei na parte anterior. Mudei o nome porque tem uma Helena no conto do Mark, e eu não queria embolar o meio de campo. Ele começou a postar primeiro. Isso pode confundir o leitor.

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Foi mau, devo ter esquecido essa parte da explicação.

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Foto de perfil de Id@

História cada vez mais densa e complexa

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"Não foi só sobre mim. Foi sobre o Bruno. O tempo todo. Cada justificativa sua, cada discurso… parecia muito mais uma defesa dele do que uma resposta ao que eu te fiz." Essa frase do Renato foi a mesma coisa que eu senti quando a Mariana falou sobre devolver a traição. Lógico que ela ficou chateada, mas parece que ela traiu o Renato com o Bruno muito mais pra acolher ele, do que se sentir melhor. A Mariana não pensou na traição, ela pensou na dor do Bruno. Quando vai ter a continuação?? 😁😁😁

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