O plano desmoronava aos pedaços na cabeça de Mariana enquanto ela observava Pedro dormir, aquelas palavras bêbadas — *você é tão linda, Ketlin* — ecoando como um teco numa caixa de zinco. O desespero misturava-se com algo que ela não queria nomear, uma excitação tóxica que subia pelo seu esôfago e batia nas têmporas. Ela precisava daquele notebook. Precisava destruir a evidência. Mas o que ela realmente queria, no fundo do fundo, era entender o poder que aquela garota tinha sobre o marido dela.
Na manhã seguinte, o clima na casa de três andares na Gávea estava irrespirável. O ar-condicionado central chiava, mas o suor grudento de fevereiro no Rio de Janeiro vencia a máquina. Mariana desceu a escada de madeira de demolição — aquele projeto que ela e Pedro tinham feito juntos quando casaram — e encontrou Ketlin na cozinha americana, usando apenas uma camiseta velha do Pedro, daquelas de banda de rock dos anos 90, que caía perfeitamente sobre as coxas da garota, escondendo a calcinha ou a falta dela.
"Bom dia, vovó," Ketlin disse, mordendo uma maçã verde. O som era úmido, carnal. A garota tinha um jeito de mascar que lembrava uma atriz pornô dos anos 2000, labios rosados molhados, olhos fixos em Mariana com aquela provocação que beirava o desrespeito sagrado.
"Não chame assim na minha casa," Mariana respondeu, mas a voz saiu rouca, sem firmeza. Ela percebeu que estava olhando demais para as pernas de Ketlin, para a curva do quadril que desaparecia debaixo do tecido surrado do marido.
"Ah, desculpa," Ketlin deu de ombros, a camiseta subindo mais um palmo. "O Pedro deixou eu usar. Ele disse que fico mais gostosa com a roupa dele do que ele mesmo."
A faca girou no peito de Mariana. Ela se virou para fazer café, mãos trêmulas segurando o pacote de pó de cafezal mineiro. O cheiro forte do café encheu a cozinha, misturando-se com o perfume barato e adocicado que Ketlin usava — aquele cheiro de baunilha artificial que grudava na roupa, no sofá, que impregnava o ar de uma casa antes só de cheiro de madeira antiga e livros encadernados em couro.
Pedro desceu meia hora depois, ainda de pijama, o cabelo grisalho bagunçado, o peito peludo aparecendo no decote da camiseta regata. Mariana observou, da sua posição na bancada, a forma como Ketlin se reposicionou na cadeira, abrindo as pernas casualmente, deixando a camiseta cair estrategicamente para revelar o coqueiro tatuado na coxa interna da garota.
"Caraca, que vista," Pedro disse, e Mariana não conseguiu distinguir se ele estava falando da janela que dava para o Cristo Redentor ao longe ou da cena na cozinha.
"Obrigada, gato," Ketlin piscou. Não era uma piscadela exagerada de novela. Era algo cruelmente natural, uma intimidade já estabelecida que excluía Mariana completamente.
Durante o café da manhã, a conversa fluiu como água suja no esgoto. Pedro e Ketlin discutiam sobre a nova série da HBO, sobre política, sobre o trânsito caótico da Lagoa. Mariana ficou muda, mastigando a torrada sem gosto, observando a mão de Pedro descer por baixo da mesa — ela tinha certeza absoluta — e desaparecer na direção do colo de Ketlin. A garota deu um suspiro, disfarçado de bocejo, mas os olhos se arregalaram por um microssegundo, encontrando os de Mariana com um desafio silencioso: *eu posso, você não pode mais.*
Mariana sentiu um calor subir pelo pescoço. Não era só raiva. Era algo pior, algo que fazia a calcinha encharcar de um jeito que ela não sentia há anos. Ela odiava-se por isso. Odiava o corpo traidor que respondia à cena com a mesma intensidade com que respondia à ameaça do vídeo.
Naquela noite, Mariana não conseguiu dormir. Pedro roncava ao lado dela, o corpo quente, musculoso ainda, apesar dos quarenta e poucos anos. Ela acariciou o peito dele, desceu a mão até a barriga, sentindo a ereção matinal que começava a formar-se. Pedro gemeu sonolento, virou-se, e murmurou: "Ketlin... porra..."
A mão de Mariana parou. O coração também. Mas a excitação — aquela puta da excitação — apenas aumentou.
Ela tinha que fazer algo. Tinha que resolver o problema do notebook. Mas também tinha que ver. Tinha que entender. A obsessão se misturava com a necessidade prática de obter o dispositivo por uma semana. Ela precisava de uma desculpa, uma razão plausível para tirar aquela garota de casa junto com o marido, deixando o notebook para trás.
A oportunidade veio na forma de uma conferência em São Paulo. O colégio particular onde Pedro trabalhava como consultor financeiro tinha um evento de três dias. Mariana convenceu Pedro a levá-la — "você precisa de companhia, você fica sozinho em hotel, querido" — e, com um esforço atroz de controle, sugeriu que Ketlin fosse junto. "A garota nunca viu São Paulo, Pedro. Seria uma experiência cultural."
Pedro olhou para ela com aquela gratidão de cachorro que acabou de ganhar um osso. "Você é incrível, amor. De verdade."
Ketlin, quando ouviu a notícia, apenas sorriu. Um sorriso que dizia *eu sei o que você está fazendo, vovó, e vou deixar você fazer, porque no final eu ganho tudo mesmo.*
***
Eles partiram na sexta-feira de manhã, o Audi preto de Pedro descendo a ladeira da Gávea em direção à ponte. Mariana ficou na varanda, acenando, até o carro desaparecer na curva. Então ela correu.
O quarto de Ketlin era um santuário de juventude destruidora. Pôsteres de bandas indie grudados com fita adesiva, roupas jogadas no chão — calcinhas de renda preta, sutians vermelhos, cuecas de Pedro que a garota tinha claramente "pegado emprestado" — e o notebook, aquele maldito notebook, descansando na escrivaninha bagunçada sob uma pilha de apostilas de cursinho.
Mariana ligou-o. A tela de bloqueio exibia uma foto: Pedro dormindo, nu do peito para cima, coberto apenas pelo lençol branco, a tatuagem de âncora no braço visível. A foto tinha sido tirada no quarto de casal. No *meu* quarto, pensou Mariana, sentindo o estômago revirar de ciúmes e tesão entrelaçados.
Ela ligou para os detetives. Eles chegaram em vinte minutos, três homens de ternos mal-engomados, cheirando a cigarro e café de padaria. O técnico de TI, um jovem de óculos grossos chamado Bruno, abriu o notebook com a destreza de um cirurgião.
"Vai levar umas seis horas pra extrair o chip sem danificar a placa-mãe," Bruno disse, sem levantar os olhos da tela. "A senhora tem que nos dar espaço. E privacidade."
Mariana não queria sair dali. O quarto de Ketlin a fascinava de um jeito doentio. Ela abriu as gavetas da cômoda, encontrando vibradores de silicone rosa, lubrificantes sabor morango, cartas de amor escritas à mão por Pedro — aquela caligrafia elegante que ela reconhecia de vinte anos de declarações de amor. *"Minha pequena gatinha,"* uma carta começava. *"Nunca senti isso por ninguém, nem pela minha esposa. Você é o fogo que queima a minha sanidade."*
Mariana sentou na cama de Ketlin, a colcha de cetim rosa escorregando sob ela. A cama onde Pedro deitava. Onde faziam amor — não, não era amor, era putaria, era sacanagem, era o que Mariana não conseguia dar mais para o marido. Ela massageou os seios por cima da blusa, sentindo os mamilos endurecidos, pensando em Pedro gemendo o nome da outra.
O celular dela vibrou. Uma mensagem de Pedro: *"Chegamos no hotel. Sentimos sua falta. Ketlin manda beijos."*
E uma foto. Pedro e Ketlin no elevador do hotel, espelhado. Ketlin colada nele, a mão de Pedro na cintura da garota, os dois sorrindo como namorados recém-casados.
Mariana gemeu baixinho. A mão desceu, entrou na calça, encontrou a umidade escandalosa. Ela se masturbou ali, no quarto da inimiga, rodeada pela essência de Ketlin, pelo cheiro do perfume barato misturado com o odor residual de sexo que impregnava o ar — porque eles tinham transado ali, naquela cama, naquela manhã, enquanto ela dormia no andar de cima.
***
À noite, sozinha na casa grande demais, Mariana tentou assistir TV. Não conseguia. Tentou ler. Impossível. O celular a torturava com atualizações. Fotos de jantar romântico em restaurante chique na Paulista. Pedro e Ketlin dividindo um prato, os garfos se encontrando, os dedos se tocando na taça de vinho. *"Ela é tão divertida, amor,"* uma mensagem de Pedro dizia. *"Me faz sentir jovem de novo."*
Mariana respondeu com emojis de coração, as lágrimas escorrendo pelo rosto, a mão entre as pernas de novo. A dor era excruciante, mas o prazer — o prazer era uma traição ainda maior.
Então, à meia-noite, veio o vídeo.
Não foi pelos detetives. Foi pelo WhatsApp de Pedro, acidentalmente, ou talvez propositalmente — Mariana nunca soube, nunca quis saber. O vídeo começava com a tela escura, o som de respiração ofegante. Depois, a imagem clareava. O quarto de hotel. A cama de casal. E Pedro, seu Pedro, nu, deitado de costas, o pênis ereto apontando para o teto, a barriga definida subindo e descendo com a respiração irregular.
Ketlin apareceu no quadro. Nua. Deus, aquela pele bronzeada, aqueles seios pequenos e firmes com os mamilos cor de rosa escuro, a barriga lisa, o quadril estreito, aquele coqueiro tatuado na coxa balançando enquanto ela se movia. A garota não olhava para a câmera. Estava focada em Pedro, naquela expressão de adoração que Mariana reconhecia — era a mesma que ela mesma tinha vinte anos atrás.
"Gostoso, gato?" A voz de Ketlin, aquela voz melosa de paulistana que ela fingia ter, cheia de *vocês* e *meus*.
"Porra, Ketlin... você é perfeita," Pedro gemeu, as mãos grandes segurando os quadris da garota enquanto ela montava nele, devagar, preguiçosamente, rebolando com uma cadência que Mariana sabia que nunca conseguiria replicar. A idade tinha roubado a elasticidade dos seus quadris, a ousadia de sua coluna.
O som era hiper-realista. O *slap slap slap* da pele batendo, o ranger da cama, a respiração entrecortada de Pedro, os gemidos agudos de Ketlin — "Ahh... ahh... mais forte, gato... me fode..." — misturando-se com o barulho da rua de São Paulo lá embaixo, distante, irrelevante.
Mariana assistia, paralisada no sofá da sala de estar, o celular tremendo na mão. A calcinha estava encharcada, a boca seca. Ela não podia parar de ver. Não queria.
A câmera se mexeu — quem estava filmando? Será que era um tripé? Ou Pedro segurava o celular enquanto a garota o cavalgava? A imagem mostrou o rosto de Ketlin, contornado de êxtase, os olhos revirando, a língua saindo para lamber os lábios. Depois, um close no ponto de união deles, a visão explícita daquela buceta apertada, depilada, rosada, engolindo o pau grosso de Pedro, a umidade brilhante escorrendo pelas bolas dele, molhando o lençol de mil-thread.
"Eu vou gozar... porra, vou gozar..." Pedro avisou, a voz falhando, a mão subindo para apertar o pescoço de Ketlin daquela forma possessiva, dominadora, que Mariana amava quando faziam sexo nos primeiros anos de casamento, antes da rotina, antes da preguiça, antes da menopausa precoce que secou a sua libido e a transformou na "vovó" que Ketlin tanto zombava.
"Goza dentro... goza dentro de mim, gato... eu quero sentir tudo," Ketlin suspirou, a voz falhando, quebrando, aquela cadência paulistana misturando-se com gemidos guturais de fundo de garganta. A câmera tremeu — mãos trêmulas, ou talvez o próprio Pedro estivesse convulsionando, perdendo o controle motor enquanto a buceta apertada da garota massageava o seu pau em espasmos rítmicos, aquela contração muscular que só mulheres jovens e absurdamente excitadas conseguem fazer, a carne quente sugando, pulsando, tentando sugar o esperma para o fundo úmido.
"Porra... porra... tá gozando, gata?" Pedro perguntou, a voz dele saída, irreconhecível, aquela barítono educado de advogado transformado em grunhido de troglodita. Ele segurou os quadris de Ketlin com força brutal, os dedos afundando na carne macia, deixando marcas vermelhas que iam durar dias — marcas que Mariana conhecia bem, pois já as viu no quadril da garota quando ela andava pela casa de short curto, provocando, exibindo os hematomas como troféus de guerra.
"Gozando... gozando... não para... não para de me comer..." Ketlin choramingou, o rosto contorcido numa máscara de dor e prazer indistinguíveis, o cabelo loiro (tingido, claro, aquela raiz escura traiçoeira) grudado na testa suada, pingos de suor caindo sobre o peito de Pedro, misturando-se com o próprio suor dele, aquela união fluida, microbiológica, que Mariana podia quase cheirar através da tela do celular.
E então Pedro gozou. A câmera capturou tudo em detalhes obscenos, hiper-realistas, quase médicos na sua explicitude brutal. A base do pau dele pulsou, a virilha se contraiu, e Mariana podia ver — Deus, ela podia ver claramente — as bolas dele se enrijecem, subirem, a pele do saco ficando tensa, rugosa, enquanto jorrava por dentro de Ketlin. Era uma visão obscena de fertilidade, de traição biológica pura, o esperma quente de vinte anos de fidelidade sendo derramado na cavidade jovem, fértil, perigosa da inimiga.
"Porra... porra... porra..." Pedro repetia como um mantra, os olhos revirados, a boca aberta, a língua para fora, aquela expressão animalística que Mariana não via desde que eram adolescentes transando escondidos no banheiro da casa dos pais dela. Ele arqueou as costas, levantando Ketlin junto, a garota agarrada no peito dele como uma criatura marinha presa numa rocha, recebendo tudo, absorvendo tudo, a barriga fazendo movimentos involuntários, suaves, de digestão, como se o útero dela estivesse literalmente bebendo o sêmen do marido traído.
Ketlin desmontou dele devagar, com aquela preguiça de quem sabe que venceu. A câmera ainda gravava. E Mariana viu — não conseguiu desviar o olhar, não queria — quando o pau de Pedro saiu, morno, mole já, brilhando com a mistura de ambos, da lubrificação dela e do seu próprio esperma escorrendo pelo corpo mole, pingando no lençol de mil-thread, manchando, marcando território. A abertura de Ketlin estava vermelha, dilatada, piscando, expelindo o liquido branco em gotas grossas que escorriam pelo períneo, molhando o ânus, caindo sobre as pernas da cama, aquela sujeira irrevogável, a prova material do crime.
"Filmou tudo, gato?" Ketlin perguntou, virando-se finalmente para a câmera — e foi nesse momento que Mariana soube, com certeza absoluta, que a garota sabia exatamente o que estava fazendo, que este vídeo era um presente envolvido em papel de presente com laço de veludo, uma faca enfiada com delicadeza no ventre dela. Ketlin sorriu, aquele sorriso de tubarão, e espalhou as pernas abertas, exibindo a bagunça carnal entre suas coxas, o brilho obsceno da traição. "Manda para a vovó. Ela adora ver."
O vídeo acabou. A tela ficou preta. E Mariana... Mariana estava gozando. Não tinha percebido quando começou, mas o orgasmo a atingiu como um teco de bonde desgovernado, arrastando-a, rasgando-a. Ela estava deitada no sofá da sala de estar, a saia levantada até a cintura, a calcinha de renda (aquela que Pedro comprou para ela no aniversário de quinze anos de casamento, que ela nunca usava mais porque "não tinha ocasião") enfiada de lado, os dedos mergulhados profundamente, profundamente, buscando o ponto g que ela mesma não conseguia encontrar há anos, mas que agora, vendo o marido fodendo outra, sentindo-se a mulher mais traída, mais humilhada, mais *corna* do mundo... agora ela encontrou.
"Ahh... ahh... meu Deus..." Mariana gemeu alto, sem controle, sem vergonha. A casa estava vazia, exceto por ela e pelo fantasma do que acabara de ver. As paredes pareciam pulsar com a imagem residual do vídeo, o som ecoando no teto alto do apartamento da Gávea. Ela arqueou as costas, sentindo os músculos do assoalho pélvico contraírem em espasmos violentos, aquela sensação de vazio sendo preenchida pelo próprio dedo, imaginando ser Pedro, imaginando ser Ketlin, imaginando ser o lençol sujo recebendo a porra do marido.
O orgasmo durou minutos, ou segundos, ou horas — no tempo dilatado do prazer e da humilhação, não havia relógio que marcasse. Quando acabou, Mariana ficou imóvel, ofegante, a mão ainda entre as pernas, sentindo a umidade escandalosa, a vergonha molhada escorrendo pelo sofá de couro italiano que custara trinta mil reais, manchando-o com a sua própria traição, a traição de ter gostado, de ter amado, de ter *gozado* vendo o marido inside outra.
E então, através da névoa pós-orgasmo, veio a lucidez. E a lucidez trouxe um plano.
Mariana não era estúpida. Ela era diretora de escola há duas décadas, lidava com adolescentes traiçoeiros diariamente. Ela entendeu o jogo de Ketlin. A garota queria ser vista, queria ser pega, queria transformar Mariana não apenas numa esposa humilhada, mas numa cúmplice, numa voyeur, numa *corna* que aceitava o papel porque a alternativa — a solidão, a perda do marido, o escândalo do vídeo da diretora agredindo aluna — era pior.
Mas Mariana tinha uma carta. O notebook. Os detetives disseram que precisavam de uma semana. Uma semana com o dispositivo. E agora ela tinha a desculpa perfeita: a foto deles no hotel, a prova da traição. Ela poderia confrontar Pedro, sim, mas não da forma que ele esperava.
Ela passou o resto da noite em transe. Tomou banho, masturbou-se de novo debaixo da água quente, imaginando o esperma de Pedro sendo lavado do corpo de Ketlin, imaginando ser a loira no box do hotel luxuoso, sentindo as mãos grandes do marido esfregando seu corpo, ensaboando-a, penetrando-a de novo, porque homens da idade de Pedro, quando despertam para uma paixão nova, não param numa vez — eles viram máquinas de foder, insaciáveis, perigosos.
De manhã, quando o sol entrava pelas cortinas de linho da sala, Mariana estava sentada na cadeira da varanda, tomando café preto forte, parecendo a matriarca serena que sempre foi. O celular vibrou. Pedro: *"Bom dia, amor. Estamos indo para o café da manhã. Ketlin quer ir no MASP depois. Saímos amanhã cedo. Sentimos sua falta."*
E uma foto. Ketlin de biquíni na beira da piscina do hotel, o corpo molhado, bronzeado, perfeito, o biquíni azul cortando a carne da bunda de forma indecente, provocante. Ao fundo, desfocado, Pedro estava sentado numa espreguiçadeira, olhando para a garota com uma expressão que Mariana reconheceu — era a mesma que ele tinha quando a conheceu, quando ela era jovem, quando ela era a bonita, a desejada, a escolhida.
Mariana digitou de volta, os dedos firmes, a mente cristalina: *"Fiquem mais dois dias. Aproveitem. Eu cuido de tudo aqui. Beijos."*
Ela precisava daquele notebook. E precisava ver mais. Precisava, doía admitir, mas precisava ver mais deles, precisava daquele mix de angústia e excitação, daquela toxicidade que fazia seu corpo velho, negligenciado, sentir-se vivo de novo.
À tarde, os detetives ligaram. O chip tinha sido extraído. Agora precisavam decodificar os dados biométricos, acessar a nuvem, deletar tudo. Mais três dias. Mariana concordou. E enquanto concordava, enquanto dava ordens práticas sobre a destruição das provas, ela abria o notebook de Ketlin — que agora estava sob seu controle, na mesa de jantar, iluminado pela luz amarela da tarde carioca — e encontrava a pasta de vídeos.
Não era só o vídeo de São Paulo. Havia dezenas. Pedro e Ketlin no banheiro da escola, no carro na garagem subterrânea do prédio, na cama de casal de Mariana — sim, na *cama dela*, enquanto ela estava em reunião de pais e mestres, eles transavam no seu lençol, na sua fronha, deixando o cheiro de sexo impregnado para ela dormir mais tarde, ignorante. Havia vídeos deles no elevador, na praia do Leblon à noite, no banheiro do restaurante favorito do casal, onde Pedro tinha pedido Mariana em casamento vinte anos atrás.
E Mariana assistia a todos. Um atrás do outro. Masturbando-se metodicamente, cientificamente, catalogando cada posição, cada gemido, cada ângulo de penetração. Ela aprendeu que Pedro gostava de pegar Ketlin por trás, segurando aquele pescoço longo, delicado, enquanto a garota apoiava as mãos na janela do quarto deles — o quarto de *todos eles* agora, um território compartilhado — e olhava para o Cristo Redentor ao longe, gemendo *"me fode, me fode, me usa"*. Ela aprendeu que Pedro durava mais com Ketlin do que durava com ela há anos, que ele tinha uma ereção mais dura, mais persistente, que ele gemia mais alto, que ele dizia *"eu te amo"* para a garota — disse, várias vezes, em vários vídeos, enquanto gozava dentro dela, marcando território, traíndo duas mulheres simultaneamente: a esposa com a infidelidade, a amante com a mentira de que algum dia ele deixaria Mariana.
No terceiro dia, quando Pedro e Ketlin finalmente voltaram do aeroporto, Mariana estava no hall de entrada, vestida com um robe de seda que não usava há décadas, maquiada, perfumada, os seios saltados, uma versão sexualizada de si mesma que ela tinha abandonado achando que nunca mais precisaria usar.
"Amor!" Pedro disse, surpreso, deixando as malas na porta. Ao lado dele, Ketlin usava um short jeans que marcava a bunda de forma obscena, uma camiseta cropped que deixava o umbigo à mostra — o umbigo que Pedro tinha lambido no vídeo da pousada em Búzios, sem que Mariana soubesse que eles tinham ido para Búzios, claro, achando que era viagem de trabalho dele sozinho.
"Sejam bem-vindos," Mariana disse, a voz doce, perigosa. "Preciso conversar com vocês dois. Na sala."
Eles sentaram-se no sofá onde Mariana tinha se masturbado vendo os vídeos. A simetria era perfeita, poética. Mariana ficou em pé, diante deles, o robe aberto o suficiente para mostrar a calcinha de renda preta — a mesma que Ketlin usava em alguns vídeos, provavelmente roubada da gaveta de Mariana, uma troca de tokens entre amantes, uma zombaria silenciosa.
"Eu sei de tudo," Mariana começou, vendo o rosto de Pedro perder a cor, vendo Ketlin sorrir aquele sorriso de vitória. "Eu vi os vídeos. Todos. No notebook de Ketlin."
"Mariana, eu posso explicar..." Pedro começou, a voz trêmula, o homem poderoso transformado em menino pego com a mão no pote de doces.
"Não," Mariana levantou a mão. "Não explique.
Silêncio. O ar-condicionado chiava. O som distante do trânsito da Lagoa entrava pelas janelas abertas.
***