Nós dois ainda estávamos ofegantes, o peito subindo e descendo pesado, quando ele finalmente suavizou o aperto e saiu de dentro de mim. Fiquei encarando o teto com manchas de infiltração, me permitindo flutuar naquela brisa anestesiada pós-orgasmo, enquanto ele levava as mãos até a corda nos meus pulsos.
Ele esfregou a pele onde o nó tinha assado e deixado vermelho, e levou meus pulsos brevemente aos lábios.
— Tomou o anticoncepcional hoje de manhã?
— Tomei. — Eu não tinha exatamente feito voto de castidade. Bom, não de propósito, pelo menos. Eu não tinha desistido da ideia de transar e, eventualmente, me tornar um membro normal e não movido pelo medo dessa grande máquina social que as pessoas que não são reivindicadas como escravas geralmente perpetuam. Sabe, aquela vida de "cidadão de bem", carteira assinada e boletos.
— Ótimo. As cartelas ficam comigo agora. — Virei de lado, dando as costas para ele. *Agora ele vai controlar minha saúde igual controlava todo o resto*, pensei com irritação.
Ele deslizou para trás de mim, me puxando com força contra o corpo dele. O corpo poderoso dele fazia o meu parecer minúsculo naquela cama queen size de motel barato e eu comecei a descer lentamente daquele devaneio desconcertante. Eu nem tinha certeza de como tinha deixado ele me levar tão longe.
Minha única defesa era que eu não transava há muito, muito tempo.
Tiveram alguns caras, moleques na verdade, que conseguiram passar da barreira ao longo dos anos. Mas aí eles se inclinavam para me beijar, ou se atrapalhavam com o fecho do meu sutiã, ou tentavam levantar minha saia, e eu era dominada pela sensação de que estava traindo ele. De que eu não tinha o direito de deixar ninguém me tocar. Era absolutamente absurdo, então eu empurrava o pensamento para longe, mas aí eles falavam alguma coisa ou tiravam o cabelo do meu rosto e eu me via, inexplicavelmente, levando eles até a porta e mandando embora.
O queixo dele estava pressionado contra o topo da minha cabeça e eu perguntei, a voz saindo pequena:
— Por quanto tempo?
— Você sabe por quanto tempo.
*Pra sempre.*
A mão dele estava espalmada na minha barriga nua e o polegar dele acariciava lentamente para frente e para trás.
Agora que o medo imediato tinha ido embora, eu podia me render à totalidade da situação. Dessa reivindicação que ele imprimia em mim. Da minha óbvia incapacidade de me controlar perto dele. Dos braços dele. Ao meu redor. Senti que estava escorregando de volta para um tipo de desespero sem esperança.
— Eu não consigo. Eu não consigo fazer isso de novo, Jonas. Não é justo — mas saiu mais estrangulado do que com raiva por causa das lágrimas.
Ele me segurou mais forte e senti o maxilar dele pressionar contra meu couro cabeludo.
— Consegue sim, minha linda. Eu sei que consegue. Você só tem que parar de lutar e se deixar ser minha.
*Nunca*, pensei.
— Você não pode só...?
— Não.
— Por que não? Você sabe que eu não vou contar pra ninguém. Já faz cinco anos!
Ele me virou abruptamente, puxou minha cabeça para trás pelos cabelos e rosnou enquanto tomava minha boca num beijo profundo, quase doloroso.
Ele se afastou para olhar nos meus olhos, a mão ainda fechada em punho nos fios acobreados do meu cabelo.
— Você é minha.
— Isso não é uma resposta! — Comecei a chorar audivelmente e o punho dele no meu couro cabeludo se transformou num carinho calmante. Ele não falou nada por um tempo e eu só chorei no ombro dele enquanto os dedos dele traçavam caminhos leves para cima e para baixo nas minhas costas.
— Vai ser diferente dessa vez, Manu — ele tentou acalmar.
— Como? — engasguei. — Como pode ser diferente se eu ainda sou...? — Eu ainda não conseguia dizer a palavra.
Ele continuou fazendo carinho, falando baixo.
— Vai ser só eu. Só comigo.
Era raro, mas às vezes, nos anos anteriores, eu tinha que atender alguns "sócios" de alto escalão, gente graúda com quem ele negociava, que exigiam isso. Eu odiava essa parte mais do que qualquer outra coisa em pertencer a ele, mas sempre pareceu algo que simplesmente *tinha que ser feito*. Fiquei me perguntando como ele conseguiria me manter só para ele agora.
— Como?
— Eu tenho menos gente pra quem prestar conta agora. — Ele apertou a mão no meu cabelo de novo. — Eu nunca gostei de ter que dividir você.
É, deve ter sido *muito* difícil pra ele, coitadinho.
— E o Leão?
— O Leão sabe respeitar o que é meu.
— E o Marcelo?
Ele não respondeu por um minuto. Acho que às vezes ele pensa no Marcelo como uma extensão dele mesmo.
Finalmente, ele disse:
— Vamos ver. Mas acho que... só se você quiser.
Paralisei em choque. *Só se eu quisesse?* Eu nunca, em um milhão de anos, pensei que ouviria isso dele.
Ele riu, um som grave no peito.
— Dorme um pouco, passarinho. A gente pega a estrada de novo amanhã.
Resmunguei baixinho contra o peito dele:
— Eu não sou pequena e nem sou um passarinho.
Mas eu já estava apagando nos braços dele.
***
Quando acordei, o outro lado da cama estava frio e fui atingida por uma sensação momentânea de perda.
Isso me surpreendeu. Eu tinha passado os últimos cinco anos acordando sozinha em lugares estranhos. Aquilo não era diferente. Empurrei a emoção indesejada para o lado e balancei os pés para fora da cama.
Vesti meu jeans e olhei para o estado irreparável da minha camiseta no chão, me perguntando se ele ia me fazer voltar para São Paulo de topless. Eu não duvidava nada vindo dele.
Por sorte, depois de uma varredura rápida pelo quarto e banheiro, encontrei uma camiseta dobrada ao lado de um bilhete sobre a cômoda, rabiscado por uma mão familiar até demais:
*"Fui buscar comida. Fica aí."*
*Fica aí?* Amassei o bilhete e o atirei com veemência para o outro lado do quarto, soltando um xingamento satisfatório.
Agora que eu sabia que estava sozinha, permiti que a noite passada roçasse na minha memória em pontadas agudas e vergonhosas que faziam meu rosto arder. Eu não conseguia nem digerir aquilo completamente. Passava em cenas curtas e brilhantes, inundando tudo com emoção e depois desaparecendo. O tipo de coisa que pacientes com amnésia experimentam em filmes. A próxima cena sempre mais reveladora que a anterior, até que meu rosto parecia estar pegando fogo. *Eu tinha realmente pedido pelo pau dele?* Puta merda.
Ok, eu admiti, obviamente o babaca ainda conseguia me afetar. Mas isso devia ser por causa da abstinência involuntária induzida pela ansiedade, certo? Da próxima vez eu estaria mais preparada. Respirei fundo. Sim, era isso. Eu só precisava aliviar um pouco do estresse acumulado. Tentei me consolar com isso, mas a memória dele dentro de mim, do meu orgasmo cegante, das mãos dele... Era como uma ferida aberta na minha mente e eu não conseguia parar de cutucar só para ver se já tinha fechado.
Olhei para a porta.
Se fôssemos qualquer outro casal. Se fosse qualquer outro dia. Se eu estivesse em qualquer outro lugar. Eu só me levantaria. Eu pensaria: *estou com fome*. Ou: *queria um pouco de gelo*. E eu levantaria, iria até a porta e abriria. E sairia lá fora. E pensaria: *que dia bonito*. Talvez tivesse alguém do outro lado e nós sorriríamos um para o outro. Talvez dissessem: *dia lindo, né?* Talvez eu dissesse: *pois é, tá mesmo*. E então eu iria buscar comida, ou gelo, ou caminharia. Eu caminharia e nem contaria os passos. Só andaria. Para qualquer outro lugar.
Mas, em vez disso, estou aqui sentada como a porra do bilhete me mandou fazer, pensei com raiva.
Então eu levantei, caminhei até a porta, toquei a maçaneta e puxei com força. *Vai estar trancada*, pensei. Claro que vai estar trancada. Mas não estava. A porta se abriu para o mundo lá fora. Eu tinha esquecido brevemente que existia um mundo lá fora e me perguntei se ele permanecia inalterado depois da noite passada. *Noite passada.* E lá estava ela de novo, piscando em sensações technicolor.
Olhei ansiosamente para o estacionamento do motel. Não tinha ninguém por perto. Há quanto tempo ele tinha saído? Que horas eram? Toquei a gola da camiseta no meu pescoço e ponderei a possibilidade de fugir de vez. Teria que tirar aquilo primeiro. Talvez eu encontrasse um chaveiro gente boa na cidade. Desde que a cidade não fosse muito longe. Tínhamos passado por uma não muito antes de chegarmos aqui, pensei. Será que eu conseguiria chegar lá antes que ele voltasse e percebesse que eu tinha sumido?
Eu tinha que tentar, disse a mim mesma. Se ele me levasse de volta para São Paulo, de volta para aquela comunidade insular e para dentro daquela casa trancada, minhas chances se tornariam infinitamente menos promissoras.
Inspirei o ar fresco e a confiança, e pisei no asfalto quente do estacionamento. Eu já estava ganhando coragem enquanto dava outro passo e mais outro. Meu coração martelava quando virei a esquina e deslizei para o beco apertado entre os quartos e a recepção.
Senti uma onda de possibilidade. Eu já podia me ver escapando. Encontrando um bangalôzinho, talvez em algum lugar perto do mar, na Bahia ou Ubatuba. Sim, teria floreiras verdes nas janelas e à noite eu adormeceria assistindo às luzes de navios distantes piscando contra o azul-escuro do horizonte agitado.
Um dia, daqui a anos, eu estaria podando flores no meu jardinzinho ou estaria na fila do supermercado, ou alguém passaria dirigindo muito rápido, e eu pensaria naquela noite que passamos juntos num quarto de motel na beira de uma estrada em Minas Gerais. *Que noite estranha*, eu pensaria. *Faz tanto tempo. Que garota boba eu era.* E eu balançaria a cabeça e inalaria o cheiro da maresia.
— Aonde você pensa que vai?
Girei nos calcanhares e o peguei parado calmamente na entrada do beco. De repente, meu sonho do velho chaveiro bondoso, do meu pequeno bangalô e de envelhecer de frente para o mar pareceu totalmente ridículo. Era uma noção romântica tão boba que eu quase podia sentir os cacos dela me arranhando enquanto se espalhavam e desmoronavam sob o olhar calmo dele.
— Sair — eu disse. Foi tudo o que consegui pensar.
Ele pareceu levemente divertido.
— É mesmo? Pra onde?
— Não sei — respondi, encarando-o firmemente. — Pro mar, talvez.
— Hmm, é uma caminhada um pouco longa daqui, não acha?
Eu não me movi enquanto ficava ali e, pela primeira vez desde que fui forçada a voltar para a companhia dele, notei a diferença nele. Havia pequenas rugas ao redor dos olhos que não existiam antes, uma cicatriz minúscula cortava a testa dele e me perguntei como podíamos ter ficado separados por tanto tempo a ponto de ele ter se machucado e cicatrizado tão completamente. Na noite passada parecia que não tinha nada, o tempo entre nós derrubado pelo desejo e pelo medo.
Mas agora, à luz do dia, eu podia ver os pequenos desvios que marcam a passagem dos vinte e seis para os trinta e um. Antes, os olhos dele tinham um certo brilho, quase frenético, que agora eu via que tinha sido levemente polido para um conhecimento mais afiado e estável que era, se eu me permitisse admitir, extremamente desconcertante.
Ele não disse mais nada. Não me mandou voltar para dentro. Apenas esperou pacientemente, os olhos duros penetrando os meus, até que suspirei e deixei meus pés começarem a levantar e se mover lentamente na direção dele. Quando passei por ele, ele me seguiu pelo estacionamento e de volta para o quartinho do qual eu tinha me libertado tão recente e euforicamente.
Quando ele fechou a porta, me virei e olhei para ele.
— Eu tinha que tentar.
— Eu sei. — Ele estava colocando o saco de comida na única mesa do quarto, dobrando as mangas da camisa. — Por isso deixei a porta destrancada.
Então nunca tinha sido real. Minha visiozinha ridícula nunca tinha sido nada mais que uma miragem cintilante. Eu devia ter imaginado, na verdade.
Fiz uma carranca para ele e retruquei:
— O que o Marcelo diria se soubesse que você tá comendo essa porcaria?
Ele me lançou um sorriso conspiratório.
— Eu não vou contar pra ele. — Ele se aproximou de mim. — Você vai me dedurar, passarinho?
Ele estendeu a mão para o meu braço e eu recuei enquanto ele me guiava para a mesinha com duas cadeiras.
— Eu te disse pra parar de me chamar assim.
Ele apertou meu braço com mais força e me virou para que eu olhasse direto dentro do azul escuro e cavernoso dos olhos dele, e novamente fui atingida pelo poder que tinha calcificado e endurecido ali ao longo dos anos.
— Como é que é? Você me disse o quê?
O aperto no meu braço estava começando a doer e a memória da punição de ontem ainda estava fresca, então sussurrei:
— Nada. — E então, por precaução: — Senhor.
— Foi o que eu pensei. — Ele assentiu e me sentou na cadeira. — Agora para de fazer bico por causa da sua fuga frustrada. Você não achou mesmo que ia ser tão fácil assim.
— Sei lá — resmunguei. — Navalha de Ockham e tal.
Ele olhou para cima de repente e soltou uma risada seca.
— Como é?
— Sabe, a explicação mais simples...
— Eu sei o que é — ele sorriu, sentando-se e puxando uma batata frita do saquinho de papel. — Só estava lembrando de uma coisa.
— Batata? — Ele estendeu uma para mim através da mesa estreita e eu fechei a boca, sem responder.
Eu esperava parecer desafiadora, mas para meu constante desgosto, na maioria das vezes a provocação acaba parecendo birra em mim. Era totalmente irritante.
— Você que sabe — disse ele, mastigando a batata inteira e pegando outra. Eu estava realmente com um pouco de fome e sabia que se não comesse algo logo, começaria a ficar fraca de novo. Nada inteligente na minha situação atual.
Enquanto pegava outra batata, ele sorriu ainda mais e sustentou meu olhar enquanto mergulhava a mão no bolso e espalhava o conteúdo pela mesa. Olhei para baixo e assisti enquanto ele abria lentamente um sachê, despejava num guardanapo e, depois de mergulhar a batata, a levava aos meus lábios, erguendo uma sobrancelha. Eu tinha uma fraqueza por molho barbecue. Entre outras coisas, obviamente.
Foda-se, não seria a primeira vez que eu pegaria uma batata de uma mão estendida. É praticamente o alimento compartilhado universalmente reconhecido. Talvez eu pudesse permitir isso. Inclinei a cabeça rapidamente e abocanhei. Porra, comida é bom demais. Ele riu da minha expressão de total satisfação e subiu o pé pela minha perna.
Depois disso, deixei que ele continuasse me alimentando. Minha única defesa era que o cheiro estava muito, muito bom, daquele jeito que só as comidas mais artificiais e não saudáveis conseguem simular. Além disso, o pé dele estava subindo e descendo lentamente pela minha panturrilha e eu precisava saciar pelo menos uma necessidade súbita e dolorosa.
Quando terminamos de comer (ou ele terminou), ele empurrou a cadeira para trás e me observou pensativo por um momento. Me senti irritantemente pequena na frente dele.
— Vem aqui.
— Por quê?
Ele inclinou a cabeça e ergueu uma sobrancelha em aviso.
— Eu... eu não sei. — Olhei em volta, desvairada.
— Manuela, vem aqui. — Ele gesticulou para o colo dele. — Agora.
Senti a autoridade naquela palavra e como ela enrolava gavinhas de influência nos meus membros. Quase me movi em direção a ele, mas no último momento me contive e disparei irracionalmente em direção à porta.
Não sei o que pensei que estava fazendo. Só sabia que precisava ficar longe dele. Longe do toque dele. Antes que eu me perdesse no calor avassalador dele contra mim.
Ele me agarrou antes que eu desse dois passos e me jogou sobre o colo dele com a mesma rapidez. Meu jeans e calcinha estavam nos tornozelos num instante e meu corpo inteiro ardeu em humilhação.
Na minha posição atual, minha bunda e minha boceta estavam prontamente disponíveis para ele, e estremeci quando os dedos dele traçaram círculos leves nas bochechas nuas do meu traseiro. Ainda estava sensível por causa do cinto, e isso tornava o contato ainda mais potente.
— Pelo que você está sendo punida? — ele perguntou calmamente.
Me forcei contra ele.
— Eu não sei, foi você quem deixou a porta destrancada!
— Deixei. Mas não te mandei passar por ela. Na verdade, eu te mandei fazer algo bem diferente, não mandei?
Ele pressionou a mão com firmeza contra a minha bunda e eu pude sentir o calor dele penetrando até as dobras que se umedeciam rapidamente logo abaixo.
— Eu não sou cachorro. Você não pode me mandar "ficar". — Tentei me torcer para confrontá-lo.
— Não posso? — Ele deixou um dedo deslizar ociosamente sobre a minha fenda. Eu me contraí e gemi, tentando escorregar para longe, mas a outra mão dele era como um torno na minha lombar.
— Não! Eu sou... — Ele circulou o dedo ao redor da borda dos meus lábios inferiores e eu arqueei o corpo. — Eu sou...
O que eu era?
— Sim? — Ele pressionou contra o ápice das minhas coxas e esfregou aquele pequeno centro nervoso que fazia minha mente ficar em branco.
Ele riu, um som grave.
— Eu nunca disse que você era um cachorro, Manu. A palavra é escrava. Já que continua fugindo da sua memória, vou ter que continuar te lembrando.
Gemi quando ele deslizou um dedo para dentro, passando pelas minhas dobras sem resistência, e esfregou contra mim de ambos os lados. Comecei a arquear contra ele enquanto os dedos conhecedores dele friamente me empurravam para além da razão e direto de volta para aquele desejo indefinível e sem mente que eu tinha jurado abandonar tão virtuosamente hoje de manhã.
— Hmm — ele disse, contemplativo, enquanto a mão se afastava. — Não tenho tanta certeza se você merece gozar agora, Manu. Afinal, isso é uma punição.
Quase chorei de decepção. Eu era realmente tão fácil de manipular assim?
Ele roçou a mão pela minha bunda mais uma vez antes de descê-la com força contra minha nádega direita. Gritei de surpresa e ele disse:
— O que foi isso, Manu?
Estava acontecendo de novo. Eu não conseguia parar.
— Um — sussurrei.
— Não. — A mão dele estalou com força de novo. — Me trate adequadamente.
Apertei os olhos com força e disse:
— Um, senhor.
A mão ardente dele desceu de novo e de novo, prestando atenção equitativa a ambos os lados do meu traseiro dolorido. O quarto se encheu com o som seco e nítido da palma calejada dele na minha pele macia e meus olhos arderam enquanto eu me contorcia no colo dele. Doía. Deus, como doía. Mas tinha outra coisa também. As carícias solícitas dele antes dessa punição tinham provocado algo em mim. Algo sombrio e cruelmente sedutor. E se a dureza que eu sentia roçando embaixo de mim servisse de indicação, ele também não estava totalmente imune.
O ardor crescente das palmadas estava se tornando insuportável quando finalmente desabei sobre os joelhos dele e deixei as lágrimas escorrerem para o chão. Finalmente, a mão dele desceu suave em vez de forte, e ele a esfregou nas minhas costas algumas vezes antes de me puxar totalmente para o colo dele.
Instintivamente me inclinei no peito dele enquanto ele me segurava ali até que eu me acalmasse. A boca dele estava pressionada contra o cabelo bagunçado na minha bochecha molhada e ele beijou a ponta da minha orelha enquanto sussurrava:
— Vou ter que trocar de calça, sua vadiazinha devassa.
Corei com a menção de quão molhada a surra tinha me deixado. Aquilo me confundia e eu não queria pensar a respeito.
A boca dele ainda estava sobre a minha orelha quando ele perguntou:
— Agora, você vai ser boazinha? Eu quero chegar em casa antes de te foder de novo e, no ritmo que a gente tá indo, nunca vamos sair desse quarto.
Quase protestei, mas eu estava seminua no colo dele e em nenhuma posição para discutir, então olhei para os pés dele e cedi:
— Sim, senhor.
Ele me ajeitou no chão e beliscou minha bunda, que devia estar vermelha igual um pimentão.
— Boa garota. Veste a calça e vamos nessa. Quero estar em casa antes do jantar.
***
Estávamos de volta à estrada mais uma vez, envoltos num silêncio denso. Eu estava furiosa comigo mesma por ter sucumbido ao toque dele de novo. Franzi a testa, amassando a cara contra o vidro frio da janela, e fiquei observando a rodovia passar. Eu não entendia. Como ele ainda conseguia fazer aquilo comigo?
Lancei um olhar para ele: uma mão firme no volante do carro blindado, a outra descansando casualmente na porta. Ele parecia relaxado, aliviado até. Aquilo me deixou com mais raiva. Como ele podia estar tão indiferente enquanto eu sentia que estava me afogando?
Levei um susto quando ele me perguntou se eu achava que devíamos parar numa cidadezinha próxima para tomar café. Fiquei surpresa por ele ter sequer me perguntado, mas ele tinha pronunciado o nome da cidade completamente errado. Era um daqueles lugares no interior com um nome de origem indígena ou de algum colonizador antigo que o tempo e o sotaque caipira tinham transformado em algo irreconhecível para quem era da capital.
— A gente podia parar ali em *Pindamoiangaba* — ele disse, embolando tudo, com aquela dicção preguiçosa de playboy de São Paulo.
Por um momento, me ocorreu que eu não deveria contar para ele. Deixaria ele continuar falando daquele jeito ridículo. Ah sim, quase ri, essa seria a vingança perfeita. Eu usaria uma coleira para sempre e ele pronunciaria o nome de uma cidadezinha do Vale do Paraíba errado pelo resto da vida.
— Não é assim que se fala.
— O quê?
Eu disse a ele como os locais falavam. Comendo as sílabas, puxando o "R", transformando aquele trava-línguas numa palavra curta e seca.
— É *Pinda*. Ninguém fala o nome todo. E quando falam, engolem o meio.
Ele olhou para mim agora confuso.
— Isso não faz o menor sentido.
— Eu sei, mas é assim que eles falam. — Dei de ombros e olhei pela janela, sentindo o olhar de soslaio dele queimando em mim.
— Como você sabe disso?
Observei enquanto passávamos zunindo por um ponto de referência familiar. Uma churrascaria de beira de estrada com um moinho de vento falso. Nós tínhamos ido lá uma vez numa daquelas excursões escolares horríveis.
— Eu cresci por aqui — eu disse para uma árvore que passava voando.
— Ah... — ele soou levemente interessado. — Eu não sabia disso.
— Não.
— Acho que sempre pensei que você fosse da capital. Zona Sul, talvez.
— Não. Eu estava na faculdade lá, lembra?
— Ah, sim, é verdade. — Ele voltou a atenção totalmente para a estrada, como se minha vida antes dele valesse pouco mais que uma inspeção rápida e superficial.
Fiquei assistindo enquanto minha infância acelerava e fugia debaixo de mim. Meus pais tinham morrido numa batida numa rodovia perto dali. No meu primeiro ano de faculdade, quando eu era só uma caloura na USP. Claro que no ano seguinte eu já era do Jonas, e por isso nunca mais voltei aqui. Nunca nem tinha passado por aqui assim.
Como uma estranha.