Cláusula de Entrega - Primeiro Ajuste

Um conto erótico de Skuld
Categoria: Gay
Contém 1131 palavras
Data: 07/02/2026 01:15:56

Sempre fui um homem respeitado no meu campo. Meu nome abria portas antes mesmo de eu falar. Nunca precisei de vínculos longos, nem de explicações. Minhas escolhas sempre foram diretas. Sem drama. Desejo nunca foi problema. Sempre soube o que queria, quando queria, e isso bastava. Controle era a regra. Trabalho era suficiente. O resto vinha e ia.

Havia em mim uma estabilidade que não dependia de movimento. Olhos castanho-claros, atentos, treinados para medir antes de reagir. Não eram duros, apenas cansados demais para se surpreender. Cabelos escuros, sempre bem cortados, sem espaço para improviso. Nada fora do lugar porque nada ali era acaso.

O rosto carregava marcas discretas do tempo. Não rugas, definição. Maxilar firme, expressão contida, dessas que não entregam intenção. A barba, quando presente, era curta, precisa, mais disciplina do que estilo. Eu não precisava parecer acessível. Precisava parecer sólido. Isso costuma intimidar mais.

O corpo acompanhava a lógica. Alto, postura alinhada por hábito, não por vaidade. Gestos econômicos, calculados. Eu não ocupava espaço pelo volume, mas pela certeza. Anos de tribunal me ensinaram que autoridade não se impõe com voz alta. Ela se sustenta no silêncio. As pessoas sentem antes de entender. Quase sempre funciona.

Quando ele entrou no meu escritório pela primeira vez, percebi que não estava ali apenas para aprender a lei.

Bateu na porta com dois nós curtos, hesitantes. Abriu devagar demais, como quem testa o terreno antes de avançar.

— Com licença…

A voz saiu baixa. Educada. Contida. Levantou os olhos rápido, encontrou os meus e desviou quase no mesmo instante. Ficou parado perto da porta tempo demais, segurando a pasta contra o corpo como se ainda precisasse de algo para se apoiar.

Não mandei sentar.

O silêncio fez o trabalho.

Ele caminhou até a cadeira, puxou-a, parou de novo. Olhou para mim, esperando permissão. Fiz apenas um gesto curto com a mão.

— Pode sentar.

Sentou rígido, costas retas demais, mãos apoiadas nas coxas. Corpo atento, tenso. O terno era correto, mas não parecia dele. Nada ali parecia totalmente dele.

Havia beleza, mas não do tipo que se oferece. Era quase acidental. Cabelo loiro claro, sempre um pouco desalinhado, caindo sobre a testa como se ele nunca tivesse parado tempo suficiente diante do espelho para decidir o que fazer com aquilo. Os olhos claros chamavam atenção não pela cor, mas pelo movimento. Observavam tudo, como se estivessem sempre um passo atrás do pensamento.

O rosto era jovem, linhas suaves ainda intactas, mas sério demais para a idade. A boca bem desenhada permanecia quase sempre tensa, comprimida, como se segurar palavras fosse um hábito antigo. A pele clara denunciava mais noites acordado do que dias ao sol. Nada nele gritava confiança. Tudo sugeria potencial. Uma beleza que não domina o ambiente, mas se fixa na memória.

Folheei o currículo por formalidade. Ele já estava aceito. Aquilo era parte do jogo. Um jeito simples de prolongar o silêncio e observar.

Virei as páginas sem pressa. A postura entregava o nervosismo. Os dedos batiam de leve na perna, repetitivos, tentando se controlar.

Último ano da faculdade. Bom desempenho. Aluno exemplar. Nada que me impressionasse.

A ficha pessoal estava ali, organizada demais para alguém tão jovem. Órfão desde cedo. Criado pela avó. Nenhum relacionamento duradouro. Indícios claros de uma sexualidade ainda não assumida. Gostos bem definidos. Jogos de tiro como válvula de escape.

Informação suficiente para entender ausências. E necessidades.

— Aqui não é sala de aula — falei, sem levantar os olhos. — Ninguém vai te ensinar passo a passo.

— Eu sei — respondeu rápido demais.

Levantei o olhar devagar. Sustentei. Ele tentou sustentar de volta. Conseguiu por alguns segundos antes de ceder.

— Não — corrigi. — Você acha que sabe.

Levantei da cadeira e contornei a mesa sem anunciar o movimento. Fiz de propósito. Gosto de ver quando o corpo reage antes da cabeça.

Ao me aproximar por trás, a tensão se instalou nele como reflexo. Ficou imóvel, rígido demais, tentando manter uma compostura que já tinha se perdido. Os olhos desceram por um instante além do aceitável, presos à silhueta marcada pelo corte do meu terno. Algo que eu havia ajustado com cuidado antes dele entrar.

Esperei. Não disse nada.

Quando os olhos subiram novamente, ele engoliu em seco. Sabia que eu tinha visto. Sabia que não tinha sido discreto.

E sabia que eu havia permitido.

— Endireite-se.

O corpo respondeu antes do pensamento. Ombros alinhados. Queixo elevado. Respiração contida.

Inclinei-me levemente. Não toquei. Não precisei. A proximidade bastava.

— Aqui — continuei — você entra sabendo que pertence. Mesmo antes de pertencer.

Ajustei o encosto da cadeira. Minha mão passou perto do ombro dele, num gesto técnico, preciso, que não precisava ser tão próximo. Ele respirou fundo. Não se afastou. Houve um descompasso breve, pequeno demais para ser óbvio, grande demais para passar despercebido. O tecido do terno denunciou o que ele tentou esconder. Ele percebeu que eu tinha notado.

Não comentei.

Voltei para a mesa e o observei em silêncio. Havia algo ainda cru ali. Um limite indefinido entre obediência e curiosidade. Entre aprender e se deixar conduzir.

— Você foi aprovado — disse, por fim.

Ele levantou o olhar rápido demais. Surpresa misturada com alívio.

— Mas isso ainda não significa muita coisa — continuei. — Aqui, você tem duas opções.

Apoiei-me melhor na cadeira.

— Pode seguir como um estagiário comum. Cumprir horário. Executar tarefas básicas. Aprender no ritmo de todos.

Deixei a pausa trabalhar.

— Ou pode seguir um caminho diferente. Chefia direta. Meu assistente. Você estará comigo em cada processo, cada audiência, cada decisão. Eu assumo sua formação profissional e pessoal.

Ele não respondeu de imediato. O olhar vacilou por um segundo, como se organizasse algo por dentro.

— Eu quero ser alguém — disse por fim. A voz saiu baixa, firme o bastante para não soar como pedido.

Assenti. Era só a confirmação do óbvio.

— Então vamos deixar isso claro — continuei. — A partir de hoje, eu cuido de tudo.

Inclinei-me levemente sobre a mesa.

— Depois das aulas, eu te busco. Almoçamos juntos. Trabalhamos juntos. Você acompanha minha rotina no escritório e fora dele. Aprende observando, ouvindo, estando presente.

Parei um instante antes de concluir.

— Você só volta para casa para dormir. Além da documentação padrão, me envie seu cronograma de aulas no meu contato particular. A partir de agora, sou eu quem ajusta sua agenda.

— Entendido — respondeu baixo, já de pé.

Assenti uma única vez.

A porta se fechou atrás dele com cuidado demais.

Fiquei sentado por alguns segundos, observando o espaço vazio à frente da mesa. O silêncio voltou fácil. Sempre voltava.

Ele tinha feito a escolha certa. Ou pelo menos a escolha que eu esperava.

Ajustei a gravata e peguei o telefone. Ele já tinha salvo meu número e enviado os horários das aulas, organizados demais para alguém que ainda estava aprendendo a se organizar.

Respondi com um simples ok.

Depois disso, comecei a planejar.

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