A campainha tocou numa tarde morna, dessas em que o dia parece suspenso entre decisão e cansaço. Eu não esperava ninguém. Quando abri o portão, levei meio segundo para reconhecer, não o rosto, mas a postura. Heitor estava diferente na maneira de ocupar o próprio corpo. Mais contido. Como quem aprendera, à força, a não avançar.
— Oi — disse Heitor, parado, mãos nos bolsos, como se não soubesse mais onde as colocar, com um meio sorriso educado demais para ser natural.
Eu respondi no mesmo tom:
— Oi.
Nenhum de nós tentou um abraço. Nenhum tentou intimidade. Era quase irônico, depois de tudo, estávamos ali como dois conhecidos de longa data que não sabiam mais o protocolo.
— Posso entrar? — Heitor perguntou.
— Claro.
A casa estava silenciosa. Meus pais estavam trabalhando. O mundo colaborava com aquele encontro como se quisesse testemunhar o nosso reencontro. Nós fomos para a varanda, um território neutro. Duas cadeiras de madeira, uma mesinha, um resto de sol encostado no chão. O som distante da rua. A casa silenciosa demais para dois fantasmas.
Nos sentamos com espaço entre nós, um detalhe mínimo, mas definitivo. O intervalo antes da primeira frase foi longo o suficiente para revelar que nenhum de nós dois ensaiara aquilo direito. Heitor olhou ao redor antes de falar, como quem procura algo que já sabe que não está mais ali.
— Bonita a casa – comentou, tentando soar casual – Nunca tinha reparado aqui… de verdade.
Eu soltei um pequeno ar pelo nariz.
— Engraçado, né. Você morava a duas quadras.
— Pois é.
Heitor sorriu de canto. Um silêncio breve, não desconfortável, apenas carregado.
— E a mudança? — perguntei — Já se acostumou?
— A mudança foi corrida — Heitor disse — Como sempre.
— Eu imaginei.
— Minha mãe chama de recomeço — pausa — Eu chamo de fuga organizada.
Eu ergui os olhos. Aquilo era honesto. E Heitor raramente era honesto sem defesa. Ele deu de ombros.
— A casa é bonita. Grande. Cara de revista.
Fez uma pausa.
— Mas não parece nossa. Nunca parece.
Eu entendi mais do que respondi.
— Vocês nunca ficam muito tempo no mesmo lugar.
— Acho que a gente confunde movimento com recomeço — Heitor disse, com uma lucidez rara — Parece que, mudando de casa, a gente muda de vida.
Eu o olhei com atenção. Havia algo diferente ali. Menos charme. Menos controle. Mais cansaço.
— Às vezes — respondi lentamente — A gente precisa sair de casa pra não desmoronar junto com ela.
Os olhos de Heitor brilharam, mas ele não deixou escapar nada.
— Você sempre soube nomear as coisas — disse — Eu só sei sentir.
Nós ficamos ali, suspensos, como se o tempo tivesse diminuído o ritmo por respeito.
— E você? — Heitor perguntou – Você tá bem? Como está?
A pergunta era simples. Mas não era superficial. Eu pensei antes de responder, não por estratégia, mas por precisão.
— Estou bem… mais quieto – respondi – Pensando mais antes de sentir. Tentando ser mais lúcido.
Heitor absorveu a palavra como quem sente o peso dela.
— Lúcido dói — ele disse.
— Dói — confirmei — Mas ajuda a organizar os pensamentos.
— Você sempre foi o mais responsável de nós dois.
Eu não sorri dessa vez.
— Eu precisei ser.
O silêncio voltou, mais denso. O vento moveu as folhas do jardim. Pequenos sons do mundo preenchendo o que nós ainda não conseguíamos tocar. Heitor apoiou os cotovelos nos joelhos, olhando para as próprias mãos.
— Eu pensei muito antes de vir.
— Eu imagino.
— Eu vim porque… — ele começou, e parou, respirando fundo — Não vim pra pedir nada – ele disse, rápido demais – Nem pra discutir. Acho que só... Não era certo só desaparecer. Não queria desaparecer sem olhar você nos olhos mais uma vez.
Eu senti o peso disso no peito.
— Você nunca desapareceu — disse — Mas também nunca ficou do jeito que eu precisava.
Heitor abaixou a cabeça por um instante. Depois a levantou, me encarando.
— Eu sei.
A voz saiu baixa. Eu não resgatei a frase. Aprendera a não fazer o trabalho emocional por nós dois. Heitor retomou:
— Eu sei que errei muito com você. Eu falhei com você mais vezes do que consigo contar. Você é tão novo, tão jovem, eu deveria ter cuidado melhor de você.
Eu respondi sem dureza, mas sem aliviar, não para acusar, apenas para reconhecer:
— Não foi só erro. Foi jeito de ser.
Heitor assentiu. Aceitação rara.
— Eu não sabia amar sem controlar — disse — Não sabia gostar sem segurar forte demais.
— Eu sei.
— Você sabe mesmo — Heitor completou, com um meio riso triste.
O nosso olhar se encontrou pela primeira vez com permanência real desde que Heitor chegara. Ali ainda havia algo. Não paixão incendiária, mas calor profundo. Brasa.
— Você mudou — Heitor disse.
— Você também.
— Não o suficiente.
— O suficiente pra perceber as coisas, pelo que elas são — respondi.
Outro silêncio, mas agora respirável.
— Eu achei que você ia me odiar — Heitor confessou.
— Eu tentei — disse, com honestidade limpa — Mas não consegui sustentar o sentimento.
— E o que você sente agora?
A pergunta veio baixa. Sem armadilha. Sem jogo. Eu demorei a responder.
— Eu não idealizo mais você.
Heitor fechou os olhos por um instante e, curiosamente, pareceu aliviado.
— Obrigado.
Eu quase sorri.
— Mas — eu continuei — Não significa que você não foi importante.
Heitor levantou o olhar rápido. Aquilo atingiu.
— Você foi, muito importante — completei — Só não foi o que eu pensei que era.
O som distante de um carro passando na rua. O mundo lembrando que o tempo não parou. Heitor respirou fundo.
— Eu ainda penso em você, bastante.
Eu respondi com delicadeza firme:
— Eu sei.
— Não “sabe” por que acha. Sabe por que sente também.
Não era provocação. Era leitura. Eu não neguei. A verdade, quando madura, não precisa ser dramatizada. O sol já estava mais baixo. A luz dourada recortava o contorno do rosto de Heitor e, por um instante perigoso, tudo pareceu familiar demais. O tipo de instante que desfaz decisões.
Heitor se levantou primeiro.
— Eu devia ir.
Eu também me levantei. Caminhamos até o portão em passos lentos, como quem estica o último fio de presença. Paramos frente a frente, perto demais para sermos apenas dois ex-amantes educados. Formalidade novamente. Escudo retornando.
— Obrigado por vir — eu disse.
— Obrigado por ainda me receber — Heitor respondeu – Se cuida.
— Você também.
Houve meio segundo, aquele intervalo microscópico onde o corpo decide antes da mente. Foi Heitor quem se inclinou. Foi eu quem não recuei. O beijo não teve pressa nem urgência, teve reconhecimento. Sem posse. Sem promessa. Sem futuro embutido. Apenas memória viva tocando memória viva.
Foi lento, contido, cheio de reconhecimento. Um beijo que dizia: isso existiu. Isso importa. Isso termina aqui. Quando nos afastamos, não houve constrangimento, apenas uma tristeza limpa. Heitor sorriu triste, deu um passo para trás, depois outro.
— Tchau, Mateus — disse Heitor, pela primeira vez usando a palavra inteira.
— Tchau, Heitor.
O portão fechou. E, dessa vez, nenhum de nós dois teve a ilusão de que aquilo era apenas mais uma pausa. Eu fiquei na varanda por alguns minutos, sentindo o gosto familiar se dissipar, entendendo, com uma clareza dolorosa, mas limpa, que alguns reencontros não servem para reatar. Servem para encerrar com dignidade aquilo que já foi tudo.
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O convite chegou três dias depois. Não por mensagem longa, apenas uma frase curta, quase neutra demais para ser inocente:
“Se quiser conhecer a casa nova, posso te buscar sábado. Acho que você vai gostar”
Só isso. Curto. Direto. Sem adorno, como se Heitor tivesse aprendido a não disfarçar mais as intenções com excesso de palavras
Eu li. Reli. Não respondi. Não porque não entendesse, mas porque entendia demais. Deixei o telefone sobre a mesa como quem evita tocar num objeto quente. A primeira reação foi recusar, por coerência, por autopreservação, por aquilo que eu vinha repetindo a mim mesmo como um mantra recente: não voltar para dentro do incêndio.
Mas o pensamento não parou aí. Eu tentei racionalizar, como vinha fazendo com quase tudo desde o término. Eu percebi algo desconfortável: não era mais medo de Heitor. Era curiosidade. Não a curiosidade romântica, mas a outra, a de quem precisa olhar a cicatriz de perto para acreditar que fechou.
Havia também outra motivação, mais difícil de admitir: eu queria testar a mim mesmo, testar a minha própria mudança. Queria saber se ainda perderia o eixo perto de Heitor ou se finalmente pisaria em terreno firme. Era menos sobre Heitor e mais sobre quem eu tinha me tornado depois dele.
E havia, eu reconheci com certa vergonha, saudade. Não do drama. Não da vertigem. Mas da presença. Da maneira como Heitor ocupava o espaço, do silêncio confortável entre duas frases, do olhar que parecia sempre me enxergar por dentro.
Aceitar significava risco. Recusar significava negar algo que ainda respirava. Aceitar não era voltar, não era ceder, podia ser apenas... ver. Fui responder apenas no dia seguinte:
“Posso ir.”
Heitor confirmou horário. Sem jogos. Sem insinuação. Sem pressão. O cuidado, agora, era quase cerimonial.
Heitor chegou de carro no meio da manhã. Não desceu. Apenas aguardou, mãos no volante, como quem respeita um limite invisível. Eu entrei. O cheiro do carro era o mesmo. O detalhe absurdo quase me fez rir. Memórias têm olfato.
— Tudo bem? — Heitor perguntou.
Seus olhos, um azul escuro quase cinza, encontraram os meus imediatamente, e algo no meu peito apertou. Quando seus dedos roçaram os meus, ao nos cumprimentarmos, foi como um choque elétrico, breve e intenso.
— Tudo.
— Obrigado por vir.
— Obrigado por convidar – respondi, tentando manter o tom leve, mas minha voz saiu um pouco mais aguda que o normal.
Nós já sabíamos conversar sem tropeçar. Conversamos sobre coisas neutras: trânsito, calor, um professor da escola, uma música nova que Heitor estava aprendendo. Havia cuidado mútuo, como quem sabe que qualquer frase mal colocada pode reabrir uma ferida ainda em cicatrização.
A cidade foi ficando para trás. Novos bairros, ruas mais largas, mais árvores, menos gente andando. O deslocamento físico parecia uma metáfora excessivamente óbvia e, mesmo assim, verdadeira.
— Você não precisava aceitar — Heitor disse em certo momento.
Eu respondi com honestidade simples:
— Eu sei.
— Então por que aceitou?
Eu olhei pela janela antes de responder:
— Pra ver se consigo estar perto sem me perder.
Heitor absorveu aquilo em silêncio. Não tentou brincar. Não tentou aliviar. Respeitou.
A casa nova surgia no fim de uma rua arborizada, afastada, silenciosa. Era maior que a anterior, mas menos ostentosa e mais… viva. Um casarão de linhas antigas adaptadas. Varanda larga. Janelas altas. Um jardim frontal cuidado que parecia ainda estar aprendendo o próprio desenho. Nos fundos, área de lazer, quintal aberto, árvores.
A casa tinha presença. Muros claros, portão de ferro escuro. Por dentro, surpreendia ainda mais: corredores largos, madeira antiga restaurada. Mas o coração da casa era o pátio interno, aberto para o céu, cercado por corredores, com plantas, pedra e luz natural caindo no centro como um relógio solar doméstico, descendo em silêncio.
Eu fiquei parado admirando.
— Gostou? — Heitor perguntou, notando o meu olhar.
— Parece casa de filme — murmurei.
— Minha mãe disse que era “cheia de energia” — Heitor respondeu, rindo baixo — Eu achei que era só velha mesmo.
Eu sorri. O padrasto foi cordial. Miguel foi educado (“não pirem, por favor!! rs”). A mãe calorosa. Nada excessivo. Nada invasivo. A atmosfera doméstica estranhamente leve. Rafael e Júlia não estavam e a ausência deles funcionava como um amortecedor invisível, sem o campo elétrico que eu temia encontrar. Sem eles, era quase… outra família. Eu percebi isso com desconforto e alívio misturados.
O almoço foi… estranhamente leve e agradável. Conversas sobre mudança, bairro, trânsito, escola, música. Risadas pequenas. Nenhuma tensão exposta. Heitor falou pouco, mas quando falava, era sem ironia. Sem personagem. Heitor às vezes me olhava como quem confirma silenciosamente: “está tudo bem.” E estava.
Eu percebi, com surpresa, que estava confortável. E isso me deixou alerta. Conforto, com Heitor, sempre fora o prelúdio de tempestade.
A tarde escorreu em naturalidade e isso nos deixou desprevenidos. Depois do almoço, caminhamos pelo quintal. Heitor me mostrou a área de lazer, o jardim lateral, a varanda externa. Heitor me mostrou onde queria montar um pequeno estúdio de música. Falou de planos vagos, menos grandiosos que antes, mais concretos. Eu ouvia e notei a diferença. Menos fantasia. Mais chão.
Em certos momentos, ficávamos próximos demais, e ambos percebíamos, mas nenhum de nós recuava de forma brusca. Era uma tensão quieta, pulsante.
— Quer uma cerveja? — Heitor ofereceu, abrindo a geladeira.
— Água está bom — respondi, me sentando em um dos bancos altos ao redor da ilha na área gourmet.
Eu observei Heitor se mover, suas costas compridas e esguias, como os músculos se contraíam quando ele esticava o braço para pegar uma garrafa. “Dois meses”, pensei. “Dois meses e ele ainda me faz babar como o adolescente que eu sou”.
Heitor deslizou a água gelada sobre o balcão até a mim, seus dedos roçando os meus propositalmente desta vez.
— Você está diferente aqui — eu disse.
— Nesse bairro ninguém me conhece ainda — Heitor respondeu — Dá pra escolher quem ser.
— E quem você quer ser?
Heitor pensou antes de dizer:
— Menos perigoso pra quem chega perto.
Eu não respondi, mas senti.
O sol começou a descer quando decidi ir embora. Na volta, o silêncio no carro não era vazio, era carregado. Era cheio demais. Não havia plano. Não havia insinuação aberta. Mas havia uma respiração diferente. Heitor dirigia com uma mão no volante. A outra relaxada perto do câmbio. Eu observava e lembrava de coisas que não estavam na mente, mas no corpo.
Quando Heitor estacionou numa rua tranquila, a poucas quadras da minha casa, nenhum de nós dois fez menção imediata de sair.
— Obrigado por ter vindo — Heitor disse, se virando.
A proximidade mudou o ar, que ficou denso sem aviso. Eu respondi baixo:
— Foi bom.
— Eu senti sua falta — Heitor disse, sem me olhar.
A frase não era estratégia. Era exaustão de conter.
— Eu também senti a sua – respondi baixinho.
E foi verdade, o que tornava tudo mais arriscado. O olhar demorou meio segundo além do seguro. O resto foi corpo reconhecendo corpo. Memória corporal tem linguagem própria. Proximidade física reacende mapas.
O beijo começou contido, quase educado, e quebrou em urgência. Não era fome nova, era saudade acumulada. Mãos encontrando rosto, nuca, ombros, costas, não posse, mas necessidade. Não havia delicadeza coreografada, havia saudade física, pulsante.
Heitor se inclinou para frente, tão devagar que eu tive tempo de recuar, mas não recuei. Seus lábios roçaram a pele logo abaixo da minha orelha, quentes e úmidos, e então sua língua traçou uma linha até o meu lóbulo, o sugando com uma pressão que me fez gemer baixo.
Nós nos tocamos como quem confirma que o outro ainda existe, que não foi apenas uma invenção emocional. Heitor encostou a testa na minha por um instante, respirando forte, braços apertando forte demais, como quem tenta parar e falha.
— A gente não devia — ele murmurou, mais um aviso do que um protesto.
Eu respondi com honestidade perigosa:
— Eu sei – murmurei contra a pele dele, minha mão deslizando pela coxa de Heitor, meus dedos se aproximando perigosamente da virilha dele.
Eu não me afastei. Não era impulso juvenil, era recaída consciente. O mundo externo desapareceu por minutos que pareceram suspensos. Calor, pele, respiração, mãos procurando abrigo, não espetáculo, não técnica, só entrega. O tipo de encontro onde o corpo fala o que a razão já tinha decidido calar.
Eu deveria ter negado, deveria ter empurrado Heitor para longe, pegado minhas coisas e ido embora. Mas quando a mão de Heitor finalmente pressionou as mãos contra a minha ereção, através do tecido grosso do meu jeans, eu só consegui arquear as costas, um gemido escapando de meus lábios entreabertos.
O abraço veio inteiro, apertado, daqueles que misturam desejo e abrigo. Beijos no rosto, no canto da boca, no pescoço, respiração quente, dedos que seguravam tecido como quem segura tempo. Não havia brutalidade. Havia intensidade. Não era conquista. Não era jogo. Era recaída emocional.
— Porra — Heitor resmungou, se afastando o suficiente para olhar nos meus olhos — Não vamos fazer isso aqui. Não desta vez.
Eu pisquei, confuso.
— O quê?
Heitor se consertou no banco de repente, girando as chaves do carro para dar a partida.
— Vamos a um motel. Agora.
O meu coração disparou.
— Um motel?
— Sim — Heitor me olhou, sério — Você já esteve em um?
Eu balancei a cabeça, sentindo o calor subir pelo meu rosto.
— Então é hora de conhecer — Heitor disse, com um sorriso que era mais um desafio do que qualquer outra coisa — Vamos logo, antes que eu mude de ideia e te coma aqui mesmo no carro.
