No vigésimo terceiro aniversário de Henrique, foi oferecido um grande baile em nossa propriedade. A nobreza portuguesa ocupava todos os espaços, do saguão principal aos jardins. Senhores e damas transitavam entre bebidas e iguarias, alegres, enquanto a música preenchia o ar e se espalhava pela noite.
Durante horas procurei por Diogo, mas não o encontrei. Nenhum membro de sua família estava presente. À medida que a noite avançava e eu me dava conta de que ele não viria, uma tristeza funda se instalou em meu peito. Henrique permanecia ocupado com os convidados, mas aproveitei um raro momento em que o vi sozinho para sondar a ausência da família de Meneses.
— Estais satisfeito com a festa? — perguntei.
— Sim. Está exatamente como eu esperava. Todos parecem se divertir.
— Imagino que, nas próximas semanas, haverá comentários elogiosos por toda parte. Quem não pôde vir há de se arrepender.
— Sem dúvida.
— Aliás, todos os convidados compareceram? — indaguei, com a voz casual demais para ocultar minhas intenções.
Henrique sorriu de leve.
— Ah, minha irmã… sabes como é. Sempre há cadeiras vazias. Nunca vem todo aquele que é convidado.
Para suportar a ausência de Diogo, fiz companhia a mim mesma com algumas taças de vinho branco. Ao longo da noite, pelo menos três haviam sido esvaziadas sem esforço. Não tive dificuldade alguma em me embriagar sem chamar atenção. Todos estavam entretidos demais para notar a irmã do anfitrião recolhida aos cantos, quase invisível.
Meu corpo tornou-se pesado, e a cabeça, cansada. Cumprimentar, sorrir e acenar drenaram toda a minha energia. Eu era um ornamento da casa, mais um de seus pertences. Nem mesmo o vinho conseguiu despertar em mim disposição para permanecer ali.
— Precisa de algo, senhora? — perguntou Ofélia ao passar por mim. Eu estava recostada em uma das paredes da área externa, observando a dança que se desenrolava no jardim. — Está isolada, apenas com uma bebida por companhia. Parece triste. Isso pode gerar comentários. Não desejas participar da festa?
— Participar? — respondi, mal-humorada. — Há quanto tempo vós conheceis a mim, Ofélia?
— Desde que retornou à casa de vossa família, senhora — disse, um pouco tensa.
— E quantas vezes me viu dançar por livre vontade?
— Não… não me recordo.
— Porque nunca viu. Não sou uma macaca de salão. Prefiro ficar à margem dessas coisas.
Nesse instante, um burburinho percorreu a entrada da propriedade e atraiu minha atenção. Uma carruagem diminuía o passo. A noite estava escura, mas eu enxergava bem o suficiente. Afastei-me de Ofélia e caminhei em direção ao portão. Meu coração acelerava à medida que os contornos do veículo se tornavam mais nítidos.
Era ele.
Diogo desceu da carruagem com agilidade: primeiro a cabeleira negra, depois o corpo inteiro, num salto seguro. Vestia um traje de gala em veludo azul-escuro, a cor de sua família. Endireitou-se e contemplou a residência, enquanto seu olhar percorria a festa. Estávamos distantes, mas eu distinguia em seu rosto algo semelhante a um sorriso animado.
Aquilo me intrigou. Sua família era muito mais rica e poderosa do que a minha; festas mais grandiosas do que aquela lhe eram familiares. Ainda assim, ele parecia admirar-se com as luzes e a decoração.
Então seu olhar encontrou o meu.
Eu estava parada à lateral da casa, com uma taça quase vazia na mão. O sorriso de Diogo se desfez. Seu semblante tornou-se sério, quase tenso. Por um instante, pareceu perturbado. Logo, porém, sua atenção se desviou quando sua irmã desceu da carruagem e tomou-lhe o braço, conduzindo-o para dentro.
Aquela expressão me atingiu de maneira inesperada. Eu imaginara que ele se alegraria ao me ver, como das outras vezes. Irritada, atirei a taça de vinho contra um dos arbustos e corri para dentro da casa, passando pelos fundos e esbarrando em alguns convidados.
Refugiei-me no banheiro e ali permaneci por alguns minutos. Estava furiosa. Por que não me dera atenção? A pergunta martelava enquanto lágrimas pesadas escorriam pelo meu rosto. Batidas na porta interromperam meu tormento. Lavei o rosto às pressas e saí. A maquiagem ainda borrava minha face, e algumas moças que aguardavam o uso do aposento me olharam espantadas.
A festa perdeu todo o encanto. Subi as escadas rapidamente, em direção ao meu quarto. No entanto, ouvi a voz de Henrique conversando com alguém ao final do corredor. Não queria que me visse com o rosto marcado pelo choro, a pintura borrada e a embriaguez mal disfarçada.
Entrei às pressas na biblioteca e permaneci ali, às escuras, esperando que o tempo passasse. Pela janela, observei a festa que seguia no jardim. Sem perceber, procurei Diogo entre os convidados que riam e dançavam sob as luzes.
Respirei fundo, tentando expulsar do peito a chateação e a angústia que tornavam meu ar pesado. Eu queria vê-lo, dizer-lhe verdades duras, mas quais? Não desejava parecer carente, nem uma mulher que se desfaz ao menor sinal de indiferença. Sempre me julguei forte, mas naquela noite compreendi que talvez fosse mais frágil do que supunha.
Eu estava cansada de perder as pessoas que amava.
De repente a porta se abriu num solavanco. Quem encontrei adentrando o recinto, me fez desacreditar em meus olhos. Era Diogo, passando pela porta e se aproximando a passos apressados. Nossos corpos ficaram com pouco espaço entre eles. O filho do Conde se aproximou mais um pouco e então eu recuei. Pus uma mão espalmada entre nós, como um claro aviso: não se aproxime. Havia medo em meus olhos. Eu me perguntava se ele conseguia perceber aquilo. Era a primeira vez que estávamos sozinhos em um lugar fechado. Primeira vez que nos víamos que ele havia me tocado.
O toque era o que eu mais me lembrava. O toque proibido, flagrado por Ofélia. Eu ainda ansiava por mais daquilo. Eu também me perguntava se ele podia ler o desejo em meus olhos. Em resposta, ele ignorou o sinal que pedia distância e se aproximou mais. Uma aproximação perigosa. Sua mão envolveu minha nuca. Sentir o seu calor me fez quase perder a consciência. Não pude reagir, quando de imediato, fui surpreendida por um beijo firme, invadindo meus lábios e roçando em minha língua.
Suspirei de alívio ao reencontrar aquele sentimento de conforto que sentia quando estávamos juntos. Parecia que minha alma, há tempos dividida, finalmente se reconectava com a sua outra metade.
Joguei meu braço ao redor de seu pescoço e me apoiei meu peso sobre ele. Suas mãos pesadas e fortes tocavam o meu corpo de maneira exploratória. Eu acariciava seus cabelos e descia meus dedos até seus braços, seu abdômen e, o que nos surpreendeu, seu órgão, que se apresentava incrivelmente sexual.
Ele desabotoava o meu vestido. Instintivamente íamos nos despindo enquanto nosso beijo se acalorava. A biblioteca não parecia arejada o suficiente para suportar tamanho desejo que ebulia de nós dois. Nossas mãos nos exploravam, nossos corpos se entrelaçavam e nossas almas se agitavam, conforme a nossa dança sensual ia progredindo.
Quando finalmente fiquei nua. Envergonhei-me do meu pudor, mas ele não deixou me cobrir. Diogo me apoiou em uma das estantes e se abaixou perto de mim, de maneira que seu rosto ficou entre minhas pernas, na altura do meu púbis. Sua língua quente, arrastou-se pela minha vulva, depois invadiu meus lábios e brincou com meu clitóris. Foi prazeroso, mas ele não se demorou por muito tempo ali, parecia que apenas queria provar o meu sabor. Umedecer-me para atender a outras urgências que precisavam ser atendidas.
Ele me virou de costas, apoiando meu peito na estante e cuidadosamente introduziu-se em mim. Meu corpo o acolheu, com um pouco de resistência, mas de bom grado. Não poderia ser mais grata pela música alta que tocava na festa do que naquele momento. Nossos gemidos não eram tímidos, os meus principalmente. Diogo, com suavidade, massageava o mesmo ponto em minha vulva onde sua língua anteriormente havia caminhado. Seus dedos úmidos, moviam-se em vai-e-vem, de maneira que meu corpo produzia arrepios em resposta aos seus estímulos.
Eu conhecia aquele caminho. Já havia me tocado daquela maneira antes, rumo a tal explosão de felicidade, mas eu pensava que apenas eu sabia qual era a estrada que me levava ao paraíso. Diogo, me mostrou que eu estava enganada sobre isso. Rapidamente, meu corpo já tensionava-se e minha coluna se arqueava a espera da grande explosão de prazer que estávamos prestes a presenciar.
E quando chegou, perdi as forças. Diogo, com seus braços firmes, não me deixou seder ao chão. Apoiou o meu corpo frágil e débil e com a gentileza de um cavalheiro e me deitou no chão, em cima de seu peito enquanto juntos ofegávamos. Seu corpo ainda estava ativo. Eu não havia provocado nele a grande explosão. Tentei tocá-lo, mas Diogo interrompeu minha mão.
— Eu fui fraco — admitiu em um sussurro.
Depois disso, afastou nossos corpos e se pôs de pé. Meus olhos o acompanhavam confusos enquanto ele se vestia. Ele abotoava sua blusa apressado quando resolveu olhar para mim de volta. Seu olhar trazia tristeza. Parecia querer chorar.
— Perdoe-me.
— Não tenho do que perdoar-te. Foi bom para mim. Há tempos meu corpo ansiava por teu toque, Diogo.
Ele fechou os olhos, como se precisasse se concentrar agora no laço que fazia em seu calção.
— Eu te decepcionei, é isso? Me entreguei rápido demais?
Diogo soltou o ar de seus pulmões enquanto se ajoelhava de frente para mim. Ele segurou meu rosto e depositou um beijo forte e apaixonado em meus lábios.
— Não digais bobagens! Hoje foi o dia mais feliz da minha vida, Aldonça. E esse é exatamente o meu martírio. Percebo que não tenho mais forças para controlar a paixão que arde em meu corpo por você.
— Então o que te aflige?
Ele apertou os olhos, como se aquela pergunta o tivesse causado imensa dor. Levantou-se, terminou de vestir-se e saiu da biblioteca depressa sem me dar qualquer resposta.
Lá estava eu: frágil, nua e sozinha. A paixão que despontava dentro de mim fazia-me sentir como se estivesse abrindo-me o peito, como uma flor a desabrochar. Era um renascimento. Eu sabia que nunca mais seria a mesma a partir daquele momento. Um plangor rompeu do fundo do meu peito, alimentado pela angústia que se apertava em nó exatamente no mesmo lugar de onde ele brotava.