Corpos, Desejos e Silêncio... Historias que Nunca Ousamos Dizer. Capítulo 18 — O Que Me Espera?!

Um conto erótico de Bernardo
Categoria: Gay
Contém 4836 palavras
Data: 01/02/2026 19:04:48

O vapor ainda pairava no ar quando empurrei a porta do banheiro. O espelho embaçado refletia apenas silhuetas, mas eu sentia cada centímetro do meu corpo desperto, quente, pulsando. Enrolei a toalha na cintura sem pressa, deixando o tecido macio repousar baixo o suficiente para revelar o que quisesse ser visto — coxas ainda úmidas, o abdômen marcado pelo calor do banho, o peito livre, respirando.

Caminhei até o quarto sentindo a mudança do clima na pele. O frescor do ambiente contrastava com o calor que ainda vinha de dentro. Passei a mão pelos cabelos molhados, jogando-os para trás, e foi impossível não notar como meus ombros relaxavam aos poucos, mesmo com a cabeça cheia.

Peguei o celular largado sobre a cama. A tela apagada parecia quase um aviso. Inspirei fundo, deixando o ar entrar devagar, como se me preparasse para um impacto inevitável.

— É… — murmurei para mim mesmo, soltando o ar com um meio sorriso cansado. — Tô de volta ao mundo real. Vamos resolver tudo o que tem pra resolver.

Sentei na beira da cama, a toalha ajustada de qualquer jeito, as pernas levemente abertas, o corpo ainda solto demais para a quantidade de realidade que estava prestes a encarar. Toquei na tela. O celular despertou junto com tudo o que eu havia deixado em espera.

As primeiras notificações vieram em cascata. O nome do Arthuro apareceu repetidas vezes. Áudios. Muitos áudios.

Cliquei no primeiro.

— Meu, o que que aconteceu? Te liguei várias vezes e você não me atendeu. — Dizia Arthuro

Deixei o celular apoiado na coxa, ouvindo enquanto passava a mão distraidamente pelo peito, sentindo a pele ainda sensível.

— Bernardo, para de sacanagem, eu tô te ligando, você não me atende. O que que tá acontecendo?

Sorri de canto. Arthuro sempre foi assim: intenso, direto, impaciente de um jeito quase carinhoso.

O áudio seguinte veio sem intervalo.

— Bernardo, já liguei até pra sua casa. A gente tem algo combinado pra hoje. Eu espero que você não fure.

Inclinei a cabeça para trás, encarando o teto por um segundo, como se pudesse negociar com o universo.

— Então, beleza, eu tô mudando aqui o que a gente ia fazer e mais tarde eu chego aí na sua casa, tá? Já até combinei com a sua mãe, tudo direitinho.

Levantei uma sobrancelha.

— E é isso. Até mais tarde. Quando puder, você me retorna o contato.

Quando o áudio terminou, eu soltei uma risada baixa, quase abafada, passando a mão pelo rosto ainda úmido.

— Nossa… como ele é impaciente — falei sozinho, balançando a cabeça, divertido.

Apertei para gravar um áudio de resposta. Ajustei a postura sem perceber, como se ele pudesse me ver. A toalha escorregou um pouco mais na coxa.

— Oi, Arthuro… boa tarde. — minha voz saiu tranquila, ainda levemente rouca por causa do banho. — Então, a minha mãe comentou que você falou que vai fazer algo aqui em casa e tudo mais. Eu não sei o que você tá aprontando, mas espero que não seja nada tão grandioso assim, tá?

Pausei um segundo, respirando.

— Eu cheguei em casa quase agora, vou descansar um pouco. E já que você já organizou tudo… eu te espero. Até mais tarde.

Enviei.

Antes mesmo de bloquear a tela, o celular vibrou de novo. Arthuro já estava ouvindo. Ri sozinho, incrédulo com a velocidade.

Novo áudio.

— Porra, Bernardo… você demorando pra responder, pensei até que tinha acontecido alguma coisa.

Fechei os olhos por um instante, ouvindo.

— Mas tudo bem. Mais tarde eu chego aí com algumas coisas pra gente jantar, tá? E comemorar que você passou.

Meu peito se apertou de leve. Aquilo tinha um peso maior do que ele imaginava.

— Já falei com a Tia Madalena… vai ser algo simples.

Simples. Duvido.

— Ah… quando eu chegar aí, eu tenho uma surpresa pra você. Algo que eu aprontei.

Abri os olhos devagar.

— Beleza? Até mais tarde.

Encostei o celular no colchão e soltei um suspiro longo, passando a língua pelos lábios.

— Que será que ele fez… — pensei em voz baixa.

Curti o áudio, mais por carinho do que por certeza, e segui para as outras mensagens.

Havia uma do Arthur — Abri. Simples. Bom dia. Perguntava como eu estava. Nada de cobrança, nada de pressão. Só presença.

Respondi em texto, sem pensar demais. Disse que estava tudo bem, que tinha saído para me divertir um pouco, esfriar a cabeça, e desejei um ótimo final de semana.

Enviei.

Nenhuma resposta imediata.

Franzi levemente o cenho, encarando a tela apagada.

— Ué… — pensei. — Com essa perna lesionada, ocupado com o quê?

Nem tudo precisava de resposta imediata.

Rolei a tela.

O nome do Yan apareceu. Várias mensagens. Fotos.

Abri a primeira. Ele treinando. O corpo em movimento, o suor marcado, aquele jeito de provocar sem pedir permissão. Um sorriso involuntário surgiu no meu rosto. A toalha agora parecia ainda mais irrelevante.

As mensagens seguintes vinham em horários diferentes. Um “sumido” perto do almoço. Um “tá tudo bem?” mais tarde. E, por fim, um simples “tô com saudade”.

Gravei um áudio.

— Yan… boa tarde. — deixei a voz fluir, sem pressa. — Que gostoso você nessa foto, hein?

Passei a mão pela coxa enquanto falava.

— Tá tudo bem sim. Eu tinha te falado que ia me divertir no sábado… aproveitei pra espairecer algumas coisas.

Respirei.

— Se cuida, bom sábado pra você também. E sobre amanhã, a gente vai se falando até mais tarde, tá? Beijão.

Enviei.

Nenhuma resposta imediata também.

E então… veio o número que fez meu estômago revirar.

Senhor Juan.

Endireitei a postura sem perceber. O clima mudou. Abri as mensagens com um peso diferente no peito.

As anteriores ainda eram suportáveis. Convites insistentes para conversar. Mas as mais recentes… não.

Li a primeira.

— Bernardo, olha só. Eu espero seriamente que você nem pense em abrir a boca sobre o que você viu hoje.

Meu maxilar se contraiu.

— Até porque, né? Eu acho que você tava fazendo a mesma coisa.

Soltei um riso seco, sem humor algum.

O áudio seguinte começou a tocar. A voz dele vinha trêmula, tensa.

— Porra, Bernardo… é o seguinte… olha só…

Suspirei fundo.

— Desculpa… desculpa por aquilo que você viu hoje. E me desculpa pelo jeito que eu fui contigo.

Fechei os olhos.

— Mas a gente precisa conversar. Eu já falei isso várias vezes. A gente tem uma coisa pra resolver.

Apertei o celular com mais força.

— Então, até a gente resolver isso, eu espero que você não abra a boca. Não fale nada, tá?

O áudio terminou.

Abri os olhos, irritado, cansado, sentindo o peso daquela presença que insistia em não ir embora.

— Que saco… — murmurei. — Eu não aguento mais.

Digitei. Sem áudio. Sem intimidade. Sem brecha.

— Ok, Juan. Fica tranquilo. Eu não vou falar nada pra ninguém. Eu não tenho nada a ver com a sua vida, assim como você não tem nada a ver com a minha. Me esquece. Me deixa em paz.

Continuei.

— Eu não preciso e nem quero ninguém me controlando. Vive a sua vida em paz, que eu já estou vivendo a minha. Não tenho nada pra conversar com você. Espero que tenha entendido.

Enviei.

Larguei o celular na cama e passei as duas mãos pelo rosto. A toalha já nem parecia suficiente para cobrir o turbilhão que eu sentia por dentro.

Ali, sentado, ainda quente do banho, cercado por desejos, cobranças, promessas e ameaças, eu entendi:

o descanso tinha acabado.

O mundo real estava de volta.

E ele vinha cheio de coisas à minha espera.

Depois de responder todas as mensagens, fiquei alguns segundos pensando retornei ao celular abri a conversa com o Jonas por último. Era inevitável. O nome dele ali, recente demais, quente demais.

Digitei com calma, sentindo ainda o corpo relaxado pelo banho, a pele sensível, o cheiro de sabonete misturado a algo que eu sabia que não tinha ido embora totalmente.

— Oi, Jonas. Boa tarde. Espero que você tenha chegado bem. Queria agradecer pelo dia de hoje. Foi sensacional. Muito bom mesmo. Bom descanso pra você e um ótimo final de semana.

Enviei. Não fiquei esperando resposta. Aquilo bastava por agora.

Conectei o celular ao carregador, deixei-o sobre o criado-mudo e me levantei. A toalha ainda estava presa baixa na cintura, cobrindo apenas o necessário. Caminhei até o espelho do guarda-roupa e observei meu reflexo com mais atenção. O banho tinha relaxado meus músculos, mas não tinha apagado os sinais do dia. A marca do sol delimitava meu corpo com precisão, o contraste da pele mais clara com a mais bronzeada desenhava um mapa íntimo da minha própria exposição.

— Nossa… — murmurei, passando a mão pelo abdômen. — Agora eu realmente tô bem gostoso com essa marquinha.

Troquei a toalha por um short leve, branco, desses de futebol, deixando o corpo respirar. O tecido fino acompanhava meus movimentos com facilidade demais. Saí do quarto, desci as escadas e encontrei minha mãe na cozinha.

— Mãe, vou descansar um pouco — avisei. — Se o Arthuro chegar, é só me chamar.

Ela concordou com a cabeça, distraída com alguma coisa no fogão. Voltei pro quarto, me joguei na cama e, sem nem perceber, apaguei.

O sono veio pesado, mas não profundo. Um daqueles estados em que o corpo dorme, mas a mente ainda flutua. Não sei quanto tempo passou. Quando acordei, ou quase acordei, ouvi barulhos distantes — vozes abafadas, passos pela casa. A porta do meu quarto se abriu e fechou com cuidado.

Senti o colchão afundar levemente ao meu lado.

Uma mão percorreu meu corpo por cima do tecido do short, lenta, reconhecendo, até parar exatamente onde não deveria parar. Um aperto firme, íntimo demais para ser engano.

— Ber… acorda.

A voz baixa, próxima demais do meu ouvido.

Eu resmunguei, ainda tentando me manter naquele limbo confortável entre dormir e despertar.

— Bernardo… — a voz insistiu, acompanhada de outro toque, mais direto.

Aquilo foi o suficiente. Virei rápido, o susto misturado ao reflexo.

— Que porra é essa, Arthuro? Tá maluco?

Ele riu, completamente à vontade, sentado na minha cama como se sempre tivesse pertencido ali.

— Assim você acorda, né, seu safado? — disse, antes de dar um tapa rápido e provocativo na minha bunda.

— Você perdeu o juízo? — reclamei, ainda meio sonolento.

— Não. Eu cheguei — respondeu, simples. — Você que tava aí, largado, dormindo. E, olha… seu quarto não mudou nada.

— Como assim?

— Continua bonito. Limpo. Organizado. Bem você — comentou, olhando ao redor.

Ainda tentando organizar os pensamentos, sentei na cama e passei a mão pelo rosto.

— Levanta — ele disse, se pondo de pé. — Vamos lá pra baixo. Já trouxe as coisas pra gente jantar.

— Sério que você preparou um jantar?

Ele riu.

— Preparar é uma palavra forte. Eu comprei. Mas é com carinho.

Suspirei, me levantando.

— Tá bom. Só vou trocar de roupa.

— Te espero lá embaixo — respondeu. — Vou conversando com seu pai.

Assim que ele saiu, fui direto ao banheiro. Escovei os dentes às pressas, joguei água no rosto e troquei de roupa. Cueca, um short preto jeans, camiseta preta simples, dessas de academia. Olhei meu reflexo mais uma vez.

— Esse cabelo tá um caos… — murmurei.

Peguei um boné e coloquei virado pra trás. Resolvido.

Quando desci, Arthuro já estava na sala, conversando com meus pais. A mesa me chamou atenção de imediato. Arrumada. Um jantar completo. Um bolo com meu nome escrito. Duas garrafas de vinho.

— Nossa… — escapou de mim, genuíno.

— Vamos comemorar que você passou — ele disse, orgulhoso.

Sentamos. Brindes, risadas, conversas leves. Meus pais perguntaram do Arthur, da recuperação, da família. O clima era bom, confortável, quase doméstico demais para o turbilhão que eu ainda carregava por dentro.

O jantar passou rápido. Quando terminamos, continuamos sentados à mesa, até Arthuro se inclinar na minha direção.

— Ber… vamos lá fora rapidinho?

— Agora?

— Quero te mostrar uma coisa.

Pediu licença, educado como sempre. Meus pais ficaram dentro. Saímos. Assim que atravessamos o portão, ele segurou minha mão de forma natural, instintiva, como se fosse o gesto mais óbvio do mundo.

— O que foi que você aprontou? — perguntei.

— Olha ali.

Segui o olhar dele. E então vi.

Uma moto. Imponente. Nova. Brilhando sob a luz da rua.

— Não acredito… — falei, surpreso. — Você comprou uma moto?

Ele sorriu largo.

— Comprei.

Me aproximei e o abracei forte.

— Parabéns, Arthuro. De verdade. Eu sei o quanto você queria isso.

— Sempre quis — respondeu. — E já não dava mais pra dividir carro com meu pai e com o Arthur.

— Eu entendo.

— Queria te contar isso. Queria dividir essa conquista com você.

Dei um beijo rápido no rosto dele, espontâneo demais. Ele me segurou um pouco mais do que o necessário. Nossos rostos ficaram próximos. Próximos demais.

Meu corpo reagiu antes da cabeça.

— Arthuro… aqui não — sussurrei. — Meus pais estão lá dentro. A gente tá no meio da rua.

Ele respirou fundo, se afastando.

— Tá. Foi empolgação.

— Como sempre — sorri.

Caminhamos até a moto. Ele começou a me mostrar, falando com brilho nos olhos. E enquanto ele falava, eu percebia: aquela noite ainda estava longe de terminar.

Depois que voltamos para dentro de casa, o clima se acomodou numa leveza gostosa. Meu pai abriu a última garrafa de vinho, minha mãe trouxe os pratos e o bolo acabou indo para a mesa de centro da sala. Sentamos todos ali, próximos, sem formalidades. Era uma dessas noites em que ninguém tinha pressa, como se o tempo tivesse diminuído o passo só para acompanhar o momento.

Arthuro comentava animado sobre a moto. Falava dos detalhes, do modelo, da sensação de finalmente ter algo que era só dele. Meus pais ouviam atentos, elogiando, dizendo como ele sempre foi determinado, como merecia aquela conquista. Eu observava, orgulhoso. Havia algo bonito em vê-lo feliz daquele jeito — um brilho nos olhos que não era só vaidade, era realização.

— Eu ainda tô meio sem acreditar — ele disse, rindo. — Parece que só agora caiu a ficha.

— Isso é coisa de quem conquista algo grande — meu pai comentou. — A gente demora pra entender que é real.

Arthuro olhou pra mim nesse momento. Um olhar rápido, mas carregado de significado. Como se dissesse: você faz parte disso também.

Cortamos o bolo. Doce na medida certa. Conversa solta. Risadas. O tempo passou sem que eu percebesse. Em algum momento, já sentados no sofá, com as taças quase vazias, Arthuro se inclinou na minha direção.

— Bêr… vamos dar uma volta rápida?

Olhei pra ele, depois pros meus pais.

— Rapidinho — ele reforçou. — Só pra esfriar a cabeça.

Minha mãe hesitou.

— Mas vocês beberam…

— Foi só uma taça, tia — ele respondeu com aquele tom calmo e seguro. — Prometo que trago ele logo.

— É, mãe — completei. — A gente vai ali e volta.

Ela assentiu, ainda meio desconfiada.

— Tá bom. Mas não demorem.

Do lado de fora, o ar estava mais fresco. Só ali eu reparei melhor nele. Arturo estava simples, mas absurdamente atraente. Bermuda jeans, chinelo, camiseta preta sem mangas. Os braços à mostra chamavam atenção — fortes, marcados, vivos. Havia algo de muito masculino nele, mas sem dureza. Um corpo confortável em si mesmo.

— Você tá muito bonito — falei, sem pensar demais.

Ele sorriu, daquele jeito meio contido.

— Obrigado.

A moto estava ali, imponente. Quando subi, procurei apoio.

— Não — ele disse, virando um pouco o tronco. — Segura em mim.

Passei os braços pela cintura dele. Senti o corpo firme, quente, presente. Vestimos os capacetes.

— Vou te levar num lugar — ele disse.

— Arthuro… já tá tarde.

— Confia — respondeu. — Você vai gostar.

A moto cortou a rua. O vento batia forte, o som do motor preenchia tudo. Eu segurei mais firme, encostei o peito nas costas dele e, sem perceber, apoiei a cabeça ali. Era uma sensação de abrigo. Segurança. Algo que ia além do físico.

Quando reconheci o caminho, meu estômago deu um salto.

Praia.

A nossa.

Paramos na orla. Ele desligou a moto e virou o rosto pra mim.

— Seu lugar preferido.

Desci com cuidado. Ele segurou minha mão por um instante. Foi até um quiosque e voltou com duas águas com gás.

— Vamos andar um pouco?

Tiramos os chinelos e caminhamos pela areia. O mar estava escuro, mas constante. Sentamos de frente pra água. Ele abriu as garrafas, me entregou uma e tirou uma bala do bolso.

— Ajuda a disfarçar o vinho.

— Você sempre preparado.

— A gente aprende — respondeu, sorrindo.

Ficamos em silêncio por alguns segundos, só ouvindo o mar.

— Eu tô muito feliz — ele disse, enfim. — Pela moto… pelo momento… por você também.

— Eu sei — respondi. — E eu fico feliz por você. De verdade.

Ele respirou fundo.

— Ainda falta uma coisa pra fechar esse dia.

Olhei pra ele.

— Eu sei.

Ele tocou meu queixo com cuidado, virou meu rosto. O beijo veio lento, profundo, carregado de intenção. Não tinha pressa, mas tinha vontade. Quando nos afastamos, ele encostou a testa na minha.

— Bêr…

— Oi.

— Posso te perguntar uma coisa?

— Desde quando a gente pede permissão?

Ele sorriu de leve, mas havia nervosismo.

— Entre você e o Yan…

Antes que ele terminasse, completei:

— Você quer saber o que eu sinto por ele.

Ele assentiu.

— Eu só queria entender.

Respirei fundo. O mar seguia ali, indiferente à confusão dentro de mim.

— Então, Arthuro…

O som do mar continuava constante, quase hipnótico. As ondas quebravam com regularidade, como se o mundo seguisse em frente indiferente ao nó que se formava no meu peito. Arthuro estava sentado à minha frente, o corpo levemente inclinado, os antebraços apoiados sobre os joelhos. O vento mexia a barra da camiseta dele, e eu percebia como ele respirava mais fundo do que o normal.

— Então, Arthuro… — comecei, a voz baixa, medida. — Entre eu e o Yan ainda é muito cedo pra dizer qualquer coisa.

Ele levantou os olhos pra mim, atento.

— Eu sei que eu tô curtindo ficar com ele — continuei. — Ele é um cara bacana, cuidadoso… até agora tem se mostrado alguém interessante. Mas é isso. Sem promessas, sem rótulos.

Arthuro assentiu devagar, como quem processa cada palavra.

— O Yan é muito legal mesmo — ele disse. — Responsável, entregue… e você sabe, né? Eu não te apresentaria alguém em quem eu não confiasse.

Sorri de canto, tentando aliviar a tensão.

— Eu sei disso. Mas… por que você quer saber?

Ele passou a mão pela nuca, um gesto nervoso que eu conhecia bem. Olhou pro mar, depois pra mim de novo.

— Porque você sabe que eu gosto de você, Bêr. — A voz saiu mais baixa. — E não é só como amigo.

Senti o impacto da frase antes mesmo de responder. O silêncio entre nós ficou mais denso.

— Você gosta de mim… — repeti, devagar. — Mas?

Ele suspirou.

— Eu não sei se eu tô preparado pra… pra alguma coisa.

Inclinei um pouco o corpo pra frente.

— Pra alguma coisa com um homem? — perguntei, sem dureza.

— Não exatamente isso — ele respondeu rápido. — É mais… qualquer coisa que fique séria demais agora. Na minha vida. Eu ainda tô meio bagunçado.

Observei o rosto dele. Os olhos sinceros, a boca tensa, o corpo inquieto.

— Eu te entendo, Arthuro — falei com calma. — Você saiu de um relacionamento recente. A cabeça fica confusa mesmo. E você sempre disse que a sua experiência com homem foi… pontual. Breve.

Ele riu sem humor.

— É. E, sendo bem honesto, além dessa experiência único homem que realmente esteve perto de mim desse jeito… foi você.

Essa frase ficou suspensa no ar. Eu mantive o olhar firme.

— E o que você sente quando diz isso?

Ele desviou o olhar por um instante.

— Curiosidade. Vontade. Coisas que eu não sei explicar direito. Mas eu não quero me rotular, Bêr. Nunca quis. Alguns meses atrás eu me via como hétero. Hoje eu encaro isso como… curiosidade.

Inclinei a cabeça, analisando.

— Curiosidade, Arthuro? — perguntei. — Então, pra você, a gente se beijar… ou acontecer algo entre nós… seria só isso?

Ele se apressou:

— Não, não é bem isso. É mais como… sei lá… uma broderagem.

Soltei um ar pelo nariz, quase um riso curto.

— Broderagem? — repeti. — A conversa que a gente teve dias atrás não parecia nada com isso.

Ele passou a mão pelo rosto, frustrado.

— Cara, eu não tô sabendo me expressar. Eu sei que eu gosto de você. Eu sei que eu quero viver isso com você. Mas eu penso muito no depois. No que isso vira. No que pode acontecer.

Meu peito apertou.

— Arthuro, alguns dias atrás você parecia mais decidido. Mais entregue. Foi por isso que eu me permiti sair da linha da amizade. — Fiz uma pausa. — Mas se isso for só um experimento pra você… algo pra testar… eu prefiro que não aconteça.

Ele me olhou, surpreso.

— Eu continuo te amando como meu melhor amigo — continuei. — E quero ser amado e preservado assim também. Se for pra ser só uma experiência, a gente pode fingir que nada aconteceu. Eu fico bem com isso. De verdade.

O mar rugiu um pouco mais forte naquele instante.

— Porque se a gente cruzou uma linha, Arthuro, nós dois somos responsáveis por isso.

Ele se aproximou devagar, o corpo entrando no meu espaço. A mão dele subiu até meu rosto, quente, firme. Por um segundo, pensei que ele fosse me beijar. Mas virei o rosto antes.

— Você não me respondeu.

Ele ficou ali, tão perto que eu sentia o calor do corpo dele.

— Bêr… — disse, quase num sussurro. — Eu sei que eu gosto de você. Eu sei que eu te quero. Mas talvez o seu agora não esteja preparado pro que o meu agora quer.

Meu coração acelerou.

— O que você quer, Arthuro? — perguntei, encarando-o. — O que isso significa?

Afastei um pouco o rosto, criando espaço, mas sem me levantar.

— Só estamos nós dois aqui. A gente tem tempo. Você pode falar. Eu vou te ouvir.

Ele ficou em silêncio por alguns segundos. Os olhos dele vagaram pelo meu rosto, como se procurassem coragem em cada traço.

O vento passou entre nós, trazendo o cheiro do mar.

E eu esperei.

Arthuro respirou fundo antes de responder. O peito dele subiu devagar, como se estivesse organizando algo que vinha sendo engolido há tempo demais.

— Quando eu digo que o seu agora talvez não acompanhe o meu… ou que o meu não acompanhe o seu… — ele começou, a voz um pouco mais baixa — é porque eu te vejo construindo coisas. Eu te vejo crescendo, criando uma vida, se movendo. E eu ainda me sinto…

Eu o interrompi antes que ele terminasse. Coloquei a mão no braço dele, firme, mas carinhosa.

— Não, Arthuro. Não é isso. — Olhei direto nos olhos dele. — Você acabou de conquistar algo que você queria muito. Assim como eu. Então não tenta se diminuir agora. Isso parece mais uma fuga do que uma resposta.

Ele engoliu seco. Ficou alguns segundos em silêncio, olhando pro mar, como se buscasse coragem ali, na linha escura do horizonte.

— Bêr… — disse enfim. — Eu sei como você é quando se envolve.

Meu corpo ficou atento.

— Eu acompanhei o seu relacionamento com o Miguel. Querendo ou não, ele é meu Tio. Eu vi tudo de perto. Vi o quanto você se entregou… e o quanto você sofreu quando acabou.

A forma como ele disse “sofreu” fez meu peito apertar de leve.

— Eu vi o quanto o Miguel também sofreu — ele continuou. — E aquilo não abalou só vocês dois. Abalou tudo. A amizade entre nós quatro… ficou frágil. O que era sólido virou algo que a gente pisava com cuidado.

Ele me olhou de novo, sério.

— Não foi só o que você tinha com ele que balançou. Foi o que você tinha comigo. Com o Arthur também. A gente se afastou. E, na boa… — a voz dele falhou um pouco — foi um dos piores tempos da minha vida.

Senti o peso daquelas palavras. O vento bateu mais forte, levantando areia ao nosso redor.

— Eu respeitei aquele afastamento por você — ele continuou. — Eu sabia o quanto doía. E logo depois… você entrou em outro relacionamento. Um cara estranho, ciumento. Aquilo afastou a gente ainda mais.

Ele respirou fundo.

— Então, quando eu digo que tenho medo… é disso. Porque agora não é só “balançar”. É correr o risco de deixar de existir o que existe entre nós. E eu não quero te perder, Bêr.

O silêncio que se seguiu foi pesado, mas necessário. Eu me aproximei um pouco mais, diminuindo a distância entre nós.

— Arthuro… — falei com calma. — Você tá trazendo coisas do meu passado pra um lugar que é o nosso presente.

Ele franziu a testa, atento.

— Entre eu e o Miguel, lá atrás, ficou tudo bem. Hoje a gente quase não se fala porque a vida levou cada um pra um canto diferente. Ele trabalha embarcado, eu segui meu caminho. Não teve vilão, não teve trauma eterno. A vida só… seguiu.

Fiz uma pausa, sentindo a areia fria sob meus pés.

— Nosso afastamento não foi só por causa dele. Foram escolhas, rotinas, destinos. E hoje a gente tá aqui de novo. Mais próximos. Então eu não acho que isso seja algo que você precise carregar como medo agora.

Ele me observava com cuidado, como se analisasse cada palavra.

— Eu não vou te obrigar a nada — continuei. — Não vou te cobrar rótulo, não vou te empurrar pra um relacionamento. Você sabe disso. Eu fico com outras pessoas. Sempre fui claro.

Ele arqueou uma sobrancelha, rindo de leve.

— Outras pessoas… — repetiu. — Eu não sabia que era no plural, né, Bêr?

Sorri, sincero.

— É, Arthuro. Eu tenho uma vida. E essa vida é pra ser vivida. Você sabe do Yan porque você me apresentou. Mas talvez existam coisas que você não saiba. E não é por falta de confiança… é por cuidado.

Aproximei um pouco mais o corpo.

— Depois que a gente se beijou, depois que cruzamos essa linha, eu comecei a filtrar certas coisas. Não porque eu queira te esconder algo, mas porque eu não quero te machucar. E eu sei que você entende isso.

Ele assentiu devagar.

— Tanto que você nunca me pergunta detalhes — continuei. — Nem mesmo do Yan. E eu também nunca contei pra ele sobre nós. Pra ele, a gente é só amigo. E isso é respeito.

Arthuro respirou fundo.

— É… — disse. — Eu sempre soube respeitar o tempo e a individualidade de cada um.

Ele hesitou, e então completou:

— Mas eu preciso te falar uma coisa.

Aproximei-me sem pensar. O impulso foi mais forte. Envolvi-o num abraço, sentindo o corpo dele enrijecer por um segundo antes de relaxar. Dei um beijo demorado no rosto dele, bem perto da boca. Afastei só o suficiente pra olhar nos olhos.

— O que é, Arthuro? — perguntei, baixo. — Pode falar.

Passei o polegar de leve pela lateral do rosto dele, num gesto quase inconsciente.

— Você pode dizer o que quiser — acrescentei.

Encostei minha testa na dele por um instante. Dei um selinho curto, contido, cheio de carinho.

— Eu tô aqui. Pra te ouvir. Pra te escutar. Você sabe disso.

Ele fechou os olhos por um segundo, como quem reúne coragem.

Arthur respirou fundo antes de falar.

Não foi um suspiro teatral — foi aquele tipo de respiração que denuncia que algo está sendo empurrado para fora depois de muito tempo comprimido no peito. O ar entrou devagar, saiu pesado. Ele passou a mão pelo próprio joelho, como se estivesse tentando ancorar o corpo naquele instante.

— Eu… — começou, e parou.

O silêncio entre nós não era desconfortável. Era denso. A noite avançava preguiçosa, o som distante do mar vinha em ondas irregulares, e a luz dos postes recortava o rosto dele de um jeito quase íntimo, criando sombras que deixavam seus olhos ainda mais fundos.

— Eu não sei nem se devia ter te contado isso antes — ele disse, por fim, sem me olhar diretamente. — Mas já que a gente tá aqui… falando de tudo… do que é real.

Ele sorriu de lado, um sorriso contido, quase tímido. Olhou para baixo, como se organizasse as palavras no chão antes de levantá-las.

— Pode falar — eu disse, com a voz baixa, tranquila. — Eu tô aqui.

Arthuro riu sem graça, passando a mão pela nuca.

— Não é vergonha… é só… sei lá. Meio estranho dizer isso agora.

— Tudo bem — reforcei. — Vai no seu tempo.

Ele levantou o rosto e, por um instante, nossos olhares se encontraram. Havia ali uma mistura curiosa de confiança e receio. Como alguém que decide atravessar uma porta sabendo que, depois dela, nada volta exatamente ao lugar.

— Lembra quando eu te contei… daquela experiência que eu tive a três … — ele começou, medindo cada palavra. — Aquela coisa meio confusa, com uma garota… e um cara.

Meu corpo reagiu antes mesmo de eu responder. Não em choque, mas em reconhecimento. Eu já sabia que aquela conversa ia chegar ali.

— Lembro — falei.

Arthuro deu um pequeno sorriso torto.

— A garota foi a Camille. — Ele fez uma pausa breve. — Eu acho que você já imaginava.

Eu assenti lentamente, sem surpresa.

— Tá… — murmurei. — E isso quer dizer que…

Ele interrompeu, levantando a mão de leve, como quem pede um segundo a mais de coragem.

— Não fica chateado, tá? — disse rápido, quase num reflexo. — Mas… o cara foi o Yan.

O nome caiu entre nós como algo já conhecido, mas ainda assim carregado de peso.

— O Yan… — repeti, mais como constatação do que como pergunta.

Observei o rosto de Arthuro com atenção. Ele me analisava, esperando algum tipo de reação mais brusca, algum sinal de incômodo que não veio.

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