Verão no Sítio (Capítulo 9)

Da série Verão no Sítio
Um conto erótico de Hot♡
Categoria: Homossexual
Contém 1096 palavras
Data: 08/02/2026 06:45:38
Assuntos: Gay, Homossexual

“Intimidade”

Os dias seguintes ao episódio na clareira passaram como um sonho lento e quente. O sítio parecia ter encolhido: o mundo se resumia à casa de madeira, ao pomar carregado, ao riacho que cantava baixo e aos corpos dos dois. Não havia mais barreiras invisíveis. Toques aconteciam o tempo todo — mãos se encontrando na cozinha, beijos roubados na varanda, abraços longos na clareira ao vento da tarde.

Tiago acordava cedo agora, antes mesmo de Daniel às vezes. Gostava de ficar olhando o primo dormir: o peito largo subindo e descendo, o braço forte jogado sobre o travesseiro, a expressão relaxada que raramente aparecia quando Daniel estava acordado. Ele se permitia esses momentos de vulnerabilidade porque sabia que Daniel fazia o mesmo quando achava que Tiago ainda dormia.

Naquela manhã específica — o oitavo dia da visita —, Tiago saiu da cama sem fazer barulho. Vestiu só uma cueca boxer cinza e foi até a cozinha preparar café. O sol entrava pela janela aberta, iluminando a mesa de madeira cheia de marcas antigas. Ele colocou água na chaleira, acendeu o fogão, moeu grãos frescos que Daniel tinha comprado na feirinha próxima. O cheiro forte do café invadiu o ar, misturando-se com o perfume de jasmim que vinha do quintal.

Daniel apareceu na porta da cozinha minutos depois, cabelo bagunçado, olhos ainda pesados de sono, só de cueca preta. Ele parou no batente, encostando o ombro na madeira, e ficou olhando Tiago mexer os ovos na frigideira.

— Tá cozinhando pra mim? — perguntou, voz rouca de manhã.

Tiago virou o rosto, sorrindo tímido.

— Tô tentando não queimar nada. Achei que tu merecia acordar com café pronto.

Daniel andou até ele devagar, abraçou por trás, queixo apoiado no ombro de Tiago. As mãos grandes deslizaram pela barriga macia, apertando de leve, sem intenção sexual — só carinho.

— Tu tá me mimando demais — murmurou contra a nuca. — Vou me acostumar.

— Pode se acostumar. — Tiago virou o rosto e deu um beijo leve nos lábios dele. — Eu gosto.

Eles tomaram café na varanda, sentados lado a lado na escada de madeira, pernas esticadas, canecas quentes nas mãos. O pomar estava quieto, só o canto de alguns pássaros e o zumbido distante de abelhas nas jabuticabeiras.

Daniel quebrou o silêncio primeiro.

— Tu já pensou mais naquilo que eu falei? Sobre ficar?

Tiago olhou para a caneca, girando o líquido preto devagar.

— Todo dia. — Ele respirou fundo. — Eu gosto do meu trabalho na agência, mas… é só isso. Trabalho. Volto pra casa cansado, ligo a TV, como qualquer coisa, durmo. Aqui eu acordo sentindo o cheiro de café e de ti. Eu rio mais. Eu… sinto mais.

Daniel assentiu devagar.

— E a família?

— Eles vão surtar. Minha mãe vai chorar, meu pai vai ficar em silêncio por semanas, depois vai soltar um “eu sabia que tinha algo errado”. Nossos tios… acho que vão tentar entender, mas vai ser difícil. — Tiago olhou para Daniel. — Mas eu tô cansado de viver pra agradar eles. Eu quero viver pra mim. Pra nós.

Daniel pousou a caneca no degrau e puxou Tiago para mais perto, braço ao redor dos ombros.

— Então a gente enfrenta junto. Quando tu quiser. Sem pressa. Mas eu não vou te deixar sozinho nisso.

Tiago encostou a cabeça no ombro largo.

— Eu sei.

O resto da manhã foi preguiçoso. Eles caminharam pelo pomar colhendo jabuticabas, jogando as cascas uns nos outros como crianças. Daniel contou histórias da infância que Tiago não lembrava direito — como a vez que eles roubaram mel da colmeia da vó e passaram a tarde inteira inchados de picadas. Tiago riu até doer a barriga.

À tarde, o calor apertou. Eles foram até o riacho menor perto da casa, aquele que passava atrás do galpão. Tiraram a roupa e entraram na água fria. Não foi sexo — foi brincadeira. Jogaram água um no outro, mergulharam, emergiram rindo. Daniel levantou Tiago nos braços como se ele não pesasse nada, girou no meio do riacho, depois o beijou com água escorrendo pelos rostos.

Quando saíram, deitaram na grama à sombra de uma árvore grande. Daniel deitado de costas, Tiago com a cabeça no peito dele, ouvindo o coração bater forte e constante.

— Tu já teve medo de amar alguém? — Tiago perguntou de repente, voz baixa.

Daniel pensou antes de responder.

— Tive. Muito. Quando eu era mais novo, eu namorava meninas porque era o que se esperava. Mas sempre tinha um vazio. Depois que eu entendi que gostava de homem, fiquei com medo de admitir. Medo de perder a família. Medo de perder amigos. Medo de ser só mais um “viadinho” na cidade pequena. Então meus pais morreram, me acostumei a morar sozinho, trabalhei na terra pra fingir que tava tudo bem. Até tu me mandar aquela mensagem.

Tiago ergueu o rosto.

— E agora?

— Agora o medo ainda existe. Mas ele é menor que o que eu sinto por ti. — Daniel passou os dedos pelo cabelo de Tiago. — Eu te amo, caralho. De verdade. Não é só tesão. É querer acordar todo dia vendo tua cara amassada de sono. É querer te ver rir. É querer te proteger quando o mundo for uma merda.

Tiago sentiu os olhos marejarem. Ele subiu um pouco e beijou Daniel devagar, lábios macios se encontrando, línguas se tocando com calma.

— Eu te amo também. E eu quero isso. Quero tentar morar aqui. Quero construir algo nosso.

Daniel sorriu contra a boca dele.

— Então a gente começa devagar. Tu volta pra Joinville, resolve as coisas no trabalho, arruma as malas. Quando estiver pronto, eu vou te buscar. Ou tu vem de ônibus de novo, como desta vez. Mas tu volta pra cá. Pra mim.

Tiago assentiu, lágrimas escorrendo devagar.

— Combinado.

Eles ficaram ali até o sol começar a baixar. Voltaram para casa de mãos dadas, nus por baixo das toalhas, rindo de bobagens. Prepararam o jantar juntos: carne na brasa, farofa, salada de manga. Comeram na varanda, vendo o céu mudar de laranja para roxo para azul escuro.

Quando a noite chegou, subiram para o quarto. Deitaram na cama grande. Daniel de conchinha atrás, braço envolvendo a cintura de Tiago, queixo no ombro.

Não houve sexo naquela noite. Só abraço. Respiração sincronizada. Silêncio cheio de promessas.

— Amanhã a gente pode ir na cidade comprar caixas pra tu levar na viagem de volta — Daniel murmurou no escuro.

Tiago apertou a mão que estava na sua barriga.

— Amanhã. Mas hoje… hoje só fica assim comigo.

Daniel beijou a nuca dele.

— Sempre.

Eles adormeceram assim.

Com a certeza de que o fim das férias não era o fim de nada.

Era só o começo.

Continua…

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