Nova Orleans, 08 de janeiro de 1770
Meu caro Philip,
Escrevo-te, Philip, porque és o último nome que ainda me responde por dentro. Todos os outros se tornaram funções, interesses, sombras úteis. Contigo, ainda sinto o risco da lembrança — e isso me apavora mais do que o silêncio. Se ainda me permites assim chamar-te — pois és, entre todos, o único a quem ainda escrevo como homem e não como sombra — peço-te que leias estas linhas com a indulgência que sempre me concedeste. Se continuo a confiar-te estas páginas, não é por esperança de salvação, mas porque temo o dia em que deixarei de desejar ser compreendido por alguém que não seja ele. Tampouco te escrevo para pedir consolo, mas para não desaparecer por completo sem deixar vestígios do que fui.
Recordei-me hoje, com uma clareza que dói, do dia em que conheci a srta. Guillot. Meu pai a trouxe para a mansão quando eu ainda um moço. Ela tinha 19 anos, três anos mais velha do que eu, e já era marcada por uma dignidade silenciosa que contrastava com a condição que lhe haviam imposto. Não lembro de palavras trocadas naquele primeiro instante — apenas da sensação imediata de que algo em mim se deslocara para sempre. Foi amor antes de saber o nome disso.
Conversávamos às escondidas, sempre sob o peso da casa, dos corredores longos demais e do olhar de meu pai que parecia enxergar mesmo quando não estava presente. Lembro-me da nossa primeira vez. Foi apressada e trêmula, mais promessa do que posse, mas foi marcante. Foi no meu quarto, eu fingi estar passando mal para não sair de casa. Ela entrou para me levar o desjejum, e eu já a aguardava, completamente nu e teso, debaixo dos cobertores. Ela estava com receio de ser pega, mas assegurei que meu pai não voltaria tão cedo. Demos um beijo longo e apaixonado, e então sua boca de lábios carnudos envolveram meu pênis, e eu quase cheguei ao clímax. Vendo meu estado, ela se colocou de quatro sobre minha cama e entrei nela com vigor — ainda lembro da sensação de entrar naquela vagina tão apertada, quente, úmida, macia e envolvente. Resisti o quanto pude, mas em menos de três minutos, estava chegando ao ápice. Ela rapidamente, tirou meu membro de dentro dela por receio de que fizéssemos um filho. Esse ato selou três anos de encontros furtivos, de corpos encontrados nos cantos esquecidos da mansão, de juras feitas em sussurros. Até o dia em que ele descobriu.
Nunca esquecerei o som. Não apenas dos golpes do chicote — mas do silêncio que se seguiu a eles. Quando a vi depois, quebrada e orgulhosa ao mesmo tempo, implorei-te ajuda, lembras? Tu a escondeste, Philip, em tua própria casa. E foste, naquele momento, mais meu pai do que o homem que me gerou. Ainda hoje me pergunto se naquele gesto — ao pedir-te que a escondesses, que a protegesses — não depositei em ti a parte de mim que já sabia ser incapaz de proteger quem amava. És, talvez, o guardião involuntário daquilo que perdi antes mesmo de saber que perderia tudo.
Lá eu a encontrava e, com tua ajuda, podíamos nos entregar ao prazer. Sei que às vezes tu nos observava escondido, e não te condeno, mas confesso que tal ato me deixava ainda mais teso. Isso durou dois anos até que ela se cansou. Disse-me que não viveria eternamente como erro oculto. Foi então para o bordel. E eu permiti, sem muita escolha... ou pelo menos eu me forcei a crer que não tinha. Talvez não quisesse escolher outra coisa. Me conformei com o fato de que ela esteve nos braços de outros homens, e com o fato de que fui um de seus clientes. Tentei impor-lhe que se entregasse somente a mim, que fosse seu único, mas nem isso eu pude cumprir...
Me encontrei novamente com ela dias atrás, mesmo ainda sob a nuvem densa do medo. Porém, o desejo veio avassalador e assim nos entregamos mais uma vez, e talvez a mais intensa até hoje. Foi na mesma estrada em que nos encontramos da outra vez, mas em uma casa abandonada. Fizemos no chão mesmo, forrado com um lençol. Confessei-lhe meu amor e a falta que sentia dela, e ela fez o mesmo. Nos despimos completamente e nos permitimos sentir cada toque, cada beijo pelo corpo... sentimos o cheiro um do outro, o gosto um do outro. Passei meu pênis ereto pelo seu abdômen, seus lábios inferiores, suas costas, suas nádegas fazendo-a arrepiar-se e gemer sem reservas. Então, eu penetrei sua vagina, por trás, estando nós ajoelhados e abraçados. Meus movimentos dentro dela foram lentos, queria que ela sentisse cada centímetro do meu membro em sua gruta quente e molhada enquanto beijava seu pescoço e massageava seus seios.
Penetrei depois seu ânus, sempre apertado e ainda mais quente. Ela como sempre, forçava o corpo para trás, de encontro ao meu, me dizendo que para ir mais fundo e mais forte ao mesmo tempo que meus dedos molhados de saliva passeavam em seus lábios vaginais, seu clitóris... Assim o fiz e quase finalizei ali. Mas, em seguida, deitei-a de costas no chão e enquanto penetrava sua vagina novamente, nossos olhos se fixaram um no outro em cumplicidade. Eu percebi algo inquietante em seu olhar e creio que ela viu o mesmo no meu, mas precisávamos daquele momento, daquela entrega. Deitei-me sobre seu corpo, envolvendo-me a ela e então chegamos juntos ao clímax, que foi deveras intenso.
Ficamos deitados lado a lado até que nossos corpos se acalmaram. E foi ali que ambos confessamos nosso envolvimento com Crowley. Medo reconhece medo. Nenhum de nós disse tudo — porque já era tarde demais para dizer qualquer outra coisa. Nos vestimos e nos despedimos com um longo beijo. Ela subiu na carruagem e eu permaneci parado até que ela desapareceu na estrada. Foi a última vez que a vi, e depois percebi que aquele encontro na casa abandonada foi a nossa despedida.
Ao chegar em casa fui submetido sob uma tortura intensa, mas não física, e sim na mente e na alma. Crowley sentiu em mim o cheiro dela, embora já soubesse que estive com ela pela segunda vez naqueles dias. Ele falou comigo por meio de enigmas, metáforas, jogos de palavras, que culminaram em minha confissão:
“Sim, estive com a srta. Marie Claire Guillot porque a amo!” — Disse em alto e orgulhoso.
Apesar do perigo dessa frase, senti um alívio e uma alegria muito grande — algo que não sentia há muito tempo. Tentei me conter e não confessar por medo da sua reação, temendo pela vida dela. Mas ao confessar meu amor por ela, achei que sua ira viria contra mim somente. Me senti um herói, um mártir apaixonado. Paguei muito caro por esse engano.
O vampiro se enfureceu, mostrando seu lado sombrio: seus dentes pontudos, seus olhos flamejantes, seu semblante diabólico. Em um movimento rápido, me pegou pelo pescoço e me ergueu do solo, vociferando alguma coisa que não me lembro, e me atirou contra a parede. Desmaiei e só acordei mais tarde, ouvindo gemidos de dor.
Estávamos no meio do canavial. Minha amada Marie Claire estava amarrada em um tronco completamente nua e ensanguentada, como no dia em que meu pai a castigou. Eu estava a poucos passos de distância, imobilizado por alguma força. Não conseguia mover sequer um músculo do corpo.
Crowley fez-me assistir enquanto a torturava. Não com espetáculo, mas com método. Não permitiu que eu desviasse os olhos, nem quando implorei, nem quando pedi que levasse a mim no lugar dela. Marie ainda tentou me procurar com o olhar, e creio que esse foi o momento mais cruel: compreender que eu estava ali e, ainda assim, absolutamente impotente, inútil. Não descrevo o que vi porque não suportaria reler. Somente após ele tomar seu sangue e ceifar sua vida é que consegui me mover. Corri até seu corpo ainda quente e a abracei aos prantos. Senti uma dor no meu coração que se alastrou por cada fibra do meu ser. Sem se importar com minha dor, ele me fez larga-la e então levou seu corpo. Somente ao amanhecer, descobri que a levou de volta à casa abandonada onde nos entregamos pela última vez e ateou fogo.
Desde então, sei que fui o estopim. Não apenas por termos feito amor, mas por tudo o que não fiz antes. Por não ter enfrentado meu pai anos atrás. Por tê-la escondido como quem esconde um erro, não como quem protege um amor.
Após isso, Crowley deixou de ser apenas um sedutor. Tornou-se meu tutor e carcereiro. Falou-me com clareza inédita. Disse que tudo o que sou e tenho agora existe por causa dele. Que meu nome, minhas terras, meu poder — tudo lhe pertence por direito. Pela primeira vez, percebi que já não sabia eu quem era sem ele. Essa constatação me aterrorizou mais do que o sangue.
Tentei isolar-me em luto por Marie. Mas ele não me permitiu. Fui arrastado para reuniões, festas, decisões de negócios. A alta sociedade continuou a me aplaudir, Philip, e nunca me senti tão fraudulento. Em meio a risos e brindes, sinto-me derrotado. Dependente. Há noites em que meu corpo o procura antes mesmo que minha mente consinta, e isso me apavora mais do que qualquer promessa de eternidade. Entrego-me a ele mesmo quando odeio cada parte de mim que o faz. Ainda que eu me masturbe duas, quatro, seis vezes ao dia... eu ainda continuo desejando o corpo dele sobre o meu, o membro dele dentro de mim. Nada me satisfaz além dele!
Como se não bastasse todo esse horror, meu pai voltou a me atormentar, como um que retorna dos mortos.
Fui na mansão Devante em uma tarde, e para minha infeliz surpresa, não encontrei um homem moribundo, mas um juiz. Ele estava de pé, totalmente lúcido e com a fala restaurada. Me encarou com ódio e desprezo e então me dirigiu a palavra. Não gritou. Apenas nomeou tudo aquilo que eu já sabia. Disse que nunca fui forte o bastante para sustentar o que desejava. Que não matei Guillot — apenas permiti que morresse. Chamou-me de cúmplice da própria ruína. Falou de Crowley — em suas palavras, “aquele cão do inferno” — sem medo, como se fosse apenas mais um reflexo da minha fraqueza. Disse-me que não fui possuído, mas que sempre implorei por alguém que decidisse por mim.
Quando tentou humilhar-me por aquilo que agora sou, por aquilo que faço na cama e por toda a casa, não doeu pelo insulto — mas pela precisão. Por fim, disse-me que minha mãe não morrera ao me dar à luz, mas para que eu tivesse a quem culpar pela minha existência, insignificante, vergonhosa e medíocre.
Deixei a mansão e andei sem rumo, ora tomando suas palavras como verdade, ora odiando-o ainda mais. Porém, um pensamento concluía ambos: o que eu tinha não era mais vida e que seria melhor encerra-la de vez para quem sabe eu me ver livre de tudo.
Retornei para casa, outrora a mansão dos Shaw, e me deparei com Crowley à porta. Já era tarde da noite. Ao se aproximar de mim, ele sorriu sarcasticamente, e então me levou para dentro, me despiu e me conduziu à banheira, já preparada com água quente. Ele me deu banho com calma, passando a esponja por todo o meu corpo. Em seguida, me secou e me conduziu à cama, onde me colocou de bruços, abriu minhas nádegas e fez sua língua serpentear ao redor e dentro do meu orifício anal. A excitação foi quase instantânea, ainda que sentia uma mistura de ódio, mágoa, e tristeza profunda – chorava copiosamente.
Depois, ele me virou para cima e se dedicou alguns minutos com a boca no meu pênis, que estava duro como uma viga de ferro. Então, ele se sentou nele, fazendo-o desaparecer dentro dele por completo. Durante o sobe e desce de seu corpo, ele reafirmou ser meu dono e fez promessas, ou talvez fatos futuros. Me explodi de gozo dentro dele ao mesmo tempo em que ele explodiu com oito jatos de seu sêmen gelado que atingiram meu rosto, meu peito, meu abdômen. Ele o lambeu e então beijou minha boca longa e avidamente antes de morder meu pescoço, como sempre faz. Quando estava prestes a desmaiar, ouvi-o sussurrar ao meu ouvido:
“A morte não te pertence, Louis, enquanto meu nome habitar teu sangue”.
Depois disso, nada mais recordo com nitidez. Permaneci deitado, o corpo exausto e a alma em vigília, como se algo em mim tivesse sido definitivamente selado. Não chorei. Não rezei. Limitei-me a ouvir o próprio sangue, que já não me parecia inteiramente meu, correr com um rumor estranho — como se repetisse, em cadência obscura, o nome que agora me governa. Se outrora pensei que a morte pudesse ser alívio, compreendo nesta hora que até esse consolo me foi retirado. Resta-me apenas cumprir os dias que ainda me são concedidos, não como homem inteiro, mas como coisa adiada, suspensa entre o que fui e o que não me é mais permitido ser.
E, se ainda me resta algum traço de humanidade, ele reside na lembrança de que um dia fui teu amigo. Se me perder de vez, que ao menos saibas que lutei — não contra eles, mas contra mim mesmo.
Teu sempre,
Louis M. Devante