O Mosaico de Sombras

Um conto erótico de Jotha Elle
Categoria: Heterossexual
Contém 1551 palavras
Data: 01/02/2026 02:21:28
Última revisão: 01/02/2026 02:54:32

A brisa da madrugada varria a varanda, fria e cortante, mas ele mal sentia o arrepio na pele nua. O corpo estava ali, exposto à noite e à cidade adormecida, mas sua mente vagava do outro lado da rua.

Ele se apoiava no parapeito, os olhos fixos na fachada do prédio vizinho. Era um mosaico de escuridão e luz, uma colmeia de vidas suspensas. Algumas janelas ainda brilhavam, retângulos amarelos e alaranjados recortados contra o concreto cinza. Eram convites silenciosos, mas frustrantes: as cortinas estavam invariavelmente cerradas. Tecidos pesados, persianas baixas, barreiras intransponíveis que guardavam os segredos domésticos.

Ele não via nada. E era exatamente essa cegueira que acendia o pavio de sua fantasia.

Como um pintor diante de uma tela em branco, ele começou a preencher o vazio por trás daqueles tecidos. Na janela do terceiro andar, onde uma luz avermelhada vazava pelas frestas, ele imaginou um casal. Visualizou o emaranhado de lençóis, o movimento ritmado das sombras, o som abafado de respirações que a distância não o deixava ouvir.

Seus olhos desceram para o quinto andar. Uma luz azulada, fria, típica de um monitor de computador ou de uma televisão ligada sem som. Ali, a cena que ele criou era diferente, mais solitária e, por isso mesmo, mais provocante. Imaginou uma mulher. Sozinha. Talvez conectada a alguém através da fibra ótica, entregue a uma intimidade digital, sussurrando promessas para uma câmera. Ou talvez nem isso. Talvez estivesse apenas ali, na penumbra, buscando o próprio prazer, seus dedos percorrendo caminhos conhecidos, os olhos fechados, alheia ao fato de que, do outro lado da rua, um espectador invisível a recriava em sua mente com uma precisão quase devota.

Ele respirou fundo, o cheiro da cidade noturna enchendo seus pulmões. A excitação não vinha do que era real, mas do poder de ser o voyeur onisciente de um teatro que só existia em sua cabeça. Ali, na segurança da sua varanda, protegido pela escuridão, ele podia ver tudo, tocar tudo, sem nunca sair do lugar.

Um arrepio que nada tinha a ver com o frio percorreu sua espinha. A excitação, antes apenas mental, exigia agora uma resposta física. Sua mão, quase por instinto, desceu pelo abdômen, encontrando a pele quente em contraste com a brisa gélida da madrugada.

Ele fixou o olhar naquela janela do quinto andar, a da luz azulada. A fantasia da mulher solitária ganhou força, pulsando em suas têmporas. Seus movimentos começaram lentos, ritmados pela respiração pesada que ele tentava controlar para não quebrar o silêncio da noite.

De repente, algo mudou.

Uma sombra se projetou contra a cortina fina daquele apartamento. Ele parou, a mão congelada no lugar, o coração disparando contra o peito. Não era fruto da sua imaginação; algo ou alguém se movera lá dentro. A silhueta era difusa, uma mancha escura dançando contra a luz fria, mas tinha contornos inconfundivelmente humanos.

A sombra parecia se aproximar do vidro. A figura parou, imóvel, como se estivesse olhando para fora, através da fresta invisível do tecido.

Por um segundo vertiginoso, ele sentiu-se exposto. A varanda dele estava mergulhada na escuridão, protegida pelas sombras da marquise, mas a sensação de ser observado atingiu-o como um choque elétrico. Será que ela o via? Será que, do outro lado da rua, naquela clareira de luz azul, ela também imaginava um homem nu na varanda, tocando-se enquanto pensava nela?

Essa possibilidade — a de um voyeurismo mútuo e silencioso — foi o estopim. Ele não desviou o olhar. Pelo contrário, aprumou o corpo, oferecendo-se para a silhueta anônima.

A silhueta permaneceu estática por um instante que pareceu durar uma eternidade, suspensa na luz azulada. Então, lentamente, um braço se ergueu. A mão da sombra tocou a junção das cortinas. O tecido cedeu. A cortina deslizou lateralmente, não muito — apenas um palmo, o suficiente para criar uma fenda vertical na barreira que os separava.

E ali, emoldurada naquela fresta iluminada, a figura se revelou parcialmente. Ele não conseguia ver o rosto com nitidez, a distância borrava os traços, mas viu a pele pálida banhada pela luz do monitor. Mais perturbador, porém, foi o que ela fez a seguir. A mulher espalmou a mão aberta contra o vidro da janela. Os dedos longos se abriram na superfície transparente. Ela não recuou. Ela se projetou para a frente, colando o corpo no vidro, olhando fixamente para a escuridão onde ele estava.

O arrepio agora era febril, uma corrente elétrica que atravessava a rua deserta e conectava dois pontos de solidão. O abismo de asfalto deixara de ser uma barreira para se tornar um condutor de desejo.

Para ele, a escuridão da varanda deixou de ser um esconderijo para se tornar uma vitrine exclusiva. Na cabeça dele, ela não estava apenas olhando; ela estava ordenando. Ele imaginava que a mão dela espalmada no vidro queria, na verdade, segurá-lo. Cada movimento que ele fazia em seu próprio corpo agora era uma oferta, uma performance silenciosa dedicada àquela plateia de uma mulher só.

Para ela, do outro lado, a experiência era um jogo vertiginoso entre o frio e o fogo. A pele de seus seios e barriga encontrava o vidro gelado da janela, um contraste chocante que fazia seus mamilos endurecerem instantaneamente. Diante dela, a varanda do prédio vizinho era um buraco negro, mas ela sabia que algo vivo pulsava ali. A imaginação dela construía um homem sem rosto, puramente instintivo. Ela tocou-se imaginando que a mão invisível daquele estranho atravessava a rua e a invadia. Ela arqueou as costas, esfregando o púbis contra o tecido fino da calcinha, gemendo para o vidro, embaçando a superfície com o calor de sua respiração ofegante.

Ambos estavam sozinhos em seus apartamentos, mas, naquele instante, na arquitetura invisível do desejo, eles estavam entrelaçados.

O ritmo de ambos se acelerou. No prédio da frente, a mulher arqueou o corpo para trás. A mão dela no vidro escorregou levemente, deixando um rastro úmido de suor e condensação. Ele viu a silhueta dela se retesar, a cabeça pendendo para trás, o pescoço exposto à luz azulada como em uma oferta final. A visão daquele abandono foi o gatilho que faltava.

Ele sentiu o mundo se estreitar até que só existisse aquele retângulo de luz. Seus músculos, castigados pelo frio e pela tensão, contraíram-se em um espasmo violento. O prazer explodiu, quente e avassalador, um contraste brutal com o ar gelado da madrugada.

Do outro lado, quase simultaneamente, ela chegou ao limite. As pernas dela cederam. Ela pressionou a testa contra o vidro frio, buscando um ponto de apoio, enquanto ondas de calor percorriam seu corpo, fazendo-a tremer visivelmente. O gemido que escapou de sua garganta foi abafado pelo vidro, vibrando contra a superfície transparente.

Por alguns segundos, o tempo parou. A conexão elétrica se desfez lentamente, deixando no lugar um silêncio pesado, mas agora cúmplice.

A cortina se fechou com um deslizar definitivo, cortando o fio invisível que os unia.

Para ela, aquele foi o fim do espetáculo público, mas não do prazer. Ainda vibrando com a adrenalina da exposição, ela se afastou da janela e se jogou na cama desarrumada. O lençol frio em contato com a pele quente foi um novo estímulo. Ali, na segurança do escuro de seu quarto, sem plateia, ela se entregou a uma segunda onda, mais egoísta e profunda. Seus dedos exploraram seu corpo com uma familiaridade possessiva, buscando prolongar aquela eletricidade, gemendo agora sem medo, abafada pelo travesseiro, até que um segundo orgasmo, puramente seu, a deixasse finalmente exausta e saciada.

Na varanda, o silêncio e o frio retomaram o controle.

Ele se limpou mecanicamente, mas sua mente continuava acesa. Diante dele, os prédios se erguiam como colmeias gigantescas. As poucas janelas ainda iluminadas formavam um mosaico fascinante. Para ele, cada quadrado de luz era uma tela em branco, um convite para inventar novos dramas. Ele era o roteirista insone de uma cidade que não sabia que estava sendo assistida, pronto para preencher cada fresta de luz com as suas fantasias mais profanas.

Aos poucos, porém, a adrenalina baixou, deixando no lugar um peso agradável nos membros e uma percepção aguda do frio que fazia. A brisa agora cortava a pele, lembrando-o de sua nudez e da hora avançada.

Ele suspirou, o vapor branco de sua respiração se dissipando no ar noturno. Por mais que sua mente ainda quisesse brincar de Deus observando suas criaturas, seu corpo pedia trégua. A magia do momento havia atingido seu pico e agora se dissipava.

Ele deu as costas para a vista. Abandonou o mosaico de luzes e sombras, o teatro mudo de estranhos e as histórias não contadas, cruzando o umbral para o interior do apartamento.

O som da porta de vidro da varanda correndo sobre o trilho e se fechando foi definitivo. O silêncio doméstico o envolveu, denso e protetor. Caminhou até o quarto, a escuridão familiar acolhendo-o de volta. Ao se deitar, puxou o edredom pesado até o pescoço. O colchão parecia abraçá-lo. Ele fechou os olhos. A imagem da janela azulada e da mulher pressionada contra o vidro ainda dançou por um instante em suas pálpebras, um último flash de conexão antes de se dissolver na memória.

Lá fora, a cidade continuava pulsando, cheia de segredos, perversões e janelas acesas, mas ele já não estava mais lá para assisti-los. O sono veio rápido, sem fantasias, escuro e profundo.

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