capítulo dois - bom exemplo?
Sexta-feira, 09 de Março de 2007
“O centurião, vendo o que havia acontecido, louvou a Deus, dizendo: "Certamente este homem era justo". (Lucas 23:47)
A igreja ficava perto, mas o senhor perfeito passou para me buscar de bicicleta — sabe a melhor? Não sei andar de bicicleta, mas isso não vem ao caso — até aí tudo bem, se não fosse pelo fato da bike dele não ter um assento da garupa, ou seja ele quer me levar no quadro. Imagina qual tamanha foi minha surpresa ao subir no quadro da bicicleta esportiva dele — todo desengonçado por nunca ter andando de bicicleta nem assim, para deixar claro aqui — é perceber que o perfume dele é o Malbec amadeirado. Tô falando só eu enxergo que esse senhor perfeitinho não vale nada.
A cada pedalada sinto suas pernas esfregando em mim, não sei andar de bicicleta então não faço a mínima ideia se ele precisa mesmo ou não fazer isso, só sei que é irritante — é sim, para de fazer essa cara para mim — após ter passado suas pernas em mim várias vezes finalmente chegamos na igreja. Não somos os primeiros a chegar, tem dois caras na porta nos esperando.
— Jonas, esses aqui são o Joaab e o Henrique — ele me apresenta para os amigos — gente esse e o filho do pastor, Jonas.
Filho do pastor, é tipo ser o irmão de alguém mais importante, não importa onde eu esteja sou marcado com esse “cargo” mesmo contra minha vontade, o filho do pastor é sempre aquela pessoa que esperam que seja ou muito bom um exemplo ou a pior das ovelhas, o mais errado de todos, nunca há um meio termo, entre o devoto fiel e o revoltado. No fim não importa se é para o bem ou para o mau, descobri que os irmãos estão sempre esperando algo de mim.
— O pastor comentou que você é baterista, eu toco teclado — Joaab é pequeno, não deve ter mais do que um sessenta, ele é moreno assim como eu e tem o cabelo curtinho, até mais que o meu, não diria que ele é feito, mas ele parece um pouco sei lá, desleixado, e nem digo isso por conta de ser um pouco cheinho, é mais por que a roupa dele parece que saiu de dentro de uma garrafa.
— Eu sou o guitarrista e faço a segunda voz — Henrique tem minha altura, é branquinho, loiro e de olho azul, parece um galego, ele é até bonitinho, se não fosse pela sua dentição estranha — eu sei que não é legal julgar a aparência das pessoas, mas é do gay julgar então tenho local de fala.
A igreja evangélica costuma ter atividades todos os dias, às sextas por exemplo são onde acontecem o ensaio da banda e de performances — que acontecem nas sazonalidades — como também acontecem a reunião das mulheres. O pastor é o único que está todos os dias na igreja, é um profissão que, exige muito empenho e dedicação do meu pai, é bem mais do que só pregações, e antes que pense meu pastor não é corrupto, ele tem uma ajuda de custo da igreja, mas foi escolhido para vir para cá justamente pela sua integridade e também por sempre entregar bons resultados no desenvolvimento e crescimento da congregação.
É como eu sempre falo se ele tentasse ser um pai melhor da mesma forma que se dedica a ser um bom pastor minha vida com toda certeza seria bem diferente. Voltando para o ensaio, a última pessoa a chegar é Raabe, uma jovem de cabelo liso curto chanel, uma pele quase pálida de tão branca, um sorriso muito simpático e um par de olhos brilhantes que fitam Isaac no momento em que ela põe os pés no altar. Se ela não é namorada dele, posso apostar dinheiro que quer ser.
Raabe é bonita, não tenho muito o que falar dela, na banca ela é a vocalista e também sabe tocar baixo — o senhor perfeitinho ensinou ela. Sim, estou revirando os olhos enquanto falo isso — Então a banca é essa: Joaab no teclado, Henrique na guitarra e segunda voz, Isaac no baixo, Raabe na voz principal e eu na bateria.
— Gente o Pastor pediu para gente abrir com Jesus vem — Isaac parece um líder da banda, até aí zero surpresas né.
— Ele sempre gosta de abrir com essa quando está pregando em um lugar pela primeira vez — meu pensamento soa um pouco mais alto do que eu queria.
— A gente pode cantar “No caminho do milagre” e “Se eu me humilhar” — sugere Raabe, por coincidência ou não são dois hinos que não gosto tanto.
— Por mim, de boas, vou só pegar as partituras para o Jonas — Isaac é tão prestativo, mas antes que ele se mova eu simplesmente começo a tocar “Jesus vem” olhando diretamente para ele, quero que esse manezão veja que não sou muito mais do que um rostinho bonito.
Aprendi a tocar bateria sozinho, o pastor atribui meu auto aprendizado a uma milagre, eu só acho que depois que você aprende sobre teoria musical o resto meio que vai ficando bem intuitivo e até um pouco mais fácil, mas tenho que dar o devido crédito ao bom Jesus, meu pai não sabe, mas eu nasci com o ouvido absoluto, isso é um baita hack, mas que mantenho em segredo, gosto de saber que as pessoas não sabem tudo sobre mim.
Quero fazer faculdade de música, mas o pastor já baixou a lei, ou faço medicina ou direito, nenhuma outra opção é válida para ele. Como sei que sua preferência é pela medicina, eu resolvi cursar direito, por isso preciso estudar, direito não é nem um pouco fácil de ingressar — eu sei que você deve está pensando que se eu vou fugir para estudar do outro lado do país, porque ainda sim fazer algo que ele quer que eu faça, bem em verdade te que quando falo que vou fugir não é bem no sentido literal da palavra, não posso desaparecer, pois tenho medo que isso desperte a ira dele, então fazer algo que ele quer eu faça é um preço pequeno a pagar pela minha liberdade, a maior batalha mesmo vai ser convencer a me deixar estudar longe dele.
Longe dele pretendo ir me afastando cada vez mais, até que minha partida seja algo que só aconteceu e ele siga em frente, como seguiu depois da ex mulher dele ter o traído. Mas estou divagando de novo, voltando ao que interessa levo o ensaio na leveza, conheço todos os hinos proativamente de có e o que eu não lembro simplesmente acompanho eles usando minha super audição para música, isso com uma pitada de posse, terminou o ensaio com eles quase me glorificando por conta do meu talento.
— Baterista aqui faz sucesso, e já tava com tempo que a gente não tinha um — diz Raabe.
— Nada demais, já tocava em outra igreja.
— Você manda muito Jonas — Joaab me elogia também.
— Ele também canta — Isaac lança a informação assim no final do ensaio, não sei qual a sua intenção.
— Sério? Canta para gente então — Henrique me pede uma pilinha.
Respiro fundo, eu não tenho problemas como medo de palco ou essas coisas, afinal como filho do pastor tudo que eu faço na igreja é visto e repercutido então tenho que está sempre me policiando, principalmente dentro do templo. Ele pediu para eu cantar um trecho do meu hino favorito, “Mais perto quero estar” e faço questão de cantar enquanto tocava o hino na bateria. Minha voz não é das melhores, mas eu sou bem afinadinho, e embora eu não viva a igreja como o pastor e a maluca da esposa dele, eu não vou mentir, isso para mim é muito real e quando estou cantando e tocando os hinos eu me permito sentir as emoções que eles me trazem, logo acabo envolvendo eles e o que deveria ser um solo meu acaba entrando no ensaio com eles.
— Nossa, isso foi lindo Jonas — Henrique está quase chorando.
— Foi incrível mesmo irmã Jonas, acho que podemos fechar com essa — diz Raabe e Isaac apenas acena com a cabeça concordando.
Ajudo os meninos a guardar as coisas, e deixar tudo em ordem, domingo tem culto então tudo precisa está nos conformes, os dias de culto aqui são Terça, quinta e domingo, nos outros dias normalmente tem reuniões e grupos encontro de célula. É um pouco diferente do calendário da nossa igreja antiga, mas no fim não faz tanta diferença assim para mim. Vou precisar fazer parte de tudo mesmo. Sábado o Pastor disse que tem reunião de jovens, não estou nem um pouco empolgado com essa reunião, mas não posso faltar.
— Isaac vamos tomar um sorvete? — Raabe passa os braços em volta do pescoço dele, ela é baixinha perto dele, até que formam um bom casal, a puta arrependida e o filho da promessa de Deus.
— Não dá, eu vou levar o filho do Pastor Adalberto pra casa.
— Eu tenho nome, sabia? — Respondi sem pensar, só saiu — e pode ir tomar seu sorvete, minha casa não fica tão longe.
— Você pode vir com a gente Jonas — ela diz querendo bancar a simpática.
— Estou mesmo cansado, e segurar vela não é muito minha praia não — Isaac soltou uma risada alta me deixando confuso.
— A gente não namora Jonas — a Raabe responde, mas Joaab se mete na conversa.
— Porque ele não quer.
— Cala Boca garoto! — Ela bate no braço do Joaab, Isaac não para de rir, deve se achar o máximo por ter uma mulher gata com ela atrás dele — eu que não quero ele, baixista é tudo igual.
— Eu sou diferente, sou moço para casar — ele diz isso olhando para mim.
— Que bom para você, agora eu vou indo para casa e vocês podem ir tomar o sorvete de vocês.
— Na próxima você vai com a gente, Raabe diz passando o braço pelo do senhor perfeitinho.
— Claro — “que não,” pensei.
São umas oito da noite e a rua já está bem dizer deserta, interior parece que fecha tudo mais cedo. Pelo menos comparada à capital, não é tão perigoso aqui, então posso ir andando para casa tranquilamente e outra não tenho nada para me roubarem mesmo. O senhor perfeitinho pegou o caminho mais longo para chegarmos aqui, sei disso porque a volta para casa foi bem mais tranquila que a vinda, ele de certa deve ter pensado que eu me perderia se ele tomasse um caminho diferente, otário, eu sou bem mais esperto do que ele, não é difícil chegar em casa e mesmo que eu me perdesse não teria problema nenhum em pedir por informação em algum lugar.
Em casa minha madrasta está na cozinha lavando a louça — para depois dizer para o pastor que eu não ajudo em nada dentro de casa, sendo que ela sempre faz tudo antes de mim para não me dar a chance. Pelo visto o Pastor ainda está no templo pois o carro dele não estava em frente de casa quando eu cheguei.
— Boa noite — digo entrando na cozinha para tomar água — o que tem para jantar Marilene?
— Nada, eu pensei que você ia jantar com seus amigos — ela é muito cínica mano.
— Eles não são meus amigos.
— Faz um sanduíche para você se estiver com fome e dá próxima vez me avisa se for comer em casa, pois não sou sua empregada não!
— Sim senhora — sai da cozinha fulo da vida, ela sempre faz isso, mete o louco quando o pastor não está em casa e banca a “boadrasta” na frente dele.
Vou tomar um banho, o pastor deve está chegando, eu quero que ele me veja fazendo uma sanduíche para jantar, se ele me perguntar vou contar o porquê de não ter comida para mim. Ele chega bem na hora que estou na cozinha. Ela está na sala lendo a bíblia — pois é não temos televisão, adivinha porque? — Enquanto preparo meu “jantar” vejo que tem um prato de comida no micro-ondas, ela fez comida só para eles, que grande irmã ela é.
— A paz, Jonas — ele me cumprimenta quando entra na cozinha.
— A paz, Pastor.
— O que você tem, tá mordido por que?
— Por nada pai, desculpa — baixo a cabeça sempre que falo com ele.
— Porque você vai jantar sanduíche? — Ele já se prepara para o sermão, mas antes que eu possa me defender, sua querida esposa vem da sala me acusando.
— Ele não me falou que ia comer em casa, então pensei que ia comer com o pessoal da banda, pedi para ele me avisar — mentirosa, profeta do caos!
— Desculpa pai — já sei de que lado ele vai ficar então me antecipo nas desculpas para ver se encurto o sermão.
— A casa dele é aqui Marilene então ele come aqui e não na rua, quando você for comer fora você avisa Jonas, onde já se viu deixar meu filho sem comida.
— E que ele não me falou nada Adalberto — é raro, muito, muito mesmo, mas as vezes o Eterno ilumina a cabeça dele e ele lembra que é meu pai, mas nem consigo me animar quando acontece, para não ficar mal acostumado.
— Pega Jonas — ele me entrega seu prato.
— Não, pai, eu posso comer pão.
— Eu tô falando grego Jonas? — Pronto, viu? Eu pego seu prato e vou para mesa comer.
— Você vai ficar mimando esse menino de mais Adalberto!
— Marilene não me estressa, minha palavra é só uma, agora faz alguma coisa para mim jantar, que eu vou tomar banho! — Ele diz com sua voz que assusta até o mais bravo dos homens, contrariada ela obedece afinal:
“Mulheres, sede submissa aos vossos maridos, como ao Senhor” (Efésios 5:22)
Fico sentado na mesa com o prato na minha frente esperando até o pastor se sentar a mesa, ele não brigaria comigo se eu comesse antes dele — ele não é tão tradicional assim, — mas achei prudente esperar por ele, já seu humor não tá muito legal. Também, como vai ficar feliz assumindo uma igreja que está com problemas por conta da gestão anterior.
— A reunião com o irmão Ramon não foi boa pai? — Pergunto quando ele se senta na mesa comigo.
— Nem um pouco, você acredita que estamos sem dinheiro no caixa e pior com contas atrasadas, a Enel só não cortou nossa luz ainda por consideração.
— Nossa pai, como o senhor vai resolver isso?
— Já falei com o bispo Hudson — uma espécie de superior ao meu pai — ele vai mandar uma dinheiro, mas vai ser preciso apertar o cinto e focar nas arrecadações, o dinheiro que vamos receber é só um empréstimo.
— O senhor vai dar conta — eu acredito que se alguém pode pôr ordem na casa esse alguém é meu pai, no seu tempo de cadeia ele até se tornou um dos chefes da sua ala. Eu falei meu pai bota medo em muito marmanjo, desafiar ele é para poucos.
— E a banda, como foi o ensaio?
— Foi muito bom, o pessoal é legal.
— Não quero ouvir reclamações suas, entendeu, você é um exemplo para esses jovens Jonas.
— Sim senhor.
— E fico perto do Isaac, esse é um menino muito bom.
— Sim senhor — todo o meu corpo se vira do avesso por dentro só para resistir a intensa vontade de revirar os olhos agora.
— Ele é um menino bom, atleta, engajado na igreja, na banda, com os jovens, ele está no último ano da escola e vai fazer faculdade de contabilidade para trabalhar com o pai dele.
— Esse rapaz é uma ótima influência mesmo, em uma tarde ele colocou todas as prateleiras aqui de casa e ainda montou os guarda roupas, fora a ajuda com as caixas — até a esposa de Potifar caiu no canto do senhor perfeitinho.
Sábado, 10 de Março de 2007
Acordo cedo, tomo um banho, escovo os dentes, visto minha roupa, tomo meu café da manhã e saio de casa. Tudo no automático. É só eu colocar os pés na rua que vejo o senhor prefeitinho de calça social, blusa social de pano passado e cabelos ainda molhados, seus cachos parece realmente de anjo, pois não encontro uma falha neles. Como alguém pode ser tão feliz acordando às sete da manhã de um sábado e ainda mais para passar a manhã inteira na igreja?
— Bom dia, filho do Pastor — ele já está fazendo de propósito, só para me irritar.
— Bom dia, senhor perfeitinho.
— Perfeitinho? — Seu tom de deboche é quase uma marca registrada dele — gostei, mas eu não sou tão perfeitinho assim.
— Eu sei que não, por isso estou sendo sarcástico — não to nem ai de está sendo passivo agressivo com ele.
— Sarcasmo não é pecado Filho do pastor?
— Ser um babaca também deve ser.
— Otimo, a gente pode deixar o inferno mais quente juntos então — me engasgo com minha propria saliva, se isso não foi um flerte devo está completamente senil e ouvindo coisas — bom dia Pastor.
— Bom dia Isaac — meu pai acabou de sair de casa também. Estou tossindo e tentando me recompor, enquanto o senhor perfeitinho banca o sonso com meu pai.
— Estava esperando o irmão Jonas para ir comigo pra reunião.
— Eu levo vocês dois de carro — meu pai se oferece.
— Não precisa, Pastor, a gente vai de bicicleta e assim consigo trazer o Jonas quando acabar.
— Ótimo então, vejo vocês lá — como assim, isso não faz nem sentido, mas não consigo reagir.
Meu pai entra no carro e vai na frente, Isaac fica parado na minha frente me dando espaço para subir na sua bicicleta. Quero esganar esse otário, mas matar é pecado, sorte a dele. subo no quadro, mas se ele está pensando que vai ficar tirando uma com a minha cara esse é um jogo que dá para jogar a dois.
— Então como foi o sorvete ontem? — Me faço o mais indiferente possível.
— Foi bom.
— Só bom?
— Não tinha o sabor que eu queria — parece que tudo que sai da sua boca é para me provocar.
— E que sabor é esse? — Minha voz sai um pouco tremida, mas nada de mais, é por conta do tremor da bique no terreno irregular.
Isaac se aproxima do meu ouvido, com a voz baixa e muito cheia de duplo sentido ele me responde:
— Chocolate ao leite — só não fico mais vermelho porque o Eterno me ama e me fez moreno, então consigo disfarçar quando estou corado, mesmo assim ele riu, meu corpo enrijecido me denunciou, mas então é minha ora de contra atacar.
— Não curto muito leite não, sou intolerante a lactose — na minha cabeça eu arrasei, mas a risada alta que ele solta só me faz ficar mais constrangido.
— É só tomar leite sem lactose.
Por sorte chegamos na igreja antes que esse assunto chegue em lugares mais escuros do que já estão. Isaac é hetero, não tem possibilidade dele ser gay e nem muito menos bi e nem digo isso por conta da igreja, o jeito dele, não tem como. Só que não acho que ele tenha me percebido, embora eu não esbanje virilidade masculina também não tenho trejeitos, me policio vinte quatro horas por dia para parecer o mais hetero possível, por isso minha cabeça está começando a ficar muito confusa com as “brincadeiras” dele comigo. Quais são suas intenções aqui, em senhor perfeitinho?
Na frente dos outros ele não me provoca — graças ao bom senhor Jesus — o pessoal da banda pelo jeito são um grupinho fechado, mas todo mundo parece amar o Isaac — até aí zero novidade — ele foi o escolhido para fazer a oração inicial. Mas no fim, por ser o filho do pastor eu acabei ganhando um destaque que não faço muita questão de ter, mas que sempre acontece, sou quem fez a oração no final da reunião.
— Jona? — Tento sair rápido assim que acaba na tentativa de me livrar do meu carrapato, mas sou interceptado pelo Henrique — minha mãe te convidou para almoçar lá na minha casa hoje.
— Ah, obrigado é que eu não avisei em casa — digo para tentar escapar do convite, afinal sei bem qual é a intenção da mãe dele. Um pastor novo, substituindo um que deu muito errado, é óbvio que todas as irmãs estão loucas para saber de todas as fofocas sobre o novo pregador da congregação delas — mas agradece ela por mim e diz que na próxima vou sem falta.
— Tranquilo, também fiz o convite muito em cima da hora — ótimo ele entendeu de primeira, isso é bom — a gente se vê à noite.
— O que tem de noite?
— Vôlei — ele diz como se fosse a coisa mais óbvia do mundo, só aí ele lembra que eu sou novato aqui e então me explica — a gente joga vôlei todo sábado na praça, tem uma quadra lá.
— Ah, eu não sabia.
— O pastor comentou com o Isaac que você joga muito bem, por isso pensei que você já estivesse sabendo — queria saber se meu pai deu mesmo um dossiê da minha vida para o Isaac.
— Eu jogava na minha antiga escola nada de mais.
— Vai ser bom ter alguém bom para tentar ganhar do Isaac.
— Ele é o que o melhor jogador da cidade? — Estou sendo irônico, mas o coitado do Henrique não notou ou se notou se passou.
— O melhor não, mas ele é um dos.
— Que surpresa o Isaac não ser o melhor em alguma coisa — preciso parar de pensar alto, mas pelo menos Henrique levou na brincadeira e riu interpretando o que eu falei como uma piada.
— O melhor é o inimigo mortal do Isaac — se o senhor perfeitinho tem um inimigo mortal já gostei da pessoa.
Antes que o Henrique me contasse mais sobre esse arquirrival do Isaac, o próprio se aproxima de nós e meu novo amigo interrompe a fofoca pela metade, só sei que o meu novo melhor amigo — que não conheço, mas que considero pacas — é filho da prefeita da cidade.
— Vamos — Isaac diz, indo tirar sua bicicleta da tranca.
— O Jonas não vai almoçar lá em casa, ele não avisou em casa antes — Henrrique responde por mim, só agora que entendo que o convite não se estendia só a mim, mas vejo isso como um presente, já que o Isaac vai para casa do Henrique isso quer dizer que vou conseguir me livrar dele. Quer dizer, eu consegui me livrar da pessoa física, mas na minha cabeça a história é outra. Isaac, ou melhor, o senhor perfeitinho entrou na minha mente com seus comentários de duplo sentido e agora eu posso está pensando sobre o volume dele e o que poderia rolar entre a gente se não fosse os noventa e nove motivos do porque não vai rolar nada entre a gente.
