“Despedida”
A luz da manhã entrava tímida pelas frestas da cortina, pintando listras douradas no lençol azul-marinho embolado. Tiago acordou primeiro dessa vez. O corpo ainda carregava as sensações da noite anterior: uma leve dorzinha gostosa no cu, a pele sensível onde Daniel tinha apertado os quadris, o cheiro de sêmen seco e lubrificante misturado com suor e o perfume característico do corpo dele.
Ele virou devagar para não acordar Daniel. O primo dormia de lado, rosto relaxado, braço esticado sobre o travesseiro onde a cabeça de Tiago estivera minutos antes. A respiração era profunda, ritmada, o peito largo subindo e descendo devagar. Tiago ficou olhando por longos minutos, traçando com os olhos a linha do maxilar sem barba, os cílios longos, a boca entreaberta. Sentiu um aperto no peito que não era tristeza nem medo — era uma ternura tão grande que quase doía.
Com cuidado, ele se aproximou e beijou de leve a testa de Daniel. Depois o ombro, o peito, descendo devagar até o mamilo castanho. Não chupou — só encostou os lábios, sentindo a pele quente e macia. Daniel murmurou algo incompreensível no sono e se mexeu, braço instintivamente procurando o corpo de Tiago.
Tiago sorriu contra a pele dele e se aninhou de novo, cabeça no peito, perna jogada por cima da coxa musculosa. Ficou ouvindo o coração bater forte e constante, como uma âncora.
Daniel acordou devagar, sentindo o peso quente do corpo de Tiago. Abriu os olhos, piscou algumas vezes e sorriu ao ver o primo ali, olhos castanhos olhando para cima.
— Bom dia, amor — murmurou, voz rouca de sono.
— Bom dia… — Tiago respondeu, voz baixa, quase tímida.
Daniel passou a mão pelas costas dele, descendo até a bunda, apertando de leve.
— Tá dolorido?
Tiago assentiu, corando.
— Um pouco. Mas… do tipo bom. Tipo quando a gente faz exercício depois de muito tempo parado.
Daniel riu baixo, o som vibrando no peito.
— Então eu fui gentil o suficiente?
— Foi perfeito. — Tiago subiu um pouco e beijou a boca dele devagar. — Eu nunca imaginei que ia ser assim… tão intenso. Tão certo.
Daniel retribuiu o beijo, língua entrando devagar, explorando. Quando se afastaram, ele segurou o rosto de Tiago com as duas mãos.
— Eu também. Eu tava com medo de te machucar. De ir rápido demais. Mas tu… tu se abriu pra mim de um jeito que… porra, Tiago. Eu me senti o cara mais sortudo do mundo.
Eles ficaram se olhando por longos segundos, narizes roçando, respirações misturando.
Depois Daniel se sentou na cama, puxando Tiago junto.
— Vem. Banho quente. Depois a gente faz um café da manhã decente. Tu merece.
No banheiro, a água veio quente e forte. Eles entraram juntos no box, corpos colados sob o jato. Daniel lavou o cabelo de Tiago com shampoo, dedos massageando o couro cabeludo devagar. Tiago ensaboou o peito largo de Daniel, depois desceu pela barriga definida, pela trilha de pelos aparados, até o pau que já estava meio duro só com o toque.
Não houve sexo — só carinho. Daniel passou sabonete nas costas de Tiago, massageando os ombros tensos, depois desceu até a bunda, lavando com cuidado a entrada ainda sensível. Tiago gemeu baixo quando os dedos roçaram ali, mas Daniel só beijou a nuca dele.
— Calma… só limpando. Nada mais.
Tiago virou e abraçou Daniel por baixo da água, rosto no peito dele.
— Eu te amo tanto… — sussurrou.
Daniel apertou o abraço.
— Eu te amo mais. E vou te provar todo dia.
Eles saíram enrolados em toalhas. Na cozinha, Daniel preparou ovos mexidos com bacon, pão torrado na chapa, suco de laranja fresco. Tiago cortou frutas e colocou na mesa. Sentaram lado a lado, coxas coladas, mãos se tocando o tempo todo.
Enquanto comiam, Daniel falou baixo:
— Tu volta amanhã, né?
Tiago assentiu, olhando o prato.
— O ônibus sai às 14h. Preciso resolver umas coisas em Joinville. Pedir demissão, arrumar as malas, falar com meus pais… — Ele respirou fundo. — Vai ser difícil.
Daniel pousou o garfo e virou o rosto dele com gentileza.
— Eu vou contigo, se tu quiser. Ou fico aqui esperando. Mas tu não vai enfrentar sozinho.
Tiago sorriu pequeno.
— Eu acho que preciso fazer isso sozinho primeiro. Pra mostrar pra mim mesmo que eu consigo. Mas eu volto. Em duas semanas, no máximo. Prometo.
Daniel assentiu, olhos brilhando.
— Duas semanas. Eu aguento. Mas tu me liga todo dia. E manda foto. E me conta tudo.
— Todo dia — Tiago prometeu.
O resto da manhã foi lento, preguiçoso. Eles deitaram no chão da varanda, Tiago deitado sobre Daniel, cabeça no peito dele, ouvindo o coração enquanto Daniel acariciava o cabelo preto liso.
— Eu vou sentir tua falta — Daniel murmurou.
— Eu vou sentir mais — respondeu Tiago. — Mas é só duas semanas. Depois eu tô aqui. Pra sempre, se tu quiser.
Daniel beijou a testa dele.
— Eu quero. Pra sempre.
À tarde, Daniel levou Tiago até a rodoviária na caminhonete preta. O trajeto foi silencioso, mas não pesado. Mãos dadas no câmbio, olhares trocados nos retrovisores, sorrisos pequenos.
Na rodoviária, Daniel estacionou e desceu com Tiago. Carregou a mala dele com a mão direita, depois o puxou para um abraço apertado no meio do saguão. Não se importou com quem estava olhando.
— Cuida de ti — sussurrou no ouvido dele. — E volta logo.
Tiago apertou forte.
— Eu volto. Te amo.
— Te amo mais.
Eles se beijaram ali mesmo — um beijo longo, profundo, cheio de promessa. Quando o ônibus apitou, Tiago se afastou devagar, olhos marejados.
— Duas semanas — repetiu.
Daniel assentiu, sorriso torto.
— Duas semanas.
Tiago subiu no ônibus, sentou na janela e ficou olhando Daniel até o veículo dar a partida. Daniel ficou parado no estacionamento, mãos nos bolsos, vendo o ônibus sumir na estrada de terra.
Quando voltou para o sítio, a casa parecia grande demais. Silenciosa demais. Ele sentou na varanda, olhando o pomar, e sentiu um vazio no peito.
Mas era um vazio temporário.
Porque ele sabia que, em duas semanas, Tiago voltaria.
E aí sim, a vida deles começaria de verdade.
Continua…