Era uma tarde de sábado abafada, daquelas que o sol de fevereiro parece queimar até a alma. A casinha de taipa e tijolo vermelho, lá no fim da rua de terra batida, tinha as janelas abertas pra tentar pegar algum ventinho, mas só entrava calor e o cheiro de terra seca misturado com o perfume de jasmim do quintal. Eu, Dona Maria das Dores — ou só Mainha, como as meninas me chamam —, tava na saleta que serve de ateliê, com a máquina de costura Singer velha cantando baixinho enquanto eu acabava de alinhavar o corpete do vestido de noiva. Não era pra nenhuma delas casar, não. Era pro casamento da filha do seu Zé da venda, que tinha encomendado o vestido branco simples, mas com uns detalhes de renda que eu mesma fiz à mão. As meninas tavam ajudando, como sempre faziam desde pequenas: Graça segurando o tecido pra eu marcar, Joana passando o ferro pra abrir as costuras.
Elas tavam de combinação leve, daquelas de algodão fino que usam em casa, porque o calor não deixava usar mais nada. Eu já tinha medido as duas mil vezes na vida — pra saias, blusas, vestidos de festa da igreja —, mas hoje o vestido precisava ficar perfeito no corpo, com caimento justo no busto e na cintura, pra realçar a silhueta da noiva. Então eu falei, sem pensar duas vezes:
— Vem cá, Graça, deixa eu medir teu busto de novo, pra ver se o decote cai certo. E tu, Joana, segura aí o metro que eu vou pegar as medidas da cintura também. Vai que a moça quer ajustar igual no corpo de vocês, pra testar.
Elas riram, achando graça. Graça veio primeiro, levantou os braços devagar, como eu ensinei desde pequena. Eu passei o metro de tecido em volta do peito dela, por cima da combinação. O tecido era fino, quase transparente no calor, e eu senti o calor da pele dela através dele. O busto subia e descia com a respiração um pouco acelerada — talvez pelo calor, pensei. Meus dedos roçaram de leve a lateral do seio quando ajustei o metro. Foi sem querer. Mas ela não se mexeu. Ficou quieta, os olhos baixos, mordendo o lábio de leve.
— Mainha… tá apertado? — perguntou ela, voz baixa, quase sussurrada.
— Não, minha filha. Tá perfeito. Teu corpo é lindo, oxente. Sempre foi.
Eu não sei o que me deu. Talvez o calor, talvez o jeito que a luz batia na pele suada dela, talvez o cheiro de sabonete de coco misturado com o suor leve das duas. Eu desci o metro devagar pela cintura, sentindo a curva macia da barriga, o umbigo marcando de leve no tecido. Meus dedos ficaram ali um segundo a mais, traçando o contorno sem querer. Ela arrepiou inteira. Eu vi os pelinhos do braço se levantarem.
Joana veio do lado, pra ajudar a segurar o tecido. Ela se aproximou demais, o braço roçando no meu. Eu virei pra medir a cintura dela também. Passei o metro em volta, apertando de leve. A pele dela era quente, úmida, e quando meus dedos roçaram a parte de baixo do seio — só um toque acidental —, ela soltou um suspiro curto, rouco. Eu parei. Meu coração bateu forte no peito, como se tivesse acordado de um sono longo.
— Mainha… — Joana murmurou, voz tremendo um pouquinho.
Eu devia ter parado ali. Devia ter dito “pronto, acabou”, guardado o metro e voltado pra máquina. Eu sou a mãe delas, oxente! Criada na igreja, rezando todo dia, ensinando as meninas a serem direitas, a respeitarem o corpo que Deus deu. Mas naquele momento, com as duas ali paradas, respirando pesado, os olhos escuros me olhando de um jeito que eu nunca tinha visto… alguma coisa dentro de mim cedeu. Foi como se o calor do dia tivesse derretido a resistência que eu nem sabia que tinha.
Eu deixei o metro cair devagar no chão. Minha mão subiu, tremendo, e tocou o rosto de Graça primeiro. A pele macia, quente, suada. Ela fechou os olhos, encostou a bochecha na minha palma. Joana se chegou mais perto, o corpo colando no meu lado. Eu virei o rosto e beijei a testa dela, depois desci pro rosto, pro canto da boca. Foi leve no começo, como um carinho de mãe. Mas quando ela abriu a boca, devagar, eu entrei. A língua dela encontrou a minha, molhada, quente, com gosto de saliva doce e salgada do calor.
Graça veio do outro lado. Eu senti as mãos dela na minha cintura, puxando de leve a saia florida que eu usava. Eu resisti um segundo — “Não pode, minhas filhas, isso é pecado, meu Deus…” —, mas a voz saiu fraca, sumindo na garganta. Elas não falaram nada. Só continuaram. Joana desceu a boca pro meu pescoço, lambendo o suor que escorria ali, chupando de leve a pele. Eu arfei alto, as pernas fraquejando.
Minhas mãos foram sozinhas. Subiram pela combinação de Graça, sentindo os seios macios, os bicos duros roçando nas palmas. Apertei de leve, sentindo ela gemer na minha boca. Joana puxou minha blusa pra cima, expondo meu peito — eu não usava sutiã em casa, com esse calor. Ela pegou um seio na boca, chupando forte, a língua rodando no bico. Eu soltei um gemido rouco, alto demais pro silêncio da casa.
A gente caiu devagar no chão, sobre o tecido branco do vestido que tava estendido no assoalho. Eu deitei de costas, as meninas uma de cada lado. Graça desceu beijando minha barriga, abrindo minha saia, encontrando o caminho por baixo da calcinha. Quando os dedos dela tocaram ali, eu estava molhada, quente, escorregadia. Ela enfiou devagar, sentindo tudo apertar em volta. Eu arqueei as costas, cravando as unhas no braço de Joana.
Joana desceu também, beijando o peito da irmã enquanto a mão dela ia pro meio das minhas pernas, ajudando Graça. Dois conjuntos de dedos me explorando, mexendo devagar no começo, depois mais forte, mais fundo. O som molhado enchia a saleta, misturado com nossos gemidos abafados. Eu mordia o lábio pra não gritar, mas quando o prazer veio, foi forte demais: o corpo inteiro convulsionou, as pernas tremeram, eu segurei as cabeças delas contra mim enquanto ondas me atravessavam.
Depois, elas trocaram. Eu quis sentir também. Toquei Graça primeiro, sentindo o calor úmido, os pelinhos ásperos, os lábios inchados. Enfiei os dedos devagar, sentindo ela pulsar em volta. Joana se abriu pra mim também. Eu mexi nas duas ao mesmo tempo, ritmado, enquanto elas gemiam no meu pescoço, mordendo de leve.
Quando elas gozaram — quase juntas —, foi como se o mundo parasse. Corpos tremendo, gemidos roucos abafados nos meus ombros, unhas cravando na minha pele. Depois, ficamos ali, ofegantes, suadas, coladas no chão quente, o vestido de noiva amassado embaixo de nós.
Eu chorei baixinho. De culpa, de vergonha, de um prazer que eu nunca imaginei sentir. Mas elas me abraçaram forte, beijando meu rosto.
— Mainha… tá tudo bem — Graça sussurrou.
— A gente te ama — Joana completou.
Eu não respondi. Só fechei os olhos, sentindo os corpos delas contra o meu.
O vestido de noiva ficou ali, manchado de suor e de nós. Eu ia ter que lavar, consertar. Mas naquele momento, eu não conseguia me mexer.
Eu só queria ficar ali, com elas.
Mesmo sabendo que era errado.
Mesmo sabendo que Deus tava olhando.
Mas o calor… o calor tinha levado tudo embora. E eu, pela primeira vez, não lutei contra.