O corrupto e a esposa exemplar. Cap. 3

Um conto erótico de Dr.Jakyll6
Categoria: Heterossexual
Contém 5657 palavras
Data: 11/02/2026 11:39:18

Acordei com a luz fraca da manhã de sábado entrando pelas frestas da persiana. O quarto ainda estava mergulhado na penumbra, e ao meu lado, Renato dormia pesado, exausto da viagem que se arrastou até tarde da noite. A respiração dele era regular, profunda, o peito subindo e descendo num ritmo pacífico. Ele chegara perto da meia-noite, dera um beijo molhado na minha testa e desabara na cama ainda com meias.

Eu não consegui voltar a dormir.

Fiquei ali deitada por um tempo, olhando para o teto branco, para o lustre de cristal que escolhemos juntos numa loja cara. Meus pensamentos giravam em círculos, como um carrossel desgovernado. Por que aquilo estava acontecendo comigo? Por que eu, justo eu, que sempre fiz tudo certo? Sempre fui a filha obediente, a aluna aplicada, a esposa fiel. A professora de etiqueta que ensinava outras mulheres a se comportarem.

E, no entanto, ali estava eu. Deitada na cama do meu marido com o corpo ainda latejando da lembrança do que fiz naquela tarde. O que Valério despertou em mim não era novo. Era algo que eu tinha enterrado fundo, tão fundo que achei que nunca mais encontraria o caminho de volta para a superfície.

Sentei na beira da cama, devagar, para não acordar Renato. Meus pés encontraram o carpete macio. A casa estava silenciosa, o tipo de silêncio que amplifica os pensamentos em vez de acalmá-los. Fui até a janela da sala, de onde dava para ver o jardim. O jardim do bebê. A grama verdinha, as mudas de flores que Renato plantara com tanto carinho. Nossa vida planejada, certinha, aprovada por Deus.

Uma lágrima escorreu, e eu nem senti quando começou.

O que havia de errado comigo? Era a chantagem? Era o medo? Ou eu sempre fui assim, por baixo de toda aquela camada de boas maneiras e vestidos comportados? Talvez Valério não tivesse criado nada. Talvez ele só tivesse encontrado uma porta que eu mesma mantive trancada por anos, fingindo que não existia.

A memória veio sem aviso, como um flash.

---

Eu estava no início do ensino médio quando encontrei a revista.

Foi numa tarde de sábado, entediada, explorando o quarto do meu irmão mais velho, Isaque. Ele tinha 18 anos e estava no último ano do colégio, sempre trancado no quarto com os amigos jogando videogame. Minha mãe o tratava diferente, com mais liberdade. Homens são assim, ela dizia. Homens têm necessidades.

A revista estava debaixo do colchão, num envelope pardo amassado. Eu só fui ver o que era por curiosidade infantil, daquelas de fuçar onde não deve. Quando abri, meu coração parou por um segundo inteiro.

Era uma mulher nua na primeira página. Loira, peitos enormes, a boca aberta num gemido, as pernas abertas mostrando tudo. Meu rosto queimou. Fechei a revista rápido, como se tivesse levado um tapa. Meu primeiro instinto foi colocar de volta e esquecer.

Mas não consegui.

Abri de novo. Página por página. Homens e mulheres em posições que eu nem sabia que existiam, corpos entrelaçados, bocas em lugares que minha mãe diria serem imundos. Meu corpo reagiu antes da minha cabeça processar. Uma umidade quente entre as pernas, o coração batendo acelerado, um formigamento que começava na nuca e descia pela coluna.

Eu não entendia o que sentia, mas queria mais.

Escondi a revista no fundo do meu armário, entre as roupas de cama que ninguém usava. Durante semanas, vivi dois segredos: a Isabella da escola, aluna exemplar, filha obediente; e a Isabella do quarto fechado, que trancava a porta e devorava aquelas imagens com uma fome que me assustava.

Eu olhava para as mulheres. Os homens nem tanto. Eram os corpos femininos que me fascinavam — os seios grandes, as bundas redondas, as expressões de prazer. Eu imaginava como seria ter um corpo assim, como seria ser olhada daquele jeito, desejada daquele jeito. Colocava a mão entre as pernas e imitava o que via, tentando encontrar o mesmo êxtase estampado naquelas páginas.

Foi nessa época que Jefferson entrou na minha vida.

Ele chegou no meio do ano, transferido de outra escola. A primeira vez que o vi, no pátio, senti o mesmo choque da primeira página da revista. Só que era real, vivo, e estava a poucos metros de mim.

Jefferson era feio de um jeito bonito. O cabelo preto sempre bagunçado, a pele morena dos dias de sol, os braços finos mas fortes de quem trabalhava. Tinha um sorriso torto, meio debochado, e um olhar preguiçoso que parecia medir o mundo e achar tudo meio sem graça. A camisa do uniforme vivia desabotoada no peito, mostrando um pedaço da clavícula e um início de músculo que me tirava o fôlego.

Eu não conseguia parar de olhar para ele.

Nas aulas, eu imaginava as mãos dele no meu corpo, iguais às mãos dos homens da revista. Nos intervalos, eu ficava horas no banco perto do pátio, o livro aberto no colo, vendo ele jogar bola. A camisa molhada colando nas costas, o movimento dos músculos das pernas, o suor escorrendo pelo pescoço. Eu sentia um calor insuportável na barriga, uma coisa que apertava o peito e molhava minha calcinha.

Uma vez, ele levantou a camisa para enxugar o rosto. Por um segundo, vi a barriga lisa, a linha de pelos finos descendo do umbigo. Mordi o lábio com tanta força que quase sangrou.

À noite, eu trancava a porta, tirava a revista do esconderijo e me tocava imaginando Jefferson. Não era um pensamento romântico, desses de filme. Era sujo, cru. Eu imaginava ele me empurrando contra a parede do corredor, a mão dele subindo pela minha coxa, a boca mordendo meu pescoço. Imaginava o peso dele sobre mim, a respiração ofegante, o cheiro de suor depois do jogo.

Eu gozava com uma intensidade que me deixava exausta, depois me sentia culpada e pedia perdão a Deus. No dia seguinte, estava de novo no banco do pátio, esperando.

O grande dia chegou sem aviso. Eu estava saindo da biblioteca, com um pilha de livros nos braços, quando virei o corredor e quase trombei com ele. Jefferson segurou meu braço para me equilibrar.

— Calma, princesa — ele disse. A voz era mais grave que eu imaginava.

Princesa. Ele me chamou de princesa.

Fiquei paralisada. A mão dele no meu braço era quente, os dedos compridos envolvendo meu pulso com uma firmeza que fez meu estômago cair. Ele não soltou na hora. Me olhou de cima a baixo, aquele olhar preguiçoso, e sorriu.

— Você é da sala 3, né? A quietinha.

Não consegui responder. A boca estava seca.

Ele soltou meu braço devagar, como quem tem tempo. Pegou um dos livros que ia caindo, passou os dedos pela capa e me devolveu.

— Até mais, quietinha.

E foi embora, as mãos nos bolsos, sem pressa.

Passei o resto do dia no piloto automático. Naquela noite, tranquei a porta do quarto e tirei a revista. Dessa vez, não precisei das fotos. Fechei os olhos e senti a mão dele no meu braço, a voz rouca, o sorriso torto. Me toquei com uma urgência desesperada, mordendo o travesseiro para não gritar.

Não ouvi os passos no corredor.

A luz acendeu.

Minha mãe estava na porta. O robe de seda, os rolinhos no cabelo, o rosto transformado numa máscara de gelo. A revista estava aberta na cama, bem ao lado da minha mão ainda entre as pernas.

— O que é isso, Isabella?

A voz dela era baixa, controlada, muito pior do que se fosse um grito.

Tentei falar, mas as palavras morreram. Ela caminhou até a cama, pegou a revista como se fosse um rato morto. Folheou duas páginas, o rosto impassível.

— De onde tirou isso?

— Do… do quarto do Isaque — sussurrei.

— Seu irmão não tem nada a ver com a sua imundície. Você foi lá fuçar. Você quis ver isso. Você quis sentir isso. — Ela me olhou com um nojo que nunca vou esquecer. — Sua vagabunda.

A palavra ecoou no quarto como um tiro.

— Moças direitas não sentem essas coisas — ela continuou, fria, cirúrgica. — Moças direitas não enfiam a mão dentro de si mesmas como putas. Moças direitas não olham para homens como se fossem carne. Você quer ser uma puta, Isabella?

— Não, mamãe — engasguei, as lágrimas escorrendo.

— Então comporte-se como uma moça de família. Tire essas imagens imundas da cabeça. Peça perdão a Deus. — Ela jogou a revista no cesto de lixo. — Amanhã vamos à igreja. Você vai se confessar.

Ela apagou a luz e fechou a porta.

Fiquei no escuro, ouvindo meu próprio choro. Na manhã seguinte, quando voltei da escola, meu quarto estava impecável. Os livros realinhados por cor, os lençóis trocados, a cama feita com cantos perfeitos. A revista tinha desaparecido, como se nunca tivesse existido.

Nunca mais falei com Isaque sobre aquilo. Nunca mais toquei em mim mesma. Ou pelo menos tentei.

Jefferson Moreira se mudou no fim do ano. Eu nunca soube o que aconteceu com ele. Mas por muito tempo, antes de dormir, eu ainda sentia a mão quente dele no meu pulso, e rezava para que Deus me perdoasse por ainda desejar aquela sensação.

---

A lágrima na janela agora era outra, mais velha, mais pesada. Passei a mão no rosto, tentando afastar a lembrança. Mas ela ficou ali, latejando.

Eu era nova e aprendi que desejo era sujo. Aprendi que sentir prazer me tornava uma vagabunda. Aprendi que mulheres direitas não olham, não tocam, não querem. Aprendi a trancar aquela parte de mim num quarto escuro e jogar a chave fora.

E por 19 anos, eu obedeci. Casei com um homem bom, construí uma vida certinha, nunca ousei perturbar a superfície impecável. Enterrei Jefferson, enterrei a revista, enterrei a menina que gozava imaginando mãos quentes no corpo.

Olhei minhas mãos. As mesmas mãos que ensinavam a postura correta para tomar chá. As mesmas mãos que ontem tinham estado dentro de mim, me fazendo gemer pensamentos que minha mãe ainda chamaria de coisa de vagabunda.

Talvez eu fosse, sim. Talvez essa fosse a verdade que eu passei quase duas décadas tentando ignorar. Talvez aquela menina de 14 anos nunca tivesse ido embora. Só aprendeu a se esconder melhor.

Do quarto, ouvi Renato se mexendo na cama. A respiração dele mudou, sinal de que ia acordar em breve. Limpei as lágrimas com as costas da mão, ajeitei o cabelo, compus a expressão serena de sempre.

A esposa exemplar voltou para a cama. Fingiu que dormiu a noite toda, que sonhou com jardins de bebê e futuros perfeitos.

---

O sábado foi um respiro. Renato acordou tarde, ainda zonzo da viagem, e eu me agarrei à rotina como um náufrago se agarra a uma tábua. Preparei café, torradas, suco de laranja espremido na hora. Ele leu o jornal no celular enquanto eu passava manteiga no pão, e conversamos sobre coisas banais — a reforma da calçada, o convite para o chá de fraldas de uma prima, o filme que queríamos ver no cinema.

— Você tá diferente hoje — ele comentou, me olhando por cima da tela. — Mais calma.

— Só feliz que você voltou — menti, sorrindo.

Passamos a tarde vendo televisão abraçados no sofá, e à noite fizemos amor. Foi bom, familiar, seguro. Dessa vez, consegui manter a imagem dele na minha cabeça. Dessa vez, não deixei Valério entrar.

Domingo amanheceu quente, daqueles dias que pedem piscina. Depois do almoço, vesti meu maiô — azul-marinho, de alças finas, modesto mas que marcava as curvas — e espalhei protetor solar nas pernas enquanto Renato pegava as toalhas.

— Vamos aproveitar antes que o calor passe — ele disse, animado. — Essa semana vai ser puxada no escritório, mas depois do que o síndico me falou, acho que finalmente vou conseguir focar só no processo e nos planos do bebê.

— O que o síndico falou? — perguntei, deitando na espreguiçadeira.

— Que o Montenegro vai recuar. Parece que finalmente entendeu que não vai ganhar essa briga. — Renato esticou-se ao meu lado, de óculos escuros, o peito nu reluzente de bronzeador. — Talvez a gente finalmente tenha paz.

Eu deveria ter sentido alívio. Em vez disso, senti um aperto no estômago.

Foi quando ouvi o barulho. Virei a cabeça e lá estava ele: Valério Montenegro, na área de serviço da casa dele, remexendo uns vasos de planta. Estava de bermuda e regata, a barriga branca e pelada exposta ao sol, a careca brilhando. Meu corpo inteiro ficou tenso.

— Olha só — Renato murmurou, com desdém. — Trabalhando no domingo. Pelo menos não está nos enchendo o saco.

Eu não respondi. Observava os movimentos dele, lentos, propositais. Ele nem parecia estar olhando para a gente. Até que levantou a cabeça, nos viu, e…

Começou a caminhar em nossa direção.

— Renato — avisei, a voz subindo.

— Tô vendo.

Valério parou do lado de fora do gradil, as mãos nos bolsos da bermuda. O sol batia direto nele, e eu podia ver cada poro, cada ruga daquele rosto de bulldog.

— Doutor Oliveira — ele chamou, num tom surpreendentemente neutro.

Renato levantou-se, os ombros tensos. — Montenegro.

— Queria pedir desculpas. Pela forma como tenho agido. Sobre o terreno, as discussões… — Valério desviou o olhar para mim por um segundo, rápido demais para ser notado por Renato, longo demais para ser acidental. — Fui levado pela emoção. Negócios são negócios, e o senhor venceu de forma justa.

Renato ficou mudo por um instante. Eu também.

— Bem… — meu marido pigarreou. — Agradeço. Levo um tempo para digerir, mas… agradeço.

Valério assentiu, virou-se e voltou para casa com o mesmo passo lento. Não olhou para trás.

Renato sentou-se ao meu lado, atônito.

— Você acredita nisso? Ele pediu desculpas. O Valério Montenegro pediu desculpas. — Ele riu, aliviado. — Talvez o velho não seja tão canalha assim. Ou talvez esteja mesmo perdendo o juízo.

Eu não ri. Fiquei olhando para a casa dele, para as cortinas fechadas, para o vulto que se movia lá dentro.

Aquele pedido de desculpas foi ensaiado. Aquele olhar não foi de arrependimento.

— Bella? Tudo bem? — Renato tocou meu braço.

— Tudo — respondi, forçando um sorriso. — É que… fiquei surpresa também.

— Pois é. — Ele deitou-se novamente, relaxado pela primeira vez em meses. — Sabe o que isso significa? Que agora posso me dedicar totalmente ao nosso futuro. Sem distrações, sem guerras idiotas. Só eu, você e o baby.

Ele colocou a mão na minha barriga, ainda lisa, e sorriu. Um sorriso limpo, confiante.

E eu sorri de volta, porque era isso que uma esposa exemplar fazia.

Mas por dentro, algo se remexia. Uma irritação profunda, um desgosto que não era contra Renato, mas contra mim mesma. Eu sabia que aquelas desculpas não passavam de teatro. Sabia que o olhar de Valério tinha sido um recado cifrado, uma promessa mantida. Ele não estava recuando. Estava apenas refinando a armadilha.

E pior: eu tinha entendido o recado.

Deitada na espreguiçadeira, sentindo o sol queimar minha pele, eu me odiei por ainda contar os dias. Segunda, terça… terça-feira, 10h. Faltavam dois dias. E mesmo sabendo que aquela trégua era uma mentira, mesmo vendo Renato tão aliviado, tão esperançoso, uma parte de mim — a mesma parte que espreitava Jefferson no pátio do colégio — aguardava o próximo encontro com uma ansiedade que nada tinha a ver com medo.

Renato pegou no sono ao meu lado, o peito subindo e descendo num ritmo calmo. Eu fiquei ali, imóvel, olhando para a janela escura da casa ao lado.

O monstro tinha pedido desculpas. O marido tinha baixado a guarda.

E eu, a esposa fiel, tinha acabado de perceber que estava completamente sozinha na própria armadilha.

---

A segunda-feira amanheceu cinzenta, o tipo de céu que não chove mas também não deixa o sol passar. Acordei antes do despertador e fiquei deitada, ouvindo Renato se arrumar no banheiro. Água correndo, passos no carpete, o cheiro do perfume dele que eu comprei no Natal passado.

— Tá acordada, amor? — ele apareceu na porta, de terno, o cabelo ainda úmido.

— Já ia levantar.

Ele se inclinou e beijou minha testa. — Hoje vou tentar sair mais cedo. A trégua com o Montenegro me deu uma paz que eu não sentia há meses. Acho que finalmente vou conseguir focar no que importa.

— Que bom — respondi, e a frase saiu automática.

Ele saiu e o silêncio da casa me engoliu.

Fiquei na cama por um longo tempo, olhando para o teto. Meu corpo parecia pesado, mas minha mente estava elétrica, afiada. Fui até o banheiro e olhei no espelho. A mesma Isabella de sempre. A mesma pele, os mesmos olhos, os mesmos cabelos loiros que eu penteava todas as manhãs com a paciência de quem molda a própria imagem.

Mas havia algo diferente. Algo que eu não conseguia nomear.

Tomei banho, vesti uma roupa simples — calça bege, blusa de seda branca, salto baixo — e desci para a cozinha. Preparei café, alinhei os potes de cereal na despensa, passei pano no balcão que já estava limpo. A rotina me acalmava, mas não o suficiente.

O que estava acontecendo comigo?

Respirei fundo e me forcei a pensar com clareza. Vamos por partes. Valério Montenegro tinha um arquivo que podia destruir a carreira de Renato. Usou isso para me chantagear e me obrigar a encontros na casa dele. Eu fui. Obedeci. Ajoelhei. Olhei. Senti nojo, medo e…

Não. Para ali.

Eu não senti desejo. Eu senti curiosidade. Medo. Adrenalina. Meu corpo reagiu a uma situação extrema, isso é biologia, não é traição. Eu amo Renato. Eu construí uma vida com ele. Uma noite de fraqueza não apaga oito anos de casamento, não apaga os planos de ter filhos, não apaga a fé que eu carrego desde menina.

Eu não sou o que Valério quer que eu seja.

Levantei da mesa com uma determinação nova. Eu iria à casa dele na terça-feira, sim — porque não tinha escolha, porque o arquivo ainda existia. Mas iria diferente. Iria com a cabeça erguida, os olhos frios, a postura impecável. Ele podia me obrigar a estar lá, mas não podia me obrigar a sentir nada. Eu era a única dona dos meus pensamentos. Eu era a única que decidia o que aqueles encontros significavam.

E eles não significavam nada.

Passei a manhã planejando. Escolheria uma roupa austera, fechada, que não desse margem para interpretações. Ensaiei mentalmente respostas secas, olhares de gelo, uma postura que deixasse claro: você pode me obrigar a vir, mas não vai me quebrar.

Fiz almoço, comi sozinha, lavei a louça. À tarde, cai de cabeça no trabalho, o Liceu Elegante funcionava num casarão antigo no centro, a 15 minutos de casa, com janelões de madeira e um cheiro de livros e flores secas. Minha sala era no segundo andar, com espelhos numa parede e cadeiras de palhinha alinhadas perfeitamente. Quando entrei, as meninas já estavam sentadas, uniforme impecável, mãos no colo.

— Bom dia, senhoritas — comecei, colocando a pasta sobre a mesa. — Hoje vamos praticar a arte de receber.

Durante duas horas, ensinei a posição correta dos talheres, a altura do copo de água, o ângulo do sorriso ao cumprimentar convidados. Vi os olhos delas se acenderem quando acertavam um movimento, vi a concentração quando tentavam não derrubar a xícara de porcelana.

— A elegância — disse eu, caminhando entre as cadeiras — não é sobre ser rígida. É sobre controle. Saber o que fazer, quando fazer, e fazer parecer fácil.

Uma das meninas, moreninha de óculos, levantou a mão.

— Dona Isabella, a senhora aprendeu isso com alguém?

Parei. A pergunta pegou um fio solto dentro de mim.

— Aprendi com minha mãe — respondi. — Ela me ensinou que uma mulher bem-educada não precisa gritar para ser ouvida. A presença, o porte, a postura… isso fala mais alto que qualquer palavra.

As meninas assentiam, sérias. E eu continuei a aula.

Mas enquanto demonstrava a forma correta de segurar a xícara de chá, minha mente viajou. Vi minha mãe, décadas atrás, sentada à mesa de jantar de nossa casa, me corrigindo com paciência férrea. *"O punho não pode tocar a mesa, Isabella. Cotovelo junto ao corpo. Assim."* Vi seus dedos finos ajustando minha postura, seus cabelos grisalhos presos num coque impecável. Ela era dura, sim. Às vezes cruel. Mas me deu ferramentas. Me deu uma carreira. Me deu um lugar no mundo.

E agora, eu passava isso adiante.

Senti um orgulho quieto crescendo no peito. Uma certeza. Aquela sala, aquelas meninas, aquela cadeira de palhinha — era meu lugar. Era real. Era legítimo.

Nada que Valério Montenegro dissesse ou fizesse poderia apagar isso.

Mas então, no meio da aula, enquanto uma aluna repetia o movimento de servir chá sem derrubar uma gota, um pensamento escapou pelas frestas da minha concentração.

*E se eu não tivesse aprendido tudo isso?*

*E se minha mãe não tivesse me pegado naquela noite, com a revista, com a mão entre as pernas?*

*E se ela tivesse apenas fechado a porta e deixado eu descobrir meu corpo sozinha, sem nojo, sem culpa, sem aquela palavra ecoando até hoje?*

A xícara na mão da aluna tremeluziu por um segundo. Pisquei, voltei à superfície.

— Muito bem — elogiei. — Agora com mais leveza nos pulsos.

Mas o pensamento não foi embora. Ficou ali, latejando na borda da minha consciência. Durante a demonstração de posicionamento de guardanapos, eu me vi imaginando outra vida. Uma vida onde eu não aprendera a sufocar meus desejos, mas a conhecê-los. Onde eu não aprendera a me odiar aos 14 anos, mas a me entender. Onde Jefferson talvez não tivesse sido apenas uma mão quente no pulso, mas algo mais.

*O que teria sido de mim?*

Olhei para as meninas à minha frente. Elas tinham a idade que eu tinha quando aprendi que meu corpo era um campo de batalha, e que a única vitória possível era a rendição total à decência.

Uma delas, a loirinha da primeira fila, riu baixinho quando a amiga derrubou o açucareiro. O som era livre, sem culpa. Ela ainda não aprendera que certos prazeres são proibidos.

Ou talvez já tivesse aprendido, e estivesse apenas fingindo bem.

Como eu.

No fim da aula, as meninas saíram tagarelando, e eu fiquei um momento a mais na sala vazia, olhando meu reflexo no espelho. A Isabella do espelho usava calça preta, blusa de seda branca, salto baixo. A esposa exemplar. A professora de etiqueta. A filha de sua mãe.

E, no entanto…

*Valeu a pena?*

A pergunta veio sem aviso, e ficou pairando no ar silencioso da sala. Toda essa construção, essa imagem, essa vida certinha. Valeram a pena? Ou eu troquei uma coisa por outra sem nem perceber o que estava perdendo?

Balancei a cabeça, guardei os materiais e fui embora.

Por volta das cinco horas, já em casa, o interfone tocou.

— Dona Isabella? É da portaria. Tem uma entrega para a senhora.

Desci para pegar. Era uma caixa pequena, embrulhada em papel pardo, sem remetente. Subi de volta, coloquei-a sobre a mesa da cozinha e fiquei olhando. Meu nome estava escrito à mão. Letra firme, grossa, masculina. Sabia de quem era.

Abri.

Dentro, um embrulho de seda vermelha. Desdobrei devagar, e o tecido escorregou entre meus dedos como água. Era um conjunto de lingerie — sutiã de renda transparente, calcinha fio dental, ambos num vermelho profundo, quase sangue. Nunca tinha usado nada assim. Nunca. Minhas calcinhas eram de algodão, bege, preta, branca. Meus sutiãs, funcionais.

Isso era… para outra mulher.

O cartão estava no fundo da caixa, um retângulo de papel couchê branco, elegante, como os que vêm em embalagens de lojas caras. Peguei com a ponta dos dedos. Não havia nome, não havia assinatura. Apenas uma frase impressa em letras delicadas, como se fosse um slogan de marca:

*"Vista-se como a mulher que você está descobrindo ser."*

Fiquei paralisada, a peça de renda pendurada nos meus dedos. A primeira reação foi jogar tudo no lixo. A segunda, rasgar o cartão. A terceira, ligar para Renato e contar tudo, acabar com essa farsa de uma vez por todas.

Mas não fiz nada disso.

Em vez disso, levei a lingerie para o quarto. Coloquei-a sobre a cama e fiquei olhando. O vermelho contrastava com os lençóis brancos, quase agressivo. *Vista-se como a mulher que você está descobrindo ser.*

Que mulher era essa? A que se ajoelhou no tapete dele? A que se tocou na cama do marido pensando em castigos? A que, agora mesmo, estava com a respiração acelerada só de olhar para aquela renda?

Ouvi minha própria respiração, curta, irregular. Devagar, como se estivesse em transe, desabotoei a blusa de seda branca. Tirei a calça bege. Fiquei de sutiã e calcinha comuns diante do espelho do guarda-roupa.

Então vesti a lingerie vermelha.

O sutiã era de um modelo que eu só tinha visto em vitrines, nunca imaginado usando. A renda transparente mal cobria os bicos dos seios, que imediatamente ficaram duros, marcando o tecido. A calcinha era mínima, tira fina nas laterais, um triângulo minúsculo na frente e um fio que se enterrava entre as nádegas.

Me olhei no espelho e não me reconheci.

Meu corpo, o mesmo de sempre, parecia diferente sob aquela pele vermelha. Os seios fartos, empinados, a cintura fina, os quadris largos, as coxas grossas. A bunda redonda e alta, realçada pelo fio dental. Eu nunca tinha me visto assim. Nunca tinha me permitido.

Passei a mão pelo quadril, acompanhando a curva. Subi até a cintura, desci até a coxa. Virei de lado, olhei por cima do ombro. A imagem no espelho era de uma mulher que eu não conhecia. Uma mulher que não pedia licença, não pedia desculpas. Uma mulher que existia, silenciosa, sob anos de roupas comportadas e sorrisos educados.

Fiquei ali um longo tempo, me examinando. Tocando a própria pele, descobrindo ângulos, sombras, texturas. O tecido frio da renda contra o calor do corpo. O vermelho vivo contra o branco pálido. O contraste entre quem eu era e quem eu poderia ser.

O relógio marcava 18h30. Renato chegava em 20 minutos.

Respirei fundo, sentindo o sutiã de renda apertar suavemente os seios. Por um momento, pensei em tirar tudo, vestir meu pijama de algodão e fingir que nada aconteceu.

Em vez disso, abri o guarda-roupa e peguei minha camisola. Era longa, de manga comprida, um algodão fino e macio na cor marfim. Fechada até o pescoço, com pequenos botões de madrepérola. Ia até os joelhos. Era o tipo de peça que minha mãe aprovaria — comportada, modesta, quase monástica. Eu usava todas as noites.

Vesti-a por cima da lingerie vermelha.

O tecido grosso da camisola escondia completamente a renda, as transparências, a ousadia. A gola alta cobria o decote. As mangas longas escondiam os braços. A barra nos joelhos negava qualquer sugestão de pele. Olhei no espelho novamente. A esposa exemplar estava de volta. A imagem estava intacta. Nada, absolutamente nada, denunciava o que havia por baixo.

Mas por baixo, escondida, a mulher de vermelho respirava.

Desci para a sala, acendi as luzes, ajeitei as almofadas do sofá. A cada passo, sentia o atrito da renda contra a pele, a calcinha fio dental se ajustando entre as nádegas, o sutiã transparente sustentando os seios de um jeito que nenhuma peça comum fazia. Era desconfortável. Era estranho. Era…

Não terminei o pensamento.

Às 18h52, a chave girou na fechadura.

— Cheguei mais cedo, como prometido — Renato entrou, largando a pasta no aparador. — Que cheiro bom. É jasmim?

— Acendi um difusor novo — respondi, indo ao encontro dele. Beijei seu rosto, senti o cheiro do dia de trabalho em sua pele. — Fome?

— Sempre. — Ele sorriu, e era o mesmo sorriso de sempre, o mesmo homem bom, a mesma vida certinha. — Você está linda. Essa camisola…

— É a de sempre — cortei, desviando o olhar. — Vou esquentar o jantar.

Ele foi para o banheiro lavar as mãos, e eu fiquei parada no meio da cozinha, a mão pressionada contra o peito, sentindo a renda sob o algodão. Meu coração batia tão forte que eu tinha certeza de que ele ouviria. Se ele me abraçasse, sentiria o volume diferente do sutiã. Se ele passasse a mão nas minhas costas, encontraria o fio da calcinha. Se ele…

Não. Ele não perceberia. Porque Renato não procurava. Renato confiava. Renato via a esposa exemplar e não imaginava que, por baixo da camisola comportada, ela ardia em vermelho.

Na mesa do jantar, conversamos sobre o trabalho dele, sobre a prima grávida, sobre o filme que finalmente íamos ver no sábado. Eu respondia, sorria, cutucava a comida e bebia uma taça de vinho. Por fora, a esposa exemplar. Por dentro, a renda queimava minha pele como uma segunda consciência.

---

Na terça feita acordei com a luz forte entrando pelas frestas da persiana. O relógio marcava 9h15. Dormi além do horário, ainda meio zonza por conta do vinho da noite anterior. Ao meu lado, o lençol estava frio e vazio, o travesseiro de Renato ainda com a marca da cabeça dele. Não ouvi ele se levantar. Não ouvi o banho, o barulho da mala, o beijo de despedida na minha testa que ele dava todas as manhãs. Nada.

Ele tinha ido trabalhar. Focado. Determinado. Pavimentando o terreno para o nosso futuro bebê.

Fiquei deitada por um momento, respirando devagar, sentindo o tecido macio da camisola contra a pele. Até que me lembrei.

A lingerie.

Sentei na cama num sobressalto, puxei a gola da camisola, olhei para baixo. A renda vermelha estava lá, os seios apertados no sutiã transparente, os bicos duros marcando o tecido. A calcinha fio dental enterrada entre minhas nádegas, um desconforto que agora, com o susto, virou vergonha.

Eu dormi assim. A noite inteira. Com aquela coisa indecente colada no corpo.

E Renato não percebeu. Como pude ser tão sortuda? Como pude ser tão… suja?

Ele estava cansado. A cabeça cheia de audiências, prazos, estratégias. Estava construindo nosso futuro, nossa família, nosso sonho. E eu estava ali, deitada ao lado dele, vestida como uma puta por baixo da minha camisola de algodão comportado.

Saltei da cama. Arranquei a camisola pelos botões, um, dois, três, um deles estourou e caiu no chão. Depois o sutiã, puxei as alças com tanta força que a renda estalou. A calcinha veio junto, num movimento só. Fiquei nua no meio do quarto, ofegante, olhando para aquelas tiras vermelhas amassadas no carpete.

Como se fossem um animal peçonhento.

Juntei tudo às pressas, amassei num bolinho, procurei uma sacola. Qualquer sacola. Encontrei uma de papel pardo no fundo do guarda-roupa, enfiei a lingerie lá dentro, empurrei para o canto mais escuro da prateleira de cima, atrás das caixas de sapatos que eu não usava há anos.

Escondi. Como escondia a revista do Isaque debaixo do colchão. Como escondia os pensamentos sobre Jefferson Moreira antes de dormir.

Como escondia tudo.

Fiquei parada diante do guarda-roupa aberto, respirando fundo. Meu reflexo no espelho da porta mostrava uma mulher nua, os seios balançando levemente com a respiração, a pele marcada pela renda que acabara de arrancar. Havia marcas vermelhas nos ombros, nos seios, nos quadris. A pele ainda doía.

Liguei o chuveiro e fiquei debaixo da água quente por um longo tempo. Esfreguei o corpo com a esponja, tentei apagar as marcas, tentei apagar a noite anterior, a lingerie, o cartão. Vista-se como a mulher que você está descobrindo ser.

Não queria descobrir mulher nenhuma.

Sai do banho, enrolei o cabelo molhado na toalha e fiquei diante do guarda-roupa de novo. Dessa vez, escolhi com cuidado. Uma saia longa, preta, que descia até os tornozelos. Uma camisa de renda bege, mas não daquelas transparentes — renda grossa, fechada, sem decote, mangas compridas. Botões até o pescoço.

Vesti-me devagar, com a precisão de quem monta uma armadura. Cada botão abotoado era um escudo. Cada centímetro de pele coberto era uma barreira. A saia longa escondia as pernas, a camisa escondia os braços, a gola escondia o colo.

Olhei no espelho e vi a esposa exemplar de volta. Impecável. Intocável. A Isabella que não sentia desejo, não cometia pecados, não se ajoelhava para monstros, professora de boas maneiras.

Mas havia algo diferente. Algo no meu olhar. A mesma Isabella, sim, mas com uma sombra.

Eram 9h20. Faltavam quarenta minutos.

Sentei na poltrona do quarto, de costas para o guarda-roupa, e tentei ler um livro. Não consegui. Troquei de poltrona, fui para a sala, liguei a televisão. Não consegui. Fiquei na janela, olhando o jardim do bebê, as flores que Renato plantou com tanto carinho.

A casa dele estava silenciosa. Fechada.

Olhei o relógio. 9h35. 9h42. 9h48.

Meu olhar escorregou para o quarto, para a porta entreaberta, para o guarda-roupa. Para a prateleira de cima, onde a sacola de papel pardo estava escondida atrás das caixas de sapato.

Vista-se como a mulher que você está descobrindo ser.

Não.

9h52. Meus pés me levaram de volta ao quarto antes que minha cabeça pudesse protestar.

Abri o guarda-roupa. Afastei as caixas. Peguei a sacola.

A lingerie estava lá, amassada, vermelha. Tirei a saia longa, tirei a camisa de renda grossa. Fiquei de sutiã e calcinha comuns diante do espelho.

Vesti a renda vermelha de novo.

Dessa vez, não fiquei olhando. Não me examinei. Não me toquei. Apenas vesti, com movimentos rápidos, quase mecânicos, como quem coloca um uniforme.

Por cima, uma saia. Não a longa. Escolhi uma mais curta, preta, da época do colégio. Naquela época, ela ia até os joelhos e era considerada comportada. Agora, com meus 33 anos e o corpo de mulher que eu me tornei, ela subiu. Ficou no meio das coxas, justa nos quadris largos, quase revelando a curva da bunda quando eu me movia.

Por cima, uma camisa social branca. Mangas compridas. Antes de vestir, dobrei os punhos até os cotovelos, duas, três voltas, deixando os antebraços à mostra. A pele clara, as veias finas, a delicadeza dos pulsos. Os botões, abotoei apenas até o meio do peito. O suficiente para não estar aberta, insuficiente para estar fechada. O decote mostrava o início do colo, a sombra entre os seios, a ponta da renda vermelha que escapava por cima do sutiã.

Me olhei no espelho — *uau* — pensei . O relógio batia 10:03h, ainda dava tempo de se maquiar um pouco.

Atravessei o jardim. 10:13, estava atrasada, uma mulher exemplar não deveria se atrasar, *talvez eu seja punida*, pensei, caminhando a porta dos fundos de Valério.

Siga a Casa dos Contos no Instagram!

Este conto recebeu 15 estrelas.
Incentive Dr.Jakyll6 a escrever mais dando estrelas.
Cadastre-se gratuitamente ou faça login para prestigiar e incentivar o autor dando estrelas.

Comentários

Foto de perfil genérica

Quero saber logo o que acontece, me conta por favorzinho

0 0
Foto de perfil genérica

Estou terminando o cap 4 hj, amanhã vou postar e saberá

0 0
Foto de perfil genérica

Este relato da ansiedade do preparo é magnífico!

Excelente conto!

0 0