- Capítulo 8 –
***AVISO: ESTE EPISÓDIO CONTÉM TRECHOS COM CONTEÚDO SENSÍVEL QUE PODEM GERAR GATILHOS***
Eu nem havia conseguido me levantar direito e minha mãe partiu para cima de mim, ela puxava meu cabelo enquanto dava tapas na minha cara e gritava comigo:
- IMUNDO! NOJENTO! ANORMAL!
Eu podia sentir até mesmo sua saliva voando em mim enquanto ela berrava e continuava me estapeando. Enquanto tentava me proteger de seus tapas acabei batendo minha mão na mão dela e isso a enfureceu ainda mais. Ela pegou um cinto que estava sobre a cômoda que ficava próxima da porta e me surrou. Cada centímetro de pele do meu corpo sentia o calor do cinto seguido de uma dor insuportável. Eu estava sendo espancado e embora tudo isso tenha durado minutos, aquilo parecia não ter mais fim.
- O que é isso? Perguntou Paulo entrando no quarto.
- Não se mete que não é seu filho. Gritou minha mãe enquanto continuava a me espancar.
Paulo olhando ao redor entendeu o que havia acontecido e o que desencadeara toda a confusão. Tentando segurar minha mãe ela o empurrou fazendo-o sair do quarto.
- Saia você também. Disse ela olhando para meu primo que saiu sem falar ou fazer nada.
Ela fechou a porta do quarto com chave mesmo com as tentativas de Paulo de impedir. Voltando-se para mim ela voltou a me espancar com o cinto até se cansar.
- Quero você fora da minha casa. Disse ela sentando na cadeira ao lado da minha cama.
Meu olho estava inchado tanto pelo choro como pelas tapas na cara que havia recebido e eu mal conseguia enxergar direito.
- Mãe... Tentei dizer.
- Cala a boca! Eu não tenho filho que faz essas imundices com parentes! Gritou ela.
- Eu tenho certeza que você se aproveitou da vulnerabilidade do seu primo. É claro, ele está a semanas aqui, e os homens têm necessidades... Você o seduziu e ele precisou ceder... Continuou ela dizendo mas agora num tom mais baixo.
- Eu não.. Tentei novamente dizer.
Um objeto que não sei qual foi arremessado contra mim, batendo em minha cabeça.
- Eu mandei você calar essa boca imunda! Gritou ela novamente.
- Estou decidida, eu quero você fora dessa casa hoje mesmo. Eu sempre soube que você não gostava de mulheres, mas eu pensei que você fosse ser aquele filho que fica solteiro na casa da mãe ajudando ela na velhice e cuidando de tudo. Eu não me importaria de você sair e fazer suas imundices, mas dentro da minha casa e com primo seu? É demais. Arrume suas coisas e saia daqui. Antes da meia noite não quero você mais debaixo do meu teto. Disse ela enquanto se levantava e ia em direção a porta.
- Eu não tenho pra onde ir. Disse chorando e sentindo o gosto de sangue que escorria pelo meu rosto até chegar em minha boca.
- Pensasse nisso antes de querer ser anormal, uma aberração. Disse ela destrancando a porta e saindo.
Eu não tinha forças para sair daquele chão. Fisicamente eu estava todo machucado e com marcas de tapas e cintadas e emocionalmente eu estava destruído. E o que mais doeu foi ouvir do meu quarto minha dizer:
- Fique calmo querido, eu sei que você não tem culpa, ele te seduziu e te forçou a isso. É comum desse tipo de gente fazer isso. Disse minha mãe para meu primo.
Paulo entrou no quarto e ajudando-me a levantar, pegou roupas e ajudou-me a vesti-las. Eu me sentia tão fraco que quando acabei de vestir a blusa e o short, apenas deitei na cama ou sentia que iria morrer ali mesmo. Paulo saiu do quarto e eu escutava ele discutir com minha mãe. Ela era categórica em dizer que eu não passaria mais uma noite sequer dentro daquela casa.
Retornando para o quarto, Paulo trouxe consigo um pano molhado e ia limpando os lugares onde o sangue estava escorrendo em mim. Ao terminar ele colocou todas as minhas roupas em uma mala e levou para fora do quarto. Quando retornou, me ajudou a sair da cama e quase me carregando no colo me ajudou a ir até o carro. Dentro do carro no banco traseiro eu deitei e ali fiquei imóvel, com dor por todo meu corpo e desejando que nada daquilo houvesse acontecido que tudo fosse um sonho.
Acho que cheguei a desmaiar por algum tempo, pois quando acordei, Paulo me chamava e dizia para eu sair do carro. Estávamos no estacionamento de um hotel. Entramos e fui com ele direto para o elevador. Saímos num corredor e chegamos ao quarto.
Paulo me conduziu até a cama e me ajudou a deitar cobrindo-me com a coberta da cama, me deu alguns comprimidos e água para beber.
- Eu já paguei o quarto por uma semana. Fique aqui até sua mãe se acalmar. Eu virei todos os dias te ver. Não se preocupe com o trabalho eu vou falar com o RH então você pode ficar aqui descansando e se recuperando. Eu coloquei remédios aqui na mesa de cabeceira. Se sentir mais dor, tome-os. Por hora, apenas descanse.
Eu não tinha forças para responder, apenas acenei com a cabeça virando-me para o canto e dormi.
Dia e noite ia e vinha e eu mal conseguia sair da cama para ir ao banheiro. Todas as vezes que dormia era um pesadelo do qual eu queria acordar e ver novamente meu quarto, como se nada houvesse acontecido e tudo estava como era antes, em paz. Ao abrir os olhos e ver aquele quarto de hotel, eu sentia o peso de tudo que havia acontecido me esmagando cada vez mais. Paulo ia e voltava todos os dias, me levando comida e cuidando de mim. O fato dele nunca tocar no nome ou falar da minha mãe já era claro o suficiente para que eu soubesse que ela não havia mudado de ideia.
Numa manhã de quinta, Paulo que não deveria ter fechado as cortinas direito na noite anterior foi o que me fez despertar. A luz de sol invadindo a fresta que havia entre as duas cortinas iluminou meu rosto. Suspirei fundo e sentando-me na cama novamente pensei em tudo que havia acontecido. Era claro que minha mãe não iria me aceitar novamente e mesmo que aceitasse o que eu iria ter que suportar dentro daquela casa? Se sem tudo o que ocorreu eu era tratado como um zero a esquerda, agora ela me trataria como algo abaixo do lixo. Eu estava decidido e sabia o que deveria fazer. Doze dias haviam se passado, não poderia mais ficar ali naquele quarto sofrendo.
Paulo chegou no horário de costume, antes de ir para o trabalho e surpreendeu-se comigo ali tomado banho e sentado comendo o café da manhã.
- Que bom que você saiu daquela cama. Disse ele passando a mão na minha cabeça.
- Precisamos conversar. Disse decidido.
- Eduardo, eu sei que você quer voltar, mas sua mãe...
Antes que Paulo falasse qualquer coisa o interrompi.
- Ela está te traindo. Disse para ele.
- O que? Perguntou Paulo me olhando com um rosto indignado.
- Minha mãe está te traindo com o dono do restaurante português, aquele que fomos meses atrás. Eu encontrei meu pai e ele me contou.
- Isso não é possível! Disse ele indignado.
- Eu sei que você gosta dela, mas você viu como ela é cruel! A gente se dá super bem, você gosta de mim e eu de você, podemos ficar juntos e sermos felizes. Disse me levantando e indo até ele.
- Você está louco? Sua mãe te bateu tanto que você perdeu o juízo? Disse ele me afastando.
- Paulo?
- Eu cansei de te dizer que eu amo sua mãe, que eu estava apenas te incentivando a ser quem você era. Você confundiu tudo e ainda foi fazer aquela merda de transar com seu primo Carlos dentro de casa... Disse ele me olhando com desprezo.
- Agora você viu que não têm volta e quer me tirar da sua mãe com essa mentira que ela está me traindo? Continuou ele enquanto caminhava pelo quarto.
- Paulo, eu não estou mentindo, é a verdade, eu posso provar. Tentei argumentar com ele.
- Chega Eduardo. A nossa amizade acaba aqui. Eu estava tentando te ajudar, pois achava que você era um rapaz bacana que precisava de oportunidades, mas parece que eu criei uma cobra pra me picar. O quarto está pago até segunda e depois disso é com você. Não vou poder ficar dando desculpas no trabalho também, as pessoas já estão questionando seu sumiço. Eu sinceramente pediria demissão e recomeçaria a vida em outro lugar. Espero que você aprenda a não tentar picar as pessoas que te ajudam.
Paulo pegou suas coisas e saiu do quarto batendo a porta. Eu estava atônito. Meu estômago estava embrulhando e eu sentia que iria desmaiar. Sentei-me no chão encostando-se à cama. Lágrimas escorriam pelo meu rosto. Eu havia planejado tudo e nada saiu como planejei. Como Paulo não acreditou em mim e simplesmente rompeu comigo dessa forma? Eu estava sem chão. Expulso de casa, sem família, pois nessa altura minha mãe e meu primo que não havia me defendido já teriam falado para todos o que ocorreu e agora com Paulo me rejeitando e ainda dizendo que era melhor que eu nem ficasse mais na cidade e fosse embora...
Chorei até não ter mais lágrimas. O sol havia se posto. Eu sabia o que me restava... Arrumei todas as minhas roupas, dobrei-as e coloquei tudo dentro da mala. Não havia muita coisa na verdade, já que muita coisa minha havia ficado na casa da minha mãe. Tomei banho e arrumei todo o quarto, não poderia deixar ali bagunçado e criar mais trabalho para as camareiras. Abri a janela e sai para a pequena sacada do quarto, o céu estava muito bonito aquela noite, muitas estrelas e nenhuma nuvem, a lua cheia iluminava a cidade e a luz amarela dos postes criava uma atmosfera muito acolhedora. Pensei em escrever uma carta de despedida, mas para quem? Para a mãe que sabia que eu era gay e esperava que eu ficasse com ela na velhice apenas para sustentá-la e servir de mordomo, mas que me expulsou? Para Paulo que havia transado comigo inúmeras vezes e me tratava com carinho e respeito sabendo a mãe narcisista e tóxica que eu tinha, mas quando o alertei sobre a traição ele não acreditou em mim?
- Não há ninguém que vá querer saber minhas últimas palavras... As pessoas não quiseram saber de mim até hoje, não seria agora que iriam se importar. Disse para mim mesmo olhando a lua.
Apoiando minhas mãos no parapeito coloquei meus pés entre os balaustres de concreto. Olhei para baixo e vi o que me aguardava dez andares abaixo.
- Eu estive sozinho esse tempo todo. Vou terminar isso sozinho também. Falei para mim mesmo.
Abri meus braços e comecei a inclinar meu corpo para frente. Eu podia sentir a brisa gélida, mas suave do ar afagar meu rosto convidando-me a ir com ela. Comecei a ter muitas visões e flashs de momentos da minha vida. Parece que era real o que diziam, que momentos antes de morrer, vemos um filme de nossa vida. Minha mãe e tudo o que ela fez comigo ao longo dos anos, Paulo e a forma como ele me incentivava, os momentos de prazer que tive no cinema, meu pai, a faculdade e o sonho de me tornar um engenheiro de software, o trabalho, Renato... Tão clara quanto à luz daquela lua cheia minha mente se inundava de pensamentos e coisas que eu não havia percebido agora eram muito nítidas para mim, conversas que eu escutava, mas não dava importância agora pareciam importantes... Mas não havia mais tempo, nem retorno, aquela brisa gélida continuava a me convidar a ir com ela...
Toc toc toc. Alguém bateu na porta do quarto interrompendo aquela brisa convidativa. Desci do parapeito e fui até a porta. Quando a abri, eu o vi. Ele estava lá, ele sempre esteve ali por mim.
- Dado! Disse Renato entrando e me abraçando.
Não resisti, não o afastei, eu não podia mais fazer isso. Ele sempre esteve comigo desde o momento que o havia conhecido.
Segundos antes ali no parapeito, minha mente foi minha maior amiga, trazendo à tona todas as lembranças de Renato e como ele sempre fora gentil sem pedir nada em troca. Ele me amou desde o primeiro dia, eu que não havia visto. Eu reclamava do tanto que ele falava comigo feito um papagaio, e embora eu fingisse não escutar, cada palavra dele ficou gravada em minha memória. Ele sempre me incentivava, me orientava e me dava dicas. Sempre ali, fazendo por mim o que podia no limite que eu permitia.
Ali sentindo o calor dos seus braços eu me senti confortado e amado. As lágrimas voltaram a escorrer pelo meu rosto. Renato me apertou mais ainda.
- Como chegou aqui? Perguntei depois de minutos chorando.
- Paulo havia comentado que você teve um problema em casa e que estava aqui no hotel, que voltaria para o serviço em alguns dias. Mas hoje ele disse que você talvez não voltasse mais para o trabalho, não sei, senti algo muito ruim e precisava vir e por isso estou aqui. Disse ele ainda me segurando em seus braços.
- Você não vai voltar para o trabalho? O que afinal de contas aconteceu? Perguntou ele olhando em meus olhos.
- É uma longa história... Respondi desviando o olhar.
- Bem, eu tenho todo o tempo do mundo para te ouvir, aliás, você me conta o que achar que deve contar, não quero te forçar a nada. Respondeu Renato inclinando sua cabeça para encontrar meus olhos e me encarar.
Sentamos e comecei a contar tudo para Renato. Era estranho aquilo, eu sempre o achava insuportável, mas agora entendia, ele era insuportavelmente lindo, gentil e carinhoso. Eu queria bater nele e beijá-lo ao mesmo tempo. Renato me causava sensações que eu não havia sentido por ninguém, nem mesmo por Paulo.
Renato ficou ali, frente a frente comigo escutando em silêncio cada palavra que saia de minha boca e segurando minha mão, mas em nenhum momento vi qualquer tipo de olhar ou expressão facial que indicasse que ele me reprovava ou me repudiava. Contei absolutamente tudo, na verdade acho que fiz um relatório sobre minha vida. Eu precisava disso e ele também, ele deveria saber quem eu era sem segredos e sem mentiras.
- Você deve me achar repugnante neh? Perguntei para Renato quando terminei de contar tudo.
- As pessoas são hipócritas Dado. Elas fazem o que bem entendem, mas tentam reprimir ou impedir que os outros façam. Desculpe-me o que vou dizer, mas sua mãe te mantinha como refém dentro de casa apenas para ter uma segurança de que se os homens que ela arruma não fiquem com ela, ela teria você para pagar as contas e cuidar dela, ou seja, ela se diverte o quanto pode, faz tudo por ela, mas no fim, você que ela sempre mantém de escanteio é quem deveria cuidar dela? Perguntou Renato enquanto acariciava minha mão com seus dedos.
- E seu primo? Ele se fez de vítima de uma situação que ele provocou, ele é escroto. Paulo eu nem preciso dizer nada, ele não te ama, te usou esse tempo todo justificando isso como “recompensa” por coisas que você fazia. Sinceramente nem sei quem é pior nessa história toda, você não é de todo vítima, você fez coisas conscientes, claro, mas usaram sim de sua inocência e inexperiência para te colocar onde eles queriam. Disse Renato de forma serena, mas muito afirmativa.
Ele estava certo, eu não era de todo uma vítima, fiz muitas coisas por vontade própria, mas eu também estava amarrado em muitas correntes emocionais em diversas situações.
- Que bom que suas coisas já estão arrumadas, você vai para casa comigo. Disse Renato ao olhar minha mala.
- Que? Respondi
- Sim, você vai para casa comigo, por acaso têm algum lugar pra ir? Perguntou ele.
- Não... Mas, eu não te contei tudo isso pra me vitimizar e você me ajudar. Respondi sem graça.
- Mesmo que você não tivesse me contado nada, eu não sou idiota, se você está num hotel tendo a casa de sua mãe, é sinal que você foi expulso de lá e não têm para onde ir. Então de toda forma você iria pra casa comigo. Respondeu ele dando uma leve risadinha ao final.
- Você deve estar adorando isso neh? Falei enquanto olhava indignado para ele.
- Claro que estou. Respondeu Renato enquanto levantava e pegava minha mala e me puxava pela mão.
- Não está esquecendo nada? Perguntou ele.
- Não, tudo está na mala. Respondi.
- Ótimo. Falou Renato.
Antes de sair, dei uma olhada para trás e lá estava a janela que poderia ter sido meu fim. Renato não sabia, mas ele me salvou no momento em que bateu naquela porta.
Continua...
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