Entre Irmãos - O Que Não Tem Volta

Da série Entre Irmãos
Um conto erótico de Mateus
Categoria: Gay
Contém 1881 palavras
Data: 11/02/2026 23:08:18
Última revisão: 11/02/2026 23:22:10

Depois daquele último encontro, não houve cena final cinematográfica, uma tentativa heroica de sustentar algo que já vinha se desfazendo havia meses. Não houve mensagem longa e dramática. Não houve cobrança, tampouco promessa quebrada em voz alta. Houve distância. E, pela primeira vez, a distância não era apenas geográfica, era consciente. Houve apenas um silêncio novo, menos angustiado, mais esclarecedor.

A distância fez o que nenhum confronto havia conseguido fazer. Eu voltei para casa naquela noite com o corpo ainda quente, mas a cabeça estranhamente calma. Pela primeira vez, o desejo não vencia a reflexão. Eu percebi, quase com espanto, que não sentia vontade de contar para ninguém o que tinha acontecido. Nem de romantizar. Nem de justificar. Aquilo, por si só, já dizia muito.

É verdade que, nas primeiras semanas, eu ainda sentia o reflexo físico da ausência. O corpo lembrava antes da razão: certos horários da tarde, certas músicas, o cheiro de chuva quente no asfalto, tudo parecia chamar o nome de Heitor em silêncio. O desejo demorou mais a ir embora do que a fantasia.

Heitor ainda aparecia em meus pensamentos, mas sem a aura antiga. Não mais como mito, nem como porto seguro, nem como figura inalcançável. Aparecia como homem. Apenas isso. Com suas fragilidades, sua estagnação, suas sombras.

Mas algo havia mudado de eixo. Eu já não narrava mais a própria dor como romance. Eu comecei a perceber, com uma honestidade quase desconfortável, que o que existia entre nós nunca conseguiu sair do território da intensidade para o território do cuidado. Era chama, não era abrigo. Era vertigem, não era casa.

E eu comecei a enxergar algo que sempre estivera ali. O relacionamento entre nós não sobrevivera à distância porque nunca fora construído para o encontro real. Existira no segredo, no risco, na intensidade furtiva. Se alimentava da proximidade física, do drama, da urgência. Quando isso se perdeu, não restou projeto, nem plano, nem escolha mútua.

Restou só atração. E atração, eu agora sabia, não sustenta futuro.

Eu tentei, por alguns dias, sustentar a velha idealização por hábito, como quem insiste numa imagem pendurada torta na parede. Mas a imagem não se alinhava mais. Heitor, quando lembrado, já não aparecia como o amor absoluto, aparecia como o amor possível dentro das limitações dele. E isso muda tudo.

Eu parei de idealizar Heitor. Não como gesto de vingança ou orgulho, mas como consequência natural de crescer. Heitor deixou de ser exceção e passou a ser contexto. Um homem bonito, sensível, quebrado, preso a si mesmo. Não alguém capaz de me acompanhar para onde eu estava indo.

Eu entendi, aos poucos, sem cinismo e sem crueldade, mas com uma clareza quase dolorosa: nenhum deles havia me amado de verdade. Heitor não me amava, Heitor precisava de mim. Rafael não me amava, Rafael me queria como vitória pessoal. Júlia não me amava, Júlia me queria como extensão emocional e projeção social.

Todos me desejaram. Ninguém me sustentou. Todos me quiseram perto. Todos me usaram, à sua maneira, como resposta para vazios próprios (e eu também não os usei?). Mas amar, amar mesmo, teria exigido me ver como pessoa inteira. Com planos, limites, tempo, juventude, contradições. Isso ninguém fez.

E essa constatação, longe de me destruir, me fortaleceu. A constatação não veio como revolta, veio como maturidade.

Eu permaneci, mas marcado. Marcado não como quem carrega trauma, e sim como quem atravessou algo decisivo. Como quem aprendeu cedo demais, talvez, que os primeiros amores nem sempre são os mais bonitos, mas quase sempre são os mais formadores.

Eu não saí ileso. Mas saí inteiro. E, pela primeira vez, escolhi a mim mesmo. Assim, eu não fiz mais questão de manter contato. Não porque não sentisse nada, mas porque sentia demais para continuar aceitando tão pouco.

Por causa disso, eu não voltei nunca mais à casa deles. Nunca mais atravessei o portão daquela casa, com o coração acelerado, como se estivesse entrando em território proibido. Nunca mais reorganizei minha rotina para caber na vida de alguém que não se organizava por mim.

No início, quando os convites ainda chegavam, pensava em inventar um motivo qualquer, prova, viagem, rotina, estudo. Depois percebi que não precisava justificar ausência quando a presença já não fazia sentido. O vínculo não foi cortado, foi deixado de ser alimentado.

De vez em quando, Heitor enviava algumas mensagens curtas, espaçadas:

“Você tá bem?”

“Sumiu.”

Eu respondia educadamente. Sem abertura. Sem frieza, mas sem convite.

“Tô sim. Correria.”

“Tudo certo por aqui.”

Heitor percebeu. E, pela primeira vez, não insistiu. O silêncio entre nós não foi guerra. Foi esgotamento de ciclo. Com o tempo, o afastamento deixou de ser decisão e virou fato. Nós fomos, naturalmente, perdendo contato. Sem briga. Sem despedida formal. Sem última cena dramática. A vida simplesmente seguiu e eu segui junto.

As semanas avançaram. A minha vida voltou a ter contornos próprios, estudo, amigos, rotina, pequenos projetos. Eu comecei a notar pessoas da minha própria idade com outros olhos, não como substitutos, mas como pertencimento. Conversas sem tensão. Afeto sem segredo. Interesse sem risco constante.

Eu não fiquei imediatamente com ninguém. E isso também foi escolha. Não queria anestesia. Queria consciência.

Às vezes, raramente, lembrava do quarto de Heitor, do violão encostado, da correntinha de ouro brilhando no peito, da pele clara, dos olhos cinzas, dos cabelos pretos caídos sob o rosto, dos dedos longos, da forma como ele sorria triste depois de tocar músicas melancólicas demais. A memória vinha, mas já não comandava.

Era lembrança. Não destino.

Às vezes, nos encontrávamos sem querer, cruzávamos nas ruas da cidade que, afinal, não era tão grande assim. Um cumprimento breve. Um sorriso respeitoso. Um passo na direção do outro. Conversas breves e amenas. E era suficiente.

Eu entendi, ali, sem dor aguda, apenas com uma espécie de ternura madura, que alguns amores não foram feitos para durar. Foram feitos para despertar. E me despertar, Heitor despertou. Mas quem caminharia dali em diante seria eu, por mim mesmo.

“O que o amor vira quando chega o fim? É só que dói um pouco quando eu lembro assim. Mas enfim, acontece.”

__________

O ano começou com o barulho prático das coisas que não esperam ninguém: escola, horários, cadernos novos, corredores cheios demais para quem ainda estava reorganizando o próprio mundo por dentro. Eu voltei às aulas diferente, menos impressionável, mais silencioso. Não era frieza. Era critério. Havia aprendido a medir aproximações como quem mede a profundidade da água antes de entrar.

Voltei à escola com uma sensação estranha de deslocamento, não tristeza, exatamente, mas uma espécie de percepção silenciosa. A escola retomava sua rotina ruidosa, corredores cheios, risadas altas demais, gente se reencontrando como se nada tivesse acontecido no intervalo entre dezembro e janeiro. Mas, pra mim, tinha acontecido muita coisa.

Eu não pensava em Júlia havia vários dias. O que eu sentia por ela, que um dia parecera romance, cumplicidade, promessa, agora parecia uma tentativa mal encaixada de pertencimento. Não havia raiva. Havia compreensão tardia de quem eu era de verdade.

Eu a vi antes de ser visto, cabelos bem arrumados, roupas escolhidas com cuidado, postura firme, a mesma segurança performada de sempre. Havia nela algo intacto demais, como se o caos dos últimos meses tivesse passado ao redor, mas não por dentro.

Ela estava no corredor lateral do prédio da escola, perto do mural de avisos. Júlia estava apoiada na parede, falando com duas colegas, rindo alto, mas o riso tinha aquela nota metálica que eu agora sabia identificar de longe: performance.

Ela me viu no meio da frase. Parou. Não foi surpresa, foi cálculo interrompido. Quando nossos olhos se encontraram, o sorriso automático de Júlia surgiu e morreu no meio do caminho. As colegas perceberam a mudança de clima e se afastaram com a sensibilidade instintiva de quem não quer ficar no meio de uma história alheia mal resolvida.

Por alguns segundos, nós apenas nos olhamos. Sem sorriso. Sem gesto. Sem fuga. Nós nos cumprimentamos com a formalidade desconfortável de quem já foi íntimo demais para fingir neutralidade. Júlia foi a primeira a falar, mas não com ataque. Com controle.

— Então você não morreu.

Eu quase sorri. Quase.

— Não que eu saiba.

— Sumiu bonito.

— Eu precisava.

Ela cruzou os braços. Não como defesa, mas como superioridade. Estava preparada para discutir. Para acusar. Para vencer. Mas eu não.

— Você sempre precisa quando a verdade aparece.

— Não — respondi, com calma nova — Eu precisei quando a encenação ficou grande demais.

O golpe foi limpo. Sem volume. Por isso mesmo, eficaz. Júlia inclinou o rosto, me estudando como quem reavalia um adversário que mudou de categoria.

— Você acha mesmo que foi vítima nisso tudo?

— Não — eu disse — Mas também não fui personagem do seu roteiro. A gente viveu uma expectativa sua. Eu tentei caber nela. Mas não coube, nunca coube, você sabe disso.

Silêncio. O corredor seguia vivo ao nosso redor, mas a bolha emocional era fechada e estanque. Ela mudou de estratégia, suavizou o tom.

— Eu gostei de você de verdade.

Eu sustentei o olhar.

— Eu sei. Do seu jeito.

— E qual é “meu jeito”, Mateus?

— Gostar do que a pessoa representa. Não de quem ela é.

Aquilo acertou. Não porque fosse cruel, mas porque era preciso. Júlia respirou fundo. O orgulho não deixaria que ela mostrasse a ferida aberta.

— E você? — ela devolveu — Gostava de mim ou da ideia de provocar meus irmãos?

Eu não desviei.

— No começo, de você. E eu também me enganei achando que isso podia virar outra coisa. Depois… eu já não sabia mais onde eu estava pisando.

— E mesmo assim continuou.

— Sim.

— Conveniente.

— Humano.

O vento atravessou o corredor aberto. Papéis no mural estremeceram levemente. Ela deu um meio passo mais perto.

— Heitor me contou tudo.

Eu não reagi. Não neguei. Não expliquei. Apenas assenti, mínimo.

— Eu imaginei.

— Você não vai se defender?

— Defender o quê? — a minha voz era baixa, mas firme — Eu errei. Mas não menti quando fui questionado. Existe uma diferença aí.

Júlia ficou em silêncio por longos segundos. Quando falou, a voz saiu mais baixa.

— Você acha que é melhor do que a gente.

Eu sorri de leve. Não por ironia, mas por tristeza mansa.

— Não. Eu só parei de aceitar menos do que eu mereço. E você também merece mais do que alguém tentando escapar.

Ela desviou o olhar. Aquilo doía mais do que qualquer acusação. E, então, ela percebeu. Eu não estava mais jogando.

— Você mudou — disse.

— Mudei.

— Por causa dele?

Eu pensei e respondi com precisão cirúrgica:

— Por minha causa.

Aquilo encerrou algo que nenhum grito encerraria melhor. Júlia soltou o ar pelo nariz, não era desprezo. Era rendição orgulhosa.

— Então é isso.

— É isso.

— Não vamos mais fingir amizade.

— Nem romance.

— Nem proximidade.

— Nem guerra — completei.

Ela quase sorriu, quase, mas preferiu preservar a postura.

— Você cresceu rápido demais.

Eu respondi sem ironia:

— Eu fui forçado.

Mais um silêncio breve. Agora limpo.

— Adeus, Mateus.

— Adeus, Júlia.

Nós não nos tocamos. Não olhamos para trás. Não dramatizamos. Não houve despedida simbólica. Apenas dois caminhos que, finalmente, não se cruzariam mais. Algumas relações não terminam, se encerram. E eu, ao continuar andando, percebi algo novo: não doeu. Isso, sim, era sinal de ruptura verdadeira.

Eu não senti alívio imediato, nem euforia, mas coerência. Eu estava, pela primeira vez, inteiro na minha própria decisão. E isso bastava.

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Mateus, você faz literatura. Definir paixão como intensidade e amor como cuidado é primoroso. Obrigado pelo artesanato de palavras construindo mundos de sentidos

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