Quando o amor incomoda - 24

Um conto erótico de mrpr2
Categoria: Gay
Contém 2694 palavras
Data: 13/02/2026 11:58:03

— Gustavo!

O grito de seu Jorge atravessou a porta do quarto como um trovão. Bateu com o punho fechado três vezes, forte o suficiente pra fazer a madeira tremer.

Gustavo acordou sobressaltado, lençol embolado nos pés, cabelo em pé de guerra. Piscou confuso, coração acelerado.

— O que foi, pai? O que aconteceu?! — perguntou, voz rouca de sono, já sentando na cama como se esperasse uma emergência nacional.

— Tem visita pra você. Tá lá na sala.

Respondeu Jorge, voz grave, mas com um tom que misturava aviso e preocupação. Ele nem esperou resposta, já virou as costas e sumiu pelo corredor.

Gustavo sentiu uma injeção de adrenalina pura. “Luiz Felipe!”, pensou na hora. Pulou da cama num salto mortal desajeitado, quase tropeçando no chinelo. Correu pro espelho pequeno da cômoda, passou a mão no cabelo tentando domar o ninho de passarinho, espirrou perfume demais, o quarto ficou cheirando a shopping inteiro, abriu o armário e começou a jogar camisa pra cima da cama: “Essa não… essa tá amassada… essa é velha…”. De repente parou, arregalou os olhos: “Dentes! Meu Deus, dentes!”. Correu pro banheiro, escovou com pressa maníaca, espuma voando no espelho, enxaguou, passou a língua nos dentes, deu um tapa na própria cara pra se animar e saiu voando pro corredor.

Chegou na sala com um sorriso de orelha a orelha, daqueles que iluminam o ambiente inteiro.

— Marcelo?!

Marcelo, sentado no sofá com as pernas cruzadas e um sorrisinho debochado, abriu os braços dramaticamente.

— UAL, que produção, gata!

Exclamou, levantando num pulo e abraçando Gustavo com força, dando dois tapinhas exagerados nas costas.

— Até me senti agora com essa recepção esplendorosa, hein? Tô me achando o crush do ano!

Gustavo riu nervoso, rosto vermelho, mas feliz. Devolveu o abraço apertado.

— O café tá na mesa, gente!

Gritou Mirian da cozinha, voz alta e animada.

Enquanto seguiam pra cozinha, Jorge puxou Gustavo pelo braço com força, arrastando-o pro canto do corredor. Encostou a boca no ouvido do filho, voz baixa sussurrando:

— Sabe que se seu irmão vê esse garoto aqui não vai dar bom, né?

Murmurou, olhos semicerrados, sobrancelha franzida.

Gustavo respirou fundo, endireitou os ombros.

— Eu sei, pai. Vou só tomar o café e levo ele daqui. Mas o Eduardo tem que entender que eu também moro aqui. O Marcelo é meu amigo e a casa é do senhor, não dele.

Jorge bufou, passou a mão no rosto como quem carrega o peso do mundo nas costas.

— Nada disso é mentira, mas como é que eu coloco isso na cabeça dura do seu irmão? Ele chega aqui feito um touro…

— Isso aí é com o senhor.

Cortou Gustavo, dando um tapinha no ombro do pai e indo pra cozinha com um sorriso forçado.

Na mesa, Marcelo e Gustavo tomavam café. Mirian e Jorge, sentados do outro lado, fingiam prestar atenção na conversa, mas os olhos deles eram radares: analisavam o jeito que Marcelo segurava a xícara com o mindinho erguido, o cabelo impecavelmente penteado pro lado, os brincos discretos brilhando, os trejeitos delicados ao passar a geleia. Depois olhavam pra Gustavo: será que ele também…?

Gustavo percebia os olhares. Ficava vermelho, ria nervoso, cutucava o braço de Marcelo de leve como quem diz “para de ser tão você”.

Enquanto isso, na casa de Marilda, o clima era de guerra fria.

Rogério acordou, olhou para o lado viu a esposa. Sentou na cama, esfregou os olhos e virou pro lado da esposa, que fingia dormir.

— Que horas você chegou ontem, Marilda? — perguntou, voz rouca e carregada.

Marilda abriu um olho só, dramaticamente.

— Fui na casa da minha irmã, já te falei… — Murmurou sustentando a mentira, virando de costas.

Rogério bufou alto. Marilda não sabia, mas sua irmã ligou na noite anterior no fixo, pois o celular estava desligado.

Marilda sentou na cama num pulo, rosto vermelho de raiva fingida.

— E desde quando eu minto para você Rogério? Sempre viajando e eu aqui cuidando da casa, da loja e tudo para que? Para você vir reclamar de mim? Tá vendo como você é injusto, insensível e desconfiado? Sempre me colocando como vilã!

Rogério levantou, pegou a camisa jogada na cadeira e vestiu com raiva, botões quase voando.

— Eu não sou otário, Marilda.

Saiu batendo a porta do quarto. Na padaria, encontrou Oswaldo na fila do pão. Os dois se cumprimentaram com um tapa forte nas costas e um bom dia. Sentaram na sacada da padaria, café fumegante na mesa. Rogério desabafou, voz baixa, mas tremendo de raiva e tristeza:

— Tô achando que a Marilda está me traindo, Oswaldo. Chega tarde, celular desligado, mentira em cima de mentira… Eu não aguento mais.

Oswaldo balançou a cabeça, solidário, mas sem saber o que dizer.

Embaixo da sacada, Gurizão, que corria na rua, parou para dar uma descansada, tirou um fone, inclinou a cabeça e sem quer acabou ouvindo a conversa, arregalou os olhos. Reconheceu a voz de Rogério. Ficou ali, encostado na parede, ouvindo tudo. Quando entendeu o tamanho da bomba, o rosto dele passou de curiosidade pra pânico puro.

— Caralho…

Murmurou pra si mesmo.

Sem pensar duas vezes, disparou correndo pela rua, suado, ofegante, direto pra casa de Marilda.

Chegou na porta, bateu três vezes com força. Marilda abriu uma fresta, olhos esbugalhados ao ver o amante ali, em plena luz do dia.

— Gurizão?! O que você tá fazendo aqui? Tá maluco?!

Disse, puxando-o pela camisa pra dentro e fechando a porta com o calcanhar.

Gurizão entrou tropeçando, mãos no joelho, tentando recuperar o fôlego.

— Desculpa, Marilda… mas eu preciso falar com você AGORA.

Marilda cruzou os braços, coração na boca, rosto pálido.

— Fala logo, menino! Meu marido acabou de sair, mas ele pode voltar a qualquer momento!

Gurizão engoliu seco, olhou pros lados como se o Rogério fosse surgir de trás do sofá.

— Ele tá na padaria… desabafando pro Oswaldo… que acha que você tá traindo ele. E eu ouvi tudo, Marilda. Tudo!

Marilda levou a mão à boca, olhos marejados de pavor. De repente, o silêncio da casa pareceu ensurdecedor. Os dois se olharam, congelados, como se o mundo inteiro estivesse prestes a desabar em cima deles.

Marilda deu um empurrão forte no peito de Gurizão, fazendo-o recuar dois passos e bater as costas na porta da sala.

— Como assim você ouviu tudo?!

Questionou ela, voz baixa mas tremendo de raiva, aproximando o rosto do dele a ponto de sentir o suor da corrida.

— Seu idiota! Você vem aqui, na porta da minha casa, em plena luz do dia, e me solta uma bomba dessas? Tá querendo me matar do coração, é?

Gurizão ergueu as mãos em sinal de rendição, mas os olhos dele pulavam nervosos para a janela, como se Rogério pudesse surgir a qualquer momento com uma faca na mão.

— Calma, Marilda! Eu tava correndo na rua, ouvi sem querer! — defendeu-se, voz ofegante, passando a mão no cabelo suado. — O cara tava desabafando pro Oswaldo na sacada da padaria, falando que você chega tarde, celular desligado, mentiras... Ele tá mordido, mulher! Achando que você tá traindo ele de verdade!

Marilda bufou alto, virou de costas dramaticamente e começou a andar de um lado pro outro na sala, os chinelos batendo no piso como tiros. Parou de repente, apontou o dedo na cara dele, unhas vermelhas brilhando como garras.

— E quem é o culpado disso tudo, hein? Você! — acusou, voz subindo um tom, mas ainda controlada pra não acordar os vizinhos. — Se não fosse você me arrastando pro motel do nada, sem combinar antes, eu não tava nessa furada! Minha irmã me ligou ontem?

Marilda pega o celular na bolsa, o celular ainda desligado ela reinicia o aparelho.

_ Droga!... e agora o Rogério tá farejando como cachorro de caça!

Gurizão engoliu seco, o rosto ficando vermelho de vergonha misturada com pânico. Tentou se aproximar, estendendo a mão pra tocar o braço dela, mas ela recuou como se ele fosse veneno.

— Eu sei, eu sei... Foi mal! Mas a gente precisa pensar rápido! — implorou, gesticulando freneticamente, mãos voando no ar. — Inventa uma história melhor, tipo que você tava na igreja rezando, ou sei lá! Eu te ajudo, mas você tem que me prometer que a gente vai sair dessa, eu não quero ser mandado em bora e nem morrer.

Marilda parou de andar, cruzou os braços e inclinou a cabeça, um sorriso sarcástico se formando nos lábios, daqueles que misturam fúria e ironia.

— Na igreja aquela hora da noite? Ninguém vai morrer aqui, mas precisamos de uma história…

Gurizão coçou a nuca, olhando pro chão como um menino pego no flagra. De repente, os dois ouviram um barulho lá fora, o som de chaves tilintando na fechadura da porta da frente. Os olhos de Marilda se arregalaram de terror puro; Gurizão congelou, boca aberta num "O" silencioso.

— É ele! — Sussurrou ela, empurrando Gurizão pros fundos da casa. — Corre pro quintal, seu idiota!! Sai pelos fundos antes que ele te veja!

Gurizão tropeçou na própria perna, correndo como um louco pela cozinha, derrubando uma cadeira no caminho com um estrondo. Marilda ajeitou o cabelo rápido no espelho da sala, forçando um sorriso falso, enquanto a porta se abria devagar.

Rogério entrou, cara fechada, segurando uma sacola de pão. Olhou pra esposa, depois pro corredor, nariz franzido como se sentisse o cheiro de encrenca no ar.

— O que foi esse barulho agora? — Perguntou, voz suspeita, olhos semicerrados.

Marilda deu uma risadinha nervosa, batendo palmas como se nada tivesse acontecido.

— Nada, amor! Foi o gato do vizinho que pulou no muro de novo, eu ainda acabou com aquele gato. Vem, senta aqui que eu faço um café fresquinho pra você...

Mas no quintal, Gurizão pulava o muro baixinho, caindo do outro lado com um "ai!" abafado, e corria rua afora, coração na boca.

Na praça central do bairro, o sol da manhã iluminava entre as arvores, Kenji mantinha a calma zen de sempre. Vestido com uma camiseta leve e calça larga, ele executava os movimentos lentos e precisos do tai chi: braços fluindo como água, respiração profunda, olhos semicerrados concentrados no horizonte invisível. Cada gesto era controlado, quase hipnótico, um contraste gritante com o caos que se aproximava.

Romário surgiu pelo lado da fonte, mãos nos bolsos da bermuda jeans surrada, um sorriso torto e sarcástico esticando os lábios grossos. Parou a uns três metros, inclinou a cabeça como quem avalia uma presa fácil e soltou um assobio debochado.

— Olha só o monge samurai aí... — Disse alto o suficiente pra chamar atenção de quem passava. — Tá treinando pra lutar com fantasma ou pra impressionar as tias da terceira idade?

Kenji abriu os olhos devagar, terminou o movimento com as mãos descendo suavemente até a cintura e virou o rosto para Romário. Não respondeu de imediato. Apenas ergueu uma sobrancelha, mantendo a postura ereta, mas os músculos dos ombros se tensionaram levemente.

Romário deu dois passos à frente, rindo sozinho da própria piada.

— O que foi, japonês? Tá com medo de sujar o kimono imaginário? Ou será que tá guardando energia pra outra coisa... tipo, sei lá, pra aguentar o tranco com o namoradinho? Já arrumou um namoradinho aqui no Brasil? Meu primo sabe que o amiguinho dele é baitola?

Kenji respirou fundo pelo nariz, os lábios se apertando numa linha fina. Ele não era de brigar, mas o tom de Romário já tinha cruzado a linha do deboche pra provocação direta.

Nesse exato momento, Luiz Felipe saiu de casa carregando uma sacola de lixo, rumo à lixeira da calçada. Avistou a cena de longe: Kenji imóvel, Romário se aproximando mais, gesticulando exageradamente com as mãos como se estivesse contando uma história hilária. O rosto de Luiz Felipe endureceu na hora. Largou a sacola no chão com um baque surdo e atravessou a rua em passos largos, punhos cerrados.

— Ei, Romário! — gritou, voz cortante. — Tá precisando de atenção ou só de porrada pra aprender a respeitar os outros?

Romário virou devagar, o sorriso sarcástico se alargando ainda mais ao ver Luiz Felipe. Cruzou os braços, inclinando o corpo pra trás como quem se diverte.

— Olha o herói da vizinhança! Veio defender o amiguinho oriental? Que fofo... Vocês dois formam um casalzinho lindo, hein?

Kenji deu um passo sutil pra frente, ficando ao lado de Luiz Felipe. Seus olhos agora estavam abertos e alertas, mas ainda controlados.

— Não precisa, Luiz. Eu resolvo — Murmurou Kenji, voz baixa e firme.

— Olha ele fala! Eu já estava achando que era mudo.

Debochou Romário.

— Não, deixa comigo — Retrucou Luiz Felipe, sem tirar os olhos de Romário. — Esse aí vive achando graça na desgraça dos outros. Hoje ele vai engolir o riso.

Romário riu alto, jogando a cabeça pra trás dramaticamente.

— Tá bom, valentão. Mostra o que você tem. Ou vai ficar só na falação, igual sempre?

A tensão subiu como fumaça. Luiz Felipe deu um passo à frente, peito estufado, queixo erguido. Romário não recuou, pelo contrário, abriu os braços como quem convida pra briga.

Foi aí que, do outro lado da rua, Gustavo saiu de casa ao lado de Marcelo. Os dois riam de alguma coisa que Marcelo tinha dito, Gustavo com a mão no ombro do amigo, Marcelo gesticulando animado. Romário avistou a cena no mesmo instante. Seus olhos brilharam com malícia pura.

— Iiiii... — sussurrou ele, voz carregada de veneno, apontando com o queixo. — Aquele viadinho voltou de novo e já tá rondando o Gustavo. O Eduardo não vai gostar nada disso... Mas ele precisa saber agora.

Sem perder tempo, Romário enfiou a mão no bolso da bermuda e puxou o celular, já abrindo a câmera com o polegar. Apontou direto pra Gustavo e Marcelo, dedo no botão de gravar.

Luiz Felipe viu o movimento e reagiu na hora. Avançou dois passos rápidos, colocou a mão aberta bem na frente da lente, bloqueando a visão.

— Nem vem, seu filho da puta! — Rosnou, voz baixa e perigosa, olhos faiscando. — Você não vai filmar ninguém aqui. Guarda esse celular antes que eu quebre ele na tua cara.

Romário recuou meio passo, surpreso com a intensidade, mas logo recuperou o deboche.

— Tá ameaçando agora, Luiz Felipe? — Perguntou, erguendo o celular mais alto, tentando contornar a mão. — Isso aqui é espaço público, irmão. Eu filmo quem eu quiser. E o Eduardo vai adorar ver o irmãozinho dele de mãos dadas com a borboleta purpurinada.

Kenji colocou a mão no ombro de Luiz Felipe, tentando acalmá-lo, mas seus próprios dedos tremiam levemente de raiva contida.

— Deixa ele, Luiz. Não vale a pena — Murmurou Kenji. — Ele só quer briga.

Mas Luiz Felipe não tirava a mão da frente da câmera. Os dois se encaravam a centímetros agora, respiração pesada, narinas dilatadas. Romário tentava empurrar a mão dele pra longe; Luiz Felipe empurrava de volta, mais forte.

— Tira essa mão da frente, caralho! — Grunhiu Romário, rosto vermelho.

— Tira esse celular do ar primeiro! — Rebateu Luiz Felipe, voz tremendo de fúria.

Kenji deu um passo entre os dois, braços abertos como árbitro de luta.

— Chega! Os dois! — Ordenou, voz firme pela primeira vez. — Isso aqui não vai virar briga de rua por causa de celular e fofoca barata.

Do outro lado da rua, Gustavo e Marcelo pararam de andar. Gustavo arregalou os olhos ao ver a cena, puxando Marcelo pelo braço pra trás instintivamente. Marcelo, por sua vez, franziu a testa, confuso, mas já sacando o celular próprio — só que pra filmar a briga, não pra fugir.

Romário percebeu o movimento e riu nervoso, mas sem graça.

— Tá vendo? Todo mundo quer registrar o show. Melhor eu ligar pro Eduardo agora e contar que o irmãozinho tá virando estrela de reality.

Luiz Felipe deu um último empurrão no braço de Romário, fazendo o celular quase voar da mão dele.

— Liga sim. Liga e diz que se ele encostar um dedo no Gustavo, vai ter que passar por mim primeiro.

Nesse momento um guarda assovia o apito e ordena que os esquentadinhos se afastem.

Gustavo de longe não ouvia o que falavam, mas não gostou de ver Luiz Felipe e Kenji juntos, menos ainda de ver Kenji colocando a mão no ombro do seu amado e quando os dois saíram juntos do meio da praça o ciúmes tomou conta de Gustavo que furioso saiu correndo e Marcelo atrás.

Autor Mrpr2

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