Quero Que Vá Tudo Pro Inferno

Da série Fora da Ordem
Um conto erótico de Bayoux
Categoria: Heterossexual
Contém 9040 palavras
Data: 13/02/2026 15:38:14
Última revisão: 13/02/2026 16:12:19

O amor é uma expectativa.

É algo que construímos e demanda esforço para conquistar e manter, na crença de que nos levará à felicidade. Mas a felicidade, tal como o amor, é uma emoção passageira: não se conquista nem se mantém. Quando o amor acaba, só resta viver a frustração e mandar tudo pro inferno…

Mas em nosso caso isso não era fácil, se é que chegava a ser possível. Mais ainda porque agora começavam nossos anos mais turbulentos, os primeiros da década de sessenta.

Enquanto a política, a sociedade e seus costumes mudavam rapidamente e nada mais parecia escrito em pedra, nossas próprias vidas estavam convulsionadas pelos amores impossíveis que vivemos no finalzinho dos anos dourados.

O triângulo amoroso que vivi com Ivetinha praticamente se desfazia com sua decisão de se casar com Machadinho. Por mais que ela me amasse, eu agora entendia que, entre eu, um negro pobre da zona norte, e ele, um tenente recém-graduado do exército e filho de um coronel, ela não teria mesmo outra escolha.

Seus pais jamais me aceitariam, eu não era par para uma garota da zona sul criada cheia de mimos. Seu Arnaldo talvez fosse o mais contente do mundo com aquele casamento cheio de conotações políticas. Dona Margot talvez nem estivesse tão contente assim, por nutrir uma certa atração doentia pelo tenente mas, entre sua felicidade e a da filha, ela jamais escolheria a si mesma.

Quanto a mim, se bem de início me revoltei, aos poucos fui buscando acomodar a tal frustração. Acomodar é a palavra certa, pois eu jamais aceitaria aquilo. Só tinha Ivete no pensamento e a sua ausência era todo o meu tormento. Era insuportável, eu não podia seguir assim.

Por isso, fiz um plano a longo prazo, apostando que o matrimônio de Ivete e Machadinho estava destinado à ruína. Eu me esforcei para entrar num curso universitário qualquer e segui trabalhando de mecânico na oficina do meu pai para juntar dinheiro.

Eu calculava que diferença na índole dos dois se encarregaria sozinha de separá-los para mim. Ela era livre, ousada, independente, uma força da natureza em forma de garota, enquanto ele era careta, quadrado e tão conservador quanto nossos pais.

Quando o desquite deles fosse uma realidade, eu já não seria um qualquer, teria um diploma superior e um ganha-pão, seria um excelente partido para qualquer mulher desquitada e nós poderíamos, enfim, viver nosso amor sem ter que enfrentar o mundo.

Comecei a faculdade de história. Escolhi este curso porque era o favorito de Ivetinha, se ela pudesse cursar faculdade em vez de casar. Além do mais, parecia fácil para alguém que gostava de ler como eu, era barato se comparado a outros e me permitia estudar à tarde e seguir trabalhando na oficina pela manhã.

Eu me casei com o curso de história assim como eles assumiram aquele matrimônio: por pura conveniência. Nunca passou pelos meus cálculos que, assim como eu aprendi a gostar do curso, talvez eles aprendessem a gostar da vida juntos.

A lua de mel deles foi um tanto extrema. Ivetinha, apesar de toda a sua personalidade impositiva, nunca havia tido um homem. Foi pega de surpresa e deixou que ele conduzisse as coisas à sua maneira.

Com total liberdade, Machadinho usou diariamente o jovem corpo sinuoso e até então intocado de sua nova esposa sem carinho nem cuidado, agarrando-a quase à força para cumprir sua função marital como se ela fosse somente um orifício destinado a satisfazer seus desejos carnais.

Ao finalizar, ele sempre a obrigava a ficar de joelhos e terminar chupando o pau para que engolisse sua porra, tratando-a tal como se acostumara a fazer com seus subalternos no Instituto Militar.

Na cama, Machadinho era mau, quase perverso, a submetia e a obrigava a fazer o que desejasse, sem direito a protestos ou considerações, ou então o resultado eram tapas estalados no rostinho lindo da esposa para que ela aprendesse quem mandava ali: Ele, o senhor absoluto daquele corpo que lhe fora entregue.

E o pior é que Ivetinha estava gostando. Sim, ela provou ser confrontada, dobrada, subjugada na cama e até mesmo humilhada - e adorou. É bem certo que ela sempre fora muito pragmática e pouco romântica, mas daí a gostar deste tipo de sexo era uma longa distância. Nem em meus sonhos eu podia imaginar que Ivetinha estivesse aceitando este tipo de tratamento.

Mas não pensem que Machadinho agia assim porque era algo de sua natureza. Não, se ele tratava mal Ivetinha na cama, era porque tinha uma raiva profunda. Sei disso porque eu guardava um segredo, uma informação privilegiada.

Meses antes deles se casarem, por um acaso do destino, eu flagrei Machadinho e dona Margot no mirante dos amantes, dentro de um carro, entregues à lascívia. Eles traíram tudo o que pregavam, seria um escândalo se isso fosse a público, o filho do coronel fodendo a futura sogra.

Mas eu sabia que ninguém acreditaria em mim, não enquanto eu fosse um qualquer. Preferi manter este segredo, apostando que o caráter desvirtuado de Machadinho dissolveria aquele casamento, enquanto eu seguia com meu ousado plano de “diploma e oficina mecânica”, esperando por Ivetinha, a mesma garota que estava adorando ser tratada como uma puta na cama pelo marido.

Se ao menos eu pudesse imaginar o que estava acontecendo… mas não, nesta época eu estava absorto em muitas outras coisas.

Nesse período, a capital mudou para o interior e o desgoverno na política derrubava um presidente atrás do outro, a tensão era crescente e constantemente se ouvia falar sobre uma intervenção militar. Haviam verdadeiros embates entre os que eram a favor e os contra, famílias brigavam entre si e até amigos antigos deixavam de se falar.

Obviamente que eu, um estudante de história, não passaria incólume por tudo isso. E a culpa, se posso chamar assim, foi de Tereza. Conheci essa garota logo no primeiro ano da faculdade.

A loira se destacava pelos óculos quadrados de armação negra e cabelos curtos deixando seu pescoço comprido à mostra, algo bem incomum para uma garota naqueles tempos - e Tereza sempre esteve à frente de seu tempo, muito mais que os outros.

Não fazíamos matérias juntos, ela ia uns dois semestres à frente. Foi num debate entre grupos que disputavam a eleição para o Centro Acadêmico que a vi pela primeira vez. Aquela garota alta e esguia falava tão articulada e pontuava tão apaixonadamente seu ponto de vista que era impossível não notá-la.

Fiquei por ali depois de terminarem e, para minha surpresa, Tereza veio desde o palco improvisado abrindo caminho entre os demais, olhando fixamente para mim com uma expressão séria.

– E você, quem é? Calouro?

– Oi. João Paulo, primeiro ano. Mas pode me chamar de Jôpa.

– Tem uma identidade aí? Pode me mostrar?

– Tenho a carteira estudantil. Tá aqui…

– Legal. Hoje em dia a gente nunca sabe, tem infiltrado em tudo quanto é lugar. E aí, gostou do debate?

– Mais ou menos. Vocês falaram muito de política, mas ninguém disse o que pretendem fazer pelos estudantes.

– O melhor que podemos fazer por todos agora é tentar abrir seus olhos. Despertar a consciência, iluminar as massas.

– Mas aqui é só um centro acadêmico. O congresso mudou lá para Brasília – respondi debochando.

– Pode fazer piada. Quando a bomba estourar, vai sobrar pra gente ser a resistência. Nós, as pessoas comuns, temos que estar preparados para o que vem por aí.

– Garota, você pode ser muitas coisas, menos uma pessoa comum.

Ficamos conversando um tempo. Na minha inocência, achei que aquela minha observação havia despertado sua curiosidade, mas não era isso. Tereza era mais esperta do que eu calculava. Ela olhava para mim, o negro de topete e jaqueta de couro, e via o retrato do proletariado alienado, exatamente o que estava buscando.

– Então, Jôpa, eu quero que você venha a um encontro amanhã.

– Tá me chamando pra sair? Podemos ir na minha lambreta – eu quis botar banca.

– Lambreta? Você tem uma lambreta? Melhor ainda, isso vem bem a calhar!

– E aonde você quer ir? Já sabe, nada caro, hein?

– Tranquilo, você não vai gastar nada. Passa no alojamento estudantil amanhã. Quarto cinco, logo depois da aula. É só uma conversa, não vai criando ilusões, playboy.

Mas é claro que eu estava criando ilusões. Eu era apaixonado pela Ivetinha, mas ela estava lá, casada com o Machadinho. De que valia o céu azul e o sol sempre a brilhar, se eu estava ali, sempre a esperar? Que mal tinha eu aproveitar um pouco enquanto me preparava para quando ela pudesse ser minha? Ainda mais considerando que Tereza era moderninha e tinha um corpão elegantíssimo!

Enquanto isso, lá na zona sul, Margot andava desconfiada. As visitas dos pombinhos eram frequentes, o convívio com o casalzinho era alegre, mas… Ivetinha não parava de sorrir, apesar de aparecer com uns hematomas de agarrões pelo corpo e marcas de chupão no pescoço.

Isso até pareceria normal, se ela não soubesse que a filha nunca quis se casar com Machadinho. Ela já vira casos assim, tinha amigas que se esforçavam para manter uma aparente felicidade conjugal quando na verdade viviam um inferno entre quatro paredes.

Bem, ela mesmo tivera a oportunidade de provar Machadinho meses antes do casamento, quanto terminaram fodendo como dois animais no carro do futuro genro. Sabia que ele gostava de uma pegada mais forte, de um sexo um tanto intenso. Só de lembrar lhe subiam calores pelo corpo e ficava toda molhada. Mas, apesar de toda a entrega que tiveram, ela não saiu deste encontro com nenhuma marca delacionadora.

Como qualquer mãe desconfiada faria, Margot aproveitou o primeiro momento a sós com Ivetinha durante um almoço em sua casa para averiguar.

– Filha, e a vida de casada? Está tudo bem?

– Claro mamãe, tudo bem.

– Quero dizer… Na cama, entende? Tudo bem entre vocês?

– Ai mãe, que pergunta! Tá tudo bem, já disse!

– É que… Filha, você está cheia de marcas… O Machadinho te trata bem?

– Ah, isso? É amor. O Machadinho me ama muito. É normal que ele exagere um pouco.

– Desculpa filha, mas é que não parece normal. Fico pensando se o teu marido não está se excedendo um pouco.

– E se estiver? Vocês me entregaram a ele. De bandeja. Agora, ele me come do jeito que quiser!

– Não é assim, Ivetinha. Ele tem que te respeitar!

– Respeitar? – Ivetinha soltou uma gargalhada – Que é isso, mãe? Vai dizer que você nunca fez umas coisinhas a mais?

– Nunca, filha! Eu pus o limites no seu pai bem cedo! O Arnaldo sabe o lugar dele!

– Mãe, o pai é um banana. Não conta. Queria ver se fosse você, com o tenente Machadinho te agarrando pelas pernas, colocando de quatro sobre a cama, puxando os braços pra trás e descendo o cacete pra te foder com força e ficar levando uns tapas, até ele gozar tanto que os olhos quase saltam da cara!

– Ivetinha! O que é isso? Olha como fala comigo!

– Ué mãe, você não queria saber?

– Mas isso não pode ser assim! Ele tem que te tratar como a futura mãe dos filhos dele!

– Não, mãe. A gente não vai ter filhos, porque… Ele nunca goza dentro de mim!

– Hein? Como é?

– Machadinho tem isso. Ele só goza se eu ficar ajoelhada na frente dele, me fazendo de submissa, enquanto ele soca a rola grossa na minha boca até eu engasgar. Aí sim ele goza, mas gosta que eu coma.

– Você… Você está sendo obrigada a engolir o sêmem do seu marido?

– Obrigada não. Eu gosto, mãe. Machadinho me ensinou que eu sou uma puta chupadora de caralho e comedora de porra. Só não sabia antes porque eu nunca tinha experimentado!

Aquelas palavras reviraram o mundo de Margot. Ivetinha não mentira, tudo o que dissera era verdade. Mas ela o fez com gosto, exagerando nas entonações e abusando dos palavrões de propósito e omitindo pequenos detalhes.

Queria fazer os pais sentirem-se culpados pelo casamento forçado com Machadinho e calculava que, a melhor de todas as vinganças, não era dar a impressão de que ele a maltratava. Não, a vingança definitiva era fazê-los acreditar que sua querida filhinha estava se tornando uma puta desclassificada e sem vergonha por causa deles!

Sua determinação era tanta que, muitas vezes, ela reclamava com Machadinho na cama só para que ele lhe desse tapas na cara, tentava fugir das penetrações para que ele lhe agarrasse com mais força, ou mesmo se negava a beijá-lo para que o tenente, revoltado, chupasse seu pescoço. Quanto mais marcas os pais vissem, melhor.

Funcionou, Margot ficou impressionada. Sua filha, sua querida filhinha, estava sendo sodomizada pelo marido. Como ela não percebera que Machadinho era assim? Mas o pior é que podia ter percebido!

Se ela tivesse prestado mais atenção no seu encontro secreto com Machadinho, se não tivesse ficado tão excitada a ponto de passar dias relembrando o prazer de ser fodida com força por aquele pau duro, ter montado sobre ele no carro e ficado pulando como uma vagabunda na rola do garoto, ela com certeza teria visto os sinais!

Mesmo agora, começando a odiar o genro, só de lembrar daquele fim de tarde no mirante dos amantes, seu corpo tinha calafrios de desejo, sua pele se arrepiava de tesão e sua mente a traía, começando a divagar em sonhos eróticos com o rapaz.

Não, aquilo tudo estava mal, muito mal. Ela teria que interceder, ter uma conversa definitiva com o genro, obrigá-lo a respeitar sua filha e, quem sabe, apagar de vez a memória daquele desatino que os dois cometeram no passado. Só assim ela poderia ter calma novamente.

Já na zona norte, após uma semana, eu cheguei no alojamento cinco como um playboy: lambreta, calças jeans, topete engomado, camisa branca e a inseparável jaqueta de couro. Até passei umas gotas de gasolina atrás da orelha. Eu acreditava que o cheiro da gasolina deixava as garotas loucas, pensando na minha motocicleta.

Foi estranho. O quarto estava cheio, tinha umas duas outras garotas e uns três caras bem magrelos lá, todos fumando, bebendo rum e discutindo política. Nenhum deles estava bem vestido, não parecia uma festa. Foi aí que me dei conta: aquilo não era mesmo um encontro romântico, era uma reunião de intelectuais!

Quando alguém comentou que eu cheirava a gasolina, fiquei com vergonha. Disse que era por conta do trabalho de mecânico na oficina. Por incrível que pareça, virei o centro das atenções. Todos queriam saber como era minha vida, minha família, meus amigos, o que eu já havia lido e, principalmente, o que eu achava dos rumos da política no país.

Normalmente eu sairia de lá rapidinho, mas Tereza me fez ficar. Ela usava roupas um tanto justas, uma calça verde de barra curta colada ao corpo e uma blusa branca sem mangas com dois botões bem grandes em frente aos seios. Vê-la se movimentando entre as pessoas e escutar sua voz proferindo discursos prendia minha atenção.

Já era de noite quando as pessoas se despediam e começavam a sair. Fiz menção de ir embora, mas Tereza me segurou pelo pulso e disse para eu ficar, porque tinha um assunto que ela queria falar comigo. Sozinho no quarto, fumando e tomando o final de uma garrafa de rum pelo gargalo, eu sentava numa cadeira mambembe de armar e Tereza estava sobre a cama do alojamento, com as pernas cruzadas para cima.

– Você foi bem hoje, Jôpa. O pessoal gostou de você.

– De mim? Impossível. Todos eram veteranos, já leram coisas que eu nem conhecia.

– Isso não interessa para a gente. Você vai ler tudo o que importa com o tempo. Tranquilo.

– Mas então, por que acha que eles gostaram de mim?

– Porque você é de verdade.

– Como assim?

– Esse seu ar retrô de rebelde dos anos cinquenta, inspirado no James Dean. Até uma lambreta você tem! Ser tão fora da moda assim não é coisa de quem está fingindo.

Fiquei meio constrangido, achei que ia arrasar mas terminei sendo a piada do encontro. Os tempos tinham mudado, mas eu ainda me vestia como um playboy de anos atrás. Tereza percebeu o muchocho na minha cara e tratou de complementar rapidamente.

– Esse visual, considerando que você é negro e da classe trabalhadora, atestam que você é uma pessoa comum. E hoje em dia nós só confiamos em pessoas comuns.

– As pessoas que serão a resistência, segundo você.

– Muito bom, você estava prestando atenção ontem, quando comentei isso. Muito bom mesmo. Agora só falta a gente transar.

– Transar? Mas como assim? Bebeu demais, Tereza? A gente nem ficou junto! E além disso, tem essa garota que eu gosto, e…

– Que bonitinho! Jôpa, eu não estou te pedindo em namoro! Só estou chamando você pra transar comigo. Estamos nos anos sessenta, o mundo é livre, sem compromisso!

Fiquei completamente atônito. Até hoje eu achava Ivetinha moderna porque havia deixado eu tocar nas suas coxas, e agora eu estava ali com Tereza me puxando para a cama enquanto me beijava, colocando minhas mãos no seu corpo e tentando tirar minhas roupas. Realmente, eu tinha parado no tempo e nem me dera conta!

Estávamos nus sobre a cama, nos beijando e abraçando. Eu fiquei em êxtase, a pele branca de Tereza contrastava com a minha, ambos com o corpo brilhando de suor, o que refletia a luz amarelada do quartinho de uma forma quase artística.

Seu corpo grande, quase do tamanho do meu, exibia músculos esguíos como os de uma modelo, seus seios pontudos vinham coroados por mamilos grandes cor-de-rosa e seu sexo era coberto de pêlos loiros.

Eu nunca tinha visto uma nudez tão bela. Aliás, eu nunca tinha visto nudez nenhuma, pois ainda seguia tão virgem quanto na época em que me apaixonei por Ivetinha. Para um rapaz na minha situação, estar na cama, nú, com uma garota feito Tereza, era muito mais do que eu podia esperar quando entrei no curso de história!

Enquanto isso, na zona sul, Margot conferia o espelho uma última vez. O conjuntinho novo de calça e bolero de tecido grosso da Chanel sobre uma blusa fina de muitos botões a deixavam elegante e o penteado desalinhado que recolhia atrás da cabeça alguns cachos loiros e deixava outros tantos soltos com displicência calculada dava o ar moderno ao seu visual.

Na saída, despediu-se de Arnaldo para ir à tradicional noite de canastra com as amigas das quartas-feiras. Seguiu caminhando pela rua mas, ao invés de dirigir-se ao ponto de táxi, virou no quarteirão e chegou até a esquina, onde avistou um Simca Chambord azul de capota branca.

Dentro, Machadinho estava ansioso, vendo aquela mulher deslumbrante como uma atriz de cinema americano aproximar-se. Ele mal pôde acreditar quando atendeu o telefonema de Margot naquela tarde, pedindo para conversarem pessoalmente.

A sogra nunca mais o procurara desde aquele fim de tarde no mirante e resistiu à todas as suas investidas, dizendo que aquilo nunca mais se repetiria. Depois veio o casamento, a lua de mel com Ivetinha e tudo parecia que morreria ali, sob o peso de uma rotina familiar. Mas agora, via Margot caminhando em sua direção e o coração galopava disparado no peito largo do tenente.

Margot entrou no carro e seu perfume inundou o ar, trazendo boas recordações à Machadinho. Contudo, ela dirigiu-lhe um comprimento formal, frio e pouco entusiasmado, com as mãos recolhidas sobre o colo segurando a bolsa, sem se aproximar. Sua postura rígida e a falta de um olhar direto já indicavam que sua intenção não era ter nada íntimo.

– Para onde, Margot? Algum restaurante, ou café?

– Já sabe que não, tenente. Eu devia estar jogando cartas com minhas amigas, não quero arriscar ser vista em público.

– Para o mirante então? – Ele sugeriu, já se animando.

– Céus, não! Há algum lugar onde possamos simplesmente conversar mais reservadamente?

– Claro que sim. Tem o escritório do meu novo Departamento, não fica no Comando Militar e é num lugar bem discreto. Vamos?

Em menos de quinze minutos, o carro estacionava frente a um belo edifício neoclássico no centro da cidade, um palacete com a entrada na esquina coroada com uma cúpula suntuosa e um letreiro logo abaixo dizendo: DOPS - Departamento de Ordem Política e Social.

Àquela hora, não havia mais ninguém ali e os dois podiam conversar à vontade.

Machadinho foi adiante, até chegarem a um quarto muito grande, que agora servia de escritório. Tudo era sóbrio, havia fichários de arquivo ao longo das paredes e ao centro uma grande mesa tradicional de madeira com duas cadeiras escuras à frente. Os únicos itens de decoração eram uma bandeira do Brasil num pedestal, uma foto obrigatória do presidente em exercício e um carrinho de chá num canto.

Machadinho foi até o carrinho e serviu-se de um scotch on the rocks. Margot aceitou acompanhá-lo, o assunto que tinha a tratar pedia um trago para que fluísse. Sentados nas cadeiras escuras com uma distância de um metro, Margot tomou coragem e foi em frente.

– Machadinho, não quero que pense que o chamei com alguma segunda intenção. Não se trata disso.

– Já deu para perceber. Eu posso ser jovem, mas não sou bobo.

– Queria falar com você sobre Ivetinha.

– Sua filha é assunto meu.

– Pois esse “seu assunto” anda cheio de hematomas. Quando a questionei, ela negou que sejam agressões de sua parte, muito embora tenha afirmado que o culpado é você.

– Margot, só vou falar disso com você tendo em consideração que temos um passado. Ivetinha é minha esposa e, como disse, é assunto meu.

– Você definiu bem, o que tivemos é passado. E antes de Ivetinha ser sua esposa, ela é minha filha. Se você bate nela, dói em mim. Tenho o direito de saber o que está acontecendo.

– Diga-me uma coisa, por acaso você a vê infeliz, chorando, amuada pelos cantos? Não, Margot. Ivetinha está feliz do jeito que está.

– Sou obrigada a concordar, ela parece feliz com isso, e é exatamente o que mais me preocupa. Como ela pode aceitar? Como pode deixar que você a use assim e ainda gostar? Não, isso não pode ser, aí tem coisa!

– Minha deusa, eu mostraria a você exatamente como isso pode ser, mas, como você pontuou, o que tivemos é passado. E eu não posso mostrar com palavras.

– O que você está querendo dizer? Olha Machadinho, é melhor parar com essas insinuações agora mesmo! Eu sou sua sogra, entende? Sua sogra!

– Mas, antes de ser minha sogra, você foi minha amante. Ao menos uma vez, foi. Da mesma maneira que Ivetinha foi sua filha antes de ser minha esposa!

Aquela conversa não estava saindo como Margot planejou. Machadinho se negava a encarar a situação de Ivetinha como algo anormal e aproveitava cada oportunidade para relembrar o que eles fizeram no passado.

E o pior é que ela reagia involuntariamente a cada vez que ele mencionava isso. Os calores subiam por seu corpo, seu sexo pulsava e se umidecia dentro de sua roupa íntima, sua respiração se alterava e ela se esforçava muito para todas essas reações não transparecessem.

Já eu, no outro lado da cidade, estava bem contente da forma como transparecia minhas reações ao corpo nú de Tereza. No alojamento cinco, meu pau estava duro, jamais o vira tão duro assim. A garota até fez uma certa expressão de surpresa quando viu o tamanho daquilo, mas deu um sorriso de aprovação logo em seguida e o segurou, começando a me masturbar.

Eu estava apoiado sobre ela com os braços ao redor de seu corpo, ela tinha as pernas abertas comigo no meio e seus braços se estiravam entre nós para que as mãos compridas segurassem meu pau, puxando e empurrando a pele numa carícia excitante, enquanto seguíamos beijando-nos, a cada instante com mais intensidade.

Tereza se ajeitou na cama e veio escorregando entre minhas pernas até ficar quase embaixo de mim, puxou o pau com delicadeza e colocou na boca, começando a me chupar. Ela lambia minhas bolas, colocava na boca, depois vinha subindo com a língua deslizando pela rola e abocanhava aquilo, sugava e chupava, de olhos fechados.

Eu sentia plenamente o prazer de tê-la me chupando, era bom demais, já estava quase gozando, quando ela disse que agora era minha vez. Eu achei que já era para penetrá-la e fui me posicionando, quando ela riu e disse que antes eu tinha que chupá-la também.

Me deu um certo receio. Eu era virgem e podia imaginar muito bem como comer uma garota, mas chupar… Sei lá eu tinha medo de machucá-la, ou de não saber fazer direito e ela não gostar. Devo ter ficado paralizado algum tempo, até ela tomar a iniciativa.

– O que foi? Vai dizer que tem nojinho? Mesmo depois de eu ter chupado você desse jeito, todo babado?

– Não, Tereza, não é isso! E que eu.. bem, eu…

– Já entendi. Você nunca chupou uma garota, não é? Ah não, vai dizer que você é um desses caras machistas que se recusam a dar prazer a uma mulher? É isso?

– Não, quer dizer, sim, quer dizer, não é isso! – Eu estava me atrapalhando, todo envergonhado, até que saiu tudo de uma vez – Tereza, eu nunca chupei uma garota porque eu sou virgem!

– Virgem? Jura? Com esse pau todo aí dando sopa?

– É que eu tinha uma garota, sabe? Eu queria fugir com ela, mas…

– Pode parar, Jôpa! – Ela me interrompeu com sua voz meio autoritária de quem faz discursos políticos. – Não importa o motivo, sua virgindade termina hoje! Fica tranquilo que eu te ensino como chupar uma garota direitinho!

E sim, ela me ensinou bem direitinho, como e onde fazer. Perdi o medo. Com a cara enfiada entre as pernas de Tereza, eu chupava com prazer e sentia o gosto escorrendo dela, enquanto a loira se contorcia e gemia na cama, me apertando pela nuca para que eu não retirasse a língua de seu grelo nem um instante sequer, até começar a perder a respiração e ter espasmos. Essa foi a primeira vez que fiz uma mulher gozar.

Ficamos um tempo rindo à toa e recobrando a respiração, até ela sentir-se pronta. Girando na cama, Tereza ficou de quatro com as nádegas brancas e grandes viradas para mim, me olhou nos olhos e deu uma piscadela um tanto provocativa.

– Agora chegou a melhor parte! Vem Jôpa, vem me comer gostoso!

– É claro que sim! Nossa, se eu pudesse imaginar que isso tudo ia acontecer hoje… – Eu disse já roçando o pau entre os lábios de Tereza, ela estava quente e molhada, aquilo iria ser o máximo!

– Ôpa ôpa! Peraí, garoto! O que você pensa que está fazendo? Aí não! Aí não!

– Mas… Tereza você me disse para vir e eu…

– Tá doido? As garotas hoje em dia só fazem por aí se quiserem agarrar marido. Eu não, não quero engravidar!

– Juro, Tereza, nem passou pela minha cabeça. Mas se não é assim, você está querendo que eu meta…

– No meu cú, Jôpa! Sexo revolucionário a gente faz com o pau no cú!

Obviamente, eu não sabia como fazer. Ao manos, nao sabia como fazer direito. Tereza me ensinou a cuspir, enfiar uns dedos, ficar amaciando e preparar seu cú antes de eu meter propriamente. Mas quando eu finalmente meti, achei que estava no céu, que tinha morrido e aquilo era o paraíso.

Eu segurava Tereza de quatro na cama pela cintura e ia afundando a rola entre suas nádegas, sua bunda estava toda arrepiada, ela gemia alto, quase gritando, pedia para eu ir devagar e eu obedecia, avançando aos poucos, até ficar imerso naquele cú que me apertava, quente e saboroso.

Tereza ia começando a rebolar, dava tapas na cama e mordia o travesseiro, eu já estava indo e vindo lá dentro, acelerando, até começar a meter pra valer e nós perdemos qualquer resquício de razão, entregando-nos ao prazer puro de estarmos fodendo um ao outro sem reservas morais nem compromisso além daquele momento.

Enrrabei Tereza como um homem de verdade, eu estava realizado quando comecei a jorrar porra dentro dela, que agora ria e chorava ao mesmo tempo. Caímos extenuados sobre a cama, aquilo havia sido a experiência mais intensa de minha vida e, a julgar por como ela ficou, também fora algo um tanto extraordinário para ela.

Em meio ao silêncio do quarto e sob a luz fraca e amarelada, Tereza ainda estava meio letárgica quando comentou umas coisas engraçadas com uma voz meio apagada.

– Nossa, bom demais esse seu pau, curti à beça.

– Foi bom, né? Eu estava nervoso, mas terminou sendo uma noite ótima!

– Põe ótima nisso! Hoje você foi aceito pelo grupo e passou na minha avaliação pessoal, o que é bem difícil. Parabéns, seja bem-vindo!

– Bem-vindo? Como assim, Tereza?

– Bem-vindo à nossa célula anarquista, ora bolas! Agora você é parte da Célula Anarquista Guajira Guantanamera!

Eu ri. Pensar que foi por uma trepada metendo o pau no cú de Teresa que eu entrei para o movimento subversivo parecia uma piada. Achei que era coisa de estudantes, só isso, um passatempo e uma desculpa para fazer sexo. Mal sabia que seria encurralado.

Agora, encurralada mesmo estava Margot, e também pouco se dava conta. Machadinho a levara para conversar até a sede da polícia política, o famigerado DOPS, onde assumira uma chefia recentemente.

Depois de muito tentar dissuadi-lo a parar de tratar Ivetinha como um puta na cama, ela pouco havia conseguido e o tenente seguia fazendo insinuações sobre a noite em que, num descuido, ela se entregara ao desfrute a seu lado.

E o que uma mãe não faz para proteger uma filha? Margot agora só via uma saída. Ela tinha algo capaz de convencer o genro, sua única moeda de troca. Era seu último recurso, mas a situação em que se encontrava exigia que o usasse.

– Pois bem, Machadinho. Afinal, diga-me o que você quer para tratar minha filha com decência.

– Sua filha é indecente. Não fui eu que a fiz assim. Mas sim, eu quero uma coisa. Muito.

– Diga o quê.

– Você sabe muito bem, querida.

– Diga com palavras.

– Quero você, Margot. Desde que a vi pela primeira vez. Mais ainda depois que você deu pra mim. E principalmente agora, que não posso tê-la. Quero você.

– Tanto assim? Mas e se tiver? Se você puder me ter? Você deixaria Ivetinha em paz?

– Eu faço qualquer coisa pra você ser minha outra vez. Onde quer que eu ande, sem você tudo é tão triste, que já não me interessa o que demais existe. Mas, como não a tenho, a sua filha vai me servir na cama quando eu mandar, fazendo tudo o que eu quiser e da maneira que eu desejar.

– E eu já falei que é exatamente isso que eu quero terminar. Você tem que tratá-la como a futura mãe dos seus filhos, não como sua escrava sexual.

– Não me parece uma troca justa. Eu fico sem a minha putinha particular e recebo só uma trepada em troca? Eu quero que você me aqueça nesse inverno e em todas as outras estações do ano.

– Eu me deito com você. Mais de uma vez. Quantas forem necessárias. O ano inteiro.

– Quando eu quiser, do jeito que eu mandar.

– Assim também não. Só às quartas-feiras de noite, mas nada de motel ou mirante. Venho para cá em vez de ir ao carteado, será meu álibi.

– Tudo bem. O que sinto por você, esse desejo insaciável, vale à pena.

– Então temos um trato.

– Ainda não, Margot. Falta selar nosso acordo. Quero você agora!

Foi com um enorme conflito interno que Margot levantou-se, calada, e começou a retirar suas peças de roupa, enquanto o tenente, sentado em sua cadeira, assistia com deleite com o pau já mão, masturbando-se.

Margot não queria, havia prometido a si mesma que aquilo nunca mais se repetiria, resistiu noite após noite à tentação de buscar Machadinho, masturbando-se solitariamente.

Mas agora, por meio daquele acordo sórdido, tinha a desculpa perfeita para acalmar seus clamores e saciar seu desejo: ela não estava sendo promíscua, estava apenas protegendo sua filha, algo totalmente justificável…

A cada peça íntima que retirava olhando diretamente para o pau duro de Machadinho, Margot não conseguia deixar de suspirar, num misto de tesão e resignação. Ao ficar inteiramente nua, Margot deu meia volta e apoiou suas mãos na mesa, inclinando-se e deixando a bunda a poucos centímetros do rosto do tenente.

Machadinho não tinha pressa. Deteve-se um longo tempo apreciando sua conquista, até inclinou-se para frente para desfrutar melhor aquele momento.

A delicada buceta de Margot estava tão próxima dele que era capaz de sentir seu cheiro adocicado, ver os contornos róseos depilados, o grelo entumescido de desejo e o brilho de uma umidade que ela, por mais que quisesse evitar, não conseguia conter.

Só a ideia de possuir outra vez a Margot já o excitava. Ele nem havia começado e já estava quase gozando, seu pau pulsava em suas mãos, inchado e no limite da ereção. Por mais que quisesse fazer aquele instante durar para sempre, necessitava penetrá-la imediatamente.

Machadinho se pôs de pé, tomou Margot com uma mão firme segurando sua cintura e com a outra, começou a roçar a rola entre seus lábios, devagar, para cima e para baixo.

As pernas de Margot tremiam, o momento prévio a ser penetrada sempre a deixava angustiada e expectante – e agora com Machadinho, naquelas circunstâncias um tanto vergonhosas, esta sensação parecia ainda mais intensa.

Ela gemeu. Não conseguiu segurar seu próprio corpo e gemeu. Margot estava odiando perder o próprio controle, não queria estar úmida, não queria gemer, não queria fazer nada que demonstrasse a Machadinho o mínimo prazer de sua parte, mas era incapaz.

Quando sentiu o pau grosso e quente do tenente vindo devagar entre suas pernas, aprofundando-se nela e abrindo caminho em sua buceta, o mundo de Margot virou de ponta cabeça num prazer raivoso.

O impensável estava se tornando real. Tudo o que conseguia pensar era que ela nunca havia compreendido a própria filha tanto como agora.

Sim, Ivetinha deixava Machadinho fazer com ela o que quisesse simplesmente porque, de algum jeito um tanto mórbido, era prazeroso sentir a raiva e a vergonha de ser submissa misturada ao prazer de ser possuída de formas imprevisíveis.

Mantendo uma das mãos em sua cintura e a outra agora agarrando-a pelos cabelos, Machadinho começou a bombar forte.

O pau duro como pedra lhe invadia repetidas vezes quando seus braços falharam e ela terminava de se inclinar, com seus seios comprimidos contra o tampo da mesa, sentindo o impacto profundo de cada estocada, até começarem as convulsões do orgasmo que explodia nela enquanto ele gozava em fartura, enterrado lá dentro, urrando e caindo sobre seu corpo.

Quando Machadinho se retirou dela, Margot ainda estava atônita, confusa com o que sentia. “Céus, eu estou perdida. Perdida. E seguirei me perdendo a cada encontro, todas as semanas, até que ele desista de mim.”

E por falar em semanas, depois de comer o cú de Tereza, o tempo que se seguiu parecia se arrastar para mim. Minha única distração era a tal célula anarquista. Estar com eles era divertido, em geral só nos reuníamos para discutir política, fumar e beber, nada demais.

E tinha Tereza, é claro. O sexo revolucionário era algo um tanto viciante, mas também perigoso. Não pelo ato em si: sexo anal, se bem feito, era bem menos arriscado que o tradicional, pois eliminava a possibilidade de uma gravidez indesejada. Era perigoso porque implicava não criar laços.

Sim, nem eu nem Tereza estávamos buscando namorar, nem compromissos sérios, ela estava de caso com a revolução e eu me mantinha preso emocionalmente à Ivetinha. Assim, só haveria problema se um de nós se apaixonasse, o que nos levava a evitar momentos de maior afetividade. Era sexo puro e duro, só isso.

Lá pelo fim do primeiro trimestre, recebi um bilhete de Tereza convocando para uma reunião extraordinária de última hora no alojamento cinco. Eu fui correndo, afinal, cada noite com Tereza ao menos desviava o pensamento em Ivetinha - e não conseguir esquecer aquele amor proibido era o meu problema de fundo.

Quando cheguei, o pessoal já estava se arrumando para sair. Tereza me explicou que o presidente atual, um cara meio doido, renunciara. A questão era que os militares não queriam deixar o vice assumir, acusando-o de ser comunista.

– Mas e daí? – eu perguntei meio confuso – A gente não era anarquista? O que temos a ver com o comunismo? O vice que se foda!

– Não é simples assim. Achamos que eles estão armando um golpe de estado, e não vamos tolerar isso! Contra os militares, fazemos qualquer coisa.

Tudo bem, nossa grande ação revolucionária para confrontar aquilo era sair em duplas pregando cartazes a favor do vice, o que, sinceramente, não afetava em nada os militares. Mesmo assim eu topei, só para me divertir.

As duas outras garotas do grupo, Mayara e Maraisa, tiveram certa discussão entre elas para decidir quem ia comigo, afinal, eu estava de lambreta. Eu queria mesmo era ir com a Tereza, mas ela pelo visto já tinha se arranjado com um dos três magrelos, um tal de Wilsinho. O amor livre tinha dessas coisas, nem sempre era legal.

Mayara ganhou no par ou ímpar, pagamos os cartazes e as tralhas, prendemos na lambreta e fomos para o centro, eu com meu visual retrô de James Dean da periferia e ela com um casaquinho de lã rosa e saia xadrez verde e vermelha. Era um fato, nós dois tínhamos ao menos isso em comum: um gosto ultrapassado para roupas.

Mayara, uma branquela magrela e com a metade do meu tamanho, se equilibrava atrás de mim, coladinha, pedindo pra eu acelerar mais. Seus cabelos negros, longos e desalinhados voavam e ela me apertava em todas as curvas, que não foram poucas.

Mais de uma vez, tive a impressão de que ela pegou no meu pau, mas talvez estivesse só tentando se equilibrar. Naquela noite, saímos pegando cartazes pra todo lado e eu me sentia o mais subversivo dos estudantes.

Foi aí que eu vi. De dentro de um Simca Chambord azul de capota branca que eu jamais esqueceria, Machadinho e Margot saltaram juntos. O tenente caminhava a seu lado e lhe apertava uma das nádegas, sem que ela reagisse, quando entravam num suntuoso edifício neoclássico que, àquela hora, estava todo escuro.

Aquilo não poderia ser outra coisa, mesmo depois de anos do casamento, os dois continuavam tendo um caso e traindo Ivetinha! Lembrar de tudo me fez mal, eu queria vomitar, precisava extravasar!

O edifício de esquina era grande e tinha umas cem janelas. Saí como um doido colando cartazes em cada uma delas. Eu já ia pela metade quando Mayara voltou de outra rua e viu o que estava fazendo.

– Cara, tu é doido? Para já com isso, eles vão prender a gente!

– Prender? Por colar uns cartazes?

– Seu maluco, essa é a sede da polícia política, o DOPS! E os cartazes tem o nome da nossa célula, citando a revolução cubana!

– Aqui entre nós, esse nome é muito ruim, Mayara! Temos que decidir se somos anarquistas ou comunistas!

Já íamos começar a ter uma discussão revolucionária quando dois policiais saltaram de um carro e vieram correndo e gritando: “Alto lá! O que vocês estão fazendo?”

Ficamos uns segundos paralisados, sem reação. Era um flagrante. Quando consegui entender, puxei Mayara que estava mais branca do que já era e praticamente a carreguei correndo até a lambreta. Joguei ela na garupa, dei no pedal e arranquei.

Ouvi um estampido de tiro e acelerei com tudo. Ao passar pela porta do DOPS, vi Machadinho de pé fechando as calças com uma cara confusa, tentando entender o que se passava. Apesar da velocidade, foi como se naquela fração de segundo estivéssemos em câmara lenta: eu olhei bem para seu rosto, e ele para o meu.

Enquanto eu voava na lambreta para me afastar do perigo, Machadinho voltou a entrar no prédio como um trator. Ao ingressar em seu escritório, encontrou Margot tal como a havia deixado: nua e sensualmente recostada sobre um sofá que ele havia agregado meses antes à decoração para que pudessem seguir encontrando-se ali mais comodamente.

Sua expressão era tão grave que Margot se assustou ao vê-lo.

– Puta! Margot, você é uma puta!

– Machadinho, o que houve? Porque você está assim?

– Era aquele maldito negro! O seu amante! Era ele que estava causando o furdunço lá fora!

– Hein? Que amante negro, homem? Do que você está falando?

– Aquele infeliz que apareceu no Copa, quando estávamos acertando meu casamento com Ivetinha! O mesmo que veio apontando uma faca e gritando que você pertencia a ele!

– Ah, não, essa história de novo? Quantas vezes vou ter que repetir que eu não conheço aquele rapaz? Era só um bêbado! Você e o Arnaldo precisam acreditar em mim, eu não tenho amantes! Quer dizer, nenhum outro além de você!

– Mentirosa! Então como é que ele parece aqui, justamente no dia da semana em que nos encontramos? Como é que ele sabia? Confessa Margot, o que você anda contando sobre nós para o seu negrinho?

Margot tentou explicar de novo que devia ser apenas uma coincidência e que não tinha nada com jovens negros, mas Machadinho estava irredutível, tomado de ciúmes. Num acesso de fúria, ele perdeu a cabeça. Puxou a amante pelos cabelos e a atirou no chão, onde lhe desferiu repetidas bofetadas no rosto a cada vez que ela tentava levantar-se.

Margot, rendida e assustada com aquele acesso violento do tenente, começou a chorar e se deixou cair de vez no piso. Machadinho foi até uma gaveta em sua mesa e voltou com um revólver em mãos. Seus olhos estavam arregalados e sua face vermelha, de tanta ira.

Puxando novamente Margot pelos cabelos, ele encostou o cano da arma na têmpora da amante. Estava a ponto de disparar. Ele iria matá-la num arroubo passional. Sim, ele iria fazê-lo, e que tudo mais fosse pro inferno, o gatilho coçava frio em seu dedo e sua cabeça girava, era o fim, só restava mesmo a tragédia.

Margot, aos soluços e com lágrimas escorrendo, podia ver o que iria acontecer. Aquele rapaz, o marido de sua filha, sempre fora um monstro contido. Mas agora perdia a razão e se libertava - e ela era, provavelmente, a única pessoa capaz de detê-lo.

Timidamente, Margot ergueu a mão e tocou o pau de Machadinho. Estava duro, como ela calculara. A violência e a ira eram coisas que o excitavam, mais que o normal. Com o cano do revolver pressionando sua cabeça, Margot abriu-lhe as calças e as deixou cair,deixando livre e exposta a ereção do tenente.

Sem dizer palavra, ainda soluçando, ela o colocou na boca e começou a chupar. Lambeu, engoliu e chupou freneticamente. Sua vida dependia daquilo. Machadinho não largava a arma, mas agora fechava os olhos e gemia ao sabor da dedicação de Margot em deglutir seu pau.

Em minutos, sua ira retrocedia e ele afastou o cano da arma, imerso por ter Margot do jeito que ele mais gostava, prostrada diante dele e sugando-o copiosamente. Ainda agarrando-a pelos cabelos, deu-lhe um puxão final e a fez engasgar com a rola metida até o fundo, para então ejacular copiosamente enquanto rosnava: “Puta… sua puta… eu vou matar aquele negro infeliz, você vai ver!”

Enquanto isso, era como nos tempos em que eu disputava rachas com a turma, voando pelas ruas do centro à toda. Ouvíamos sirenes soando e o sangue corria em nossas veias. Agora, eu me sentia mais vivo do que nunca!

Lá na Candelária, Mayara gritou para a gente se esconder e esperar a poeira baixar, pois devíamos estar sendo procurados. Não havía pensado nisso, mas um negro e uma branquelinha numa lambreta vermelha de madrugada era algo fácil de identificar.

Estacionei no fundo de um beco. A adrenalina se espalhava pelo meu corpo e minha respiração era ofegante, assim como a de Mayara.

– Jôpa, acho que essa foi a coisa mais arriscada que já fiz desde que entrei para o grupo. Nossa, quase fomos pegos!

– Quase mesmo, foi por pouco. Eu juro que não sabia que aquela era a sede do DOPS.

– Meu coração está disparado até agora. Acho que nem durmo hoje. Tô a mil!

– Eu também, estou até tremendo de tanta adrenalina.

– Bora baixar esse estresse. Vai levar ao menos uma hora pra sair deste beco. Topa fazer sexo enquanto isso?

– Sério mesmo, Mayara? Sexo numa hora dessas?

– E o que seria melhor? Afinal, se a gente não pode trepar com quem quiser e na hora que precisa, porque somos anarquistas? A menos, é claro, que você não queira… Sei que você tem uma quedinha pela Tereza, eu entendo.

Eu estava acelerado como um motor em disparada, Mayara ficava falando de sexo e, para piorar, insunuou que eu tinha me envolvido com Tereza, justo o que eu sabia que não podia acontecer. Aquilo tudo mexeu comigo, que nem conseguia raciocinar direito de tão agitado.

Dei dois passos em direção à Mayara, a tomei pelos ombros e beijei sua boca com voracidade, minha língua passeou ávida pela dela como se tomasse posse de seu corpo procurando por sua alma, foi o beijo mais intenso que eu já dera numa garota.

Senti em minhas mãos como seu corpo se desmontava, ficando frouxo e entregue, ela sequer tinha condições de me abraçar, limitando-se apenas a corresponder o beijo enquanto minhas mãos desciam, uma em suas costas apertando-a contra mim e outra mais abaixo, puxando a saia para cima e apertando suas nádegas com firmeza.

Maiara estava entregue, tudo o que conseguiu fazer quando a coloquei de frente contra a parede foi emitir um longo suspiro de desejo, enquanto eu abria a calça e abaixava sua roupa íntima. Meu pau, duro e atento, estava roçando o rego entre seus glúteos pequenos, procurando por satisfação imediata.

Eu tive que me abaixar para que isso ocorresse, dada nossa diferença de tamanho, o que fiz instintivamente. Na minha cabeça não havia nada, assim como na de Maiara. Agora, éramos pura ação e vontade, sem cálculos nem planos, só dois corpos se permitindo num beco escuro no centro da cidade.

Antes de penetrá-la, contudo, tive um breve momento de claridade. Eu era muito maior que ela. Muito mesmo. Aquilo ia doer. Por precaução, averiguei.

– Maiyra, eu vou te comer todinha, mas… Vamos de sexo tradicional, ou revolucionário?

– Jôpa, depois de tudo o que passamos hoje… Somos anarquistas, viver é um risco para nós e o amanhã não existe. Eu não costumo fazer assim, mas tem que ser revolucionário, não importa! Só toma cuidado, por favor!

Ouvir sua voz, frágil e tensa, me deu certa consciência. Coloquei a mão entre suas pernas, sua buceta pequenina estava quase pingando de tão úmida. Meu dedos pareciam enormes ali, explorando entre seus lábios e apertando o grelo inchado.

Tirei a mão, ela gemeu manhosa, chupei o dedão e voltei a instigá-la outra vez, mas agora com meu dedão roçando o cú enquanto os demais deslizavam na bucetinha. Meti dois dedos e apertei o dedão, que começava a entrar no cú de Mayara.

Ela enlouqueceu, gemia e se contorcia com as mãos na parede, se contorcendo ao ritmo de minha mão entre suas intimidades, fazendo esforço para permanecer de pé. Quando tirei a mão outra vez, ambos sabíamos o que viria a seguir. Mayara se aprumou contra a parede, empinou a bundinha branca e sussurrou: “Pode vir, mete gostoso que meu cú aguenta!”

Se eu ainda tinha reservas ou receios de meter em Mayara, elas se desfizeram ao ouvir seu pedido. Procurei o ponto exato posicionando o pau e fui forçando. Era difícil, era apertado e, por isso mesmo, era muito excitante. Quando a cabeça entrou, Maiyara deu um gritinho meio contido, mas plenamente audível.

Com medo de que aquele desvario nos denunciasse, tapei sua boca e continuei enfiando devagar, esperando que a dor inicial passasse e ela ficasse mais à vontade com meu pau no cú, mas esse momento nunca chegou.

Eu nem metera tudo, sequer estava na metade, e Maiara dava pulos e se contorcia, agoniada como uma novilha sendo montada pela primeira vez por um touro. Eu parei de enfiar e deixei o pau ali, atolado, alargando a bundinha da garota até ela se acalmar.

Retirei a mão de sua boca e ela resfolegou tomando ar, para então me dizer: “Caralho, que pau grosso… Não mete mais fundo que isso, que eu não aguento. Mas me come, me come pra valer. E tapa minha boca, porque eu vou gritar com certeza!”

Em pé, contra a parede de tijolos do beco, eu mandei tudo pro inferno e enrabei Mayara de verdade, estourando até a última preguinha daquele cú apertado, socando o que conseguia enquanto tapava sua boca para que seus gritos não nos denunciassem, até gozar lá dentro.

Quando saí de Mayara, ela permaneceu imóvel contra a parede, ofegante e relaxada, como se estivesse se recuperando de uma maratona, só que com a calcinha arriada nos tornozelos e o cú aberto, pulsando e escorrendo uma pasta clara leitosa que chegava a formar uma pequena poça ao pingar no chão.

Depois do ocorrido, passei um par de dias só na oficina mexendo em motores, sem dar as caras na faculdade. Por mim eu nunca mais voltaria, mas tinha que seguir estudando e conseguir o diploma, parte do meu plano para um dia ter Ivetinha outra vez - muito embora muitas vezes questionasse essa estratégia e pensava que, talvez, estivesse sendo apenas inocente ao me aferrar a esta idéia infantil.

E foi então que, para minha surpresa, Tereza veio me visitar na oficina. Sua presença ali não combinava com aquele lugar que, até então, era parte exclusiva de minha vida. A loira alta e esguia de cabelos curtos era tão incompatível com a oficina suja e mal ajeitada quanto um quadro famoso na parede de um barraco.

Minha mente tardava em processar sua presença inesperada, de forma que ela tomou a frente na conversa.

– E aí? Sumido, hein? Vim aqui porque temos que falar algumas coisas. Depois da noite dos cartazes, acho que as coisas vão mudar.

– Sobre isso, Tereza, eu queria mesmo falar com você. Foi culpa da adrenalina, não vai mais acontecer. Quero que saiba que entre eu e a Mayara foi só um momento e não significa nada para nós dois.

– A Mayara? Ah, você acha que vim porque você enrrabou ela num beco? Não, querido, isso não tem nenhuma importância. Mas não se apresse em afirmar que não significou nada para ela. A Maiara anda meio… Bem, ela ficou caidinha por você depois daquilo. Mas isso é problema de vocês, não meu.

– Mas vai dizer que você não sente nada, minimamente que seja? Como consegue ser tão fria assim, Tereza?

– Fria não, objetiva. Eu posso trepar com quem eu quiser, inclusive você. Por mim, aquilo não muda nada. Já com a Mayara, como disse, é problema de vocês. Ela que aguente.

– Entendo. Mas se não era sobre ela, o que você queria conversar?

– Sobre você ter feito o que fez, digo, com os cartazes.

– Ah, isso. Eu sei, pisei na bola. Mas eu juro que não sabia que o edifício era a sede do… Bem, você sabe.

– Você saber ou não o que funciona ali pouco importa. O que importa são as consequências de ter colado os cartazes lá. Tem noção do que isto implica?

– Tenho. Eu coloquei a nossa célula na mira da polícia. Estamos todos em risco, por minha culpa. Acho que as coisas podem se complicar bastante, não é?

– É, eles vão nos perseguir, não vai ser fácil. Mas não me refiro a isto, somos anarquistas e iria ocorrer cedo ou tarde. Você só adiantou um pouco as coisas. Me refiro a consequências mais imediatas.

– Disso eu já não sei. Do que você está falando?

– Merda, você nem tem idéia, não é? Pregar cartazes subversivos com o nome da nossa célula justamente na sede da polícia política… Colocou a gente em evidência entre todos os movimentos de esquerda da cidade!

– E isso é ruim?

– Não, é excelente, seu besta! Eu jamais sonhei que ficaríamos famosos quando fundei a célula! Estou me segurando aqui pra não pular em cima de você e te comer aqui mesmo, seu filho da puta!

– Jura? Você está feliz? Mas eu pensei que tinha dado a maior mancada!

– E o pior é isso, você nem se dá conta! Jôpa, você agora é o maior herói da esquerda estudantil! Todo mundo comenta o que você fez!

– Todo mundo? Essa não, tô fudido, os milicos vão vir direto atrás de mim!

– Calma, ninguém além da nossa célula sabe que foi você. Mas todos sabem que foi alguém do Movimento Guajira Guantanamera, e isso é suficiente. Agora sério, até descobrirem o seu nome, é só uma questão de tempo.

– Merda…

– Calma. Eles também vão vir atrás de mim, afinal, eu sou a cabeça da serpente. Mas nós vamos estar preparados. Vamos agir antes deles nos alcançarem.

– E o que você tem em mente, Tereza? Como vamos sair dessa enrascada?

– Bem, eu tenho uns contatos. Tudo gente com algum poder nos movimentos revolucionários. Mas aí é outra liga, coisa séria.

Sim, coisa séria. Pode parecer que esse tempo do movimento anarquista foi divertido, mas ali foram plantadas as sementes que levariam aos acontecimentos mais marcantes em minha vida, desde que eu conhecera Ivetinha e me apaixonara.

A década de sessenta sequer estava na metade e, mesmo antes do Roberto lançar aquela canção famosa, eu já estava mandando tudo mais pro inferno. Agora, era o tempo em que todos nós deveríamos esquecer os sonhos e começar novas travessias pela vida.

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Esta parte do conto foi escrita para o “desafio pirata 2: Música” e foi inspirada pelo sucesso "Quero que Vá Tudo pro Inferno", de Roberto Carlos e Erasmo CarlosEu planejei uma história maior e queria usar algumas músicas, de forma que terminei fazendo esta série de cinco partes chamada “Fora da Ordem”, título de uma música fantástica de Caetano VelosoOs capítulos até agora vão nessa ordem:

1 - “Estúpido Cupido” de Celly Campelo"Quero que Vá Tudo pro Inferno", de Roberto Carlos e Erasmo CarlosAh, sim, em todas as partes da série existem referências sobre muitas outras músicas, mas isso eu deixo para vocês descobrirem. Espero que se divirtam ao ler, tanto quanto eu me divirto ao escrever.

E aquele abraço!

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