Dezessete anos após deixar Urubici no Estado de Santa Catarina, situada entre as montanhas mais altas do Estado que ladeiam o vale do Rio Canoas, e onde os invernos sempre foram extremamente rigorosos, segui o mesmo destino dos meus dois irmãos mais velhos, Thomas e Thiago, que também foram fazer suas vidas em centros mais desenvolvidos do país. Era estranho estar de volta sentindo aquela sensação de nostalgia. Eu era o único ainda solteiro e, por isso, meus irmãos me deixaram a incumbência de vender a propriedade dos nossos pais já falecidos, por julgarem que eu era o que tinha menos compromissos e preocupações e, portanto, podia me dedicar a essa tarefa mais facilmente. Sempre tinha sido assim, os dois se esquivando das responsabilidades e as empurrando sobre as minhas costas; o que gerou, ao longo da nossa adolescência, inúmeras discussões, pois meus pais cobravam deles atitudes mais responsáveis, justamente por serem os mais velhos. Acabei ficando com a fama de ser o mais protegido e mimado que, apesar de injusta e inverídica, criou uma barreira entre eles e eu.
A propriedade se estendia por cerca de 43 alqueires entre as reentrâncias das montanhas e colinas mais baixas onde meu pai, depois de se aposentar como diretor de um grande banco, foi cultivar macieiras. O que se destacava na propriedade era o casarão assobradado espaçoso e avarandado com direito até a um sótão, não muito distante de um riacho pedregoso que descia da montanha mais alta da região, cuja água correndo entre as pedras produzia um murmúrio que embalou minhas noites de sono. Dela se avistava um longo trecho do vale que parecia ter sido esculpido entre as montanhas, e onde o vento costuma serpentear com força produzindo um rugido que na infância me parecia fantasmagórico.
A venda se impunha por que nenhum de nós estava mais conseguindo bancar os custos de manutenção, uma vez que ela deixou de dar lucro cinco anos atrás depois que meu pai faleceu. A situação financeira do meu irmão mais velho, Thomas, era a mais privilegiada; no entanto, era o que mais reclamava e menos contribuía, dirigindo seus interesses na aquisição de carros luxuosos, longas e caríssimas viagens com a família ao redor do mundo e, o pagamento de pensões para duas ex-esposas, já que estava no terceiro casamento. O do meio, Thiago, tinha uma mulher perdulária que dificultava ele construir um patrimônio, apesar de ele ter bons rendimentos. Era ela a mais interessada na venda, sob a alegação desse valor custear a universidade nos Estados Unidos do único filho, embora ninguém duvidasse que a maior beneficiária desse dinheiro seria ela mesma. Eu, desde o princípio, fui contra a venda. Aquele lugar guardava as melhores lembranças da minha vida, foi onde fui mais feliz. Contudo, fui voto vencido quando bateram o martelo na decisão de vendê-lo.
Eu vivia de uma charmosa livraria com um café instalado no mesmo espaço em São Paulo, depois de me formar arquiteto e também exercer, como autônomo, a função de designer de interiores. Como todos sabem, livrarias nunca foram um bom negócio nesse país, cuja maioria da população parece ter aversão em manusear um livro ou se dedicar à leitura. Porém, eu havia me encantado com as livrarias na Europa e nos Estados Unidos durante as minhas viagens, e sempre tive o sonho de possuir uma com um clima intimista onde os aficionados pudessem circular entre as estantes caçando títulos de todos os gêneros, escolher um e se sentar em confortáveis poltronas degustando um café enquanto devoravam suas páginas. Só não levei em consideração que a cultura nunca foi prioridade, ou esteve ao alcance de um povo mais ligado a futilidades e ao endeusamento do corpo em detrimento do conhecimento. A despeito disso, eu não tinha do que reclamar da vida confortável que levava e do patrimônio que estava juntando sendo bastante espartano.
Quando se começou a falar na venda da propriedade, cheguei a pensar em desistir da vida que estava levando e assumir o controle dela, fazendo-a voltar a ser produtiva. No entanto, havia dois poréns. O primeiro relacionado ao valor com o qual meus irmãos já contavam e para o qual tinham traçado planos. O segundo, estava ligado à minha solteirice; não uma solteirice qualquer, mas a solteirice de um cara que havia descoberto na adolescência ser homossexual. Se já estava difícil, para não dizer quase impossível, encontrar um parceiro na maior cidade do país, o que seria de mim enfiado no anonimato no meio daquelas montanhas? Eu tive que concordar com meus irmãos, vender o lugar onde crescemos era o mais certo a se fazer do ponto de vista racional.
Ao descer do carro, diante da casa naquela tarde de primavera, senti uma pontada no coração. Olhando para a majestosa construção se erguendo altiva entre aqueles cumes onde o costumeiro nevoeiro ia escondendo os mais altos, voltou aquela vontade de não vender. Mas, isso significaria comprar uma briga com meus irmãos. Briga essa que eu certamente perderia.
Quem mantinha precariamente a casa era um casal de meia idade que pagávamos para não deixar a propriedade à mingua. O pomar com suas macieiras enfileiradas como soldados numa guarnição sentia o abandono, apesar das mais teimosas estarem em flor e terem seu perfume carregado pelo vento. Ele entrou em mim e encheu meu peito de lembranças. A casa estava em melhor estado e, entrar nela depois de tantos anos, fez rolar uma lágrima pelo rosto. Os móveis, quadros, objetos que minha mãe havia garimpado e disposto com tanto zelo e harmonia continuavam exibindo sua beleza. Precisei inspirar fundo para percorrer os cômodos que a dona Joana ia percorrendo caminhando a minha frente. Quando me viu chorando, veio me abraçar como fazia quando um dos meus irmãos me batia.
- Ah meu menino! Você ainda continua sensível como quando criança! São muitas recordações, não é mesmo? – perguntou, sabendo exatamente o que eu estava sentindo.
- São! São muitas, as mais felizes da minha vida! – respondi, soluçando em seus braços.
Havia dois compradores interessados na propriedade, uma cooperativa de produtores hortifrutigranjeiros e um investidor estrangeiro do ramo hoteleiro, segundo a imobiliária contatada pelo meu irmão mais velho para efetivar a transação. O corretor apareceu pouco depois da minha chegada, mal me dando tempo de me acomodar. Tinha aquela frieza costumeira de quem só vê cifras, esquecendo-se que pessoas tiveram uma vida e uma história naquilo que só enxergam como construções. A conversa dele me irritou, na pressa de concluir a venda e receber sua polpuda comissão, pouco lhe importava o destino de tudo aquilo que meu pai construiu com muito trabalho e esforço.
- A papelada já está toda pronta para ser assinada, independente para qual comprador vocês derem prioridade. – disse ao me entregar um chumaço de papeis que nem me dei ao trabalho de verificar.
- Meus irmãos só poderão estar aqui no início de dezembro, portanto, ainda temos dois meses para assinar esses papeis. – devolvi desinteressado.
- Quero lembrar que o investidor estrangeiro tem pressa na conclusão da compra, não sei se ele está disposto a esperar tanto tempo. – afirmou ele.
- Pois então que desista! Não vou apressar a vinda dos meus irmãos só por conta dele. – retruquei, fazendo-o perceber que a decisão da venda não era algo unânime, e que o negócio corria o risco de não acontecer.
- Mas o Thomas nos informou que tinha pressa na venda, por isso já tomamos todas as providências. – insistiu
- Não me interessa o que meu irmão falou! Ele não é o único a opinar sobre a venda, e eu, francamente, não estou nem um pouco interessado nesse negócio. – devolvi, despachando-o antes que voltasse a me aborrecer com sua ladainha de negociante.
Contudo, ele não se deu por vencido, fez contato com meus irmãos e agendaram uma data para uma semana antes do Natal para concretizar a venda, pois isso daria tempo do meu irmão mais velho voltar do exterior onde estava a trabalho, uma vez que ambos interessados queriam resolver a questão até o final daquele ano.
À medida que os dias iam passando mais eu me sentia apegado à casa, à propriedade, a tudo que ela representava para nossa família. Eu ia me posicionar abertamente contra a venda, já sabendo da polêmica que isso causaria. Eram as lembranças que me vinham em flashes cada vez mais seguidos a me levarem a nessa decisão.
Uma dessas lembranças, talvez a mais forte delas, estava ligada a um amigo de infância, Daniel, a quem apenas eu chamava de Dany. Tínhamos a mesma idade, frequentávamos a mesma turma no colégio, o convívio foi mostrando as afinidades que compartilhávamos fazendo surgir uma amizade que foi muito além da definição do termo. Era algo tão profundo e verdadeiro que houve um tempo no qual nos sentíamos tão ligados que muitas vezes não precisávamos de palavras para nos comunicarmos. Houve uma situação em particular que ilustra bem o que estou afirmando. O Dany havia passado o verão todo na casa dos avós em Guaratuba no litoral paranaense ao final da quinta série do ensino fundamental. Até então, nunca havíamos passado tanto tempo longe um do outro. Os dias iam passando e minha prostração aumentando. O apetite se foi, com ele a vontade de brincar, de acompanhar minha mãe à cidade onde sempre acabava ganhando um sorvete, instalando uma tristeza que todos notaram. Foram as piores férias da minha vida. Os pais do Dany regressaram tarde da noite, por isso ele não veio me procurar assim que chegou em casa, só o fazendo bem cedo na manhã seguinte. Desde a partida dele eu saía tarde da cama, pois os dias sem ele não tinham a menor graça. Minha mãe o deixou entrar avisando que eu ainda estava dormindo, mas sendo ele da casa, direcionou-o ao meu quarto. Ele entrou pé ante pé para me surpreender, cutucou meu ombro algumas vezes e outro tanto nos cabelos até eu acordar sonolento e me virar na direção dele. Ao constatar que era ele, lancei-me em seus braços agarrando-o com força e chorando convulsivamente.
- Eu estava com muita saudade! Saudades demais! Estava doendo muito! – balbuciava eu entre o choro, enquanto ele acariciava meu rosto para enxugar as lágrimas que rolavam por ele.
- Estou aqui agora, não precisa mais sentir saudade! Eu também estava com muitas saudades, senti sua falta em tudo que fazia. – retrucou ele.
A cena assistida pela minha mãe e pela dona Joana as levou às lágrimas, enquanto se questionavam o que levava dois garotos em tão tenra idade a compartilhar um sentimento tão sincero e profundo.
Afora esse episódio, éramos tão ligados que parecíamos a sombra um do outro. Percorríamos aquelas estradas de terra batida com nossas bicicletas, explorando os arredores e desaparecendo por horas. Muitas vezes dormíamos na casa do outro, unindo assim também nossos pais. Eu o tinha como um ídolo, ele parecia saber de tudo, era muito ativo e desenvolvido naquele corpão taludo sempre cuidando de mim, me fazendo pequenas gentilezas, me desafiando a fazer coisas que me causavam medo, mas que ao lado dele fazia surgir uma coragem que nem mesmo eu sabia que tinha. No colégio ou durante nossas incursões exploratórias, eu o admirava em silêncio e embevecido a certa distância. Não eram apenas os ombros largos, os braços fortes, o espírito aventureiro, o jeito destemido que me fascinavam, era algo que estava dentro dele e que transparecia em seu olhar toda vez que me encarava com aquele sorriso genuíno. Em nossas andanças por entre as reentrâncias daquelas montanhas, havia alguns lugares especialmente significativos, a relva alta que se inclinava pela ação do vento no Morro do Parapente onde ficávamos ombro a ombro conversando sem sentir as horas passando, a parte de baixo da Cascata do Avencal que, para ser acessada, demandava uma caminhada por um trilha sinuosa e às vezes escorregadia, onde eu podia contar com sua mão vigorosa segurando a minha ao transpor obstáculos, a Pedra do Segredo ou algum ponto das margens do Rio Canoas onde íamos pescar trutas enquanto ele me dava dicas de como montar as iscas no anzol.
Durante uma tarde extremamente fria de agosto, ao retornarmos pedalando o mais rápido que podíamos, fomos pegos pelos flocos de neve que iam se acumulando sobre nossos agasalhos. Ao chegarmos à casa dele mais parecíamos dois bonecos de neve ambulantes. Depois de ouvirmos uma carraspana da mãe dele, ela nos preparou um lanche e muito chocolate quente, avisando meus pais que eu ia passar a noite lá. Também foi o dia em que recebi a notícia de que eles estariam se mudando para Buenos Aires onde o pai ia se associar a um irmão dele num comércio de autopeças. Aquele seria, portanto, nosso último inverno juntos pois, poucas semanas depois, eles partiriam.
O Dany e eu ficamos conversando até tarde naquela noite, aventando todas as possibilidades de mantermos contato, mas que sabíamos ia criar um enorme abismo entre nós. Quando minha tristeza se manifestou em lágrimas, ele entrou debaixo do edredom comigo, me abraçou e prometeu nunca me esquecer, por mais distantes que ficássemos. Aquilo não era nenhum consolo, apenas um sinal que nossas vidas estavam tomando rumos diferentes. Naquele abraço sentimos pela primeira vez a manifestação de um tesão que vinha se cultivando em nossos corpos nos últimos meses. No calor das peles se tocando, o Dany teve uma ereção, a esfregou na minha cueca e sussurrou o quanto me desejava. Nunca antes eu havia sentido aquele espasmo forte que fez meu cuzinho piscar e, ao soltar um gemidinho quando ele fechou as mãos apertando meus mamilos, empinei a bunda roliça e carnuda contra aquela ereção que o fazia arfar de desejo.
Começamos a nos tocar quase desesperadamente, descobrindo sensações inusitadas que fizeram nossos corpos arderem libidinosamente. O Dany arriou minha cueca, palpou a carne firme e quente das minhas nádegas, murmurou entre dentes que me queria e cobriu minha boca com um beijo sensual me fazendo sentir o sabor de sua saliva. Eu o tocava num misto de sutileza e voracidade, explorando o peitoral sólido onde começavam a crescer uns pelos que ele não tinha no ano anterior, rumava num roçar quase imperceptível sobre o ventre musculoso, só para tocar no pauzão grosso dando pinotes dentro da cueca dele. Ele me acompanhava com o olhar ansioso, sua respiração acelerando à medida que meus dedos se aproximavam do sexo afoito, até o toque suave das pontas dos dedos o levarem a soltar um gemido rouco, seguido pelo vazamento de líquido seminal que formou uma rodela úmida acima do contorno da glande. Eu me encantei com aquilo, com a maneira como ele estava olhando para mim, com o aroma másculo que vinha daquilo. Como quem desembrulha um presente, fui baixando a cueca dele até contemplar toda imponência daquele pauzão reto, grosso e cabeçudo, bem maior e mais grosso que o meu. De tão fascinado que fiquei, não sabia o que fazer, se o tocava, se me era permitido explorar sua majestade, e guiei meu olhar para o Dany que, como sempre, parecia saber exatamente o que precisava ser feito.
- Acaricia meu pau, sente como você o deixa duro, chupa a cabeça dele! – orientava num sussurro excitado.
- Depois que começou a andar com aqueles caras do time de futebol do colégio, você ficou cheio das sacanagens, sabia? – murmurei, embora estivesse salivando de vontade de colocar aquele troço grosso na boca.
- É você que me deixa querendo fazer sacanagens! É teu cheiro, tua pele, esses peitinhos salientes, essa bundinha rechonchuda que me deixam malucão. – devolveu, me bolinando.
Não perdi nem um segundo para começar a brincar com aquilo tudo, vasculhando o chumaço de pentelhos, palpando o sacão onde duas bolas enormes e borrachóides que deslizavam ao sabor do meu toque, roçando as pontas dos dedos delicadamente ao longo daquela estaca cheia de nervos, sentindo-a latejar e liberar o fluido translúcido que fui testar lambendo-o por onde vazava abundante. Dirigi meu olhar mais uma vez para o Dany e, lentamente, fui fechando meus lábios ao redor da cabeçorra, sorvendo aquele líquido delicioso que ia me arrepiando todo. Ele grunhia, deixava o ar escapar entre os dentes, agarrava meus cabelos e pronunciava meu nome num longo suspiro. Eu chupava a carne quente dele, lambia o mastro rijo da ponta até o sacão peludo, abocanhava suas bolas e as massageava com movimentos da língua, ao mesmo tempo que minha mão espalmada afagava seu abdômen. Eu salivava de tanto tesão, meu corpo tremia, o cuzinho se projetava formando uma saliência que o Dany cutucava com o dedo aumentando aquele prazer inusitado. Minha mão sentiu as contrações do ventre dele que precederam o primeiro jorro de sêmen leitoso, levemente salgado e alcalino que encheu minha boca. Quase não conseguia engolir os jatos tão rápido quanto ele os ejaculava ronronando e se deliciando com meus lábios sugando sua virilidade.
- O que foi isso, Theo? Você acaba de me fazer o cara mais feliz desse mundo! Você mamou toda minha porra, seu putinho safado! – exclamou ele, sorrindo em jubilo.
- Não foi o que você me mandou fazer, chupar a cabeçona do seu pauzão? – devolvi. – Estava uma delícia, você é muito saboroso!
- Ah moleque! Você me dá muito tesão, sabia? Quero fazer uma coisa com você que nunca fiz com ninguém. – confessou
- O quê?
- Como você consegue ser assim, tão ingênuo e tão putinho ao mesmo tempo?
- Não sou ingênuo, nem putinho! – exclamei de pronto. Ele riu, pegou meu rosto entre as mãos e me beijou.
- É isso que eu gosto em você, sua ingenuidade e agora, depois que mamou até a última gota do meu leite, seu jeito putinho de me encarar. – afirmou, colando novamente a boca na minha e metendo a língua na minha garganta.
Mal tinha se aconchegado a mim em conchinha, abraçando minha cintura, começou a se esfregar na minha bunda até ter nova ereção. Estar nos braços dele me dava uma sensação de segurança e proteção, apesar de eu notar que corria certo perigo pelo jeito como ele tocava em mim querendo me dominar.
- Quero entrar em você! – exclamou a certa altura, quando minhas nádegas já estavam lambuzadas com o visgo que o pauzão dele liberava. – Deixa eu entrar em você, Theo? Fala que sim, fala! – eu tinha a impressão que ele queria me devorar, como alguém que estivesse esfomeado e se deparasse com sua comida favorita.
- Entrar em mim? – perguntei, não atinando de imediato com o que ele queria dizer com isso.
- É seu bobinho, entrar em você, colocar meu pau dentro do seu cuzinho, meter, enfiar, foder! – exclamou um tanto impaciente.
- Ah, isso! Outra sem-vergonhice sua!
- Que seja! Sei que vai gostar! Deixa eu meter, deixa Theo!
Quando foi que eu neguei alguma coisa para a pessoa que eu mais idolatrava e amava? Nunca. Ele sempre acabava ganhando o que queria quando me pedia as coisas com aquele olhar de cachorrinho perdido e desamparado, que ele tão bem sabia como fazer.
- Tá bom, eu deixo! Mas eu nunca fiz isso, o que eu preciso fazer?
- Nada! Só ficar assim deitado de bruços meio de lado e erguer um pouco essa perna, assim está bom! – respondeu, me posicionando e montando em mim. – Vai doer um pouco no começo, mas depois passa, eu prometo!
- Você vai me machucar?
- Não, claro que não vou te machucar! Quer dizer, talvez um pouco, mas não de propósito!
- Como assim?
- É que como você nunca deu o cuzinho para ninguém, e ele é bem apertado, e meu pau é meio grosso, pode ser que, quando ele entrar em você, estique bastante as tuas preguinhas e machuque um pouco. – explicou, não se aguentando mais de tanto tesão, querendo enfiar o pauzão o quanto antes na fendinha que cutucava com um dedo impudico.
- Como você sabe todas essas coisas? – perguntei abismado. Eu devia saber que a pergunta era retórica, o que é que o Dany não sabia? Ele sempre sabia tudo, e era uma das coisas que eu mais admirava nele.
- Sabendo, oras! – isso não explicava nada, mas tanto fazia, eu tinha total confiança nele. Ele nunca que ia me machucar.
Com a respiração acelerada, ele pincelava o pauzão pelo meu reguinho estreito, o que me dava um tesão danado, embora eu não o confessasse, apenas arfava desejoso e arrebitava a bunda para tornar aquela sensação mais prazerosa. De repente, ele pareceu encontrar o que queria, a entrada corrugada da minha fendinha se contraindo na cabeça do pau, e a forçou para dentro. Como sempre, ele estava certo, doeu, e instintivamente meu ânus travou, ocluindo ainda mais aquele buraquinho exíguo.
- Você não pode fechar o cuzinho, precisa manter ele aberto para eu poder entrar. – disse, afoito.
- Não fui eu, fechou sozinho! E doeu! – afirmei, começando a tremer por acreditar que aquilo não ia ser tão simples quanto ele quis fazer parecer.
- Eu te avisei que podia doer um pouco no começo, não avisei?
- Avisou! Estou começando a ficar com medo, Dany!
- Não precisa ter medo, eu estou aqui, abraçadinho em você, não estou? Você confia em mim, não confia? Então, só fica paradinho, abre o cuzinho para mim e empina bem essa bundinha que está me deixando cada vez mais maluco. – sussurrou, enquanto roçava os lábios úmidos no meu pescoço, deixando também a mim doidinho de tanto tesão.
No instante em que empinei o rabo contra a virilha dele, um impulso forte fez a cabeçona do pau entrar em mim, distendendo e rasgando as preguinhas. Prevendo que eu ia gritar, ele tapou minha boca com a mão sufocando o grito enquanto meu corpo se estremecia todo debaixo do dele. Ele não se mexeu enquanto a dor se espalhava pelo meu rabo, apenas me continha com mais força para que eu não lhe escapasse. Agarrado a tudo que estava ao meu alcance, tentei assimilar a dor e controlar a respiração que, de tão acelerada, parecia estar sufocando meu peito.
- Ai Dany! Acho que isso não vai dar certo, dói muito, Dany! – choraminguei
- Vai dar certo sim, é só você se acalmar! Até parece um bichinho assustado! Eu já enfiei a cabeça do meu pau no seu cuzinho, agora vai ser mais fácil meter o restante. – afirmou, me convencendo a uma entrega total e irrestrita.
Ele se empurrava lentamente para dentro de mim, os esfíncteres iam se distendendo, se abrindo para o pauzão entrar cada vez mais fundo. Eu gemia de dor me sentindo cada vez mais preenchido, até ele meter tudo deixando apenas o sacão entalado entre as bandas carnudas da minha bunda e os pentelhos me roçando de leve. Ele ficou estático nessa posição por alguns minutos, o pauzão pulsando forte contra as minhas carnes dilaceradas, eu gemendo cada vez mais longamente e com menos intensidade, à medida que já não era mais a dor a maior sensação que vinha do meu cuzinho, mas o prazer que se instalava insidiosamente, tornando a cópula perfeita.
- Viu como eu estava certo! Está gostando de sentir minha pica no seu cuzinho, não está?
- Estou! Eu gosto tanto de você, Dany! Você é meu melhor amigo, é tudo para mim! – confessei, ao perceber que ele se movia num vaivém prazeroso, quase tirando a pica do meu cu antes de a enfiar novamente até o talo no meu rabo empinado.
Os grunhidos esfomeados dele me excitavam, me davam tanto tesão que os gemidos agora eram de puro prazer. O cara que eu mais amava agora estava dentro de mim, fazia parte de mim como se fossemos um só. Até nossos gemidos estavam em sintonia, a respiração, os batimentos cardíacos desenfreados, tudo vibrava na mesma cadência. Do nada, começou a surgir uma sensação nova, meu baixo ventre se revolvia, os músculos se contraíam, o tesão se dividia entre o cu e o pinto duro esmagado contra o lençol. Uma pulsação forte me fez ejacular, o prazer jorrava do meu pau como nunca havia jorrado em nenhuma masturbação.
- Dany! Ai Dany! – gemi prazeroso
- Tá gozando, não é meu putinho safado! Tá gozando com meu cacete socado no teu rabo e tá gostando como eu disse que ia gostar! – ronronava ele, sem parar o vaivém que provocava uma ardência crescente no meu ânus.
- Dany! Dany! – era tudo que eu conseguia repetir naquele transe de luxúria.
- Theo, seu bundudinho tesudo do caralho! – grunhiu ele, uma última vez antes de soltar um urro e encher meu rabo de porra com o pauzão latejando forte e ele a se estremecer todo agarrado a mim.
Quando amanheceu eu estava com a cabeça deitada no peito dele, que subia e descia a cada inspiração e expiração. Minha coxa estava no meio das dele sentindo o roçar da ereção matinal. Meu rego estava pegajoso devido ao pouco de esperma denso que vazou do meu cuzinho e do sangue das preguinhas dilaceradas, o que me fez ficar apavorado e agitado, acordando o Dany.
- Tem sangue! Tem sangue .... na cama .... no meio das minhas pernas! – exclamei, à medida que via as manchas e o filete ressecado grudado na pele.
- Isso não é nada, meu pau machucou seu cuzinho, só isso! Já parou de sangrar, está vendo, já parou! – dizia ele procurando me acalmar. – É o seu cabaço! Tirei seu cabacinho! Você não é mais virgem, meu tesudinho gostoso! Você deu seu cabaçinho para mim! Foi o presente mais maravilhoso que já me deram! – afirmava ele, sorrindo abobalhado e procurando minha boca.
Eu estava tão feliz por tê-lo feito feliz que nem me importava com a ardência que continuava queimando meu cu, e por estar sentindo a umidade que ele me deu de presente formigar bem lá no fundo.
Aquela noite, aquele coito, aquela sensação maravilhosa de sentir o Dany dentro de mim mudou tudo, me transformou num Theo que ia perdendo a inocência, descobrindo a paixão e as dores que a acompanhavam. Não mais aquela dor localizada nas pregas anais destroçadas, mas a dor que se instala no peito e parece nunca desaparecer, a despeito do tempo transcorrido. Essa dor começou depois do nosso último encontro, poucas semanas depois de ele tirar a minha virgindade. Foi outra manhã fria, daquelas que adentram aos ossos. Ele havia aparecido cedo em casa com sua bicicleta, me convidando a dar umas voltas. Minha mãe não quis me deixar sair, mandou que ficássemos dentro de casa para não pegar uma gripe ou coisa pior, como gostava de afirmar quando queria me assustar. No entanto, bastou ela se distrair um pouco e lá estávamos pedalando em direção a um dos nossos refúgios. O vento estava de cortar quando nos encontrávamos ombro a ombro sentados numa rocha de onde se avistava parte da cidade coberta por um nevoeiro baixo. Foi um encontro cercado de melancolia, pela primeira vez parecíamos não ter assunto quando havia tanto a se dizer.
- Trouxe isso para você não se esquecer de mim! – exclamou, me entregando uma correntinha com um pingente no formato de um cristal de neve e um papel enrolado com uma fita, no qual havia desenhado meu rosto com tamanha fidelidade que parecia uma fotografia.
Eu comecei a chorar, era a despedida, o momento que eu queria nunca chegasse, havia chegado. Ele me puxou para si, apoiou minha cabeça em seu ombro e segurou as lágrimas tentando ser forte.
- Também tenho um presente para você! – afirmei, entregando-lhe uma caixinha na qual havia colocado a bússola antiga que comprei num antiquário em Floripa da última vez que meus pais me levaram para lá. – É para você conseguir encontrar o caminho de volta para mim! – exclamei, quando ele se encantou com o presente, deixando o choro brotar.
Não sei quanto tempo ainda ficamos ali sentados, deixando o silêncio falar o que as palavras não conseguiam. Ele se levantou, me deu um beijo molhado na boca, pegou a bicicleta e partiu com um último sorriso e um aceno. Eu fiquei ali chorando e sentido a dor no peito aumentar, sem desconfiar que ela não me abandonaria mais.
A dona Joana me pediu algumas coisas para a casa ao me mandar para o supermercado. Resolvi que no caminho passaria pela loja de roupas dos pais de uma amiga dos tempos do colégio, a Ligia. Mesmo depois de eu sair de Urubici, nunca deixamos de manter contato, e eu tinha avisado que estava indo para a cidade para vender a casa da família, o que ela lamentou, pois isso nos distanciaria ainda mais.
- Uau! Você está um gato! – exclamou ela ao me ver, em plena loja cheia de clientes. – Nas conversas por videochamada não dá para ver esse corpão todo! – continuou, me deixando embaraçado quando as pessoas começaram a me examinar. – Na verdade, nunca deixou de ser, eu ainda me lembro do sucesso que você fazia no colégio .... – ia dizendo ela, quando a interrompi, antes que me colocasse em outra saia justa.
- Só vim dar um Oi, quando estiver mais desocupada nos falamos. Vou estar pela cidade e volto mais tarde, ok?
- Onde pensa que vai? De jeito nenhum, espera só um pouquinho, já me desocupo e podemos dar umas voltas por aí! – disse ela, terminando de atender a cliente.
Ela continuava tagarela como nos tempos do colégio, emendava um assunto no outro, nem me dando chance de abrir a boca, o que de certo modo era bom, pois eu nunca tinha muito o que falar. Durante as andanças e as compras no supermercado, ela me pôs a par de tudo que havia acontecido na cidade, com as pessoas que conhecíamos, com as transformações havidas desde a última vez que estivemos juntos.
- É uma pena vocês venderem a propriedade, a casa que seu pai construiu com tanto carinho. Não há quem não a admire, todos dizem que é a casa mais bonita da cidade. Vocês precisam mesmo vender? – questionou ela.
- Sim, acho que sim! A manutenção é muito cara! Depois é como eu te falei em nossa última conversa, meus irmãos só querem o dinheiro, não estão nem aí para a propriedade. Eu não tenho como comprar a parte deles, portanto, o jeito é me conformar e vender.
- Seria tão bom se você voltasse para cá, eu sinto falta da nossa amizade! – afirmou ela.
- Com um maridão lindo e fofo como o seu, você não depende da nossa amizade.
- Você que pensa! O George é um tesão de homem, não tenho do que meu queixar! Mas tem horas que tenho vontade de esganar aquele macho teimoso feito uma mula, e é aí que é bom ter um amigo como você, que sempre sabe dizer aquilo que precisamos ouvir. Falando nisso, ele me pediu para convidar você para um jantar lá em casa, disse que também estava com saudades suas. Aliás, quem é que não fica com saudades de você?
- Eu vou sim, é só marcar! Pelo menos até o Natal estarei por aqui, meus irmãos querem concretizar a venda até lá. – informei.
- Quando eles vêm? Já está tudo certo com os compradores?
- Não sei ainda! Devem vir só na véspera da assinatura da papelada.
- Ah, tenho outra novidade para te contar. Já queria ter contado um tempinho atrás, mas o queria fazer pessoalmente só para ver a sua reação. – disse ela, criando um suspense. – Lembra do Daniel Mancuso? – perguntou, como quem não quer nada, me fazendo parar de caminhar e a encarar para que desembuchasse de uma vez. – Ele voltou para a cidade faz poucos meses. Foi o George que o encontrou por acaso. Não sei se você se lembra daquela família de letões que tinha um alambique lá na Estrada de Santa Tereza? – perguntou ela, mas eu não me lembrava. – Pois eles se mudaram pouco depois de você ter deixado a cidade e venderam a propriedade para um uruguaio ou argentino do ramo hoteleiro, não sei ao certo, que construiu uma porção de chalés no lugar, mas por uma razão que também desconheço, nem chegaram a ser alugados. Pelo que dizem, o Daniel comprou a propriedade desse cara que, uns dizem que era sócio dele, enquanto outros dizem que o cara faliu e devia muita grana ao Daniel que acabou ficando com os chalés. O fato é que ele está na cidade e, pelo que eu me lembre, rolava uma bela treta entre vocês dois. – revelou
- Que treta o quê, Ligia! Deixa de inventar coisas! Éramos amigos do colégio, só isso! – tentei disfarçar, pois conhecia as artimanhas dela para causar confusão.
- Amigos? Estou sabendo! Você arrastava um trem por ele, e ele um navio por você, que eu sei! Nunca se desgrudavam! Eu descobri que você era gay por conta dessa “amizade” de vocês, lembra?
- Lembro que você era uma tremenda de uma enxerida, isso sim! Ficou me aporrinhando durante semanas até eu confessar que era gay. Foi a primeira pessoa para quem contei depois dos meus pais de tanto que você me infernizou! – devolvi, fazendo-a rir.
- Eu sou boa em arrancar confissões, podia trabalhar numa dessas agências de espionagem! – exclamou rindo.
- Podia é cuidar da sua vida, do seu maridão gostoso antes que alguém o roube de você! – devolvi despeitado.
- Bem! Voltemos ao que interessa, quando vai procurar pelo Daniel?
- Ficou maluca! Ele deve estar casado, ter filhos, por que raios eu ia procurar por ele?
- Por causa dessa “amizade” de vocês! Eu aposto que ele ainda gosta de você e, que se soubesse que você está na cidade, ia correndo para os seus braços! – a safada não tinha limites.
- Deixa de besteira, criatura! Ele nem deve se lembrar mais de mim!
- Boto a minha mão no fogo que não só lembra como ..... – ela parou de tagarelar no meio do corredor do supermercado, e me encarou como se tivesse visto um fantasma. – Vamos tirar isso a limpo agora mesmo, meu amigo, olha para aquele pedaço de mau caminho perto dos caixas! É ele, é o seu Daniel! – exclamou eufórica, me fazendo engolir em seco e ter um súbito ataque de pânico, embora não estivesse reconhecendo aquele homem parrudo, com uma sensual barba por fazer como sendo o Dany das minhas lembranças.
A Ligia empurrava o carrinho de compras na direção dele, enquanto eu o segurava de tão perdido que fiquei. Seria mesmo o Dany? Eu só me lembrava do adolescente que sabia tudo, que me sorria com o mais lindo sorriso que alguém podia ter, do garotão que usava sua força e habilidades para me ajudar a transpor os obstáculos das trilhas que percorríamos para nos isolar de tudo e de todos só para podermos ficar sozinhos conversando por horas, do molecão musculoso que me desvirginou e me proporcionou a mais maravilhosa sensação de prazer que eu já tive.
- Se for mesmo ele, não estou preparado para esse encontro! Preciso sair daqui! – afirmei num rompante, deixando-a sem entender o que se passava comigo. Para ser bastante sincero, nem eu mesmo sabia o que se passava quando meu coração simplesmente disparou a ponto de me causar uma vertigem.
A estratégia da fuga não funcionou. Depois de ele sair do supermercado e a Ligia me garantir que havia ido embora, esbarrei com ele no estacionamento, pois o carro dele estava estacionado exatamente ao lado do meu e ele havia ido resolver um assunto ali perto a pé. No instante do esbarrão não nos reconhecemos. As diversas transformações pelas quais um adolescente passa até se tornar um homem adulto nos impediu de nos identificarmos. Porém, bastou nossos olhares se encontrarem para a dúvida desaparecer. Só o Dany tinha aquele olhar, só ele tinha aqueles olhos castanho-claros que nunca desapareceram da minha mente.
- Theo! É você, Theo? O meu Theo! – exclamou ele ao me reconhecer. Esse “o meu Theo” me deixou sem chão, ele também não havia me esquecido.
- Dany! – minha voz quase não saiu. Eu olhava para aquele homem grande, vigoroso, de expressão máscula e doce e sabia que era o meu Dany, a minha grande paixão não vivida. Ele me puxou contra si com força e determinação me fazendo sentir o calor de seu corpão num déjà vu indubitável.
- Eu não sabia que você estava de volta à cidade! Quando chegou? Está morando na casa dos seus pais? – perguntou entusiasmado. – Assim que retornei à cidade fui te procurar e a dona Joana me disse que você não morava mais lá, que fazia anos que não voltava à cidade, que você havia se estabelecido em São Paulo. – revelou.
- Você procurou por mim? – indaguei emocionado, apertando-o em meus braços como quando éramos adolescentes. – Achei que nunca mais o veria! – afirmei, segurando o choro.
- Também pensei assim! Você continua tão lindo quanto nas minhas lembranças! – afirmou, passando a mão no contorno do meu rosto. – Precisamos marcar de nos encontrarmos com mais tempo, quero saber tudo sobre você, o que fez, por onde andou, se está com alguém. – tive vontade de responder que o esperei por esses anos todos, que minha vida sem ele não fez sentido, mas não era nem hora nem o lugar certo para essas revelações.
A partir dali meu humor mudou da água para o vinho. Eu já acordava eufórico, cantarolando, achando mesmo um dia nublado e chuvoso tão encantador quanto um dia ensolarado. Descia cedo para o café, abraçava a dona Joana, cumprimentava entusiasticamente o marido, devorava o que estava à minha frente com um apetite voraz.
- Alguém andou vendo um passarinho azul, ou terá sido um ex-adolescente que vivia enfurnado nessa casa com o qual sumia por horas, deixando a todos preocupados. – disse ela, sorrindo para o esposo.
- Aposto que foi com o sujeito que bateu à porta uns meses atrás afoito para encontrar o menino que deixou a chorar pelos cantos. – retrucou o marido, encarando-a com cumplicidade.
- Podem parar de me tratar como seu eu fosse um garoto? Quando ele esteve aqui, o que perguntou, ele quis saber especificamente de mim?
- Sim, ao que sabemos, veio te procurar no dia seguinte à chegada dele à cidade. E sim, para todo o resto, só lhe interessava saber de você. – respondeu, me enchendo de alegria.
O George me ligou dois dias depois marcando um jantar na casa deles. Não precisava ser nenhum adivinho para saber que estavam armando meu encontro com o Dany, o que confirmei assim que cheguei à casa deles, pois lá estava ele, me aguardando na mesma ansiedade que eu a ele. Nos cumprimentamos mais formalmente do que pretendíamos para não gerar falatórios antecipados. O que denunciava o que se passava dentro de nós eram as trocas constantes de olhares, as palavras que não verbalizávamos naquela ausência de privacidade. O Dany contou resumidamente como a antiga propriedade do casal de letões veio parar em suas mãos, e um pouco dos planos que tinha para a transformar numa pousada; enquanto eu fiz um breve relato das minhas viagens ao exterior e de como acabei montando a livraria em São Paulo. Nenhum dos dois tocou no assunto de namoradas, casamento, parceiros, como se um assunto delicado dessa natureza não tivesse espaço naquele jantar.
- Tem planos para amanhã? – perguntou-me o Dany quando nos despedimos diante dos carros.
- Não! Nada importante! Está planejando alguma coisa? – ele me encarou, voltou a acenar da direção dos nossos anfitriões que nos observavam da varanda da casa e disse que me ligaria no dia seguinte.
Sonhei com ele a noite toda, me virando na cama numa agitação crescente. Estaria o destino nos dando uma segunda chance? Será que aquele sentimento tão forte da adolescência ainda estava vivo dentro de nós? De minha parte eu sabia que estava e, que tinha se intensificado após esse reencontro, mas e ele, estaria sentindo o mesmo? Ele podia estar casado, ter formado uma família, afinal homens másculos e atraentes como ele não ficavam solteiros por muito tempo. As mulheres correm atrás deles, o vigor físico e os hormônios os impelem ao acasalamento para satisfazer suas necessidades primais. Tudo isso me levava a ser cauteloso, a não sonhar com o passarinho voando pelos céus, a não criar expectativas que talvez nunca pudesse concretizar.
O Dany ligou cedo, veio me buscar em casa numa motocicleta potente e foi percorrendo a região parando nos nossos antigos refúgios, alguns dos quais deixaram de existir por haverem sido transformados em pontos de interesse turístico que crescia por toda Urubici. Em outros, revivemos aquele tempo sentados, ombro a ombro, revelando aos poucos o que aqueles anos todos nos impediram de viver. No entanto, novamente, ninguém mencionou um parceiro ou parceira, talvez por medo da resposta.
- Pensou em mim durante suas viagens pelo mundo? – perguntou, após um silêncio que já durava alguns minutos quando observávamos a paisagem do Morro da Igreja.
Eu tirei pelo colarinho da camiseta a correntinha com o pingente em formato de cristal de neve.
- Todos os dias desde que você colocou isso no meu pescoço! – respondi, o que o fez sorrir. – Carrego-o comigo desde então! – acrescentei.
Por uns instantes achei que ia rolar um beijo, o beijo pelo qual eu tanto ansiava, mas ele não veio. O Dany parecia estar omitindo alguma coisa e, um beijo ali em nosso antigo refúgio parecia não ser apropriado. Senti uma pontada no peito ao fazer essa constatação. Talvez não houvesse um futuro para nós, não como eu sonhava.
Fui a uma loja de chocolates no centro da cidade comprar um mimo para agradecer ao George e à Ligia pelo jantar daquela noite, e me deparei com garotinho desinibido e falante escolhendo uns bombons enquanto argumentava com a atendente sobre os sabores de sua preferência. Quando me aproximei com o que havia escolhido como presente, ele me sugeriu acrescentar umas barras de chocolate que garantiu serem as melhores que já provei. Ele me encarou com simpatia, perguntou se eu era novo na cidade, pois nunca tinha me visto circulando por lá, mencionando que a cidade era pequena e que quase todos se conheciam.
- Quem a gente não conhece, sabemos que é turista! – disse ele. – Você é turista? Onde está hospedado? Meu pai está construindo uma pousada, você precisa ver como são lindas as vistas dos chalés, talvez um dia quando a pousada estiver funcionando você possa vir nos visitar. – a desenvoltura dele era impressionante e a simpatia cativava qualquer um.
- Tenho certeza que seu pai tem o melhor marketeiro da cidade e, que a pousada vai estar cheia de turistas. – afirmei, deixando-o orgulhoso de si.
Passei a me encontrar com o Dany pelo menos umas três vezes por semana. Saíamos pela região sem um destino pré-fixado, fomos revelando como tinham sido aqueles anos que passamos afastados sem, contudo, entrar no assunto tabu, relacionamentos amorosos.
Uma amiga de São Paulo veio me visitar no feriadão de início de novembro, atraída pelo que eu lhe contava sobre a cidade e suas belezas naturais, já que ela era uma entusiasta de aventuras radicais, do ecoturismo e acampamentos em meio a natureza. Compadecida por eu ter que vender a propriedade que ela classificou como sendo um paraíso na terra, me sugeriu fazer dela uma pousada já que em torno disso se baseava a economia da região e, que propusesse aos meus irmãos administrá-la para que não tivessem que se desfazer do patrimônio familiar que guardava tantas lembranças boas.
- Essas lembranças são mais minhas do que deles! – respondi. – Eles estão interessados apenas no valor que ela representa, não em recordações. – Ademais, meu irmão mais velho sempre teve uma rixa comigo, dizendo que eu havia sido mimado demais pelos nossos pais, que tudo sempre foi feito só para mim. Ele é o mais interessado na venda rápida, e o que mais está me pressionando. – admiti.
No final da tarde do domingo do feriadão quando fui levar minha amiga para o ônibus que a levaria até Florianópolis de onde sairia seu voo para São Paulo, acabei fazendo uma caminhada pela avenida central da cidade, e lá estava ele, Dany acompanhado de uma garota tomando chopp numa conversa animada que os fazia rir descontraídos. Foi como se uma flecha me penetrasse fundo na alma. Estava ali a explicação da cautela dele em me beijar, em tocar no assunto de relacionamento amoroso, naquela barreira invisível que o cercava impedindo que nos aproximássemos como antigamente. Cheguei em casa chorando à revelia do esforço que fiz para não me deixar abalar pelo que presenciei. A realidade era uma só, ele estava compromissado e aquele sonho de tê-lo novamente só para mim desmoronou como um castelo de cartas.
- Ele tem uma namorada, ou esposa, sei lá! – contei à Ligia quando fui a procura dela no dia seguinte, uma vez que era a única pessoa com a qual eu podia me abrir.
- Tem certeza? Se isso fosse verdade, por que ele não a levou no jantar lá em casa? Por que não nos disse que era casado, ou que tinha uma namorada? – questionou ela. – É estranho você ser compromissado e não levar a parceira junto nos encontros, não acha?
- Não sei o que pensar! Só sei o que vi, que ele estava feliz ao lado dela! – retruquei desolado. – Não sei como você me aguenta, estou aqui há mais de duas horas desabafando e empatando seu tempo com meus problemas. – comentei, enquanto estávamos sentados num café na companhia do George, naquele domingo em que a cidade estava agitada com uma exposição de criadores de cavalo crioulo.
- Deixa de ser besta! Sabe o quanto eu te amo, que sempre vou estar aqui por você!
Na saída do café fomos dar uma sapeada na exposição a pedido do George que era um aficionado por cavalos. Ao descer do carro, me deparei com o garotinho da loja de chocolates. Ele me reconheceu de imediato e se aproximou falante como naquele dia.
- Você veio ver os cavalos? – perguntou animado. – Tem um mais lindo que o outro! Eu vou aprender a montar para poder fazer as cavalgadas que eles organizam. – foi despejando excitado.
- Aposto que vai ser um exímio cavaleiro! Mas o que faz aqui sozinho? – perguntei, ao vê-lo desacompanhado e sem ninguém à vista.
- Não estou sozinho, eu vim com o meu pai! – respondeu, pouco antes do Dany surgir por entre os carros estacionados caminhando em nossa direção. – Esse é o meu pai! – exclamou. – Pai, esse é o homem que eu falei para você, o que me disse que sou um bom marketeiro! – emendou.
O chão pareceu se abrir sob meus pés. O Dany me encarava sem dizer nada. Cumprimentou rapidamente o George e a Ligia, me dirigiu um olhar e um sorriso contido, enquanto eu ruía por dentro sem saber o que dizer, como agir.
- Precisamos ir filhão, ou vai chegar muito atrasado à festa de aniversário do seu colega de escola. – disse o Dany, colocando a mão no ombro do garoto.
- Fala para ele vir visitar a gente na pousada, pai! – exclamou o menino. – Você vem, não vem, Theo, visitar a gente? – perguntou, sorrindo para mim.
- Claro! Vou sim, um dia desses eu vou! – balbuciei sentindo as forças me abandonando.
Assim que eles entraram na camionete eu me encostei no carro do George tentando inspirar um ar que não vinha. Ele apertou solidariamente meu ombro.
- Você está bem? Podemos fazer alguma coisa por você? – perguntou. Eu só acenei com a cabeça e chorei.
Vender a casa dos meus pais também passou a ser uma prioridade minha, uma vez que nada mais me prendia aquele lugar, e de lembranças ninguém vive.
Estava ajudando a dona Joana a fazer o café quando o Dany veio me procurar na manhã seguinte. Não quis recebê-lo, mas ela me disse que eu não podia fugir eternamente, mais cedo ou mais tarde, teria que ter essa conversa com ele.
- Podemos conversar? – começou ele, ciente de estar me devendo explicações.
- Será que ainda temos o que conversar? Sei que não tenho o direito de te cobrar nada, mas por que escondeu de mim que é casado, que tem um filho, quando todas essas semanas me deixou pensar que .... – calei-me ao perceber que tinha sido apenas eu a imaginar que podíamos ter uma vida juntos, que ele não sentia o mesmo amor que eu sentia por ele.
- Como é? Casado? – questionou estarrecido. – Não sou e nunca fui casado! – afirmou, deixando a mim estarrecido. – Quanto ao Nikolas, sei que deveria ter mencionado, mas tive medo de você ... bem, de você não estar disposto a .... não querer .... compartilhar essa responsabilidade. Eu ia te contar, só estava esperando o momento certo, só queria ter certeza que você ainda me ... – ele relutava em dizer o que sentia, me deixando perceber que estava tão inseguro quanto eu em relação ao que sentíamos um pelo outro.
- Eu vi você e aquela mulher no restaurante, conversando animadamente, tomando chopp enquanto aguardavam o jantar. – revelei
- E por que não veio falar comigo, eu teria te apresentado a minha prima que estou querendo convencer a vir para cá e me ajudar na administração da pousada. – disse ele, me fazendo sentir um idiota. – Não sou o pai biológico do Nikolas. Ele é filho de uma amiga com quem convivi na Argentina e fez faculdade junto comigo. O pai a abandonou quando soube que ela estava grávida e nunca mais deu notícias. Ela teve o bebê, mas cerca de dois anos depois recebeu o diagnóstico de um câncer avançado no pâncreas. Poucos meses depois do Nikolas completar três anos ela faleceu, não sem antes me pedir para cuidar do filho dela. Eu tinha acompanhado toda evolução da doença dela e prometi que cuidaria dele, foi assim que o adotei. – revelou ele, me fazendo sentir ainda mais tolo por imaginar e criar coisas na minha cabeça que não eram reais.
- Então ... ela é sua prima ... você não é ... você está .... o Nikolas foi adotado .... e não é ... – agora era eu quem não conseguia terminar as frases de tão envergonhado por estar sentindo aquele ciúme doentio. O Dany deu dois passos na minha direção, pegou minha mão, a beijou e abriu um sorriso.
- Estou gostando de ver! – exclamou
- O quê?
- Você sentindo ciúmes! Sabia que fica ainda mais lindo assim, todo enciumado! – afirmou.
- É que eu ainda sou ... ainda sou apaixonado por você! – consegui finalmente admitir
- Eu também, Theo! Esse foi o motivo pelo qual estava adiando a revelação sobre o Nikolas, tive medo de você não entender e não querer mais saber de mim.
- Não sei explicar, mas senti algo muito especial por ele na primeira vez em que o vi. Ele é um garoto incrível, e agora sei porque. Ele pode não ser seu filho biológico, mas tem as mesmas características que me fizeram apaixonar por você.
- Isso quer dizer que ... você e eu ... – ele não terminou a frase, me trouxe para junto do peito, segurou minha nuca e me beijou com sofreguidão, com paixão, enfiando freneticamente a língua na minha garganta enquanto os braços me apertavam com força numa pegada que expressava o quanto me desejava.
- É o que eu mais quero dessa vida, Dany! Você e eu juntos, dando o melhor de nós para criar o Nikolas, fazendo dele um homem tão maravilhoso quanto você.
- Eu senti tanta falta de ter você, Theo; assim em meus braços, de sentir o calor do seu corpo, as batidas aceleradas do seu coração batendo por mim. Aquela tarde gelada na minha casa na qual você se entregou para mim, em que eu entrei e você e nos tornamos um só, jamais saiu dos meus pensamentos. – asseverou, tirando do bolso a bússola que lhe presentei em nosso último encontro antes da família dele se mudar para Buenos Aires.
- Você a guardou! – exclamei feliz
- Sim! Como você disse naquele dia, para que eu encontrasse o caminho de volta. E aqui estou, de volta para você para vivermos nosso amor. – eu me encaixei novamente em seu peitoral vigoroso e o cobri de beijos.
Eu já não queria me mudar mais, não queria me desfazer da propriedade dos meus pais, não queria deixar Urubici, pois havia reencontrado mil razões para continuar ali ao lado do homem que sempre foi minha grande paixão.
O primeiro a aparecer com a família foi meu irmão Thiago. Apesar de ter demonstrado um saudosismo quando reviu a casa com a mobília quase tão disposta como em nossa infância, os objetos que lembravam nossos pais espalhados pelos ambientes, ele se manteve firme no propósito de vender a propriedade. Minha cunhada estava por trás dessa inflexibilidade, mais do que ele próprio.
- Você sabe que é o certo a se fazer! Não dá para arcarmos com os custos de manutenção. Ademais, nenhum de nós sabe administrar a propriedade como o papai fazia. Em poucos anos estaríamos falidos e tudo mais desgastado e valendo menos do que agora. Temos que vender, Theo, por mais apegado a lembranças que você esteja, pense com a razão, e verá que estamos certos. – argumentou, tentando me convencer da venda.
- Eu não quero vender, Thiago! O papai deu tudo de si para formar essa propriedade, essa casa onde nos criou e fomos felizes. Não é justo que a vendamos, não é justo com a memória dele! – retruquei decidido.
- Você está tornando tudo mais difícil com essa sua teimosia, Theo! Deixe de ser esse menino birrento que sempre foi, apele para a razão! Comporte-se como um adulto! – revidou, sem paciência, encerrando a discussão deixando ambos putos.
O pior veio alguns dias depois com a chegada do Thomas. Acreditando que tudo estava encaminhado com o corretor e que não precisaria desperdiçar mais do que um ou dois dias na cidade para assinar toda a papelada e resolver definitivamente a venda, ele se deparou com as informações que o corretor lhe passou – nada estava encaminhado porque seu irmão se recusou a vender a propriedade – deixando-o furioso comigo.
- Você ainda é aquele moleque mimado, Theo, cheio de vontades que nossos pais bajulavam o tempo todo, mas meta na sua cabeça que isso acabou! – despejou irado, pouco depois de haver se encontrado com o corretor. – Você é voto vencido, a propriedade vai ser vendida, quer você queira, quer não! – ameaçou exaltado.
- Não vou vender! Estou disposto a levar a questão à justiça, se preciso for! – asseverei, o que o fez explodir.
- Não me faça perder a paciência com você, Theo! Agora não tem mais papai e mamãe para você se esconder atrás deles. Eu vou te dar uma surra que nunca consegui dar naquela época. Estou sabendo que essa sua teimosia se deve ao fato de ter reencontrado seu antigo namoradinho, o Daniel, com quem andava por aí dando o cu e desmoralizando o nome da família. Você sempre foi um veado mimado, conseguia tudo o que queria com esse seu jeito afrescalhado, mas comigo isso não rola. Se você não assinar essa papelada eu não respondo por mim, Theo! Eu te arrebento na base da porrada, está me ouvindo, eu te arrebento, seu veadinho do caralho! – voei no pescoço dele e começamos a nos socar feitos dois bárbaros. Nem a intervenção do Thiago, da dona Joana e do marido estavam conseguindo por fim a pancadaria, mesmo eu estando a levar a pior, já que o Thomas era bem mais forte do que eu.
De repente, ele foi arrancado de cima de mim quando eu já estava meio zonzo de tanto apanhar. Só vi o Dany o lançando longe e vindo me ajudar a levantar. O Thomas sempre foi violento comigo desde criança. Meus pais nunca relaram a mão em mim, mas ele se incumbia de tomar as dores e resolver a questão à sua maneira bruta. As diferenças entre ele e o Dany começaram naquela época, pois o Dany não admitia que alguém me machucasse. Inconformado pela intromissão do Dany num assunto familiar, o Thomas partiu para cima dele com tudo. Os dois se socaram até o Thomas não conseguir mais revidar, de tanto que apanhou.
Quando pensei que o pior havia passado, apareceu a polícia. O Thomas abriu um boletim de ocorrência contra o Dany por agressão e estava disposto a levar o caso à Justiça, se eu não assinasse a papelada da venda. Não me deixei intimidar e partimos para uma disputa judicial.
Meses depois, recebi uma oferta irrecusável pelo ponto e pela livraria de São Paulo, e a vendi, conseguindo um valor acima de mercado. Os funcionários temporários que eu havia contratado para recuperar as macieiras fizeram um ótimo trabalho e, apesar não se igualar aos tempos áureos da produção que meu pai obtinha, a colheita foi bastante satisfatória e gerou um bom lucro, me mostrando a viabilidade do negócio. Consegui vender toda a produção para uma indústria local. Caminhando em companhia do George e da Ligia entre as macieiras durante a época da colheita, o George deu a ideia de eu mesmo industrializar a produção, produzindo suco da fruta, sidra ou mesmo uma sofisticada linha de espumantes à base de maçã sobre os quais ele havia lido num site europeu. Compartilhei a sugestão com o Dany e ele comprou a ideia.
- Pode ser a solução para não ter que vender a propriedade. – argumentou, o que me levou a pensar sobre o assunto e a dividi-lo com o Dany.
- Estou de pleno acordo, acho a ideia excelente! – afirmou o Dany. – Já existe uma indústria insipiente nos municípios vizinhos que também produzem maçãs, mas é tudo meio artesanal. Podemos elaborar um projeto, pequeno de início, mas que permita ampliações futuras quando o negócio engrenar. Fazer levantamento de custos, pesquisas de mercado, essas coisas, nada amadorístico. Ele falando me dava segurança e ânimo para pôr a ideia em prática.
Passei os meses seguintes dedicado ao projeto, fazendo contatos, pesquisando os custos de instalar as áreas de processamento, armazenamento e envelhecimento e descobri que o capital do qual dispunha daria para cobrir mais da metade dos valores, sem ter que vender a propriedade. O Dany se prontificou a cobrir o restante, mas eu não aceitei. Misturar negócios com a paixão raramente dá certo e eu não queria arriscar nenhum dos dois.
Estranhei quando o Thiago veio me procurar; desde a briga com o Thomas ele também não falou mais comigo, uma vez que alegou que a situação só chegou aquele desfecho por minha culpa e teimosia. Não foi um motivo altruísta que o levou a me procurar, mas a precária situação financeira na qual se encontrava por conta de alguns investimentos mal feitos que levaram credores a bater à sua porta. Para quitar as dívidas com os credores, ele dependia de um valor que eu tinha disponível, bem menos do que valia sua parte na propriedade dos nossos pais, e me implorou para comprar sua parte por esse valor.
- Vai parecer que me aproveitei da sua situação, além de não ser justo. – afirmei. – Não vou usar isso para levar vantagem! Vamos esperar o resultado do processo, e então decidimos como fazer. – afirmei
- Não posso esperar pelo processo! Já tive parte dos meus bens bloqueados pela justiça e, nesse ritmo, dentro em breve vou acabar perdendo até a minha casa. Eu preciso que me dê esse valor, Theo! Não amanhã ou depois, agora, o quanto antes, entende. – retrucou desesperado.
- Como você deixou a situação chegar a esse ponto, Thiago? Não foi apenas essa propriedade que nossos pais nos deixaram. Quando a mamãe faleceu você recebeu uma herança considerável, que teve acréscimos com a morte do papai. Na partilha fui eu quem ficou com as propriedades de menor valor e nunca soube o montante que o papai tinha investido em ações nem quanto havia nas contas bancárias deles, pois o Thomas e você se encarregaram de fazer o espólio, esvaziando as contas e sumindo com os investimentos. – argumentei
- Se você tivesse uma mulher como a minha, saberia que, se cultivasse uma árvore de dinheiro no quintal, ela não seria capaz de produzir o tanto que essa mulher é capaz de esbanjar. – afirmou.
- Bem! Apresente a ela a realidade, mande que pague as contas com os credores, a família dela tem posses, é a vez de ela contribuir minimamente com alguma coisa. – ponderei
- Foi o que pareceu na época em que nos casamos, não foi, que a família dela estava bem de vida? Pois saiba que estavam falidos, até para o pai dela precisei emprestar dinheiro que nunca mais vi. – revelou.
- Lamento por você, Thiago, sinceramente! Mas não vou concordar com a sua proposta para, no futuro, ter que ouvir que me aproveitei da sua situação.
- Então só me resta uma coisa, vender a minha parte para alguém fora da família! – não era apenas uma afirmação, mas uma ameaça que estava me fazendo.
- Você não deve ter lido o testamento do papai, ou seus advogados não o instruíram direito. Há especificamente uma cláusula nele que proíbe a venda para outros que não sejamos nós três, pode pesquisar. O papai quis se assegurar que a propriedade ficasse na família, você sabe disso por que ele fez essa afirmação diversas vezes quando ainda em vida.
O George também era nosso advogado no processo que o Thomas estava movendo contra o Dany, pela agressão e, contra mim, pelo não acordo da venda. Os conhecimentos dele dentro do judiciário arrastavam o processo não mostrando uma solução a curto prazo, o que não favorecia meu irmão. Ele começou a enxergar que os gastos com advogados não compensavam a determinação em vender a propriedade, que seria melhor um acordo comigo do que esticar o processo ad eternum. Contudo, a questão para ele já não girava mais em torno da venda, mas sim em vencer a disputa pessoal comigo. Eu nunca soube de onde vinha tanta raiva dele por mim. Fora assim durante toda nossa infância, ele me odiava só por eu existir. Muitas vezes foi preciso a intervenção dos nossos pais para ele não fazer o pior comigo. Os advogados dele o orientavam a fazer um acordo, mas ele se recusava terminantemente. Até o Thiago tentou argumentar com ele, mas não obteve sucesso.
Nesse interim, a pousada que o Dany havia inaugurado estava indo de vento em popa, as reservas para os meses de inverno estavam entrando no terceiro ano, e as para os demais meses do ano mantinham um ritmo bastante lucrativo.
- Vem morar comigo e com o Nikolas! – disse ele certa noite quando terminamos de fazer amor na minha cama. – Ele está a me pedir a toda hora para você morar conosco. Me pergunta se dois homens podem se casar e, se sim, por que não te peço em casamento. Ele gostaria que você também fosse o pai dele. – me emocionei tanto que não contive as lágrimas. Nada nesse mundo me faria mais feliz do que compartilhar a vida com os dois.
O Thiago voltou a me procurar menos de um mês depois da nossa conversa. Dessa vez não apenas preocupado com sua situação financeira, mas literalmente desesperado, a casa em que moravam foi a leilão por uma decisão judicial. Ele havia ido procurar ajuda com o Thomas, antes de me procurar, mas esse lhe negou ajuda. Nada que não fosse de se esperar do Thomas, um avarento, egoísta que sempre se julgou injustiçado enquanto dava um jeito de sempre se dar melhor sobre os outros, mesmo que para isso precisasse se valer de artimanhas escusas.
Falou mais alto o coração, como sempre, em se tratando das pessoas conseguirem de mim o que queriam. Concordei em comprar a parte do Thiago nas condições que ele impôs. Porém, não sem antes o Dany e o George terem me instruído a fazê-lo assinar uma declaração que não o estava fazendo sob coação, já que o valor era bastante aquém do que a parte dele na propriedade valia. Os olhos dele brilhavam quando lhe entreguei o cheque com o valor da transação, certamente não de alegria, uma vez que eu sabia que dentro em breve ele estaria novamente na penúria se antes não se livrasse da mulher perdulária.
- Não se sinta culpado! – disse o Dany ao notar como eu fiquei condoído com a situação do Thiago.
- Ele é meu irmão! É difícil não me comover com a situação dele.
- Do lado de quem ele ficou quando forçaram a venda da propriedade? – questionou. – Ele não hesitou em ficar ao lado do Thomas, e te arrastaram para esse processo sem levar em conta seus sentimentos e seu desejo. Não sofre por ele, Theo, ele não merece, eles não merecem sequer uma lágrima sua, uma preocupação, uma ruga, ou esse sentimento de culpa. – argumentou.
A colheita daquele ano foi excepcional, quase três vezes maior que a anterior, o que me permitiu pôr em prática o projeto de produzir na propriedade um espumante diferenciado. Em contato com um produtor de sidra nos Estados Unidos, consegui trazer um cidermaker para me assessorar na elaboração, produção e armazenamento. Também foi esse cidermaker que me sugeriu consorciar o cultivo de macieiras com o cultivo de pereiras, uma vez que a demanda pelo poiré, o destilado feito a partir de peras fermentadas vinha crescendo tanto nos Estados Unidos quanto na Europa, Austrália e Nova Zelândia sendo, no entanto, insipiente na América Latina, o que representava um mercado a ser explorado. Eu não podia estar mais feliz, apesar do processo judicial movido pelo Thomas, a possibilidade de manter a propriedade não era mais apenas um sonho, mas uma realidade que se concretizaria ao final do processo, uma vez que não lhe restavam outras opções a não ser vender sua parte para mim, conforme determinava a cláusula do testamento deixado pelo nosso pai.
O inverno estava sendo bastante rigoroso, iniciando precocemente já na última semana de maio com uma onda de frio que fez as temperaturas despencarem. A previsão dessa situação se manter e até se intensificar no auge do inverno, com possibilidade de nevascas, fez as reservas da pousada do Dany se esgotarem, com turistas chegando em levas. Ele andava às voltas com a falta de pessoal, algo comum na região na alta temporada, o que me levava a passar mais tempo na pousada do que em casa. Passar horas ao lado dele, vendo-o tomar decisões com agilidade, contornar pequenos contratempos, liderar a equipe, me fazia ver o homem maravilhoso que aquele amigo de infância se tornou. Se eu já o amava naquela época, agora esse amor se completava dia após dia.
Como em muitas noites, quando íamos nos recolher bastante tarde ao final de um dia exaustivo, eu acabava dormindo na pousada por pura praticidade, e alguma preguiça de voltar para casa. Por mais cansativo que tivesse sido o dia, o Dany continuava com aquele fogo que queimava dentro dele tão ou mais intenso do que nunca. Ele não podia me ver trocando de roupa, ver minhas partes pudendas cobertas apenas pelas cuecas cavadas que usava, ou me ver pelado debaixo da ducha para ter uma de suas gigantescas ereções que me deixavam com o cuzinho piscando de assanhamento. Se bem que, quando moleque, já tinha um pauzão incomum para a idade tanto em tamanho quanto em intrepidez, como pude constatar ao perder meu cabaço para sua pistolona insaciável; esses dezessete anos só fizeram o cacetão se transformar em algo de causar inveja a qualquer macho. Um coito com ele não prescindia de um bocado de dor, por mais cuidadoso que ele fosse durante as investidas movidas pelo tesão, me obrigando a gemer antes do prazer se consumar.
Eu havia acabado de sair do banho quando ele entrou no quarto depois de haver checado se tudo estava em ordem antes de desligar luzes em sua costumeira ronda. Tirou apressado o pulôver e a camiseta atirando-os sobre uma poltrona e veio se aninhar nas minhas costas com o tesão a fazê-lo endurecer.
- Obrigado por estar aqui ao meu lado, obrigado por ser tão gostoso, obrigado por fazer parte da minha vida! – ronronou ele no meu cangote, enquanto o lambia e mordiscava, expressando seu desejo incontido.
- Sabe o que descobri desde que nos reencontramos? Que não consigo mais viver sem você! Eu já te disse que te amo? – devolvi, empinando o rabo instintivamente ao sentir sua rigidez roçando minha bunda debaixo da toalha.
- Eu não me lembro! Talvez você devesse me mostrar o quanto me ama, para eu ter certeza de haver entendido. – retrucou lascivo com um risinho malicioso, sentindo o calor do corpo aumentar e os músculos se preparando para o sexo, ao mesmo tempo que tirava a toalha do meu corpo.
Eu não conseguia resistir aquele tronco peludinho e viril sem ficar com vontade de dar o cu, de o deixar entrar em mim fazendo meu corpo todo vibrar de tesão. O primeiro sinal desse desejo era a empinada de rabo, do qual ele logo se apossava deslizando as mãos sobre a pele lisinha das nádegas carnudas, o que me arrepiava todo. Ele me virou de frente e me beijou com um daqueles seus beijos que obnubilavam qualquer pensamento e me faziam perder o recato. A língua dele vasculhava minha garganta, tocava na úvula, enquanto as mãos amassavam e abriam as nádegas para que um dedo devasso chegasse às preguinhas do meu buraquinho quente. Ao senti-lo me cutucar a portinha eu soltava um gemido que o ensandecia. Ao desgrudar a boca da minha, eu guiava minhas mãos e meus beijos sobre aquele torso másculo e sólido, exacerbando o tesão dele. Assim que ele abriu a braguilha, eu enfiei sorrateiramente a mão na virilha pentelhuda e puxei para fora o pauzão melado, cuja cabeçorra só tinha uma pequena porção coberta pelo prepúcio. À medida que ia me ajoelhando diante dele, fui puxando a calça e a cueca para baixo, embolando-as a seus pés, o que me deixou cara-a-cara com benga taurina pingando pré-gozo. Eu era simplesmente fascinado por aquela estaca de carne grossa coberta por nervos e veias saltadas, era algo tão másculo e viril que me fazia querer aninhá-lo no meu cuzinho. O Dany sabia o poder que sua pica cavalar tinha sobre meus desejos, e se valia dela para conseguir minha submissão e minhas carícias. Fiquei um tempinho tocando com as pontas dos dedos sua anatomia avantajada entre os pelos grossos e encaracolados, o que o fez soltar o ar entre os dentes e jogar a cabeça para trás. Segurei o caralhão latejante numa das mãos e, com os lábios, fui retraindo o restante do prepúcio ao mesmo tempo que sorvia o visgo salgado que ele liberava.
- Caralho, Theo! Por mais vezes que você comece a me lamber desse jeito, não consigo deixar de ficar maluco com sua boca trabalhando meu cacete. – grunhiu ele, afundando as mãos nos meus cabelos.
Com uma mão eu o punhetava e chupava a cabeçorra, com a outra massageava suas bolonas no sacão pesado que saltava a cada estirada que eu dava naquela tora de carne. Minha saliva se misturava com o pré-gozo antes de eu o engolir e fazer meu ânus se projetar todo intumescido como se fosse a vulva de uma cadela no cio.
- Vou encher essa boquinha de leite, está sabendo, não está? – ronronou ele, quando minha mão espalmada sobre seu abdômen começou a sentir ele se retesando.
- Adoro seu leite, meu macho! – exclamei, encarando-o e lambendo sensualmente a glande estufada.
O Dany soltou um rugido grave vindo do peito, ao mesmo tempo que o caralhão esporrava seu leite esbranquiçado e denso na minha boca, mal me dando tempo de engolir aquela porra toda sem me engasgar. Ele me observava sem perder sequer um lance de eu engolindo seu sêmen abundante e morno. Sorri para ele a cada deglutida, abrindo a boca para ele a contemplar cheia de porra.
- Tesão da porra, Theo! Adoro quando você mama meu leite, meu putinho safado!
Lambi o cacetão até o deixar limpinho; tomar o leite do meu macho me causava uma satisfação inexplicável, e o Dany sabia disso. Ao me pôr de pé, ele me puxou contra si, voltou a amassar minha bunda e começou a lamber um dos meus mamilos cujos biquinhos estavam rijos e saltados de tão excitado que eu estava. Ele o chupou até a tetinha adquirir o contorno de sua boca, mordiscou-a ao mesmo tempo que enfiava o dedo na portinha do meu cu. Chegava a me faltar o ar tamanho o tesão que isso me causava, e eu soltava gemidinhos sensuais expressando meu desejo de ser possuído por sua tara.
- Ai Dany! – gemi libertino, travando os esfíncteres e aprisionando seu dedo devasso na quentura do meu ânus macio.
- Quer seu macho? Fala para mim, meu putinho tesudo, quer teu macho nesse buraquinho apertado? – instigava ele, cobrindo minha boca com seus beijos e prendendo meus lábios entre os dentes.
- Ai Dany! Eu quero! Eu quero você Dany! – gemi tresloucado com o corpo todo a tremer com os espasmos que o percorriam.
Ele me inclinou de bruços sobre a cama, abriu minhas pernas e apartou as nádegas, enfiando a cara com a barba por fazer no meu reguinho liso e profundo. Um gritinho escapou entre meus lábios quando senti a língua dele lambendo minha fendinha plissada que não parava de piscar. Eu me contorcia todo, gemia, empinava o rabo para assinalar que estava pronto, que queria ser penetrado e o aconchegar dentro de mim. O Dany enfiou um dedo no meu cuzinho e o rodopiou entre o esfíncter contraído, me fazendo ganir sensualmente. Meteu um segundo dedo, aumentando minha agonia enquanto sondava libertinamente a elasticidade do meu ânus estreito. Quando se posicionou em pé entre as minhas pernas abertas eu olhei para trás, o caralhão enorme em riste e gotejando pré-gozo estava pronto para me penetrar. Me estremeci todo, empinei a bunda e esperei o impulso que colocaria aquele colosso dentro do meu cuzinho. O Dany ajustou a cabeçorra do pauzão à minha fendinha e começou a se empurrar para dentro de mim, meu ganido pungente preencheu o ar do quarto de luxúria, enquanto eu me agarrava aos lençóis aguentando firme o cacetão me abrindo ao meio à medida que escorregava lentamente para dentro de mim. Ele metia devagar e progressivamente, distendendo minha carne úmida que envolvia firmemente seu mastro, suspirando alto até os pentelhos roçarem meu reguinho. O ar chegava a me faltar, a dor ia paulatinamente dando lugar ao prazer me fazendo sentir as pulsações intrépidas do caralhão dele. Apesar de apenas o sacão estar de fora, ele ainda continuava se empurrando para dentro de mim, como se meter toda aquela estrovenga enorme não fosse o suficiente para ele ter a posse completa do meu corpo. Eu gemia forte agarrado aos lençóis com meus esfíncteres mastigando o cacetão dele em contrações involuntárias. Ele arfava usufruindo o prazer da doma, da posse irrestrita, da minha submissão a sua virilidade.
- Me faz gozar, minha cadelinha gostosa! – grunhiu, enquanto bombava meu cuzinho com força e arroubo, me fazendo delirar. – Teu macho vai encher esse cuzinho de leite, vai te inseminar! Você me deixa maluco gemendo assim, pedindo para levar pica e porra no cu! – balbuciava ele, sem parar de me foder.
As estocadas potentes e profundas desencadeavam uma dor que se irradiava por toda pelve, me fazendo ganir alto para suportar. Meu cuzinho ia se alargando, rasgando para alojar o caralhão grosso que me arrombava. O prazer se instalou aos poucos com o cacetão dele pulsando forte no fundo do meu rabo e, entre suspiros e gemidos eu o chamava de meu macho, de amor da minha vida. Meu pinto duro e sensível já estava todo melado quando senti o gozo aflorando.
- Ai Dany, meu cuzinho Dany, meu macho! – gani quando senti meu pau esporrando fartamente num prazer indescritível.
Me segurando pela cintura, ele sentia o estremecimento do meu corpo a cada ejaculada e também começou a gozar. Os jatos de esperma dele invadiam meu cuzinho, me fazendo sentir a viscosidade pegajosa e quente se espalhando pela mucosa anal. O Dany soltava um urro rouco a cada ejaculada abundante, agarrando-se ao meu tronco e amassando minhas tetinhas. Não podia haver prazer maior, e eu sussurrava seu nome e ele o meu, enquanto nossos corpos voltavam lentamente ao normal. Fui dormir com as pernas bambas e o cuzinho encharcado de porra depois de haver limpo do reguinho um pouco de esperma que vazou. Adormeci pouco depois de ele voltar da ducha e se enfiar peladão debaixo do edredom se aninhando a mim.
- Boa noite, paixão! – sussurrou, encostando os pentelhos nas minhas nádegas. Inspirei fundo, abracei o braço com o qual ele envolveu meu tronco e sussurrei – Boa noite, amor! – o que o fez me apertar com força.
Olhando pela janela não dava vontade de sair da cama, muito menos me afastar daquele corpão parrudo e quente que se fundiu ao meu na noite passada, mas os compromissos nos chamavam. Até o Nikolas, que era um dorminhoco assumido, entrou no quarto sonolento arrastando o Francisco, seu coelho orelhudo de pelúcia sem o qual não dormia. Já era a terceira ou quarta vez que ele nos pegava na cama e dava um sorriso de quem começava a sacar as coisas. Quando quis subir na cama e se enfiar debaixo do edredom conosco, o Dany precisou intervir antes que nos flagrasse pelados. Ficava cada vez mais urgente termos uma conversa com ele sobre aquela situação, embora ele parecesse gostar do que via, nós dois juntos.
- Eu gosto mais das suas panquecas do que das do pai Dany! – exclamou na mesa do café da manhã. Tinha começado com essa mania, elogiar tudo que eu fazia, com uma cara sapeca.
- Também pudera, tem mais geleia e calda de chocolate nesse prato do que panquecas! – devolvi. – Eu gostaria de ver você comendo as verduras no almoço e no jantar com a mesma voracidade que come essas panquecas! – exclamei.
- Prometo comer todas as verduras que tiver no prato; até a couve, ressaltou fazendo cara de náusea, se você vier morar com a gente! – retrucou.
- Qual é agora, virou chantagista? – perguntei, ante a risadinha dele.
- O que é chantagista? – questionou.
- É um pirralho danado feito você querendo me coagir para conseguir favores e vantagens em troca de uma coisa que deveria fazer para sua própria saúde! – respondi, quando o Dany piscou para mim. – Agora trate de ir escovar os dentes para não chegar atrasado na escola, anda menino safado! – emendei, dando um tapinha na bunda dele assim que se levantou.
- Eu sou chantatista! Eu sou chantatista! – repetia caçoando.
- É chantagista que se diz! – corrigi, sem conseguir segurar o riso. O Dany pousou a mão sobre a minha e me encarou com um sorriso abobalhado.
- Você precisa dar uma solução para essa questão! Está deixando um homem cada vez mais encantado na cama e o outro já te sentindo como mais um pai. – apontou.
- Professora! Tia Lu! Tia Lu! – chamou o Nikolas quando o deixei na porta do colégio, atraindo a atenção da professora. – Esse é o meu pai Theo, que a senhora ainda não conhecia! – exclamou exultante, me deixando constrangido e explodindo de felicidade ao mesmo tempo.
- Então é mesmo verdade que você tem dois pais! – retrucou a professora, dirigindo um cumprimento na minha direção. – Você é um menino muito sortudo!
- Eu sei, tia Lu! – devolveu o Nikolas, pegando na mão dela enquanto sumiam das minhas vistas, encobertos pelo marejar dos meus olhos.
Nos mudamos menos de um mês depois para a casa onde cresci, uma vez o Dany e o Nikolas ocupavam um dos chalés da pousada, liberando-o assim para a temporada. Quando os vi ambientados e compartilhando suas rotinas comigo, tive a certeza que cada minuto ao lado deles valia por toda uma vida de felicidade.