Leitores, boa noite.
Antes de qualquer coisa, eu quero agradecer a cada um de vocês que está acompanhando o conto até aqui. O carinho, os comentários, as teorias e até as mensagens silenciosas de quem só lê já são um combustível enorme para que eu continue escrevendo. De verdade.
Como eu já havia avisado desde o início, esse é o meu primeiro conto. E ele é baseado em fatos reais, ou melhor, em uma fração muito específica da minha vida. Estou compartilhando com vocês momentos que aconteceram de verdade, dentro do que me é possível contar. Em alguns pontos eu altero nomes, reorganizo acontecimentos ou protejo identidades, mas a essência do que está sendo vivido aqui é real.
E é justamente por isso que preciso marcar um momento importante da nossa história.
No capítulo 22, encerramos aquilo que eu posso chamar de primeira temporada.
Tudo o que foi vivido até ali construiu a base emocional, os personagens centrais, os conflitos e as primeiras camadas dessa teia que começou a se formar. Foi um período de apresentação, de construção, de entendimento do cenário e das pessoas que estavam mais presentes na minha vida naquele momento.
Agora, iniciamos oficialmente a segunda temporada.
E ela vem diferente.
Se na primeira fase tivemos uma gama de personagens que já parecia grande, a partir de agora essa quantidade aumenta. Novos nomes, novas presenças, novos laços — e também novos entrelaços. As relações vão se cruzar com mais intensidade. Conexões que pareciam simples começam a ganhar profundidade. E situações que estavam apenas como plano de fundo começam a se aproximar da superfície.
É como se até aqui estivéssemos montando o tabuleiro.
A partir de agora, as peças começam a se mover de forma mais dinâmica.
Alguns mistérios que estavam no “background” começam a se tornar mais evidentes. Algumas tensões que pareciam pequenas crescem. E existe, inclusive, um outro mistério que vem desde a primeira temporada; e que até agora ninguém comentou; mas que, em breve, ficará impossível de ignorar.
Além disso, personagens que já foram mencionados antes passam a ter mais protagonismo. Nomes como Miguel, Lucas e Beto se tornam cada vez mais presentes na narrativa. E outros ainda serão apresentados, ampliando essa teia de relações que mistura amizade, desejo, conflitos, escolhas e consequências.
A segunda temporada é mais intensa.
Mais emocional.
Mais dinâmica.
E talvez mais imprevisível.
Espero que vocês continuem comigo nessa jornada. Que sintam essa mudança de atmosfera. Que percebam os detalhes. E que se permitam mergulhar nessa nova fase da história.
Sejam bem-vindos à segunda temporada.
Vamos dar continuidade.
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O silêncio que se seguiu à tempestade de prazer era quase ensurdecedor. O som da televisão, onde o narrador anunciava o os melhores momentos de um clássico que mal tínhamos assistido, parecia vir de outra dimensão. Na sala, o ar estava saturado: o cheiro acre e forte de porra misturava-se ao suor, ao aroma da pizza fria e à eletricidade estática que ainda ligava nossos três corpos.
Yan estava ali, sentado no sofá, uma imagem de rendição total. Sua pele, ainda brilhando de suor, estava marcada pelos jatos que eu e Arthuro havíamos disparado. Ele usava a própria cueca para tentar limpar o rosto e o peito, os movimentos lentos, os olhos pesados e satisfeitos.
— Caralho... — Yan murmurou, soltando uma risada curta, mas rouca. — Vocês acabaram comigo. Que porra foi essa?
Ele olhou para mim e depois para o Arthuro, que já estava em pé, a postura imponente voltando ao normal, embora seu peito ainda subisse e descesse com força. Yan, com aquela insistência que beirava a obsessão, esticou a mão em nossa direção.
— Deixa eu limpar a pica de vocês... — ele disse, com um sorriso sacana, tentando retomar o serviço.
— Já tá bom, Yan. Já deu por hoje — respondi, segurando o braço dele com suavidade, mas firmeza. Senti uma exaustão súbita, uma necessidade de recuperar o controle sobre os meus próprios sentidos.
Arthuro, que já recuperava sua aura de máscula, mas com um brilho de segredo nos olhos, olhou para a TV.
— É, o jogo já até acabou, olha aí. O Flamengo fez mais um, foi 3 a 1 e a gente nem viu — ele riu, passando a mão no cabelo bagunçado.
— Daqui a pouco vai ficar tarde — falei, sentindo o peso da realidade de uma segunda-feira se aproximando. — Preciso ir embora logo. Esta semana vai ser corrida no trabalho, não posso me dar ao luxo de perder o horário amanhã.
Arthuro me olhou e sorriu, aquele sorriso cúmplice que só ele sabia dar.
— Relaxa, Bernardo. Só a gente arrumar as coisas aqui e a gente já vai.
Yan, contudo, parecia não querer que o momento terminasse. Ele se levantou devagar, com os movimentos ainda um pouco desajeitados, as pernas bambas. Eu o ajudei, segurando-o pela cintura. A pele dele estava quente e pegajosa contra a minha mão.
— Ué, vocês têm certeza que já vão? — Yan perguntou, olhando para os restos de pizza e as latas vazias. — Ainda tem uns pedaços aqui, a gente podia...
— Acho melhor irmos — interrompi, falando por mim, mas olhando para o Arthuro. — O clima hoje foi intenso demais.
— É, a gente tem que ir — Arthuro concordou, limpando uma gota de suor que escorria pelo seu abdômen definido. — Mas acho que só precisamos de um banho antes. Não dá para sair daqui nesse estado.
Yan se animou instantaneamente. O cansaço pareceu desaparecer de seus olhos.
— Então vamos lá para cima! No banheiro da suíte. Dá para a gente tomar banho junto, nós três.
Arthuro, prático e talvez querendo um momento de privacidade para processar tudo, balançou a cabeça.
— Eu vou primeiro, pode ser? Tomo banho no banheiro aqui de baixo mesmo. Vai adiantando o lado de vocês.
— Vai lá então — respondi. — Eu e o Yan tomamos no de cima.
Arthuro já caminhava em direção ao banheiro social enquanto Yan me puxava pela mão, quase como uma criança ansiosa, escada acima. O trajeto foi rápido, mas minha mente trabalhava a mil por hora. Ao entrarmos no banheiro da suíte, o vapor da água quente que Yan ligou começou a subir, embaçando os espelhos. Lembrei-me subitamente de que ali, naquele mesmo espaço, tinha acontecido o meu primeiro contato mais íntimo com o Yan. Soltei uma risada involuntária.
— O que foi? — ele perguntou, já se desfazendo do resto de dignidade e entrando no box, me puxando junto.
— Nada... só lembrando de como as coisas começaram aqui — falei, sentindo a água morna atingir meu peito e começar a lavar a sujeira acumulada da tarde.
Yan me abraçou sob o chuveiro, a água escorrendo entre nossos corpos. Ele me deu um beijo rápido, com gosto de desejo saciado.
— Você curtiu o de hoje? — ele perguntou, os olhos fixos nos meus.
— Curti, claro — respondi, embora uma ponta de ciúmes, ou talvez de estranheza pela forma como ele olhava para o meu melhor amigo, estivesse cutucando minha nuca. — O Arthuro é um gostoso, eu já tinha te falado, né?
Yan riu, passando o sabonete pelo meu pescoço, os dedos deslizando com uma sensualidade natural.
— É, estou vendo.
— O que, Bernardo? Agora você está com ciúmes também?
— Não é ciúmes... — hesitei. — É que vocês dois... pareciam muito entrosados.
— Ah, é que assim, né? — Yan disse, aproximando-se do meu ouvido enquanto a água caía pesada sobre nós. — Tem que aproveitar. Quando o Arthuro bebe, ele fica... diferente.
— Ele? — instiguei, querendo saber o que Yan tinha percebido.
— Ele fica mais alegre, mais solto. A gente tem que aproveitar essas brechas que a vida dá, Bernardo. Ele não é sempre assim, né?
Yan me olhou com uma malícia que indicava que ele sabia que tinha tocado em um terreno proibido, mas delicioso.
Eu olhei para Yan, sentindo o calor da água e o peso das palavras dele. Estávamos ali, nus, lavando o corpo um do outro, enquanto a tensão de um triângulo que não tinha equilíbrio começava a desenhar os próximos passos de uma noite que ainda prometia...
O som da água batendo no chão do box era a única coisa que preenchia o silêncio que se instalou por quase um minuto. Eu sentia o calor do vapor subindo, envolvendo nossas peles ainda avermelhadas do esforço e da nossa tarde, mas o clima ali dentro tinha mudado. A descontração pós-orgasmo de Yan tinha dado lugar a uma dúvida que queimava na minha cabeça. Eu o observava enquanto ele passava as mãos pelo rosto, tirando o excesso de água, a definição dos seus ombros brilhando sob a luz fria do banheiro.
Virei-me de frente para ele, deixando a água escorrer pelas minhas costas, e encarei o fundo dos seus olhos.
— Yan, deixa eu te perguntar uma coisa... — comecei, com a voz baixa, mas carregada de uma seriedade que o fez parar de se lavar.
— Quando você diz: aproveitar essas brechas, aproveitar esse momento do Arthuro quando ele bebe... isso significa o quê, exatamente?
Yan soltou uma risada curta, tentando desviar o olhar, mas o espaço apertado do box não permitia muitas manobras.
— Ah, você está ligado, né, Bernardo? Ele é hétero, tem toda aquela postura...
— Eu não entendi, Yan — cortei, sentindo uma pontada de irritação. — Você está querendo dizer que você induziu o Arthuro a beber para se aproveitar de uma certa fragilidade dele? Que você armou esse cenário esperando que o álcool derrubasse as defesas dele?
— Não! Não é nada disso, calma — ele respondeu rápido, levantando as mãos em sinal de rendição, a água respingando entre nós.
— Então explica — insisti, dando um passo à frente, nossos corpos quase se tocando novamente, mas dessa vez sem a eletricidade do desejo, e sim com a pressão de um interrogatório.
— Explica o que você quer dizer com "fica mais fácil" ou "mais solto" quando ele bebe. Eu acho que a gente está entrando em uma conversa perigosa aqui, e eu prezo muito pela transparência.
Yan suspirou, a água quente caindo sobre sua cabeça. Ele parecia estar medindo as palavras.
— Ah, não fica chateado, Bernardo... é só uma percepção minha.
— Yan, deixa eu te interromper — falei, segurando o queixo dele com firmeza para que ele não desviasse o olhar. — Vou ser bem sincero com você. Já tinha rolado alguma coisa entre você e o Arthuro antes de hoje, não tinha?
Ele coçou a nuca, visivelmente desconfortável. O vapor do banheiro parecia estar ficando mais denso, sufocante.
— Ah, Bernardo... meio que... eu e a Camille...
— Não — interrompi de novo, com um tom seco. — Não mete a Camikle no meio agora para diluir a sua parte. Rolou alguma coisa entre vocês ou não?
Ele finalmente cedeu, a voz saindo quase como um sussurro abafado pelo barulho do chuveiro.
— Rolou. Naquele momento, mas foi só uma vez... e foi a Camille que me convidou. Foi um lance dos três.
Eu assenti devagar, sentindo as peças do quebra-cabeça se encaixarem, mas sem demonstrar surpresa. Eu conhecia o Arthuro melhor do que qualquer pessoa ali.
— Entendi. Entendi perfeitamente.
Yan deu um passo lateral, deixando a água bater no peito, e me olhou com uma curiosidade súbita, talvez tentando virar o jogo.
— Mas e vocês dois? Vocês são amigos há muito tempo, né? É impossível ignorar aquele beijo que ele te deu hoje. E que beijo, né? Você nem deixou eu beijar ele também.
Respirei fundo, sentindo o peso da minha história com o Arthuro vibrar no meu peito.
— Yan, deixa eu deixar uma coisa bem clara para você. Eu e o Arthuro somos amigos. Amigos de verdade. Sempre fomos. Até o presente momento, o que sempre nos uniu foi uma amizade profunda e leal. Eu respeito qualquer escolha e qualquer caminho que o Arthuro venha a tomar. É simples, não tem mistério. E o que aconteceu hoje... foi um acontecimento. Ponto. Eu não sei o que vem pela frente, mas acho que você entendeu muito bem o que eu estou querendo dizer, certo?
Fiz uma pausa, deixando minhas palavras assentarem antes de lançar a próxima pergunta.
— Agora, deixa eu te perguntar: você está me dizendo que esta é a segunda vez que algo acontece entre você e o Arthuro. Vocês chegaram a conversar sobre isso? Sobre a outra vez com a Camille?
— Não — Yan respondeu, balançando a cabeça. — Eu acho que ele nem lembrava direito da outra vez. Ele também tinha bebido bastante naquela época.
Aproximei-me dele novamente, minhas mãos agora segurando o rosto dele de forma solene, quase protetora, mas com um olhar que não admitia mentiras.
— Então você quer dizer que, novamente, você se aproveita de momentos em que ele pode ter bebido? É isso? Porque, Yan, se for isso... essa atitude é muito escrota. É feio. É como se você invadisse o espaço dele de um jeito desleal.
Yan franziu a testa, defendendo-se.
— Não! Ele mesmo disse hoje, na nossa frente, que não estava bêbado. Você ouviu!
— Eu ouvi — respondi, relaxando um pouco a pressão nas mãos, mas mantendo o contato visual. — Entendi. Tá bom. Vamos encerrar esse assunto, terminar esse banho e finalizar tudo isso por hoje. Tá ok?
— Tá ok — ele disse, com um tom de voz mais baixo, quase arrependido. — Me desculpa, Bernardo. Eu não queria dar a entender que eu forço nada. Eu só... eu gosto dele. Somos amigos também.
Virei-me para o chuveiro, deixando a água lavar o resto de sabonete do meu corpo.
— Tudo bem, Yan. Eu entendi o que você quis dizer. E eu sei que o Arthuro não estava bêbado hoje. Ele sabe muito bem o que faz. E sobre você, ele e a Camille... eu só te perguntei para confirmar se você seria honesto. Eu já sabia o que tinha acontecido.
Yan parou, com o sabonete na mão, totalmente surpreso.
— Você já sabia? Isso quer dizer que... — ele parou, dando uma risadinha nervosa. — Ele lembra que eu já mamei ele antes?
Dei um sorriso de canto, fechando o registro do chuveiro e pegando a toalha, sentindo o frio do ar do banheiro contrastar com a minha pele quente.
— Óbvio que ele sabe, Yan. O Arthuro não é um idiota. Ele tem plena consciência de cada passo que dá, com álcool ou sem ele.
Saímos do box, o silêncio agora era menos tenso, mas carregado de uma nova compreensão. Eu me secava devagar, observando Yan fazer o mesmo. O corpo dele era bonito, mas a sombra do que ele tentava esconder deixava uma marca que a água não conseguia apagar. O jogo entre nós três tinha regras que Yan ainda estava tentando entender, enquanto eu e o Arthuro já as jogávamos há anos, mesmo sem dizer uma única palavra.
Saímos do banheiro com o vapor ainda agarrado à pele. Enrolei a toalha na cintura, sentindo o frescor do ar condicionado da suíte contrastar com o calor que ainda emanava do meu corpo. Yan foi até o closet, pegou uma cueca limpa e a vestiu com movimentos rápidos, ainda um pouco ofegante. Descemos juntos para a sala, onde o cenário da nossa entrega ainda estava lá: as latinhas vazias, os restos de pizza e aquela energia de vestiário pós-treino.
Arthuro já estava lá embaixo. Ele já havia se vestido — bermuda e a camisa do Flamengo, que agora parecia um disfarce de civilidade sobre o corpo que eu conhecia tão intimamente. Eu me aproximei do sofá e comecei a vestir minha roupa, sentindo o tecido roçar na pele sensível.
— Vou chamar o Uber logo — Arthuro anunciou, conferindo o celular com a testa franzida.
— Beleza. A gente pode esperar lá embaixo, na portaria — sugeri.
— É, eu levo vocês até lá enquanto o carro não chega — Yan interveio, aproximando-se de mim.
Olhei para Yan, o homem que tinha sido nosso joguete e nosso anfitrião, e senti um impulso de possessividade. Puxei-o pela cintura, trazendo seu corpo para perto do meu, e selei aquele encontro com um beijo de despedida. Foi um beijo profundo, carregado de uma intenção que dizia "eu ainda sou o dono da situação". Nossas línguas se encontraram com urgência, explorando cada canto com uma umidade quente, enquanto minha mão se perdia na nuca dele. O som dos nossos lábios se separando estalou no silêncio da sala.
Yan recuou, buscando o ar que eu havia acabado de roubar.
— Fiquei até sem fôlego com esse beijo... — ele riu, com os olhos brilhando.
Arthuro se aproximou com aquele jeito expansivo, um sorriso de canto nos lábios.
— Vem cá, deixa eu te dar um beijinho também — ele brincou, puxando Yan. Mas, em vez da boca, Arthuro depositou um beijo sonoro e firme bem no meio da testa de Yan, um gesto de carinho quase fraterno que quebrava a tensão erótica.
— Ah, Arthuro, para com essas palhaçadas! Você não para com uma — Yan reclamou, rindo e empurrando o ombro dele.
— Yan, pega duas cervejas lá — Arthuro pediu, ignorando a reclamação. — Uma pra mim ir bebendo no caminho e outra pro Bêr.
— Não, Arthuro! Já falei que chega de bebida por hoje — protestei, mas Yan já estava a caminho da cozinha.
— Eu também vou pegar uma para acompanhar vocês até a saída — Yan gritou lá de dentro.
Descemos os três. O elevador parecia pequeno demais para a carga de testosterona que carregávamos. Yan nos olhava, o semblante mais relaxado, mas ainda com aquele rastro de desejo nos olhos.
— Gostei de receber a visita de vocês hoje. De verdade.
— Foi boa. A tarde foi muito boa — Arthuro respondeu, dando um gole na lata de cerveja que Yan tinha lhe entregado. Ele olhou para Yan e deu um sorriso provocador. — Você matou sua vontade, né, seu safado?
Arthuro segurou a bochecha de Yan com uma mão, num gesto bruto e carinhoso ao mesmo tempo. Yan ficou instantaneamente sem jeito, as bochechas corando sob a luz fluorescente do elevador.
— Arthuro, não vamos falar disso aqui. Já chega, já passou!
— É bom que ficou sem jeito, né? — brinquei, observando a reação dele.
Chegamos à portaria. O aplicativo marcava seis minutos para a chegada do carro. O vento da noite soprava suave, ajudando a dissipar o calor que ainda sentíamos. Terminamos as bebidas em silêncio, um silêncio cúmplice. Yan recolheu as latas e as jogou na lixeira da calçada.
— O carro de vocês chegou — ele anunciou, apontando para o veículo branco que encostava.
— É, chegou — falei, aproximando-me e dando um selinho rápido em Yan. — Se cuida, tá?
Arthuro veio logo atrás. Ele não deu selinho, mas deu um aperto de mão firme e um abraço, daqueles com tapinhas nas costas. No entanto, ao se separar, ele desferiu um tapa forte e estalado na bunda de Yan, fazendo o som ecoar na rua deserta.
— Não perdeu o costume, tá? Valeu, putinho! — Arthuro piscou.
— Não fala assim aqui na rua, caralho! — Yan riu, olhando em volta para ver se o porteiro tinha ouvido.
— Tchau, Yan! Bora, Arthuro — chamei, entrando no carro.
O Uber partiu. O trajeto seria primeiro para a minha casa, depois para a dele. Já passava das 19h20. O interior do carro estava escuro e silencioso, apenas o som baixo do rádio do motorista preenchia o ambiente. Arthuro suspirou fundo, encostando as costas no banco.
— Tô cansado — ele confessou.
— Eu também tô — respondi, sentindo o peso do dia cair sobre meus ombros.
Ficamos em silêncio por um momento, observando as luzes da cidade passando pela janela. De repente, senti o braço pesado de Arthuro envolver meus ombros. Ele me puxou para perto, e eu não hesitei em encostar minha cabeça no ombro dele. Era o porto seguro que eu conhecia há anos, mas que agora tinha um novo significado.
— Foi muito gostoso o que a gente fez hoje — ele sussurrou, tão baixo que só eu podia ouvir. — O jeito que você se impôs...
— É... mas em outro momento a gente conversa sobre isso — respondi no mesmo tom. — O que foi feito, foi feito. Mas eu gostei.
— Gostei do jeito que você mandou — ele confessou, a voz vibrando no meu ouvido. — Eu gosto disso em você.
— Tá... mas pra gente acontecer outras coisas, vai ter que ser dentro das minhas regras, entendeu? — falei, olhando-o nos olhos por um breve segundo antes de voltar a encostar a cabeça.
— Tá bom, tá bom. Sem problemas — ele concordou, apertando meu ombro com carinho.
O carro voou pelas ruas. Cheguei em casa mais rápido do que gostaria; não houve tempo para grandes discussões ou planos. Desci do carro, despedindo-me dele com um beijo no rosto. Arthuro, por sua vez, segurou meu rosto e me deu um beijo demorado na testa, um gesto que selava nossa aliança antes de o carro seguir viagem.
Entrei em casa e o cheiro da comida da minha mãe me trouxe de volta à terra firme. Meus pais já estavam na sala.
— Oi, mãe. Oi, pai — cumprimentei, tentando manter a voz normal. — Passei a tarde fora, assistindo o jogo do Flamengo com os garotos.
Conversei rápido com ela, explicando que o dia tinha sido longo e que eu precisava descansar. Afinal, amanhã seria o grande dia: minha nomeação no concurso público. Uma nova fase começaria, uma nova escola, um novo projeto. Mas, enquanto eu subia as escadas para o meu quarto, eu sabia que nada do que eu enfrentasse amanhã seria tão transformador quanto o que havia acontecido entre quatro paredes naquela tarde de domingo.
Subi para o meu quarto, o meu refúgio, onde o cheiro de sabonete do banho na casa de Yan ainda parecia impregnado na minha memória sensorial.
Troquei de roupa rapidamente, jogando uma água no rosto para espantar o resto de memorias. Com um zelo quase ritualístico, arrumei minha mochila. Coloquei a pasta com os documentos, a carta de nomeação que era o fruto de meses de estudo e abdicação, e programei o despertador para as seis da manhã. Antes de apagar a luz, chequei o celular. Jonas ainda não havia respondido minha mensagem; o silêncio dele era um vácuo que eu não tinha energia para preencher agora. Grupos de trabalho e notificações banais brilhavam na tela, mas nada que prendesse minha atenção.
Dormi por volta das dez da noite. Foi, sem dúvida, uma das melhores noites de sono que já tive. Dormi feito uma pedra, mergulhado em um vazio reparador, como se meu corpo estivesse processando cada toque e cada adrenalina descarregada naquela tarde.
O despertador tocou com uma insistência metálica. Acordei revigorado, o sol mal começando a riscar o céu. Enquanto eu vestia a calça de sarja e a camisa que havia separado, um visual que buscava transmitir a seriedade que o cargo de professor concursado exigia; meu celular emitiu um sinal sonoro. Era uma mensagem de Arthuro:
— E aí, professor. Quer carona pro trabalho no primeiro dia?
Sorri para a tela. A prontidão dele sempre me surpreendia.
— Valeu, Arthuro! Mas vou de Uber hoje. Quero chegar bem cedo, organizar a papelada sem pressa.
A resposta dele veio em segundos, quase como se ele estivesse esperando com o dedo no botão:
— Tá maluco? Segunda-feira o trânsito tá um inferno. Deixa que eu te levo de moto, a gente corta tudo. Passo aí em 5 minutos.
Ele tinha razão. O trajeto até a nova escola podia ser traiçoeiro naquele horário.
— Beleza, então. Vou tomar um café rápido e te espero lá fora.
Engoli um copo de café preto fumegante na cozinha. Minha mãe me deu um beijo na bochecha, desejando sorte, e meu pai acenou com um "vai com Deus, meu filho". Saí para a calçada e, pontualmente, o ronco da moto de Arthuro ecoou na rua. Ele estava estonteante de um jeito rústico: usava uma regata de academia que deixava seus braços volumosos totalmente à mostra, pois dali ele seguiria direto para o trabalho.
— Sobe aí, vamos embora pra você não se atrasar! — ele gritou por cima do barulho do motor, ajeitando o capacete.
— Calma, Arthuro! — brinquei, subindo na garupa e sentindo o calor que emanava dele. — Não precisa voar.
— Segura minha mochila também — ele disse, tirando-a das costas e passando para o meio de nós dois.
Apertei a cintura dele com uma mão e segurei as alças das mochilas com a outra. O trajeto foi uma dança veloz entre os carros. Sentir o corpo de Arthuro se movendo contra o meu na moto, depois de tudo o que tínhamos vivido no dia anterior, trazia uma sensação de posse silenciosa. Ele pilotava com perícia e, em pouco tempo, paramos em frente ao Colégio Pascoal Catalão.
— Boa sorte, Bêr. Arrebenta lá — ele disse, me dando aquele olhar de confiança que sempre me desarmava.
— Valeu, cara. Te aviso como foi — respondi, vendo-o partir antes de me virar para o imponente portão da escola.
Na secretaria, apresentei minha nomeação. O trâmite burocrático de prefeitura e órgãos centrais já estava resolvido; agora era o momento do chão de escola. Informaram-me que o diretor só chegaria às oito horas. Esperei, sentindo o frio na barriga típico de iniciantes. Deu oito horas, oito e dez... e nada.
Por volta de 8h20, quando eu já estava na sala dos professores observando os murais de avisos, um homem entrou. Ele tinha um passo leve e um sorriso que parecia genuinamente acolhedor.
— Bernardo, certo? — ele perguntou, estendendo a mão. — Sou o Roberto, coordenador pedagógico. Mas pode me chamar de Beto.
Apertei a mão dele, notando a firmeza, apesar da compleição física mais magra. Beto era um homem que aparentava estar na casa dos 45 anos. O cabelo era uma mistura charmosa de fios escuros e grisalhos, bem cortado, conferindo-lhe um ar de experiência e jovialidade ao mesmo tempo. Era mais baixo que eu, mas tinha uma postura ereta e segura. O rosto era limpo, com linhas de expressão que sugeriam alguém que ria com frequência. Não tinha o volume muscular aparente, apenas definições normais; seu corpo era seco, saudável, vestindo uma camisa polo que se ajustava bem ao tronco. Havia algo de muito atraente na sua simplicidade e na inteligência que brilhava em seus olhos castanhos.
— Vamos até a ao quadro de professores? — ele convidou. — A diretora acabou se atrasando — segunda-feira é sempre um caos —, mas eu mesmo posso te orientar e explicar como as coisas funcionam por aqui.
Sentamos em uma mesa redonda no canto da sala. Beto abriu uma pasta azul, revelando o cronograma das turmas.
— Seu concurso é de 20 horas semanais, certo? Precisamos encaixar suas turmas. Você dá aula em outro lugar? Temos que adaptar sua agenda.
— Sim, dou aula em um colégio particular, mas tenho as segundas livres e posso reorganizar os outros horários — respondi, concentrado, mas não pude deixar de notar como o perfume amadeirado dele era agradável naquele ambiente fechado.
Beto inclinou-se sobre os papéis, e por um momento, nossos ombros quase se tocaram. Ele apontou para uma grade de horários, e seu sorriso iluminou o rosto novamente.
— Perfeito. Vamos fazer uma adaptação que fique boa para os dois lados. O Pascoal Catalão é uma escola vibrante, Bernardo. Acho que você vai se encaixar muito bem aqui.
Enquanto eu estava sentado naquela sala de professores, o peso da tarde de ontem ainda parecia vibrar sob a minha pele, tornando o ambiente formal da escola quase surreal. Meus pensamentos flutuaram, voltando para o toque bruto de Arthuro e a entrega faminta de Yan, até que fui bruscamente trazido de volta à realidade por uma mão que se movia suavemente diante dos meus olhos.
— Bernardo? Está aí? — A voz de Beto era macia, mas carregada de uma autoridade gentil.
— Desculpa... eu acabei me distraindo por um segundo. — Tentei sorrir, sentindo meu rosto esquentar levemente.
— Tudo bem, não tem problema algum. — Beto sorriu, e eu notei como os cantos dos seus olhos se franziam de uma forma extremamente charmosa. — Como você percebeu, o Pascoal Catalão é um colégio de formação de professores. Temos uma carência grande em Língua Portuguesa. Vi na sua ficha que você domina Gramática, Literatura e... Francês?
— Sim, sou formado em Letras com habilitação em Francês também — respondi, tentando focar na conversa.
Beto inclinou-se um pouco mais na minha direção. O cheiro do seu perfume me atingiu novamente: uma fragrância amadeirada, com notas de sândalo e algo que lembrava couro novo, um aroma que exalava maturidade e um asseio impecável.
— Nas escolas públicas não temos tanta procura por Francês, mas faz sentido você dominar a língua. — Ele me percorreu com um olhar analítico, que desceu do meu rosto para os meus ombros e voltou. — Você parece ser alguém bem... elegante. Como um francês.
Ele soltou um sorriso aberto, revelando dentes alinhados. Senti uma onda de calor percorrer meu abdômen. Havia uma sensualidade contida no Beto, algo que não precisava de músculos exagerados para se manifestar. Ele era magro, sim, mas era um magro fibroso, definido sob a camisa polo que marcava levemente seu peito. Sua postura era imponente, a de um homem que sabe exatamente quem é.
— Obrigado — murmurei, meio sem jeito, ajustando minha postura na cadeira.
— Bem, organizei seu quadro. Apesar das 20 horas semanais, eu gostaria que você estendesse mais duas. Isso te permite fazer até seis horas extras por semana, o que é ótimo financeiramente. — Ele deslizou um papel para mim. — Você ficaria com nove turmas, concentradas às segundas e quartas, manhã e tarde. Literatura para o segundo e terceiro ano, e uma turma específica de Língua Portuguesa para o terceiro ano. Como você é jovem e tem essa energia jovial, acho que será um diferencial para os alunos que estão se formando para serem professores. Os veteranos daqui são... tradicionais demais.
— Por mim, está perfeito. Segunda e quarta se encaixam perfeitamente na minha agenda — respondi, impressionado com a eficiência dele.
— Ótimo. — Beto levantou-se e fez um sinal para que eu o seguisse.
Enquanto caminhávamos pelos corredores, não pude deixar de observar o movimento do seu corpo. Ele tinha um andar decidido, as pernas magras e firmes movendo-se com elegância. Ele me mostrou a biblioteca, os laboratórios e o pátio. Cada vez que parávamos, ele ficava um pouco mais perto do que o estritamente necessário.
— A diretora deve fazer uma reunião com você ainda hoje para te conhecer formalmente. Mas o que tínhamos para ajustar, já está feito. — Ele parou de frente para mim, em um canto mais reservado do corredor. — Anota o meu número. Me manda um "oi" no WhatsApp para eu te adicionar nos grupos.
Peguei meu celular e digitei o número que ele ditava. Quando terminei, Beto deu um passo à frente, reduzindo o espaço entre nós. Ele colocou a mão sobre a minha, segurando-a com uma firmeza morna enquanto olhava fixamente nos meus olhos. Seu olhar era intenso, uma mistura de acolhimento profissional com algo mais profundo, mais instintivo.
— Qualquer coisa que você precisar... — Ele enfatizou o "qualquer coisa", e senti um calafrio subir pela minha espinha. — Você pode contar comigo, tá ok? Não se preocupe, estou aqui para o que for necessário.
— Obrigado, Beto. — Minha voz saiu um pouco mais grave do que o planejado.
— Ah, um detalhe: você receberá um estagiário. Como somos escola de formação, todos os professores têm esse apoio. O seu já deveria ter chegado, mas assim que ele aparecer, eu faço a ponte entre vocês. A reunião com a diretora provavelmente será com vocês dois.
Voltamos para a sala dos professores. O intervalo havia começado e o ambiente estava caótico, cheio de vozes e cheiro de café fresco. Beto se despediu com um aceno de cabeça e um último olhar demorado antes de sair. Assim que ele sumiu de vista, uma mulher de aparência decidida e olhar apressado entrou na sala.
— Bernardo? — Ela se aproximou. — Prazer, sou Carmen, a vice-diretora. Desculpa o atraso, segunda-feira é um dia de cão.
— Prazer, Carmen — respondi, levantando-me.
— Vou adiantar nossa reunião. O diretor não vem hoje, então eu assumo. Já deixei o seu estagiário na minha sala para que você o conheça logo, já que vão trabalhar em pares. Espere o intervalo acabar e eu volto aqui para te buscar e te levar até ele. O rapaz está dando uma volta para conhecer o colégio, logo ele aparece por aqui.
Carmen saiu tão rápido quanto entrou, deixando-me ali, no meio da agitação dos professores veteranos. Sentei-me novamente, sentindo o pulsar do meu coração. O dia estava apenas começando, mas a presença máscula e grisalha de Beto e a expectativa de conhecer meu novo parceiro de sala de aula criavam uma atmosfera de tensão que eu não esperava encontrar em um ambiente escolar. O Pascoal Catalão parecia guardar muito mais do que apenas livros e planos de aula.
O sinal do intervalo ecoou pelos corredores, um som estridente que parecia vibrar nas paredes do Colégio Pascoal Catalão. O burburinho dos alunos começou a diminuir conforme eles retornavam às salas, e um silêncio relativo voltou a ocupar o espaço. Senti uma inquietação crescer no peito; a conversa com Beto havia deixado um rastro de eletricidade no ar, mas eu precisava focar. Saí da sala dos professores com a desculpa de buscar água, mas meu olhar já procurava a figura que dividiria o cotidiano comigo nos próximos meses.
Foi quando o vi.
Parado próximo a uma das janelas amplas do corredor, banhado pela luz da manhã, estava um rapaz que parecia deslocado da multidão de adolescentes, embora sua juventude fosse evidente. Ele não usava o uniforme da escola, mas sim uma polo azul-marinho que abraçava um tórax largo e bem estruturado. Quando ele percebeu minha aproximação e se virou, fui atingido por um impacto visual imediato.
— Você deve ser o Bernardo, não é isso? — A voz dele era profunda, mas carregada de uma timidez respeitosa.
— Sou sim — respondi, tentando manter a voz firme enquanto meu cérebro processava a figura diante de mim.
— Prazer, eu sou o Lucas. Eu sou o estagiário, hoje é meu primeiro dia aqui.
Lucas era uma visão de vigor genético. Negro, com a pele de um tom retinto profundo e luminoso que parecia absorver a claridade do ambiente, ele ostentava um corte de cabelo estilo militar, raspado com uma precisão que realçava o formato perfeito do seu crânio. Seus olhos eram de um castanho claro surpreendente, criando um contraste magnético com sua feição. Ele era alto, muito alto — o topo da sua cabeça nivelava-se ao meu —, e sua estrutura física, apesar de jovem, era imponente. Não era o volume exagerado de Arthuro, mas sim uma musculatura densa e funcional, típica de quem tem uma genética privilegiada e um estilo de vida ativo.
— O meu também é o primeiro dia — sorri, estendendo a mão. — Prazer, Lucas.
O toque da mão dele foi quente e firme. Ele me olhou de cima a baixo com uma curiosidade desarmada.
— A dona Carmen disse que você é um professor novo... Mas você é novo mesmo! A gente parece ter quase a mesma idade. Qual a sua idade, se não for indelicadeza?
— Tenho 22 anos — confessei, rindo da espontaneidade dele.
— Eu tenho 19. Prazer em dobro, então — ele sorriu, revelando dentes muito brancos e perfeitamente alinhados que iluminavam seu rosto.
— Vou pegar um pouco de água e volto para a sala dos professores. Podemos sentar para alinhar como vamos trabalhar em pares, ok?
— Tá bom, eu te espero lá dentro, Bernardo — ele disse, com uma postura que misturava a disciplina de um soldado com a leveza de um garoto de sua idade.
Caminhei até o bebedouro, sentindo o olhar dele nas minhas costas. No trajeto de volta, avistei Beto de longe. Ele levantou a mão, fazendo um sinal de tchau, mas mudou de ideia e se aproximou com seu passo elegante.
— E então, encontrou seu estagiário? — Beto perguntou, a voz suave e o perfume amadeirado voltando a invadir meu espaço pessoal. — Já está gostando do ambiente?
— Sim, acabei de conhecê-lo. É tudo muito movimentado aqui, né? O colégio é enorme.
— É, e as turmas são numerosas. Aqui temos uma predominância feminina, os homens não se interessam tanto pela pedagogia — Beto comentou, e ao gesticular, a luz refletiu em algo que eu não tinha notado antes: uma aliança seu dedo anelar.
Senti um pequeno e inexplicável desânimo no estômago ao perceber aquele detalhe, mas disfarcei com um sorriso rápido. Beto percebeu minha mudança de expressão e arqueou uma sobrancelha, o olhar grisalho e inteligente me mapeando.
— O que foi? Por que está rindo?
— Nada, nada... Só estou animado para o dia de hoje — menti.
— Eu espero. Já sabe como vai fazer no almoço? Oferecemos a refeição aqui, mas se quiser, qualquer dia desses podemos sair. Tem uma sorveteria e um barzinho aqui perto.
— Pode ser — respondi, tentando manter a cordialidade. — Posso falar com o Lucas e vamos nós três.
— Com certeza — Beto deu dois tapinhas na minha mão, um contato rápido que pareceu durar mais do que deveria. — Preciso ir, me chama no WhatsApp se precisar de qualquer coisa.
Voltei para a sala dos professores e encontrei Lucas observando os quadros com um ar encantado. Ao fechar a porta, ele deu um pequeno susto.
— Desculpa, é que... — ele começou, gaguejando levemente.
— Tudo bem, Lucas. Vamos sentar.
Sentamos lado a lado, e comecei a explicar a dinâmica. Percebi que ele me ouvia com uma atenção quase devota. Suas mãos, grandes e de unhas bem cuidadas, descansavam sobre a mesa. O antebraço dele, exposto pela manga da polo, era marcado por veias que serpenteavam sob a pele escura, indicando a força que ele possuía.
— Então, eu trabalho segunda e quarta — expliquei. — Como você estuda à noite, vai ficar fixo comigo nesses dois dias.
— Caramba, que sorte! — ele exclamou, os olhos castanhos brilhando. — Então tenho as sextas livres. Dá para curtir a noite sem preocupação.
— Eu te entendo — ri. — Já tive essa idade.
— Ah, mas você não é tão mais velho! Só três anos. Eu faço 20 este ano. A diferença é pequena.
Começamos a papear de forma mais solta, fugindo um pouco do plano de aula. Lucas era vibrante, cheio de uma energia contagiante que contrastava com a sobriedade de Beto. A conversa fluiu da escola para a vida, e a espontaneidade dele me pegou de surpresa.
— Mas... você é solteiro? — Lucas perguntou, e logo em seguida ficou visivelmente constrangido. — Desculpa! Força do hábito... desculpa, Bernardo. Eu não devia ter perguntado isso.
Olhei para ele, notando como o tom da sua pele parecia ganhar um brilho novo com o nervosismo. Encostei minha mão sobre a dele por um breve segundo, um gesto de conforto que fez seus olhos se fixarem nos meus.
— Tudo bem, Lucas. Não tem problema. Como você disse, temos idades próximas. E sim, eu sou solteiro.
Ele soltou um suspiro de alívio e sorriu novamente, aquele sorriso que parecia preencher toda a sala.
— Que legal... eu também sou. Dá para a gente marcar algum rolê qualquer dia, o que acha?
— Talvez — respondi, mantendo um tom misterioso enquanto observava a linha do seu maxilar definido e a postura atlética. — Mas talvez você não curta o mesmo tipo de passeio que eu gosto de aproveitar.
Lucas inclinou o corpo na minha direção, o cheiro de sabonete fresco e juventude emanando dele.
— Você ficaria surpreso com o que eu curto, Bernardo.
O silêncio que se seguiu não era mais profissional; era carregado de uma nova expectativa, enquanto o sol da manhã lá fora continuava a aquecer os corredores do Pascoal Catalão.