"É uma notícia chocante. Sentimos muito em ouvir isso, filho. É quase inacreditável que ela faria uma coisa dessas. Você deve estar se sentindo péssimo. O que você vai fazer?"
"Bom, já dei o primeiro passo e pedi demissão do meu emprego. Não posso nunca mais trabalhar lá depois do que ele fez. Maria Beatriz espera que eu simplesmente aceite e deixe pra lá. Não posso fazer isso. Meu estado de espírito atual me diz pra me divorciar dela. Não quero ver nem falar com ela por um tempo. A traição dela é dolorosa demais pra confrontar agora."
"Como isso aconteceu, filho? Vocês dois não iam numa festa de Natal ontem à noite?"
"Sim, e aconteceu na casa dele. Fui trancado num quarto que tinha um espelho de visão única pra eu poder assistir o comportamento desviante deles se eu quisesse. Nem preciso dizer que não quis assistir. Não sou programado desse jeito. Mas vi o suficiente pra saber o que eles fizeram e não tem como eu nunca mais desver aquilo. Escapei da armadilha deles e passei a noite passada num motel. Vou ficar aqui de novo hoje à noite também. Se Maria Beatriz, as crianças ou qualquer outra pessoa ligar pra vocês dois procurando por mim, podem fingir que não sabem de nada por enquanto? Não quero que ninguém saiba onde estou ou o que estou fazendo, exceto vocês dois."
"Claro, André. Estamos com você como sempre, filho. Você sabe disso. Sentimos muito que isso tenha acontecido. Nunca pense que isso é culpa sua. Você é um ótimo marido. Ela de alguma forma perdeu o rumo e pode não haver volta disso."
"Não sei se sou ótimo, mas fiz o meu melhor por ela. Não planejo contar pros filhos ainda. Não posso ficar num motel indefinidamente. Será que poderia ficar um tempo com vocês até me reerguer de novo?"
"Claro que pode. Nossa casa é sua casa, sempre. Vamos começar a limpar seu quarto antigo hoje. Só nos avisa o que você precisa e faremos nosso melhor pra ajudar. Tá bom? Amamos você, filho."
"Amo vocês dois também. Este é meu número temporário novo onde podem me encontrar. Meu telefone antigo foi confiscado. Falo com vocês mais tarde."
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Comer uma refeição quente num restaurante local acalmou meus nervos um pouco. A comida não era ruim e me deu tempo pra refletir sobre meu caminho futuro. Mas por ora, queria dar tempo pra Maria Beatriz cozinhar depois de descobrir que rejeitei firmemente a escolha de estilo de vida dela. Deixa ela sentir um pouco da angústia que me fez passar. Ela provavelmente tem meu telefone em sua posse agora sem ideia de como me alcançar. Ótimo. Voltei pro motel e tirei uma soneca à tarde. Não estava com pressa de apressar as coisas. Fui acordado às 15h30 pelo meu telefone. Ninguém mais tinha esse número.
"E aí, André," meu pai começou. "Como você tá aguentando?"
"Me pegou tirando uma soneca. Mas estou ansioso pra ouvir qualquer notícia."
"Bom, tá bom então. Só queria te avisar que Maria Beatriz acabou de ligar perguntando se tínhamos ouvido de você."
"É?"
"Sim. Ela disse que houve um sério mal-entendido na festa ontem à noite, e que você a viu dançando com o simpático Sr. Almeida, que foi um perfeito cavalheiro, e de alguma forma interpretou mal o que você acha que viu. Ela nos contou que você saiu abruptamente sem uma palavra e ninguém te viu ou ouviu de você desde então. Maria Beatriz explicou que está muito preocupada com você e que suas inseguranças sociais associadas ao seu autismo devem ter desencadeado sua reação negativa. Ela implorou pra gente avisar se ouvíssemos de você."
"Mas que bruxa mentirosa! Ela não está admitindo nenhuma culpa ou responsabilidade pela traição dela ontem à noite e está usando meu autismo como desculpa."
"Não deixamos ela saber que já tínhamos ouvido de você. Só queria que você soubesse o que ela estava dizendo sobre ontem à noite. Como você diz, ela está negando que qualquer coisa aconteceu entre ela e seu chefe. Ela também mencionou que você acabou de receber uma promoção enorme acompanhada por um aumento tremendo de salário e está ansiosa pra celebrar seu novo status com você."
"Aposto que está mesmo. Espera até ela descobrir que pedi demissão. Me pergunto quanto ela vai querer celebrar então."
"Sua mãe e eu confiamos no seu julgamento, filho. Seu quarto está pronto quando quiser começar a usar."
"Valeu, pai. Posso trazer minhas coisas de manhã depois que fizer o check-out. Agradeço você e a mãe me aguentarem por um tempo. Vou tentar não fazer muito barulho," ri.
"Você é sempre bem-vindo aqui, André. Te amamos e estamos orgulhosos de você."
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Naquela noite, mergulhei fundo em oportunidades de emprego usando meu laptop. O que encontrei não foi encorajador. Sem uma recomendação por todos meus anos na Investimentos Almeida, estaria começando do zero de novo. Ainda assim, pra mim, isso era preferível a suportar traição contínua. Nenhuma quantia de dinheiro poderia me fazer permanecer lá, nem mesmo um milhão de reais.
Fiz o check-out do motel segunda-feira de manhã depois de tomar banho, levei as duas malas de pertences pra casa dos meus pais e me mudei de volta pro meu quarto antigo. Havia algo reconfortante sobre o ambiente familiar. Este sempre foi meu lugar seguro. Acho que era apropriado que permanecesse assim. A essa altura, Bernardo já teria avisado Maria Beatriz da minha demissão. Claro, ele sempre poderia dizer a ela que recusaria aceitar minha demissão, mas receio que ele não tenha escolha. Mais tarde naquela noite, enquanto estávamos terminando o jantar, o telefone do meu pai tocou. Ele me avisou que o identificador de chamadas mostrava que era Maria Beatriz ligando. Pedi que me passasse o telefone dizendo que atenderia a ligação. É hora de pegar o touro pelos chifres.
"Alô, Senhorita Prado. Como está sua irmã Marina hoje em dia?"
"André? É realmente você?"
"Sim, Senhorita Prado, meu nome é André Silva. Há algo que gostaria de dizer além daquelas mentiras que contou pros meus pais mais cedo?"
"Por favor, pare de me chamar assim, André. Sou sua esposa, Maria Beatriz Silva. Você perdeu o juízo de novo? Todos nós estamos preocupadíssimos com você. O que aconteceu com você? Onde você esteve? Por que você me deixou sozinha na festa daquele jeito?"
"Não, Senhorita Prado, não perdi o juízo, mas acredito que você perdeu a cabeça. Não acredito que você tenha se preocupado comigo por um segundo sequer. Você pergunta o que aconteceu comigo? Presenciei minha esposa fazendo sexo com o CEO da minha empresa enquanto eu estava trancado no quarto ao lado com uma vadia sedutora esperando me apaziguar. Você pergunta onde estive? Longe de você. Por que saí? Planejo me divorciar de você por adultério e já pedi demissão da minha posição na Almeida. Não havia razão alguma pra eu ficar um momento a mais na casa que costumávamos compartilhar, nenhuma. Isso está claro o suficiente pra você, Senhorita Prado?"
"Por que você continua me chamando pelo meu nome de solteira? Sou sua esposa, bobo. Você está tendo outro daqueles apagões de memória? Não faço a menor ideia do que você está falando, André. Preciso que você se lembre de quem eu sou. Temos três filhos juntos: Liz, Andy e Margarida. Eles estão muito preocupados com você também. Esses lapsos de memória têm vindo com muita frequência ultimamente. Você precisa de ajuda, amor. Deixa eu te levar pra ver um médico pra te ajudar a limpar sua mente e voltar à realidade. Te amo mais que tudo, querido, e estou disposta a esperar o tempo que for necessário pra você colocar sua vida de volta nos trilhos mentalmente."
"Me escuta com atenção, Senhorita Prado. Te chamo assim porque é tudo que você é pra mim agora. Nunca tive nenhum lapso de memória e é meu maior desejo esquecer que um dia te conheci. Não te amo mais nem quero te ver ou estar com você nunca mais. Odeio que você me traiu e nosso casamento e nunca posso te perdoar por isso. Suas ações têm consequências. Deste momento em diante, você vai viver o resto da sua vida sem mim nela. Pode anotar. Nunca minto, Maria Beatriz. Nunca minto." Ela começou a soluçar incontrolavelmente e desligou o telefone.
Meus sentidos de aranha estavam trabalhando horas extras. Tinha todo tipo de cores e palavras flutuando diante dos meus olhos. Minha sinestesia estava tentando me dizer algo. Depois de mais trinta segundos, algumas palavras começaram a se coagular em verde escuro. Sabia o que isso significava.
"Acabei de desligar com Maria Beatriz e preciso falar com vocês dois agora. Não sei quanto tempo tenho."
"Estamos aqui pra você, filho," mãe afirmou. "O que está acontecendo?"
"Estou dando a vocês meu link, login e senha da minha nova conta bancária só em meu nome. Vou precisar que vocês usem pra garantir um advogado pra mim o mais rápido possível."
"Um advogado? Pra quê, André? Um advogado de divórcio?"
"Não, não pra divórcio. Preciso que me encontrem um advogado cível, um que não possa ser comprado, nem por um milhão de reais. Eles podem tentar comprar meu advogado pra se virar contra mim."
Minha mãe voltou: "Meu primo, Ivo Abreu, é advogado em três estados daqui. Você só o conheceu uma vez, mas é família, sangue bom, e nunca poderia ser subornado pra abandonar família, não importa o quê. Crescemos juntos e confiaria nele com minha vida. Ele morou com a gente por dois anos quando éramos crianças enquanto os pais dele estavam tendo problemas. Ele pularia na chance de nos retribuir. Mas por quê?"
"Bom. Havia algo estranho no jeito que Maria Beatriz estava falando comigo. Acho que ela pode ter estado gravando a ligação uma vez que percebeu que era eu no telefone. Ela estava insinuando que estou tendo lapsos de memória inexplicáveis e que preciso de ajuda pros meus problemas mentais. É uma ideia engenhosa. Ela e Bernardo querem me subjugar e me persuadir a mudar de ideia sobre me divorciar dela e largar meu emprego. Bernardo tem dinheiro suficiente pra comprar um médico pra me internar involuntariamente. Consigo ver isso na minha mente. Faz todo sentido. Quando vierem me buscar, vou quieto. Se resistir, só vai confirmar a narrativa deles. Quando vierem me buscar, peçam uma cópia da papelada legal autorizando eles a me levar e descubram onde vão me manter pra avaliação. Coloquem Ivo no caso o mais rápido possível e garantam que ele leve meu laptop PC pra sala do tribunal na minha audiência de internação. Vou dar pra vocês guardarem. Transfiram o adiantamento dele da minha conta bancária pra eu poder provar que ele é meu advogado de escolha. Eles podem tentar me juntar com um advogado público no bolso do Bernardo."
"Internação involuntária? Querido, se você acredita nisso, por que não se esconde em algum lugar por um tempo pra eles não poderem te pegar?"
"Se eu fizer isso, só vai piorar as coisas. A estrutura legal e o processo pra minha apreensão já estarão em vigor. É melhor se eu estiver mentalmente preparado pra ir e não oferecer resistência. Só garantam que Ivo esteja contratado em meu nome e possa trabalhar seu caminho pelo sistema pra ganhar acesso a mim. Ele pode ser apresentado com obstáculos pra mantê-lo longe de mim. Digam a ele pra estar preparado pra isso."
"O que você achar melhor, filho. Estamos do seu lado até o fim."
Às vezes, desejo que minha sinestesia estivesse errada, mas, infelizmente, estava correta. Eram cerca de 2h da manhã quando vieram batidas altas na porta. Meu pai atendeu de pijama.
"Posso ajudar, policial?"
"Sim, André Silva está neste endereço agora?"
"Sim, senhor, esse é meu filho. Ele está nos visitando pela noite. Ele está com problemas com a lei? Ele fez algo errado?"
"Não é sobre isso. Temos um relatório de que seu filho é mentalmente doente e pode ser um perigo pra si mesmo e possivelmente pra outros. Ele deve ser levado a uma instalação médica pra avaliação por médicos qualificados."
"Quero dizer pra constar, policial, que essa afirmação é uma mentira absurda. Meu filho nunca teve problemas mentais desde o dia em que nasceu. Ele não é perigo pra ninguém. Vocês têm autoridade legal pra removê-lo da minha casa?"
"Estávamos esperando que ele fosse voluntariamente. Estamos preparados pra levá-lo à força, se necessário."
"Deixa eu ser claro, policial, e espero que sua câmera corporal esteja ligada. Meu filho vai te acompanhar felizmente a qualquer lugar contanto que você tenha a autoridade legal pra levá-lo. Posso ver uma cópia da sua papelada legal autorizando você a escoltá-lo?" O policial pareceu perturbado por ser desafiado, mas tinha sua câmera corporal ligada a pedido e precisava seguir a letra da lei já que era uma solicitação formal.
"Sim, senhor." Ele radiou seu parceiro pra trazer a papelada e a entregou.
Depois de revisar, ele disse: "Obrigado, policial. Meu filho vai pacificamente com você agora."
Imediatamente apareci de trás do meu pai, totalmente vestido, sorrindo e com meus braços estendidos pra frente pra algemas.
"Você é André Silva?"
"Sim, senhor. Sou."
"Uh, senhor, algemas não serão necessárias. Você não está sendo preso por nenhum crime. Já que você parece estar calmo e pacífico, vou escoltá-lo até aquela ambulância de resposta de emergência ali. Eles vão te levar a um hospital pra avaliação. Haverá algum problema?"
"Nenhum, senhor. Estou pronto pra ir, obrigado pelo seu comportamento civil com meus pais. Eles merecem nosso respeito."
Surpreso com minha calma alerta, não mostrei sinais de resistência, violência ou defeito mental enquanto o policial me escoltou até a ambulância sem incidentes. Voluntariamente deitei na maca adjacente à ambulância e dois atendentes me amarraram com segurança, procedimento padrão ao transportar um paciente num veículo em movimento. Quando chegamos ao hospital de saúde mental, me empurraram na maca até a janela de check-in e entregaram ao atendente a papelada com a qual processar minha internação involuntária.
"Ele está drogado pelo que vocês sabem ou mostrou alguma tendência violenta?" Ela perguntou aos paramédicos.
"Checamos ele completamente no caminho pra cá e não vemos evidência da influência de drogas ou álcool. Ele tem sido amigável e não mostrou violência ou comportamento irracional. Não tenho certeza do que ele está fazendo aqui, mas é problema de vocês agora."
"Obrigada, cavalheiros, vamos assumir daqui." Fui rapidamente transferido pra outra maca e amarrado mais uma vez enquanto me rodavam pra dentro da instalação, completo com uma nova pulseira de identificação de paciente.
"Como você está, André?" A atendente me perguntou num esforço de promover calma.
"Receio que você me pegou em desvantagem, senhor. Não sei seu nome. No entanto, em resposta à sua pergunta, estou bem pra caralho, mais fino que cabelo de anjo partido em três, e isso é bem fino se você me perguntar."
"Desculpa, André, meu nome é Ronaldo. Vou ser seu auxiliar neste turno durante sua estadia conosco. Obrigado pela sua cortesia. A maioria dos pacientes chegando na sua situação não são tão receptivos quanto você parece ser."
"Ronaldo, espero que me ache amigável e cooperativo. Acredito que comunicação de duas vias vai servir bem a nós dois."
"Eu também, André, obrigado. Este é seu quarto. Quando te soltarmos da maca, gostaria que você calmamente se despisse e colocasse suas roupas na cama pra mim, por favor. Então vista este avental de paciente que amarra frouxamente nas costas. Vamos guardar seus pertences enquanto você entra na cama. Uma vez que você esteja situado, minhas instruções são te prender à estrutura da cama com essas contenções de pulso e tornozelo pra sua proteção até que você possa ser avaliado. Isso vai ser um problema?"
"De forma alguma, Ronaldo. Você afirmou seus pedidos de forma coerente e sucinta. Vou me esforçar pra responder cooperativamente pra amenizar quaisquer preocupações."
"Acho que vamos nos dar muito bem, André. Queria que todos os meus outros pacientes fossem tão legais quanto você. Você fala bem demais também."
"Ora, obrigado, Ronaldo. Vou falar bem de você pro médico quando ele aparecer pra me ver."
Chocado pelo meu comportamento inesperadamente prestativo, ele riu da minha convivialidade. "Agora que você está seguro, fui instruído a administrar remédios anti-ansiedade e pra dormir. São meramente pra te ajudar a permanecer calmo durante seu período de atividade restrita."
"Entendo e aceito que você tem responsabilidades a cumprir pra executar seu papel dentro desta instalação. Você não vai receber nada menos que minha cooperação total o tempo todo. Por favor, Ronaldo, continue com seu trabalho."
Ele produziu dois comprimidos e os deixou cair na minha boca aberta. Então me ofereceu água de um copo elevando minha cabeça com sua mão enluvada. Aceitei prontamente a água e engoli os comprimidos, permitindo que ele examinasse completamente minha boca depois. Ronaldo sorriu, piscou, me agradeceu e me deixou sozinho com meus pensamentos. Meus pensamentos eram inúmeros. Lentamente os empurrei de lado enquanto abracei minha necessidade de sono reparador. Uma vez que minha mente estivesse descansada, poderia performar melhor, portanto era incumbente a mim dormir. Comecei a multiplicar números de quatro dígitos na minha cabeça e logo o sono me encontrou.
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