Reflexos da Noite (continuação 2)!
**O Sabor da Justiça**
Meu nome é Vanessa e minha nova vida como vampira tinha apenas começado. Os primeiros dias foram um turbilhão de sensações aguçadas, de uma fome profunda e de um código rígido. Olga, minha mentora e uma vampira ancestral, havia sido clara: “É vedado alimentar-nos de humanos que não sejam criminosos. É nosso pacto, nossa maneira de equilibrar a natureza predatória com um propósito. Somos juízes de um tribunal sombrio.”
Assim, sempre que a fome latejava em mim, um desejo mórbido e contraditório surgia: desejava que um crime ocorresse para que eu pudesse saciar-me. Torcia pelo mal para poder combatê-lo. Era uma ironia que me consumia por dentro mais do que a própria sede.
Estava em meu apartamento, observando a cidade noturna através da janela, sentindo o cheiro distante de dezenas de vidas, quando o telefone tocou. Era um aparelho especial, fornecido pela organização.
“Tou… Vanessa!” A voz era da minha chefe, Elara, do outro lado da linha. Ela coordenava nossa pequena célula em São Francisco.
“Sim! Temos problemas?” Perguntei, sentindo um frio na espinha que não era de medo, mas de antecipação.
“Está a decorrer um assalto no banco Loyt, na Avenida Belledonne. Quatro indivíduos, armados, com reféns. A polícia está a montar o cerco, mas a situação está tensa. Preciso que venhas rápido.”
Desliguei. Não havia tempo a perder. Vestir-me às pressas, e assim em segundos, estava de negro, das botas ao casaco de couro, meu cabelo castanho preso. A força recém-adquirida pulsava em meus músculos. Não era muito longe dali. Corri, não como um humano, mas como uma sombra que se fundia com a escuridão, saltando entre telhados com uma graça sobrenatural.
Ao chegar, o cenário era caótico: luzes azuis e vermelhas giravam, viaturas da polícia bloqueavam as ruas, snipers posicionados. Passei pelo batalhão de agentes como um vento. Eles mal notaram minha passagem, uma habilidade útil do meu novo estado vampiresco. Elara, com seu sobretudo cinza e ar severo, falava com o comandante da operação.
“Temos uma infiltrada,” disse ela calmamente ao homem de uniforme. Ele olhou para mim, cético, mas um aceno de Elara bastou. Ela tinha seus contatos, suas maneiras de fazer as autoridades aceitarem nossa… assistência peculiar.
“Nós vamos acabar com isto,” disse Elara para mim, seus olhos prateados refletindo determinação.
A porta principal do banco estava arrombada. Entrámos em silêncio. O interior era um contraste de mármore frio e calor do pânico. Ouvia-se o choro abafado de reféns ajoelhados atrás do balcão. Quatro homens, com passamontanhas e armas de grosso calibre, controlavam a sala.
Um deles, aparentemente o líder, virou-se ao ouvir nossos passos. Seus olhos, visíveis através das aberturas do gorro, arregalaram-se de surpresa e depois de raiva.
“Vocês quem são? Isto é uma operação da polícia?” Ele gritou, erguendo a sua metralhadora. “Não interessa! Vamos matar toda a gente aqui se não saírem!”
O cheiro dele invadiu meus sentidos. Não era apenas o suor do medo ou a pólvora. Era o cheiro acre de violência premeditada, de crueldade. O cheiro de um criminoso. Minha fome despertou com um rugido silencioso, focando-se nele como um laser.
Um sorriso lento e instintivo curvou meus lábios, revelando a ponta dos meus caninos, que ainda tentava esconder em público. Avancei. Não foi uma corrida, foi um deslocamento, tão rápido que para os olhos humanos pareci uma miragem.
“Não, não vais,” disse eu, minha voz soando estranhamente suave no meio do caos. “Tu és a doença…”
Em um instante, estava diante dele. Ele tentou apontar a arma, mas minha mão envolveu seu pulso, e um estalo seco ecoou na sala. Ele gritou de dor.
“E eu sou a cura.”
Inclinei-me. A luta interna foi breve – o instinto vampírico era muito mais forte do que qualquer noção remanescente de etiqueta humana. Enterrei meus dentes em seu pescoço, no ponto onde a jugular pulsava freneticamente. O sabor explodiu em minha boca: metálico, quente, vital, e carregado com a essência de seus atos. Era diferente de beber de um saco de sangue hospitalar, que Olga me dera para treinar. Era cru, real, e intoxicante. A vida dele, sua força, fluía para mim, e com ela, flashes de imagens: um assalto anterior, um rosto amedrontado, a ganância cega. Era repugnante e, ao mesmo tempo, o alimento que meu corpo clamava.
Ele não gritou de dor física, mas de puro terror e descrença. Empurrou-me com sua força restante, cambaleando para trás, a mão pressionando o ferimento.
“Mas que merda é esta!” Ele gritou, os olhos arregalados de horror, fitando o sangue em suas mãos e depois em mim. Sua coragem desintegrou-se. “Monstro! És um monstro!”
Ao seu redor, os outros três assaltantes congelaram, perplexos. Os reféns observavam, atônitos. O líder, agora pálido e fraco, desmaiou, deslizando para o chão.
Elara aproveitou o momento de choque. “Agora!” ordenou, e agimos em sincronia. Enquanto ela desarmava um dos bandidos com movimentos de artes marciais precisos, eu me virei para o próximo. A fome estava saciada, mas a missão não. Agora, era apenas força bruta. Desloquei-me, desarmando-o com um golpe rápido e aplicando uma pressão em um ponto específico do pescoço que o fez desfalecer.
Em menos de um minuto, os quatro homens estavam no chão, inconscientes ou incapacitados. A polícia, ouvindo o silêncio súbito, invadiu o local momentos depois, encontrando apenas os criminosos derrotados e duas mulheres de negro saindo calmamente por uma saída lateral, deixando para trás um mistério e um líder de gangue que, ao acordar, juraria a todos sobre um demônio de dentes afiados.
Na rua, longe das luzes, Elara colocou uma mão em meu ombro. “Estás bem?”
Respirei fundo, o sabor do sangue ainda na língua, uma energia nova percorrendo minhas veias. A fome havia ido embora, substituída por uma estranha saciedade e um peso na consciência.
“Estou,” respondi, olhando para minhas mãos. “Ele chamou-me de monstro.”
“Ele é um ladrão e um potencial assassino,” disse Elara firmemente. “A sua justiça seria uma cela. A nossa é mais… direta. Não é sobre ser monstro ou anjo, Vanessa. É sobre ser a consequência.”
Olhei para a cidade, para as luzes inocentes das janelas. A minha nova vida não seria fácil. Cada refeição seria precedida por um desejo sombrio e seguida por uma reflexão pesada. Mas, naquela noite, na Avenida Belledonne, eu não havia sido apenas uma vítima da minha fome. Tinha sido a “cura”. E, por enquanto, isso teria de bastar. A noite ainda era jovem, e o rádio de Elara poderia tocar a qualquer momento.
Um dia Lisa a recém transformada vampira, convidou-me para sair… Fomos até Oakcity que era a cidade mais próxima de São Francisco… Lisa tinha ouvido falar de um bar bem gostoso…O bar tinha um nome sugestivo, “Sangue Fresco”, era um lugar de sombras e luzes baixas, um refúgio noturno no limite de Oakcity. O ar cheirava a madeira envelhecida, cerveja derramada e um leve traço de tabaco. As paredes eram adornadas com troféus de caça antigos e fotografias desbotadas de grupos de homens com olhares duros. Lisa, a novata com seu sorriso sempre fácil, parecia não notar a atmosfera carregada. Eu, por instinto, já sentia o peso dos olhares nas nossas costas desde que cruzamos a porta.
Deixamos o carro estacionado na rua escura, sob a luz trêmula de um poste quebrado. O som abafado de um blues pesado vazava pelas paredes. Entramos, e a conversa geral baixou por um segundo, um silêncio eloquente que nos avaliou antes de retomar seu murmúrio habitual.
Dirigimo-nos ao balcão, um bloco de carvalho escuro marcado por copos e anos. O bartender, um homem corpulento com braços tatuados, limpava um copo sem nos olhar diretamente.
— Duas cervejas, por favor! — falou Lisa, sua voz soando estranhamente alta naquele ambiente contido.
O bartender apenas assentou com a cabeça, servindo duas canecas de um barril sem etiqueta. O líquido era âmbar e turvo. Pegamos as bebidas e nos virámos, procurando um lugar. Os olhares eram como faróis fracos na penumbra, seguindo nossos movimentos. Achámos uma mesa vazia num canto, perto de uma janela suja que dava para o beco das traseiras. Sentámo-nos, e o banco de madeira rangeu sob nosso peso.
Mal tínhamos dado o primeiro gole — a cerveja era forte e amarga — quando a sensação mudou. O ar pareceu ficar mais denso. Um homem separou-se das sombras junto à porta dos fundos e dirigiu-se à nossa mesa com passos deliberados e silenciosos. Usava um fato preto, simples mas bem cortado, sobre uma camisa branca imaculada. Seu rosto era angular, sério, e seus olhos claros varriam o ambiente antes de se fixarem em nós. Não era um segurança comum; tinha a autoridade quieta de quem está no comando.
Parou ao lado da nossa mesa, as mãos nas costas.
— Sabem que este é o bar dos "Lycans"? — perguntou. Sua voz era baixa, mas cortou o som do blues como uma lâmina.
Lisa quase engasgou com a cerveja. Eu senti um frio na espinha. *Lycans*. Não era apenas um nome pomposo; na periferia de Oakcity, falava-se de um grupo, mais que um clube de motoqueiros, menos que uma lenda. Diziam que controlavam coisas, que tinham suas próprias leis.
— Não fazia ideia! — disse Lisa, genuinamente surpresa, seus olhos arregalados.
O homem no fato não sorriu. Seu olhar foi de mim para Lisa e de volta para mim, avaliando.
— Acho que vamos ter problemas... — falou ele, mais uma afirmação do que uma pergunta. Era um aviso polido, uma última chance de sairmos pacificamente.
Estava prestes a pegar no casaco, a mente a calcular a distância até à porta, quando outra voz ressoou, vinda da direção do balcão. Era uma voz grave, rouca pelo fumo e pela autoridade, mas que continha uma estranha nuance de cortesia.
— Ninguém vai fazer nada.
Todos os olhos, incluindo os do homem de fato, viraram-se. O homem que se aproximava era diferente. Era mais velho, talvez na casa dos cinquenta, com cabelo prateado penteado para trás e um rosto marcado por cicatrizes sutis e uma vida inteira de decisões difíceis. Usava um casaco de couro desgastado sobre uma camisa simples, mas andava com a descontração de um rei no seu salão. Os outros clientes baixaram ligeiramente as cabeças quando ele passou.
Ele parou ao nosso lado, ignorando completamente o homem de fato, e olhou para nós com um sorriso pequeno e cansado.
— Elas são minhas convidadas.
Olhei diretamente para ele, o coração a bater forte contra as costelas. A pergunta saiu antes que eu pudesse detê-la, impulsionada por um misto de medo e curiosidade.
— Quem é?
Este é Silver — deixou escapar um som baixo que poderia ter sido uma risada.
— Este é Silver, o Boss — apresentou-se o homem de fato, agora com um tom formal, quase respeitoso.
Silver acenou com a cabeça em direção ao bartender.
— As bebidas são por conta da casa — anunciou, sua voz preenchendo o bar. Depois, seus olhos, de um cinza metálico e perspicaz, repousaram sobre nós. — Deixem-se ficar à vontade.
E com um último aceno quase imperceptível, ele virou-se e desapareceu novamente nas sombras da parte de trás do bar, seguido pelo homem de fato. O blues retomou seu curso, as conversas aos poucos voltaram, mas o clima era diferente. Os olhares que agora pousavam sobre nós não eram mais de hostilidade, mas de curiosidade contida e, talvez, um pouco de respeito.
Lisa soltou a respiração que estava a prender.
— Meu Deus... — sussurrou, segurando a caneca com ambas as mãos. — O que foi isso?
Eu olhei para a cerveja não tocada, depois para a escuridão onde Silver tinha desaparecido.
"À vontade", ele dissera. Mas no bar dos Lycans, sob o olhar taciturno do Boss Silver, aquele convite soava menos como uma cortesia e mais como uma nova e intricada teia da qual, de alguma forma, acabáramos de nos tornar parte. A noite, percebi, estava apenas a começar…
O sussuro das estrelas
A oferta do Silver, o líder dos Lycans, parecia boa demais para ser verdade. Um bar novo, inauguração com open bar para um grupo seleto. Eu e Lisa aceitamos, contudo sempre cautelosas, mas curiosas.
A noite seguiu seu curso com música alta, luzes baixas e um ar de festa. Silver era carismático, dono do lugar, e circulava entre os convidados com um sorriso fácil. Mas, conforme a noite avançava e as bebidas fluíam, o clima mudou. O sorriso dele endureceu, e o olhar, antes brincalhão, tornou-se predatório.
— “Bem, meninas”, ele disse, sua voz cortando a música de fundo, reunindo-nos em um canto mais reservado.
— “Se pensam que a festa é de graça sem contrapartidas, estão muito enganadas.” O tom não era de brincadeira. Era uma afirmação gelada, um ultimato disfarçado. O ar pareceu sair do lugar. Não era uma proposta; era uma armadilha que se fechava.
A oferta do Silver tinha sido uma mentira venenosa, um roubo de dignidade.
O lugar era uma caverna ampla, mal iluminada por tochas, com o som abafado de rock pesado e risadas roucas. Silver era um homem imponente, de olhos que pareciam captar a luz de uma forma estranha, amarela. Ele nos cumprimentou com um sorriso que não chegava aos olhos.
O ambiente era pesado, dominado por homens com olhares que nos percorriam como se fôssemos mercadoria. Mas ignorámos o desconforto, embaladas pela música alta e pelos primeiros copos.
— A conta são vocês — declarou Silver, e sem mais cerimónias, desabotoou as calças.
— Vamos. Vocês têm de mamar nas nossas picas…
O ar pareceu sair do lugar. Antes que pudéssemos processar, antes que um grito pudesse se formar em nossas gargantas, ele fez um gesto brusco. E então, o ato indescritível. Ele e mais dois homens baixaram as calças.
— Vamos, meninas — insistiu Silver, aproximando-se. O seu olhar não deixava espaço para negociação, apenas para submissão. — Chupem e engulam nossa porra.
A humilhação foi um fogo líquido que me consumiu por dentro. Foi uma violência que não deixava hematomas visíveis, mas que marcou a alma com ferro em brasa. O sabor era amargo, metálico, uma profanação. O ato em si era mecânico, um desligar da mente para sobreviver ao momento, para que ele acabasse. As lágrimas queimavam os meus olhos, mas eu não as deixei cair. Não ali. Não na frente deles. O som dos gemos forçados, dos engasgos, preencheu o quarto asfixiante. Foi um broche coletivo, uma aniquilação em grupo da nossa dignidade. Nunca, em toda a minha vida, tinha engolido tanta humilhação disfarçada de fluido corporal. Era porra, sim, mas era sobretudo o seu poder, a sua dominação, que eles nos obrigavam a ingerir.
Um nojo absoluto, visceral, inundou-me. Não era medo, naquele primeiro instante, era pura repulsa. A Lisa tentou recuar, mas braços fortes como troncos a seguraram. Um dos Lycans agarrou meu rosto, seus dedos calejados pressionando minha mandíbula. O cheiro era animal, intenso. Chorei silenciosamente, os olhos fechados, enquanto era forçada a um ato que me esvaziava por dentro. Foi um broche coletivo, uma humilhação coreografada, onde éramos meros objetos, instrumentos para sua dominação. O gosto amargo e salgado, a sensação de asfixia, a visão da Lisa na mesma situação, com lágrimas escorrendo pelo rosto, tudo se fundiu em um pesadelo vívido. Engoli, não por vontade, mas por puro instinto de sobrevivência, para que aquilo acabasse mais rápido. Nunca, em meus piores temores, imaginei engolir tanta porra, sentir meu estômago se revolver contra uma invasão tão violenta.
O nojo subiu-me à garganta, um gosto amargo e metálico. Um pânico cego apoderou-se de mim. Olhei para minha amiga Lisa e vi o mesmo terror refletido nos seus olhos. Lisa chorava silenciosamente. Não era um pedido. Era uma sentença.
O que se seguiu foi um pesadelo fora do corpo. Uma sucessão de toques ásperos, cheiros agressivos, e a humilhação avassaladora de sermos forçadas a um ato sucessivos broches em coletivo, objetos sem voz. Fechava os olhos com força, tentando desaparecer, tentando estar em qualquer outro lugar. O sabor era repugnante, a sensação de violação, total. Nunca tinha engolido tanta porra. A frase ecoava na minha cabeça, um mantra de degradação. O tempo distorceu-se, arrastando-se numa agonia interminável.
Depois, não contentes, arrastaram-nos para um quarto nos fundos do bar. O cheiro a mofo e desinfetante barato enchia o ar. As paredes tinham um papel descolado que mostrava manchas de humidade. Fizeram uma suruba, fodendo duro, deixando nossas conas arrombadas. Cada empurrão era uma violação, cada gemido forçado uma traição ao meu próprio corpo. Que asco. Obrigaram-nos a fazer broche coletivo, rodando-nos entre eles como objetos sem vontade. Nunca tinha engolido tanta porra, o gosto impregnando-me a boca, a garganta, a alma.
A "suruba" que se seguiu não tinha nada de prazer. Era pura dominação, uma fúria destrutiva disfarçada de ato sexual. "Fodas-se que filhos da puta... mais devagar, seus caralhos!" A voz de Lisa, rouca de raiva e dor, ecoou em algum canto do salão, mas foi abafada por risadas e gemidos forçados. Cada investida era uma violação, um ato de posse que deixava marcas muito além da pele. A dor era aguda, dilacerante. A sensação de estar sendo "arrombada", como minha mente registrou de forma crua, era de uma violência íntima e profunda.
Um após o outro, eles vinham. E no final, o ato final de posse:
"Gozem dentro," ordenou Silver. Era a humilhação suprema, a marca biológica de sua conquista forçada. A sensação quente e repugnante do sêmen, enchendo um espaço que havia sido invadido, me fez sentir suja de uma forma que nenhum banho poderia limpar. O "asco" era uma onda física, um enjoo que subia da alma.
O "broche coletivo" foi a cereja do bolo de horror. Ficar de joelhos, em fila, obrigada a repetir o ato degradante para vários deles, um após o outro, enquanto eram observadas e encorajadas pelos outros...
Contudo o pior ainda estava por vir…roupas rasgaram-se. A suruba que se desenrolou foi brutal, mecânica, desprovida de qualquer coisa que não fosse dominação pura.
Em um dado momento já tinha um caralho no cu e outro pela cona, então soltei um grito:
“Foda-se que filhos da puta… mais devagar seus caralhos!” a minha voz saiu rouca, um grito que mais parecia um choro. Foi ignorada. O ritmo era duro, impiedoso, cada investida uma afirmação de posse. A dor era aguda, uma sensação de arrombamento, de violação que ia muito além do físico.
Um após o outro, eles gozavam dentro, e eu sentia o fluido quente e repulsivo, uma marca de sua conquista. A vergonha era um manto pesado, sufocante. Até Silver, que parecia ter ficado a observar, se aproximou de Lisa, que estava prostrada ao meu lado, soluçando silenciosamente.
Foi então que ele a virou com brutalidade. Um momento de confusão, e depois um grito dilacerante saiu da garganta de Lisa.
“Foda-se, que merda é essa?! Vais comer-me o cu?”
Silver apenas riu, um som baixo e gutural. “Calma… que já vais gostar…”
Quando finalmente nos libertaram, foi com um empurrão e um aviso sussurrado para não contarmos a ninguém. Saímos cambaleando para o estacionamento escuro, o ar noturno, outrora refrescante, agora parecia pesado e sujo. A adrenalia começou a abandonar o meu corpo, substituída por um tremor profundo e incontrolável.
Mal chegámos junto do meu carro velho, uma onda de náuseas violentas subiu-me do estômago. Dobrei-me ao lado do passeio, as mãos nos joelhos, e o corpo revoltou-se, expulsando o horror físico daquela noite.
— Blup… Foda-se, Lisa… — consegui engasgar, entre golfadas, os olhos cheios de lágrimas ardentes. — Estou a vomitar porra…no chão ficou uma poca de porra de Lycans…
Lisa estava ao meu lado, a mão trémula nas minhas costas, mas o seu toque já não era reconfortante. Nada seria. Ela também estava a tremer, o rímel correndo-lhe em manchas negras pelo rosto. Nenhuma de nós disse uma palavra durante a viagem para casa. O silêncio dentro do carro era espesso, carregado de uma vergonha que nos consumia.
Ao chegar a casa, o meu refúgio já não parecia seguro. As paredes conheciam a minha vergonha. Corri diretamente para a casa de banho, esfregando a pele no chuveiro até ficar vermelha e dorida, tentando apagar o que não era apenas superficial. A água quente não lavava a memória.
Deitei-me na cama, no escuro, enrolada num casulo de lençóis. Tentava forçar a minha mente a ficar em branco, a esquecer os detalhes, os sons, os sabores. Mas a vergonha não era algo que pudesse ser deixado à porta. Tinha-se instalado dentro de mim, uma presença pesada e fria no meu peito. A raiva ainda não tinha chegado — só havia o vazio gelado da humilhação e um medo agudo de que aquela noite me tivesse mudado para sempre, que tivesse roubado qualquer coisa que nunca conseguiria recuperar.
Olhei para o teto, ouvindo o bater descompassado do meu próprio coração, e soube, com uma clareza devastadora, que a rapariga que tinha entrado naquele bar já não existia. O que restava estava ali, naquela cama, tentando, em vão, esquecer.
Três anos se passaram e um dia passeando por Fillmore em San Francisco, ouvi de repente:
"Vanessa?" Me viro e vejo um cara com cara meio familiar.
"Sim?" Falei meio sem graça.
"Sou o Luís, seu irmão!"
"Luís?!" Pulei de surpresa. "Nossa, quanto tempo!".
Ele me convidou pra tomar um café no Starbucks, que lugar clichê né? Mas tá, precisava entender tudo aquilo. A gente se sentou e começamos a fofocar.
"Pensei que você tinha morrido!", ele falou meio cabisbaixo.
"Pois é! Mais ou menos!", respondi tentando ser leve.
"Como assim?" Luís estava confuso.
Respirei fundo e falei: "Sou uma criatura da noite!".
Ele olhou pra mim tipo "tá de sacanagem?".
"Explica melhor!", ele insistiu.
"Sou vampira...", soltei a bomba.
Luís ficou em choque, mas logo soltou um "Foda-se!" Tipo, que resposta é essa? Mas tá, ele estava animado com a coisa toda.
"E poderias me transformar também?", ele perguntou com os olhos brilhando.
"Não tenho autorização do Conselho!", respondi.
"Ninguém precisa saber, só me morde no pescoço e pronto!", Luís estava cada vez mais convencido.
Ele saiu dali achando que eu ia virar sua madrinha vampira. Que ilusão! Leve-o pra minha casa, abri um vinho... estava tão bêbada que nem percebi o que ele tava tramando.
"Que você tá fazendo? Não sou de ferro!", Luís começou a me encher de cantadas.
"Quero fazer você o minete da sua vida?", ele falou com uma voz rouca.
E aí, sem perceber, abaixei minha meia calça e minhas cuecas vermelhas... deixei minha rata à mostra pra ele lambê-la. Aí... bem, vamos dizer que a noite ficou bastante quente!
Imagina só o susto do Conselho quando souberem disso!
Cara, imagina a cena! Eu tava lá, deitada no sofá, mó relaxada. De repente, meu irmão Luis chega com aquela cara de safado, sabe? Tipo "vamos fazer algo maluco". Ele já tinha me contado sobre essa história de virar vampiro, mas eu nunca levei muito a sério. Aí ele começa a me beijar, e as coisas esquentam rápido. Ele tira minha roupa, eu tiro a dele...
De repente, ele tá lá embaixo, chupando a minha ratinha. Eu soltei um grito: "Deixa essa palhaçada e mete isso dentro!" Sério, tava mó excitada! Luis obedeceu na hora. Era estranho, sabe? Sentir o pau do meu irmão dentro de mim... mas ao mesmo tempo, era tão bom! Ficamos se lambuzando, se mordendo, até que... BAM! Os dois gozamos juntos. Minhas pernas tremiam tanto que eu tava quase caindo.
Luis ficou olhando pra mim com essa cara de "nossa, o que a gente fez?". Eu me aproximei dele e mordi seu pescoço, chupando um pouco do sangue dele. Ai, num lance de loucura total, cortei meu pulso com os dentes! Tipo, vampira mesmo! Dei um gole no meu próprio sangue e falei:
"Vai bebe logo, idiota, bebe rápido senão morre!" Ele começou a sugar meu sangue mágico, meio hesitante.
"Calma, não é pra beber tudo", ele disse. Aí eu mandei ele se deitar e descansar. "Só espera o efeito, logo você vai virar um vampiro!", falei animada.
Caramba, eu tava mó feliz em transformar meu irmão! Imagina só, nós dois, vampiros eternos, dominando a noite! Seria épico!
A sombra da vingança
O mundo tinha ganhado novas cores desde que transformei meu irmão Luis. Não eram as cores do crepúsculo ou do luar, mas sim as do sangue compartilhado e da imortalidade conquistada. A nossa ligação, sempre forte, tornara-se uma simbiose perfeita, intensificada por uma paixão que transcendeu os laços fraternos e mergulhou nas profundezas do desejo eterno. Os dias e as noites fundiam-se num só tempo, dedicado ao prazer, à caça, à descoberta dos limites do nosso novo ser. Eu, que outrora fora cautelosa, entregava-me à voracidade dos sentidos com uma fome que me assustava. Tornara-me ninfomaníaca, sim, mas numa escala sobrenatural: só pensava em foder, em sentir, em viver cada instante com a intensidade de quem sabe que o tempo, afinal, já não é um mestre.
Luis, porém, parecia buscar algo mais. Uma centelha de humanidade que eu já tinha deixado para trás. E foi essa busca que o levou até uma mulher que seria um tremendo erro fatal.
Chamava-se Elisa. Apareceu numa noite de nevoeiro, frágil e perdida perto do velho cemitério. Luis trouxe-a para o nosso refúgio, um loft abandonado no topo de um edifício industrial, com o ar despreocupado de quem oferece abrigo. Eu estava ausente, saciando minha fome noutro ponto da cidade. Quando regressei, ao romper da madrugada, senti primeiro o cheiro: sangue doce, mas com um fundo metálico e amargo, como flores murchas sobre aço.
Corri. Encontrei meu irmão no chão da sala, junto ao sofá de couro rasgado. O corpo, outrora tão cheio de força e calor, estava retesado, convulsionando. A pele, pálida por natureza, adquirira um tom cinzento e translúcido, como mármore doente. Os olhos, vermelhos como rubis, estavam opacos, vidrados. Ele ofegava, cada respiração um sacrifício.
— Luis!
Ajoelhei-me ao seu lado, as mãos tremendo sobre o seu peito. O cheiro intensificava-se, vindo dos seus lábios manchados de carmesim.
— O que fizeste? — sussurrei, mas já sabia. O cheiro era dela. O sangue dela.
Com um esforço sobre-humano, ele focou o olhar em mim. Um fio de sangue negro escorreu-lhe pela comissura dos lábios.
— Ela… pediu… — a voz era um arranhão, um sussurro de folhas secas. — Queria ser… como nós… Era… uma armadilha.
A raiva, gelada e afiada, instalou-se no meu peito. — Que estupidez! Como foste tão insensato, Luis? — A pergunta era um grito abafado. Sabíamos dos perigos, das lendas sobre caçadores que inventavam poções com toxinas inócuas mas fatais caso fosse bebido por um vampiro. A ingenuidade dele, aquele resquício de humanidade que o fazia confiar, fora a sua sentença.
Os seus dedos frios agarraram-se ao meu pulso com uma força residual. — O sangue… envenenado… Toxina… inócua para humanos… fatal para… nós. — Uma convulsão mais forte percorreu-o.
Olhei em redor. O apartamento estava vazio, mas a janela que dava para a escada de incêndio estava aberta, as cortinas esvoaçando ao vento frio. A rapariga tinha fugido. Deixara apenas o rasto do seu perfume barato e o veneno no coração do meu irmão.
— Vou buscar ajuda. Vou arranjar um antídoto — menti, sabendo que não havia tempo, nem cura para um veneno concebido com tamanha precisão.
Luis abanou a cabeça, quase impercetivelmente. Um último suspiro, mais um sussurro do que um som, escapou-lhe. — Vinga-me.
E depois, nada. O corpo deixou de tremer. A luz nos seus olhos apagou-se, deixando apenas duas pedras preciosas sem vida. A imortalidade, a nossa grande conquista, revelara-se uma farsa perante um veneno específico e traiçoeiro.
A dor que se seguiu não foi um grito, mas um silêncio absoluto que engoliu todo o som do mundo. Ajoelhei-me na poça fria do seu sangue misturado com o veneno, a minha fome de prazer transformada num vazio abrasador. O desejo que me consumia havia horas parecia agora uma piada de mau gosto, um vício insignificante perante a magnitude daquela perda.
Ergui-me. As lágrimas que desciam pelo meu rosto não eram de água, mas de sangue puro, expressão máxima de uma dor que não tinha palavras. Limpei o rosto com as costas da mão, manchando a pele.
A rapariga, Elisa, era apenas uma ferramenta. Alguém a tinha enviado. Alguém que sabia de nós, que conhecia as nossas fraquezas, que estudara a nossa natureza para criar um veneno que fosse um presente envenenado literal. Alguém que queria Luis morto. Ou talvez quisesse testar a arma nele.
A vingança não seria um ato de fúria cega. A ninfomaníaca que só pensava em prazer morrera ali, no chão, ao lado do irmão. No seu lugar, nascia uma vingadora. A minha caça já não seria por sangue para sustento ou por parceiros para o prazer. Seria por informação. Por verdade. Por sangue de outra espécie.
Jurei, naquele silêncio carregado de morte, que encontraria quem quer que estivesse por trás disto. Iria desenterrar cada pedra, seguir cada pista, usar cada sedução e cada terror ao meu dispor. Transformaria a minha fome insaciável em foco implacável.
A última coisa que fiz antes de deixar o loft para sempre foi fechar os olhos de Luis. Depois, saí pela janela, desaparecendo na neblina da manhã que nascia, uma sombra com um propósito novo e terrível: descobrir quem mandou fazer isto.
E fazer com que bebessem, gota a gota, do mesmo veneno que prepararam. A minha vingança não seria rápida. Seria uma obra de arte, lenta e dolorosa, tal como a morte dele tinha sido. A caça começava agora.
A vingança de Vanessa…
O vento noturno soprava frio nos subúrbios de São Francisco, carregando consigo o cheiro do asfalto molhado e da decadência urbana. Vanessa movia-se através das sombras como uma extensão delas, seus passos silenciosos ecoando apenas na sua própria mente. Dois meses haviam se passado desde que encontrara Luis morto em seu loft, seus olhos ainda abertos em um último espanto silencioso. Dois meses de investigação meticulosa, de seguir pistas tênues, de usar sua imortalidade como ferramenta de investigação.
E finalmente, a pista mais promissora: Elisa.
O bar "La Pata d'Urso" era um antro sujo e mal iluminado, onde a luz vermelha dos néons tingia tudo de um tom sanguíneo. A música country desafinada competia com o barulho de copos e conversas bêbadas. Vanessa observou de seu canto escuro, seus olhos de vampira captando cada detalhe da mulher que entrava sozinha: Elisa, cabelos castanhos desalinhados, roupas simples, mãos que tremiam ligeiramente ao pedir uma bebida. Havia algo nela além da aparência comum—um cheiro familiar, uma assinatura energética que Vanessa reconhecera de imediato. Era a mesma energia residual que encontrara na cena do crime de Luis.
Vanessa aproximou-se com a graça de um predador, seu vestido negro fluindo como líquido escuro.
—"E essa beleza tem nome?" Sua voz era melíflua, um contraste deliberado com o ambiente grosseiro.
—"Sim, Elisa." — Elisa ergueu os olhos, surpresa.
Vanessa sorriu, revelando apenas a sugestão de seus caninos.
—"Sabes, acho que gostava de te chupar a buceta."
A reação de Elisa foi uma mistura de choque e curiosidade. Seus olhos percorreram o corpo de Vanessa, hesitantes mas não resistentes.
—"Como assim?"
—"Podíamos ir até aos banheiros femininos e fazia-te ver as nuvens..."
A sedução foi rápida e eficiente. Vanessa usou não apenas suas habilidades vampíricas, mas também uma compreensão profunda da solidão humana. Elisa, claramente uma mulher à deriva, agarrou-se à atenção como um náufrago à tábua de salvação. Vanessa sentiu uma pontada de desprezo—era tão fácil manipular os mortais quando estavam vulneráveis.
O banheiro feminino cheirava a desinfetante barato e perfume. As luzes fluorescentes piscavam, lançando sombras irregulares nas paredes de azulejos sujos. Vanessa escolheu a última cabine, afastando Elisa para dentro antes de fechar a porta com um clique suave.
Os primeiros momentos foram de carícias intensas—Vanessa usou suas mãos e lábios com precisão cirúrgica, mapeando o corpo de Elisa enquanto observava suas reações. A mulher mortal respirava pesadamente, perdida na sensação, completamente inconsciente do perigo.
Então, o momento mudou.
Vanessa puxou um saco plástico transparente de dentro de sua jaqueta. Antes que Elisa pudesse reagir, ele estava sobre sua cabeça, o plástico colando-se ao seu rosto com cada exalação.
—"Vamos ver como lidas com o saco," sussurrou Vanessa, sua voz agora fria como o mármore de uma lápide.
Elisa lutou, suas mãos batendo contra Vanessa com força desesperada. O plástico inflava e murchava rapidamente.
—"Vamos, quero nomes," insistiu Vanessa, apertando o saco mais firmemente.
—"Hummm, por favor, tem misericórdia..." a voz abafada de Elisa emergiu, fraca e cheia de pânico.
Vanessa não respondeu. Em vez disso, apertou novamente, observando com olhos clínicos enquanto Elisa começava a sufocar. Sangue escorreu do nariz da mulher, manchando o plástico transparente. Seus movimentos tornaram-se fracos, espasmódicos.
Então, Vanessa agiu. Com um movimento rápido, puxou o saco apenas o suficiente para expor o pescoço de Elisa. Sua cabeça inclinou-se, seus caninos alongaram-se plenamente, e ela mordeu.
O sangue que entrou em sua boca tinha um sabor peculiar—metálico, mas com um subtono químico amargo. Vanessa reconheceu o sabor imediatamente: veneno de caçador de vampiros, provavelmente misturado ao sangue de Elisa como uma forma de proteção ou talvez como parte de algum ritual.
Felizmente, ela havia se preparado. A injeção de antídoto que tomara horas antes agora circulava em seu sistema, neutralizando as toxinas enquanto ela bebia. O sangue de Elisa continha memórias—fragmentos de conversas, imagens de rostos, endereços. Vanessa viu Luis sendo atacado por três figuras, viu Elisa observando de uma distância segura, viu a troca de dinheiro depois.
Quando finalmente se separou, Elisa estava inconsciente, mas ainda viva. Vanessa deixou-a cair no chão da cabine, o saco ainda parcialmente sobre seu rosto.
A vingança não seria rápida, como prometera a si mesma. Agora tinha nomes: Marco, Silvia e o misterioso "Aranha". Elisa era apenas a primeira peça, uma mensageira, uma testemunha. Os verdadeiros responsáveis ainda estavam por aí.
Vanessa limpou o sangue de seus lábios, seus olhos refletindo a luz fluorescente como dois pedaços de âmbar congelado. A caça continuava, mas agora com direção. Cada gota de sangue que bebesse a levaria mais perto daqueles que ordenaram a morte de Luis.
E quando os encontrasse, sua vingança seria, de fato, uma obra de arte—lenta, dolorosa e eternamente memorável.
Saindo do banheiro, Vanessa desapareceu na noite, deixando para trás apenas Elisa inconsciente e a promessa silenciosa de que mais sangue seria derramado antes que sua fome de justiça fosse saciada.
A noite estava fria e húmida quando Elisa percebeu o primeiro sinal. Um tremor nas mãos, tão sutil que poderia ser confundido com o frio. Ela olhou para as próprias palmas, pálidas como mármore sob a luz fraca da lua que entrava pela janela do sótão. Duas semanas. Era o tempo que lhe restava.
Vanessa apenas beberá umas gostas de sangue de Elisa. O ataque fora brutal, e Vanessa estaría disposta a oferecer a única cura possível: seu próprio sangue vampírico. Apenas algumas gotas, o suficiente para selar as feridas e manter Elisa viva, mas não o bastante para completar a transformação. Agora, Elisa estava presa em um limbo perverso — nem humana, nem vampira. Uma criatura dependente de um elixir que não ousava buscar.
Os primeiros dias foram de negação. Elisa acordava todas as manhãs esperando sentir fome por comida, pelo cheiro de café fresco ou pão quente. Em vez disso, seu estômago se contraía ante o aroma metálico que vinha do cortume distante. Sua pele, antes rosada, adquirira uma translucidez inquietante. Os sons da cidade chegavam a seus ouvidos amplificados — sussurros a quarteirões de distância, batidas de coração atrás das portas fechadas.
A noite estava fria e húmida sobre a marginal, com o rio escuro refletindo as luzes distantes da cidade. Vanessa caminhava em passo acelerado, os saltos altos ecoando no asfalto molhado. Ela sentia o cheiro da água poluída, misturado com o aroma doce de seu próprio perfume. Não havia ninguém por perto, apenas o som ocasional de um carro passando na distância. Foi então que os faróis cegaram seus olhos—um jipe preto, surgindo do nada como um predador silencioso.
Antes que pudesse reagir, mãos fortes a agarraram por trás. Um capuz de tecido grosso cobriu sua visão, e o mundo virou de cabeça para baixo quando foi arremessada na parte de trás do veículo. O cheiro de gasolina, suor e medo encheu suas narinas. Vanessa lutou, mas as amarras imobilizavam seus pulsos. A escuridão do capuz era absoluta, mas seus outros sentidos se aguçaram—ouviu risadas baixas, sussurros cruéis. Conhecia aquelas vozes. Marco, Piranha e Silvia. Elisa. O bando que jurou caçá-la desde que descobriram o que ela era.
Quando o capuz foi removido, ela estava em um armazém abandonado, com paredes de concreto cobertas de grafites e o chão sujo de óleo. Uma única lâmpada pendurada balançava, projetando sombras dançantes. Sua boca estava forçada aberta por uma bola de mordaça de couro, tão apertada que suas mandíbulas doíam. Ela tentou gritar, mas só saíram sons abafados. Seus olhos se ajustaram à luz fraca, e ela viu Marco à sua frente, um sorriso torto em seu rosto marcado.
— “Vamos, coloquem-lhe o torno no joelho,” ordenou Marco, erguendo um instrumento de metal enferrujado…era uma tortura conhecida como esmagamento de joelho…
— “Vamos torturar essa vampira…
Se eles apertassem muito, poderiam desfazer-lhe aquela bonita perna.
—” Seus olhos brilhavam com uma crueldade que Vanessa conhecia bem—era a mesma que ela via em caçadores há séculos. Piranha segurava suas pernas, enquanto Silvia a observava com um olhar de triunfo. Elisa, a mais nova do grupo, ficava um pouco afastada, seus dedos tremendo.
Vanessa sentiu o metal frio contra sua pele. O torno começou a apertar, lentamente, esmagando sua rótula. A dor foi uma explosão branca, tão intensa que sua visão escureceu.
— “Arggg, hummm…” ela gemeu, as lágrimas escorrendo por seu rosto. Seus ossos rangiam, mas seu corpo imortal já começava a lutar contra o dano, uma dor lacerante e insuportável sob a pele enquanto os tecidos em vão se tentavam reconstruir. Marco riu.
— “Dizem que vocês se curam rápido. Vamos testar até onde vai a tua resistência.”
— “Elisa,” Marco chamou, sem tirar os olhos de Vanessa.
— “Vê se a mordaça de Vanessa está bem apertada. Não quero que ela grite e atraia atenção.” Elisa hesitou, seus pés arrastando-se no chão. Ela se aproximou, seus olhos encontrando os de Vanessa. Havia algo ali—um brilho de dúvida, de cansaço. Vanessa, através da dor, manteve o contato. Mas Vanessa pode notar um ar cúmplice nos olhos de Elisa, sua repulsa crescente pelos métodos brutais que eles usavam ela estava disposta a ajudar a sua inimiga Vanessa. Elisa estendeu a mão, fingindo ajustar as tiras da mordaça. Seus dedos, porém, trabalharam rápido e discretamente, afrouxando o nó na parte de trás da cabeça de Vanessa. Foi um movimento quase imperceptível, mas o alívio foi instantâneo—a pressão em suas mandíbulas diminuiu.
Marco voltou sua atenção para o torno, apertando-o mais um pouco. Vanessa gritou por trás da mordaça, mas desta vez o som foi mais alto. Silvia riu, inclinando-se para perto.
— “Parece que está gostando, criatura.” Foi então que Elisa agiu. Com um impulso repentino, ela empurrou Silvia com força, fazendo-a tropeçar e cair diretamente sobre Vanessa. A mordaça, já solta, caiu da boca de Vanessa. Sem pensar, movida por séculos de instinto de sobrevivência, Vanessa abriu a boca e enterrou seus caninos no pescoço exposto de Silvia.
O sabor do sangue—quente, metálico, cheio de vida—inundou sua boca. Silvia gritou, tentando se debater, mas as mãos de Vanessa, ainda amarradas, a seguravam com força sobrenatural. Ela drenou, sugando a vida, a energia, a própria essência de Silvia. O corpo da caçadora convulsionou, seus membros se contorceram, e sua pele começou a murchar e rachar. Em menos de um minuto, o que restou foi apenas um punhado de cinzas e tecido desintegrado, caindo no chão como pó. O armazém ficou em silêncio, exceto pela respiração ofegante de Vanessa e pelo choque paralisante de Marco e Piranha.
Vanessa quebrou as amarras com um único movimento, os pulsos sangrando por um instante antes de se fecharem. Seus olhos, agora completamente negros, fixaram-se em Piranha. Ele tentou correr, mas ela foi mais rápida. Agarrou-o pelo cabelo, e com uma torção brutal, arrancou sua cabeça do corpo. O sangue jorrou, quente e escarlate, pintando o chão. Ela deixou o corpo cair, virando-se para Marco, que recuava, tropeçando em ferramentas.
Mas ela não o tocou. Em vez disso, levou seu próprio braço à boca e mordeu profundamente, rasgando a carne. O sangue escuro e viscoso de vampiro escorreu. Ela se virou para Elisa, que estava encostada na parede, pálida e tremendo, os olhos arregalados de horror e fascínio.
— “Vamos, idiota,” Vanessa disse, sua voz rouca da mordaça e da sede recente. Ela estendeu o braço sangrando. “Esta é a tua cura. Bebe, se não quiseres morrer.” Ela sabia o que significava. Marco não deixaria Elisa viver após essa traição. Beber seu sangue não a transformaria instantaneamente—era um processo—mas daria a Elisa uma chance, uma centelha da imortalidade que a salvaria de uma morte certa e brutal.
Elisa olhou para Marco, que agora sacava uma faca, seu rosto distorcido por ódio e traição. Ela olhou para o sangue escuro escorrendo pelo braço pálido de Vanessa. Havia uma escolha: a morte nas mãos de seu líder, ou um pacto com a criatura que ela deveria caçar. Elisa fechou os olhos por um segundo, e então, com uma decisão que vinha de um cansaço profundo de uma vida de violência sem sentido, inclinou-se e prendeu os lábios no ferimento.
O sabor era estranho—amargo, elétrico, como cinzas e tempestade. Uma onda de frio percorreu seu corpo, seguida por uma sensação de poder cru. Ela bebeu, e enquanto o fazia, viu Marco avançar, a faca erguida. Vanessa, com um sorriso sombrio, interceptou-o. O confronto final foi rápido e brutal.
Quando Elisa afastou-se, cambaleando, o mundo ao seu redor parecia mais nítido, os sons mais altos, o cheiro do sangue e do pó enlouquecedor. Vanessa limpou o sangue do braço, a ferida já fechando. “Agora,” sussurrou a vampira, pegando a mão de Elisa, “você pertence à noite. Vamos.”
Elas deixaram o armazém, desaparecendo nas sombras da marginal, enquanto o primeiro raio de sol começava a colorir o horizonte de laranja—um novo dia para uma nova criatura, e o fim de uma longa noite de terror.
O despertar das sombras
O vento noturno sussurrava segredos antigos pelas ruas de pedra da cidade, enquanto duas figuras emergiam da loja de roupas finas como borboletas saindo de casulos escuros. Vanessa observou Elisa com um sorriso que refletia sua beleza com as luzes de néon…decidiram entrar num grande shopping especialista em roupas femininas…
— “Agora precisamos comprar umas roupas dignas de duas divas,” dissera Vanessa.
Elisa movia-se com uma hesitação que rapidamente se transformava em confiança, cada passo dos sapatos de salto alto vermelho com tiras e fivelas ecoando como um metrônomo no silêncio da rua deserta. As meias de cinto ligas vermelhas com renda no topo contrastavam com a palidez sobrenatural de suas pernas, quase luminosas sob a luz da lua. A saia vermelha de couro, com botões ao meio, sibilava a cada movimento, enquanto a blusa branca e o casaco de couro vermelho completavam a imagem de uma fera elegantemente contida.
— “Estás um espanto,” disse Vanessa, sua voz um fio de seda envenenada.
Vanessa própria era a escuridão personificada. As mini botas de salto alto com fecho de lado pareciam fundir-se às sombras, as meias-calças pretas tornando suas pernas extensionais da noite. A saia preta de couro, a camisa branca com colarinho e a gravata preta davam-lhe um ar de executiva de um negócio macabro. O casaco de couro preto abria-se como asas quando ela se movia, e os óculos escuros ocultavam olhos que haviam testemunhado séculos de fome.
Agora estavam por conta própria. Vanessa cortara os últimos laços com o clã de vampiros que a mantivera em rédeas curtas por décadas. A hierarquia, as regras, a necessidade de permissão para cada gole de vida—tudo isso pertencia ao passado. Juntamente com Elisa, sua mais recente e mais dedicada conversa, fariam o que lhes daria na real gana. O pensamento era intoxicante, mais do que qualquer sangue.
— “Sentes?” perguntou Vanessa, parando sob um poste de luz cujo brilho amarelo parecia recuar diante delas.
Elisa respirou fundo, não por necessidade, mas por hábito mortal recentemente abandonado.
— “Sinto… espaço. Ar. Possibilidade.”
— “Mais do que isso,” corrigiu Vanessa, removendo os óculos. Seus olhos, de um âmbar quase luminoso, fixaram-se na rua à frente.
— “Sente-se o medo. Está no ar, como perfume barato. Eles sabem, mesmo sem saber. Os animais sempre sentem quando os predadores mudam de território.”
Um casal riu ao virar a esquina, envolvido em sua própria bolha de normalidade. Pararam abruptamente ao ver as duas mulheres. O riso morreu. A mulher apertou a mão do companheiro. Não havia nada explicitamente ameaçador naquelas duas figuras elegantemente vestidas, e ainda assim cada fibra de seus corpos mortais gritava para fugir.
Vanessa sorriu, mostrando apenas os dentes superiores. O casal desviou os olhos e apressou o passo, desaparecendo na próxima rua.
— “Veem apenas a roupa,” sussurrou Elisa, um fio de desprezo em sua voz suave. “Veem o couro, o salto, a gravata. Pensam que é uma fantasia. Não veem o que está por baixo.”
— “E é assim que deve ser,” assentiu Vanessa, recolocando os óculos. “A elegância é a melhor camuflagem. Quem suspeitaria de divas?”
Caminharam, seus passos sincronizados. A cidade se estendia diante delas—um bufê ilimitado, um parque de diversões de pulsos saltantes e pescoços expostos. Podiam morder quase tudo sem ter que dar satisfações a ninguém. Nenhum ancião do clã para ditar alvos, nenhum tratado frágil com outros grupos sobrenaturais para respeitar, nenhuma necessidade de esconder os corpos. Apenas fome e vontade, dançando uma valsa nova e perversa.
— “Por onde começamos?” perguntou Elisa, sua língua passando sobre os caninos que agora se alongavam suavemente, pressionados pela antecipação.
Vanessa parou em frente a um clube noturno. A música pulsante vazava pelas portas, um batimento cardíaco artificial para a noite. Dentro, corpos suados se agitavam, corações acelerados pelo álcool e pela proximidade. Sangue quente, rápido, cheio de adrenalina e emoção.
— “Aqui,” disse Vanessa, sua voz quase perdida no som.
— “No meio da multidão. Onde o desaparecimento é apenas mais uma pessoa que foi para casa mais cedo. Onde o grito é apenas mais uma nota na música.”
Elisa estremeceu de prazer. A liberdade tinha um gosto agridoce, metálico. Era o gosto do sangue, sim, mas também o gosto do poder puro, não filtrado, não diluído.
Vanessa abriu a porta do clube, e uma onda de calor, som e cheiro de humanidade atingiu-as. Centenas de vidas, centenas de histórias, centenas de veias cheias de líquido escarlate. Elas trocaram um olhar—um entendimento completo que não precisava de palavras.
Um novo capítulo começara. Não o capítulo de sobreviventes escondidos nas sombras, vivendo de migalhas e permissões. Este era o capítulo das divas do crepúsculo. Vestidas com o couro da rebelião e o cetim da ambição, elas adentraram a massa de corpos, e a noite engoliu-as, transformando-as em mais duas figuras dançantes, duas silhuetas elegantes.
Mas enquanto se moviam, a música parecia abrandar para seus sentidos aguçados. Conseguiam ouvir o ritmo individual de cada coração ao seu redor—uma sinfonia tentadora de ta-ta-tum, ta-ta-tum. Conseguiam sentir o calor irradiando da pele, o cheiro doce e salgado do suor misturado ao perfume e ao medo latente.
Vanessa encostou os lábios no ouvido de Elisa, seu sussurro cortando o ruído como uma lâmina.
— “Lembra-te, querida. Não é apenas sobre a fome. É sobre o sabor. O sabor da liberdade.”
E quando seus olhos, ocultos pelos óculos escuros ou não, pousaram na primeira vítima—uma jovem de pescoço longo e desprotegido, rindo muito alto perto do bar—ambas souberam que este não era um simples banquete.
Era uma declaração.
O clã poderia eventualmente ouvir falar. Outros poderes na cidade poderiam notar a perturbação no equilíbrio frágil. Mas isso era um problema para outra noite. Esta noite, e todas as noites que se seguiram, pertenciam apenas a elas.
As divas haviam chegado. E a cidade, inconsciente e despreparada, estendia seu pescoço para a lâmina…
Vanessa já estava habituada a alimentar-se de sangue contudo para Elisa tinha sido uma extreia…Vanessa para não a preocupar tinha omitido os primeiros efeitos secundários de beber sangue, para Elisa a sua experiencia como vampira não seria fácil…assim alimentadas por um tempo deixaram aquele bar…
A noite estava densa, envolta em um manto de névoa fria que se agarrava à estrada deserta. O carro preto e elegante de Vanessa deslizava como uma sombra sobre o asfalto húmido, o ronco do motor um zumbido discreto no silêncio. No banco do passageiro, Elisa encolhia-se, as mãos pálidas apertadas contra o estômago. O banquete havia sido… generoso. Demasiado generoso, talvez, para um sistema ainda em adaptação…
Vanessa, séculos de experiência esculpidos em sua postura impecável, lançou um olhar lateral à sua companheira. Via a palidez que não era a habitual, o suor frio na testa, a mandíbula apertada. Conhecia os sinais. Tinha visto tantas, ao longo dos séculos, passarem por aquela provação inicial.
— Estou a sentir-me mal, encosta o carro! — a voz de Elisa saiu entrecortada, um sussurro urgente carregado de pânico.
Sem uma palavra, Vanessa reduziu a velocidade e guiou o veículo para a berma, os pneus esmagando gravilha. Mal o carro parou, Elisa arremessou a porta aberta e cambaleou para fora, apoiando-se na lateral fria do metal. O mundo girava. As luzes das estrelas acima pareciam manchas borradas, e o cheiro do sangue — seu sangue agora, mas ainda com o eco metálico e doce das vítimas — subia-lhe à garganta com uma força avassaladora.
— Blurp… blurp…
O som foi horrível, húmido e convulsivo. Seguiram-se vários jatos de vómito, um líquido escarlate e espesso que jorrou no asfalto escuro, brilhando sob o fraco luar. Não era o conteúdo de um estômago humano, mas uma regurgitação do próprio poder que a sustentava. Cada convulsão era uma rejeição violenta, o corpo imortal de Elisa lutando para assimilar a essência vital que lhe fora forçada. Ela caiu de joelhos, ofegante, os dedos enterrados na terra fria da berma, enquanto ondas de náusea e uma fraqueza profunda a inundavam.
Vanessa saiu do carro com uma calma sobrenatural. Aproximou-se e ficou parada a uma distância respeitosa, observando não com desdém, mas com uma compreensão amiga. O vento noturno agitou-lhe os cabelos negros como ébano.
— Bem, isso vai passar — disse a voz de Vanessa, suave mas firme, cortando o som dos gemidos de Elisa. — É o preço da iniciação. O corpo precisa de aprender a reter, a transformar. É como um músculo que nunca usaste.
Elisa ergueu um rosto manchado de vermelho, os olhos — ainda com um brilho demasiado humano de terror — fitando a veterana. — Sinto… sinto que estou a morrer. De novo.
— Não estás a morrer — Vanessa corrigiu, um fio de impaciência na voz. — Estás a mudar. E a mudança dói. Agora, levanta-te. Temos de procurar um sítio para dormir. O sol não vai esperar pela tua convalescença.
Com um esforço hercúleo, Elisa arrastou-se de volta para o carro, o corpo tremendo, o vestido manchado. O interior do veículo cheirava a couro caro e a um leve traço do perfume de Vanessa — jasmim e algo mais antigo, terroso. Enquanto Vanessa retomava a estrada, Elisa encostou a cabeça no vidro frio, observando as árvores escuras passarem como espectros. O vómito deixara uma sensação de vazio, mas também um certo… alívio. Como se tivesse expelido um último resquício da sua humanidade frágil.
O hotel mais próximo era um edifício antigo e sombrio à beira da estrada, com um letreiro de néon piscando erraticamente: "Hotel Hot Star". Ironicamente apropriado, pensou Vanessa com um sorriso interior. Estacionou atrás do edifício, longe dos olhares curiosos.
O rececionista era um homem magro e sonolento, com olhos que não se fixavam em nada por muito tempo. Vanessa abordou-o com um charme glacial, os olhos cintilando por um instante sob a luz fraca do balcão. O homem pareceu ficar um pouco mais vago, um pouco mais complacente.
— Um quarto. O mais isolado. Sem visitas da limpeza — ordenou Vanessa, a voz uma melodia hipnótica.
O homem anuiu, entregando uma chave pesada sem perguntar por documentos ou cartão de crédito. O quarto 13, no final de um corredor escuro e com um cheiro a mofo e a desinfetante barato. Era sombrio, com papel de parede descascando e uma única lâmpada fraca, mas as grossas cortinas de veludo vermelho escuro prometiam segurança contra o amanhecer que se aproximava.
Mal a porta se fechou, Elisa desmoronou-se sobre a cama dura, um suspiro profundo escapando-lhe dos lábios.
— Como é que… como é que suportaste isto, no início? — perguntou, a voz rouca.
Vanessa, que inspecionava as janelas, virou-se. No fraco luzir do quarto, os seus traços pareciam esculpidos em mármore pálido.
— Suporta-se porque não há alternativa. A fome ensina, a dor disciplina. Amanhã à noite, estarás mais forte. E com fome outra vez. O ciclo repete-se, até que um dia, deixas de vomitar. Deixas de te sentir mal. E começas a sentir… prazer.
A palavra pairou no ar, carregada de uma promessa sinistra. Elisa fechou os olhos, a imagem do sangue vomitado na estrada ainda vívida na sua mente, misturando-se com a memória do sabor doce e vital que o precedera. Era um horror. Mas também era poder. Um poder que a arrastara para fora da sepultura da sua vida mortal.
Vanessa aproximou-se da cama e pousou uma mão gelada na testa de Elisa, num gesto que poderia ser interpretado como maternal, se não fosse a frieza absoluta do toque.
— Dorme agora. O quarto está seguro. E quando acordares… o mundo será ainda mais escuro, e ainda mais teu.
Enquanto Elisa caía num sono inquieto e sem sonhos, o corpo a recuperar das convulsões, Vanessa sentou-se numa poltrona junto à janela. Ficou imóvel, vigiando as primeiras faixas cor-de-rosa do amanhecer riscarem o horizonte lá fora, para além das cortinas seguras. Para ela, a noite tinha sido rotineira. Para Elisa, tinha sido um novo degrau na escada infinita da escuridão. E Vanessa sabia, com a certeza dos séculos, que os vómitos de sangue eram apenas o prelúdio. A verdadeira fome, a sede que nunca se saciava completamente, era o que estava por vir. E ela estaria lá para guiar a sua nova irmã na noite, através de cada novo e horrível banquete.
Uma paixão escondida
O despertar deveria ter sido suave, envolto no calor do corpo de Elisa ao meu lado. O sol da manhã filtrou-se pelas persianas, pintando listras douradas sobre a pele nua dela. Passei a mão pelo seu rosto, comovida por uma onda de ternura tão profunda que doía.
— “Sabes, te amo muito”, sussurrei, as palavras saindo como uma confissão sagrada no silêncio do quarto.
Elisa abriu os olhos, um sorriso lento e sonolento curvando seus lábios.
— “Eu também te amo”, respondeu, a voz ainda rouca do sono. E então nos beijamos. Não era o beijo habitual, rápido e doce. Era profundo, lento, uma exploração. Dessa vez, fui eu quem iniciou, mas Elisa tomou a frente com uma fome que me surpreendeu. Sua língua deslizou contra a minha, e havia uma técnica nela, uma insistência quase cirúrgica em roçar cada nervura, cada curva do meu paladar. Um arrepio percorreu minha espinha, não totalmente desagradável, mas intenso, quase demasiado. Quando nos separamos, meus lábios formigavam, e o ar parecia mais frio.
Elisa me puxou para mais perto, suas mãos deslizando pelas minhas costas com uma posse que era ao mesmo tempo familiar e, naquele momento, ligeiramente opressiva. Seu toque desceu, e eu ri, um som nervoso e estridente no quarto silencioso.
— “Isso faz cócegas”, protestei, tentando me contorcer, mas seus braços eram como cipós.
— “Shhh”, ela sussurrou contra meu pescoço, e sua mão continuou seu caminho. O riso morreu em minha garganta quando dois dedos dela, súbitos e decididos, entraram na minha buceta. Estremeci, uma sacudida violenta de surpresa e prazer agudo. Foi como um choque elétrico, doce e penetrante.
— “Tudo bem?” ela perguntou, seu hálito quente em meu ouvido.
Eu tentei encontrar ar.
— “Sim… só que…” Hesitei, tentando articular a sensação estranha e intrusiva que acompanhara o prazer.
— “As tuas unhas… pareciam raspar meu útero. Foi uma sensação… estranha.”
Elisa ficou imóvel por um segundo. Depois, riu baixinho, um som que não chegou aos seus olhos, que permaneciam fixos em algum ponto sobre meu ombro.
— “Desculpa, amor. Devo ter me esquecido de apará-las ontem.”
Ela retirou a mão e a levou aos lábios, como se estivesse provando algo. Um calafrio, diferente de qualquer outro, percorreu-me.
O segundo beijo ainda ecoava em meus lábios, uma fusão doce e salgada, quando os dedos de Elisa encontraram os contornos de meus seios.
—Hum —solto um gemido abafado, uma vibração que senti em minha própria boca. Afastei-me apenas o suficiente para observar meus mamilos endurecidos com fome de mais… Quando meus lábios envolveram um dos seus seios, Elisa arqueou as costas, um suspiro escapando-lhe como um fio de voz.
—Delícia…humm…era gelado, como mármore sob a lua, mas pulsava com uma vida própria. Chupei, saboreando a ausência de calor, a textura única. Enquanto o fazia Elisa gemeu baixinho, uma melodia antiga e quebrada, enquanto minhas mãos desciam, traçando o caminho de seu torso esguio até encontrar seus pelos púbicos. Meus dedos deslizavam como seda em sua pele. Minhas pontas dos dedos tocaram a carne mais íntima, e uma humidade fria e espessa me recebeu…
—Nossa que gostosa você tá! — sussurrei contra sua pele, e Elisa se contorceu toda, um tremor percorrendo seu corpo como o de uma corda de violino muito apertada…
Deitei-me a seu lado puxando-a suavemente para cima de mim.
— “Vem,” ordenei, minha voz um rosnado suave. Elisa entendeu, posicionando-se sobre meu rosto, suas coxas de alabastro enquadrando minha visão. O aroma era intoxicante, um perfume de jasmim noturno e terra húmida. Mergulhei minha língua naquela fenda melada, bebendo o néctar gelado que escorria dela. Era doce e metálico, o sabor da vida suspensa. Ela se movia, esfregando-se contra meu rosto num ritmo frenético, seus gemidos crescendo em volume e desespero.
Suas mãos se enterraram em meus cabelos, depois desceram para as laterais de meu rosto. De repente, suas coxas se fecharam como uma armadilha de aço ao redor de minha cabeça, pressionando com uma força sobrenatural.
— “Mais,” Elisa gritou, uma palavra rouca e imperiosa.
— “Enterra tua língua. Bebe tudo.” A pressão aumentou. A visão escureceu nas bordas, e o ar faltou. Mas eu não lutava. Aceitava. Engolia cada gota daquele “caldinho branco”, esse elixir vital e gelado que sustentava a existência e agora alimentava meu próprio êxtase. Finalmente, um tremor cataclísmico a percorreu. Elisa soltou meu rosto e desmoronou ao meu lado, ofegante, suas pernas tremendo visivelmente.
Ajudei-a a se levantar, seus passos vacilantes. Nosso próximo beijo foi lento, profundo, e ela saboreou, com um sorriso cansado e lascivo, o próprio sabor de sua essência em meus lábios. Ficamos abraçadas na luz ténue que entrava pela janela alta, a poeira dançando nos raios de luz moribundos.
Foi Elisa quem quebrou o silêncio carnal. Sua voz, normalmente uma suave cantoria, soou como um comando.
— “Vanessa. Abre bem as pernas.”
E eu obedeci, com olhos vítreos fixos em Elisa. Começamos novamente, um triângulo de desejo ancestral. Enquanto Elisa beijava minha boca, minhas mãos refizeram a jornada explorando seu corpo. Desci pelo pescoço, onde as veias azuladas pulsavam sob a pele translúcida, pelos seios que mordiscava e lambia, deixando marcas vermelhas que desapareciam em segundos. Desci pela barriga lisa, pelo umbigo, beijando e mordiscando leve a carne fria, até me ajoelhar novamente no vão divino entre suas pernas.
Desta vez, fui mais lenta, mais cruel. Lambi, sim, mas também mordi os lábios vaginais externos, puxei com meus dentes, suguei o grelo até ele ficar inchado e vibrante como um coração. Ela se contorcia, uma marionete em meus fios de saliva e prazer.
— “Que delícia… sou todinha sua… vai… Ooooh… Não para… Ai, ai, ai…” Seus gritos ecoaram naquele quarto de hotel. Quando a segunda onda a atingiu, mais forte que a primeira, seu gozo jorrou em minha boca, uma cascata gelada e abundante. —Que delícia de vampira, pensei, engolindo com devoção.
Enquanto jazia ofegante nos lençois, Elisa me recolheu em seus braços, acariciando-me o rosto suavemente, sussurrando palavras lascivas, até o tremor cessar e meus olhos recuperarem o foco.
Então olhei para Elisa. Não era um olhar de gratidão, mas de retribuição selvagem. Sem uma palavra, inverti as posições. Minha boca encontrou agora os seios de Elisa, sugando-os com uma ferocidade que a fazia estremecer. Fui descendo, numa peregrinação de beijos e mordidas, até chegar ao destino. A “bucetinha” de Elisa não estava apenas melado; parecia fumegar, uma brasa de desejo contido em uma forma gelada. Sem piedade ataquei-o com maestria, minha língua um instrumento de tortura sublime, focando no ponto mais sensível até fazer Elisa tremer como uma folha ao vento, até o “branco néctar”, leitoso e espesso, jorrar e escorrer pelos cantos de minha boca satisfeita.
Foi então que encontramos uma nova sinuosidade. Entrelaçamos, pernas com pernas, num abraço íntimo que colocou nossas fendas húmidas uma contra a outra. Esfregavamos, num movimento lento e depois frenético, trocando fluidos, gemidos e energia. O atrito da carne fria contra carne fria produziu um som húmido e obsceno, a trilha sonora de nosso orgasmo simultâneo, um duplo suspiro rouco que se transformou em um grito abafado.
Assim exaustas, mas insaciáveis, ainda encontraram forças para uma última volúpia. Em uma posição de “meia nove” entrelaçada, onde cada uma podia alcançar os segredos da outra, não negligenciaram nenhum território. Lambidas exploratórias, promessas sussurradas, até que a atenção se voltou, com curiosidade e posse, para o cuzinho, um anel de músculo contraído que também recebeu sua homenagem de língua e dentadinhas leves.
Não demos pelas horas pasar e o sol já se esconderá atrás das montanhas, pintando o céu de roxo e laranja. No interior daquele quarto de hotel, entre o amontuado de roupa espalhada no chão e o cheiro de veludo e sexo, transamos mais… quatro vezes? ou talvez cinco? O tempo perdeu o significado. Aquela fora o desabrochar de uma paixão escondida uma variação sobre o mesmo tema de fome e entrega, uma exploração de corpos que não conheciam cansaço mortal, apenas a saciedade temporária do desejo…Elisa se descobrira como vampira e amante e eu Vanessa com meus 120 anos descobrira minha “bixessualidade”…
Quando a última faixa de luz desapareceu, ficamos entrelaçadas no chão, um emaranhado de membros pálidos e cabelos escuros. Não havia calor para compartilhar, apenas o frio companheiro de nossa natureza. O banquete havia terminado. Por enquanto. O silêncio da noite, nosso verdadeiro reino, descia sobre nós, e em seus ouvidos mais aguçados, o fraco e rítmico bater de um coração humano ecoava, distante, da vila ao pé da colina. Era um som que prometia que a fome, mais cedo ou mais tarde, sempre retornaria.
