Conspiração 11.

Um conto erótico de Lukinha
Categoria: Heterossexual
Contém 6884 palavras
Data: 16/02/2026 12:47:02

Ainda no passado:

Os dias começaram a se confundir.

Mariana dormia, cada vez menos, no apartamento. No começo, dizia que era provisório. Uma semana. Depois duas. Quando percebi, suas roupas já estavam espalhadas pelo quarto de hóspedes. Nosso apartamento tinha virado apenas um endereço no papel; a casa dos meus pais tinha virado a nossa trincheira.

Minha mãe evoluía devagar. Conseguia mexer dois dedos da mão esquerda. A fala ainda vinha arrastada, mas vinha. Cada pequena vitória parecia uma medalha invisível pendurada no peito de todos nós.

Mariana estava sempre ali.

Às vezes eu chegava do trabalho e a encontrava sentada ao lado da cama da minha mãe, lendo em voz alta para estimular sua dicção. Outras vezes, discutindo com o plano de saúde ao telefone com uma firmeza que eu não lembrava que ela tinha. Ela usava termos médicos, anotava horários em uma planilha, organizava a cozinha da minha mãe como se fosse dela.

Eu ajudava. Claro que ajudava. Mas era diferente. Ela estava presente por inteiro. Eu estava presente, mas resistindo com cada fibra do meu corpo.

O apartamento virou assunto inevitável quando o primeiro boleto acumulado venceu.

— A conta de luz veio quase o mesmo valor de quando a gente morava lá direto. — Eu disse, mostrando o aplicativo no celular enquanto ela separava os comprimidos da noite. — Como isso é possível se o lugar fica praticamente fechado?

Mariana não parou o que estava fazendo. O som das pílulas batendo no plástico do organizador era o único ritmo da sala.

— Geladeira ligada. Taxa mínima de água. Condomínio. IPTU. Essas coisas não entram em pausa só porque você decidiu não voltar.

Eu respirei fundo, sentindo o peso do cansaço na nuca.

— Eu não “decidi”. As circunstâncias mudaram. Minha mãe precisa de mim.

Ela ergueu o olhar, me encarando de frente, sem o filtro da "enfermeira dedicada".

— Não, Ricardo. Você decidiu. A sua mãe precisa de cuidados, e isso nós estamos dando. Mas você decidiu que o apartamento é um território contaminado. Você está fugindo de lá como se as paredes fossem te contar alguma história macabra.

Olhei para o corredor, certificando-me de que meu pai estava no quintal. Minha voz baixou para um sussurro tenso.

— Eu não vou voltar para aquele lugar para fingir que nada aconteceu. Para me deitar naquela cama e me perguntar se você se sentou ali para mandar mensagem pro Bruno enquanto eu tomava banho.

Ela se levantou devagar. O rosto pálido, mas os olhos acesos.

— Ninguém está pedindo para você esquecer. Mas você está usando a doença da sua mãe como um escudo moral para não enfrentar a nossa vida.

— Escudo? — Minha voz ficou mais dura. — Eu estou pagando metade de um lugar que não posso usar porque você transformou nossa casa em um … um laboratório de experiências. O que você quer? Que eu durma lá enquanto você vive sua nova "filosofia de liberdade" nos nossos lençóis?

O maxilar dela travou. Ela deu um passo à frente, entrando no meu espaço pessoal. O cheiro de álcool em gel e café que emanava dela me atingiu.

— Você sabe muito bem que eu não levei ninguém lá. Eu te disse isso e não vou repetir. Mas você prefere a imagem da "esposa puta" porque é mais fácil de odiar do que a mulher que está aqui, limpando o vômito da sua mãe às três da manhã enquanto você finge que dorme.

Aquilo me atingiu como um soco. Recuei um centímetro, mas não cedi.

— Não transforma isso numa punição financeira, Ricardo. — Ela continuou, com a voz trêmula, mas contida. — A casa ainda é sua também. Se está tão insustentável, a gente pode alugar por um tempo. Ou vender. Resolver de vez e cada um segue com o seu prejuízo.

A palavra "vender" atravessou meu peito. Era o último símbolo concreto do que fomos. Do dia em que assinamos a escritura e brindamos com vinho barato no chão da sala vazia.

— Não! — Respondi rápido demais.

Ela percebeu. E um meio sorriso amargo surgiu em seus lábios.

— Então decide o que você quer. Porque ficar nesse limbo custa caro. Custa dinheiro … e custa o resto de sanidade que nos sobra.

Eu não respondi. Porque ela estava certa. Eu reclamava das contas, mas não queria abrir mão do apartamento. Reclamava da convivência, mas não ia embora. Reclamava dela, mas continuava ali, todos os dias, dividindo a rotina, as decisões médicas, o cansaço.

À noite, quando meus pais finalmente dormiam e a casa ficava em silêncio, a gente dividia a cozinha como dois inquilinos que dividiam um segredo terrível.

— Você pode dormir no apartamento se quiser. — Ela disse uma vez, sem me olhar, enquanto lavava uma xícara. — Eu fico aqui. Pode ter seu espaço.

Eu olhei para as costas dela, para a curvatura dos ombros que pareciam carregar o mesmo peso que os meus.

— Eu estou bem aqui.

— Eu sei. — Ela respondeu, e o som da água batendo na louça pareceu preencher todo o vazio da cozinha.

Aquela resposta não era sobre conforto físico. Era sobre guerra. Era sobre o fato de que, mesmo no meio de todo o ódio e da traição, a gente ainda era o único porto seguro um do outro para enfrentar a morte de perto.

A verdade é que eu já não sabia mais se estava evitando o apartamento … ou evitando admitir que a distância entre nós tinha diminuído alguns centímetros. Pequenos demais para celebrar. Grandes demais para ignorar.

O verão chegou sem pedir licença.

A casa dos meus pais sempre foi quente naquela época do ano. Ventiladores ligados o dia inteiro, janelas abertas, o cheiro de inseticida aerossol misturado ao de remédio.

E Mariana acompanhava a estação. Shorts curtos demais para serem ignorados. Tops leves, que mal cobriam os seios, tecidos finos que pareciam desafiar a gravidade. Cabelos presos de qualquer jeito para aliviar o calor, deixando o pescoço exposto.

Eu fingia que não via. Mas via. Era impossível não ver.

Ela se inclinava para ajudar minha mãe com os exercícios. Se sentava no chão da sala para organizar documentos. Caminhava descalça pelo corredor, o quadril desenhando movimentos involuntários que meu corpo reconhecia antes mesmo da minha razão permitir.

Eu estava exausto. Exausto da doença. Das contas. Da convivência forçada. E da abstinência sexual.

Trancado no meu antigo quarto, cercado por pôsteres que já não faziam mais sentido e pelo cheiro de mofo de uma vida que eu não reconhecia mais, eu tinha voltado a um hábito adolescente que achava ter deixado para trás. Não era prazer; era uma purgação. Eu me acabava na punheta, com os olhos fechados e os dentes cerrados, tentando expulsar a frustração do corpo. O pior de tudo era a imagem que vinha: eu me masturbava desejando a única mulher que jurei a mim mesmo ignorar, enquanto ouvia o som dos passos dela no corredor, logo atrás daquela porta.

Porque dividir aquele espaço exíguo com Mariana — que permanecia linda, perigosamente atraente e agora carregava uma aura de maturidade que eu não conhecia — exigia um tipo de autocontrole que eu nunca fui treinado para ter. Fingir indiferença enquanto sentia o perfume dela impregnar o corredor, ou enquanto observava o movimento dos seus quadris quando ela se abaixava para cuidar da minha mãe, era um exercício de autoflagelação.

Eu tentava manter minha armadura, mas a cada dia as placas imaginárias de metal pareciam mais pesadas. E eu estava falhando. Miseravelmente.

Bruno continuava aparecendo como uma sombra persistente. Sempre à tarde. Geralmente quando eu não estava, como se ele tivesse um cronômetro sintonizado com os meus horários de trabalho. Ele vinha sempre munido da justificativa perfeita: ver como minha mãe estava, ajudar meu pai com alguma burocracia, ou trazer a mãe dele para uma visita de cortesia que cheirava a encenação.

Para meus pais, ele era praticamente um outro filho. Assim como eu era para os dele. Éramos todos família. E era justamente esse o nó que me sufocava: para o resto do mundo, éramos um retrato de lealdade. Para mim, ele era ruído. Um zumbido constante que me causava enxaqueca emocional.

Saber que ele estava ali, naquela rotina quase doméstica, compartilhando o café que meu pai fazia e rindo com Mariana na sala, me causava ânsia. E ciúme. Um ciúme doentio, porque não era sobre amor — era sobre posse.

Eu nunca perguntava nada ao voltar, mas a imagem se construía sozinha na minha cabeça: eles trocando olhares por cima da cabeça da minha mãe doente, cúmplices de um mundo que eu ainda não entendia. E isso me corroía como ácido.

Uma tarde, o cliente cancelou uma reunião e eu voltei duas horas mais cedo. O som de risadas vindo da cozinha me parou no corredor. Era uma risada aberta, relaxada. A risada que a Mariana costumava me dar antes de tudo virar cinza.

Entrei sem fazer barulho. Ela estava encostada na bancada, rindo de algo que Bruno tinha dito. Ele estava encostado na mesa, as chaves do carro na mão, com aquela postura de quem é dono do mundo. O short jeans que ela usava parecia curto demais, expondo as coxas que eu conhecia centímetro por centímetro. O top leve, umedecido pelo calor do verão, deixava à mostra mais do que eu gostaria de admitir que me afetava. Ela parecia ... livre.

Mariana me viu primeiro. O sorriso diminuiu, mas não sumiu — o que foi pior. Foi um aviso.

— Você voltou cedo.

— Acontece, de vez em quando. — Respondi, minha voz saindo mais seca do que o normal.

Bruno fez aquele aceno casual.

— Fala, irmão. Tudo certo?

Fingi que ele não existia. Se eu abrisse a boca, o soco que eu estava segurando há meses acabaria saindo. A tensão ali era invisível para qualquer pessoa de fora, mas para mim, era elétrica.

Mariana atravessou a cozinha para pegar um copo d’água. Ela não desviou o caminho. Passou por mim, raspando o braço no meu peito. Senti o calor da pele dela e o perfume leve de baunilha, que agora se misturava ao cheiro de café e suor. Não foi proposital. Ou talvez tenha sido. Eu não sabia mais se ela estava me provocando ou se eu é que estava tão faminto que qualquer toque parecia um convite.

Naquela noite, deitado no quarto antigo, o ventilador de teto girava preguiçoso, cortando o ar quente sem refrescar nada. Encarei o escuro por horas. Meu corpo estava em guerra com o meu cérebro. Ele reagia a ela como se nada tivesse acontecido; como se o sangue ainda corresse quente apenas de ouvir o som do chuveiro ligando no banheiro ao lado.

O desejo é um desgraçado traiçoeiro. Ele ignora ideologia, mágoa e orgulho. Ele não se importa com processo de divórcio nem liga para traição entre melhores amigos.

Eu não podia deixar que ela percebesse. Não podia dar a ela o poder de saber que, enquanto ela cuidava da minha mãe, eu estava do outro lado da parede me desintegrando. Mas cada vez que ela aparecia na porta do quarto, a silhueta marcada pela luz do corredor, para perguntar se eu ia jantar … cada vez que ela se inclinava sobre a mesa para ajustar as contas e eu via o contorno dos seios sob o tecido fino … cada vez que o verão insistia em reduzir as camadas de roupa entre nós … Ah, Deus!

Ficava mais difícil fingir que eu não lembrava exatamente da textura da pele dela sob as minhas mãos. E mais difícil ainda fingir que eu não queria — com uma urgência que me assustava — lembrar de novo.

“— Eu não aguento mais. — A voz dela cortou a madrugada. — Ricardo, por favor.

Minha mão se enterrou no cabelo dela, puxando sua cabeça para trás enquanto eu mordia seu pescoço suado. O corpo arqueado contra a mesa fria da cozinha. Eu a pressionei por trás, ainda por dentro da cueca, encaixando meu pau duro no vão entre suas nádegas.

Não houve beijo. Nem carinho. Só necessidade …”

Como aconteceu? Como sempre acontece. Eu não dormia há dias. O ar da casa dos meus pais estava pesado — cheiro de remédio, silêncio, a palavra AVC ecoando na cabeça. Mariana tinha virado a cuidadora da minha mãe. Vivíamos como dois estranhos dividindo dor.

Desci para beber água. Ela estava encostada na pia, de camiseta velha e shorts minúsculo de lycra. A luz da geladeira desenhou as curvas das coxas dela. Não se virou.

— Também sem sono?

Ela negou.

Fingi indiferença. Mas a tensão estava ali. Três semanas de silêncio, olhares evitados, corpos jovens presos numa rotina de doença e frustração.

Ela esfregou as coxas.

— Tá com frio? — Perguntei, mais por impulso.

— Tô com calor. Um calor que não passa.

— Entendi…

Quando ela se virou, vi em seus olhos algo que não era tristeza. Era desafio.

— Será que você entende mesmo?

Ela se aproximou. O cheiro dela me atingiu. Sabonete, creme, pele quente… Olhou para minha boca. Depois para meu pijama. O pau endureceu instantaneamente. Ela percebeu.

Coloquei o copo na pia com força. Em dois passos, agarrei seus braços e a puxei. Nossos lábios colidiram. Não foi beijo, foi choque. Dentes, língua, respiração presa …

Minha mão entrou por baixo da camiseta, sentindo a pele quente. Ela se encaixou em mim. Meu corpo respondeu inteiro. Ela se afastou, ofegante.

— Aqui?

— Agora.

Virei-a de costas e a empurrei contra a mesa. A madeira rangeu. Puxei o shorts dela para baixo de uma vez. Ela já estava molhada.

Tirei a cueca. Não pensei em nada além do impulso. Posicionei. Empurrei.

Ela estava apertada. O primeiro avanço arrancou um gemido sufocado. Parei por um segundo, sentindo o corpo dela se moldar ao meu.

— Continua … — Ela exigiu.

Afundei de vez. Ela arqueou, se empurrando para trás. Fiquei imóvel por um instante, absorvendo o calor, o aperto, o cheiro que começava a tomar a cozinha.

Comecei devagar. Quase saía por completo, depois entrava firme outra vez. O som úmido ecoava no silêncio. O ritmo aumentou. Minhas mãos seguravam seus quadris com força. Cada movimento era descarga — raiva, medo, frustração. Ela respondia com gemidos roucos, o corpo cedendo e exigindo mais.

Um pote caiu no chão. Nem olhamos. Ajustei o ângulo. Ela gritou.

— Aí …

Mantive a pressão. O corpo dela começou a tremer.

— Eu vou …

Acelerei.

— Então vai.

Ela se enrijeceu inteira. O orgasmo veio forte, descontrolado. Senti as contrações ordenhando meu pau num aperto convulsivo. Aquilo me levou junto.

Afundei nela até o fim, gozando com um rosnado preso na garganta. Ondas fortes, sucessivas. Fiquei parado, cravado nela, respirando como se tivesse corrido quilômetros.

O silêncio depois foi pesado. Eu ainda estava dentro dela quando comecei a amolecer. Me retirei devagar.

Ela puxou o shorts para cima com as mãos trêmulas e se virou para mim. Rosto corado. Lábios inchados. Olhos vermelhos. Nos encaramos. Não havia carinho. Não havia reconciliação. Só a consciência brutal do que tinha acontecido. E o vazio voltando, ainda maior.

Nenhum dos dois disse nada sobre aquilo nos dias seguintes.

Alguns dias depois, cheguei mais cedo novamente. Outro cancelamento de cliente, outra tarde de sol escaldante que parecia derreter o asfalto. Nem avisei. Estacionei na rua mesmo e entrei pela lateral, subindo os degraus da varanda em silêncio, como eu fazia quando era adolescente e queria evitar o interrogatório do meu pai sobre onde eu andava.

As vozes me pararam antes que eu pudesse cruzar o batente. A porta da sala estava entreaberta. O ventilador de teto girava com aquele barulho arrastado, um clique-clique metálico que marcava o tempo. Fiquei parado na sombra da varanda, invisível, o suor descendo frio pelas minhas costas.

— Mariana … — A voz da minha mãe ainda carregava o esforço da recuperação, mas as palavras já não saíam tão arrastadas. — Me diz uma coisa … o que foi que o Ricardo fez para você?

Meu estômago deu um nó instantâneo. O silêncio que se seguiu foi denso, preenchido apenas pelo ruído do ventilador. Eu quase entrei. Quase quebrei aquele momento para não ter que ouvir a resposta. Mas meus pés ficaram pregados no chão.

— A senhora acha que foi só ele? — A voz de Mariana saiu baixa, carregada de uma fadiga que não era física.

A pergunta dela me atingiu como um soco. Minha mãe respirou fundo; eu podia imaginar o peito dela subindo com dificuldade.

— Eu sei que não existe só um culpado em um naufrágio, minha filha. Mas eu conheço meu filho. Eu conheço o sangue que corre nele.

“Conhece mesmo?”. Pensei, sentindo uma pontada de amargura.

Ouvi o suspiro longo de Mariana.

— Ele me machucou primeiro, é verdade. E tem também aquela frieza prática de tratar tudo como se sentimento fosse um erro de cálculo, um exagero meu. Eu me senti pequena ao lado dele muitas vezes. Invisível, enquanto ele planejava o futuro como se estivesse preenchendo uma planilha.

Fechei os olhos, encostando a cabeça na parede quente da varanda. Não era mentira. Eu tratava a vida como uma investigação: fatos, provas, resultados. O afeto era algo que eu pressupunha, mas raramente cultivava. Ouvir aquilo de fora era como ver o negativo de uma foto que eu nunca quis revelar.

— Ele sempre foi fechado … — Minha mãe disse, sem me defender, o que doeu mais do que qualquer acusação. — Ele constrói muros achando que está construindo segurança.

— Só que eu também errei. — Mariana continuou, e eu senti o peso da culpa na voz dela. — E errei feio. Ele me feriu … e eu quis devolver o golpe. Só que eu fui desproporcional. Eu devolvi centavos com milhão.

Meu peito apertou. “Centavos com milhão”. A frase ficou ecoando, martelando na minha cabeça. O meu pecado veio primeiro. E tinha a omissão como agravante. O dela foi explosivo. No tribunal do nosso casamento, as penas eram diferentes, mas o estrago era o mesmo.

Ouvi o som suave da mão da minha mãe passando no cabelo de Mariana. Eu conhecia aquele gesto. Ela fazia isso quando eu era pequeno e o mundo parecia grande demais; fazia quando eu estava quebrado por dentro e tentava convencer todo mundo de que estava tudo bem.

— Minha filha … o Ricardo não é homem de flores surpresa. Nem de jantares com velas e promessas de cinema. Ele puxou o pai. Para ele, o amor é o esforço silencioso, é a conta paga, é a presença garantida. Ele entende casamento como parceria. Como dois sobreviventes segurando a mesma corda no meio de uma tempestade.

Senti um nó na garganta. Era a descrição mais precisa de quem eu era.

— Mas parceria também precisa de carinho. — Minha mãe completou, a voz ficando mais suave. — E orgulho não se enfrenta com guerra, se enfrenta com coragem. A coragem de ser o primeiro a baixar a guarda.

O silêncio voltou, mas agora não era pesado; era cheio de expectativas.

— A senhora acha que ainda tem jeito? — Mariana perguntou, a voz embargada, quase desaparecendo.

Prendi a respiração. O mundo parecia ter parado naquele clique-clique do ventilador. Minha mãe demorou a responder, como se estivesse pesando cada grama de esperança que ainda restava.

— Eu acho que vocês ainda se importam. E, enquanto existir isso … enquanto o toque dele ainda te faz arrepiar e o seu silêncio ainda dói nele … sempre tem jeito. Só precisa de menos orgulho e mais verdade.

Fiquei ali parado, olhando para as minhas próprias mãos trêmulas. Naquele momento, a raiva não era o sentimento dominante. Eu me senti exposto. Despido de todas as minhas justificativas morais e da minha armadura de desapego.

Não era sobre quem tinha razão. Era sobre o que tínhamos destruído enquanto tentávamos provar que o outro estava errado. E, desde que tudo começou, eu não tive certeza se queria continuar aquela guerra.

Nos dias seguintes, comecei a notar rastros. O notebook dela era uma presença constante na mesa da sala, uma janela aberta para o mundo que ela agora habitava. Às vezes, a tela exibia planilhas médicas ou artigos sobre reabilitação neurológica. Mas, vez ou outra, surgia algo que fazia meu sangue circular de um jeito diferente.

Títulos discretos. Nada escancarado, mas que saltavam aos olhos como evidências em uma cena de crime.

“Regras básicas de convivência em ambientes liberais”.

“Consentimento e limites: o que ninguém conta”.

“Casais que transformaram a crise em reconexão”.

Eu fingia indiferença. Mas, como um detetive viciado, eu catalogava cada palavra.

Uma tarde, me sentei no sofá enquanto o som do chuveiro indicava que ela estava ocupada. O notebook estava ali, a tela escura em modo de espera. Toquei no mouse. Não foi um plano deliberado de espionagem, mas a curiosidade mórbida de quem precisa saber o tamanho do abismo antes de pular.

A matéria que surgiu não era o que eu esperava. Sem fotos apelativas, sem cores berrantes. Era um relato seco, quase clínico: “Eu traí minha esposa. Ela descobriu e deu o troco. Em vez de abandonar um ao outro, decidimos experimentar o mundo liberal”.

Revirei os olhos, o sarcasmo sendo minha primeira linha de defesa. Mas não fechei a aba.

O homem no texto contava que aceitou ir a uma festa por vingança pura. Queria humilhá-la, mostrar que poderia ter qualquer mulher e fazer com que ela sentisse o gosto metálico da traição. O plano era usar a liberdade para feri-la.

Até que ele chegou lá.

O relato descrevia um mundo de regras rígidas. Falava de consentimento explícito, de limites inegociáveis e de casais que conversavam por horas antes de qualquer aproximação física. Gente comum. Médicos, advogados, professores. Pessoas que poderiam estar no jantar de domingo dos meus pais.

Não havia o caos orgiástico que eu imaginara. Havia organização.

Ele dizia que o sexo não era o objetivo final, mas uma consequência da confiança. Muitos casais nem chegavam ao ato; estavam ali pela energia, pela quebra da rotina, pela liberdade de serem quem eram sem a máscara da hipocrisia social.

Fechei o notebook com mais força do que o necessário. O estalo do plástico ecoou na sala vazia.

Aquilo não se encaixava na narrativa que eu tinha construído para me proteger. Na minha cabeça, era tudo promiscuidade barata. Gente vazia mascarando a falta de caráter com discurso moderno. Mas o texto falava de escolha consciente. De regras que pareciam mais sólidas do que muitos casamentos tradicionais que eu já tinha visto desmoronar. Falava de uma transparência brutal — algo que eu e Mariana nunca tivemos.

Fiquei irritado comigo mesmo por ter lido até o fim. Mais irritado ainda por não conseguir descartar o que li como lixo.

Mariana saiu do banho minutos depois. O vapor do banheiro a seguia, trazendo o cheiro de sabonete e pele limpa. A toalha jogada no ombro, o cabelo úmido escorrendo pelas costas.

— Você mexeu no meu notebook? — Ela perguntou, com um tom casual demais para ser um interrogatório.

— Estava aberto. — Respondi, sem olhar para ela, concentrado em um ponto qualquer na parede.

Ela apenas assentiu. Não houve debate, nem cobrança. Mas naquele dia, o pensamento que me dominou não foi “isso é nojento”. Foi um sussurro muito mais perigoso: “E se eu tiver entendido tudo errado?”.

Naquela noite, o sono não veio. Fiquei encarando o teto, sentindo o peso do silêncio e a consciência de que a minha armadura moral estava cheia de rachaduras.

O texto que li no notebook voltava à minha mente em flashes. Aquelas frases sobre transparência e regras batiam de frente com a muralha que eu tinha erguido. Eu sempre disse que o "mundo liberal" era o problema. Mas, no escuro do quarto, uma dúvida ácida me corroía: e se o problema tivesse sido o meu preconceito? Julgar um mundo que eu não conhecia?

Virei de um lado para o outro na cama estreita da adolescência. Eu não estava pronto para mudar de opinião, mas já não conseguia sustentar o peso da antiga.

Me levantei para pegar água, buscando um pouco de frio para a cabeça quente. O corredor estava em penumbra, quebrado apenas pela fresta de luz que escapava quarto de hóspedes. A porta não estava fechada. Foi um convite ou apenas o cansaço dela? Meus pés ignoraram a sede e pararam ali.

Passei no exato momento em que ela deixava a camiseta cair no chão.

Mariana estava apenas de calcinha, de costas para a porta. O cabelo solto caía sobre os ombros, e a pele, ainda levemente bronzeada pelo sol do verão, parecia brilhar sob a luz fraca. Aquele corpo, que eu conhecia em cada curva e cicatriz, parecia ao mesmo tempo a coisa mais familiar e a mais proibida do mundo.

Ela me viu pelo reflexo do espelho. Não se cobriu, não se assustou. Ficou ali, imóvel, sustentando meu olhar através do vidro. O silêncio entre nós não era vazio; estava saturado por tudo o que aconteceu na cozinha dias atrás, e por tudo o que o texto no notebook tinha despertado em mim.

Naquela respiração mais profunda dela, na demora do meu olhar sobre os seus quadris, na porta que permanecia entreaberta ... não havia mais espaço para dúvidas. O meu corpo reagiu antes que o meu orgulho pudesse formular um único argumento.

Entrei. Fechei a porta atrás de mim. O clique da maçaneta pareceu um tiro no silêncio da casa.

Ela virou de frente. Seus olhos eram dois poços de tensão e desafio.

— Ricardo … — Meu nome saiu como um sopro, um convite.

Segurei seu rosto com as duas mãos, meus polegares pressionando a linha da sua mandíbula, e a beijei com uma urgência que beirava o desespero. Não era um beijo de amor romântico; era uma colisão de ciúme, confusão e uma fome que eu não conseguia mais conter. Ela respondeu no mesmo tom, as mãos agarrando minha nuca com força, as unhas cravando levemente na minha pele.

Minhas mãos desceram por suas costas, sentindo a ondulação de cada vértebra até alcançarem sua cintura e puxarem-na contra mim. O calor que emanava dela era absurdo. Eu queria sentir o cheiro, a textura daquela pele que já não me fazia mais odiar saber que outras mãos tocaram.

Ali, com o corpo dela pressionado contra o meu, as ideologias e as mágoas se tornaram ruído de fundo. Não era perdão, era uma necessidade primitiva de reafirmação. Eu a queria tanto que o desejo doía mais do que a traição mútua.

Eu a levei em direção à cama, minhas mãos explorando a curva do seu quadril sob o tecido fino da calcinha, sentindo a umidade e o calor que confirmavam que ela estava tão perdida naquela urgência quanto eu. Naquele momento, eu não era o detetive, nem o marido traidor/traído, nem o filho exemplar. Eu era apenas um homem que precisava desesperadamente daquela mulher, mesmo que isso significasse queimar todas as pontes que eu tinha construído para me proteger.

Talvez eu preferisse estar com ela do que estar certo. E talvez, pela primeira vez desde casado, eu tenha realmente feito amor com a minha mulher.

Ainda estávamos ofegantes. O quarto estava imerso na penumbra, quebrado apenas pela fresta de luz pálida vinda do corredor, atravessando por debaixo da porta. Mariana deitou-se de lado, o lençol cobrindo-lhe o corpo apenas o suficiente para manter o calor. Eu permanecia sentado na beirada da cama, os cotovelos apoiados nos joelhos, sentindo o peso do mundo nos ombros.

O silêncio não era confortável; era inevitável.

— Seja honesta comigo … — Comecei, sem coragem de olhar para trás.

Ela abriu os olhos devagar, o peito ainda subindo e descendo no ritmo da respiração que voltava ao normal.

— Sobre o quê?

— Você e o Bruno … vocês sempre estiveram juntos, não é? Antes de mim. Durante. Depois. — Minha voz saiu mais áspera do que eu pretendia, carregada de um ranço antigo. — Eu só preciso saber se fui o idiota da história inteira.

Mariana sentou-se na cama, ignorando a nudez parcial. No olhar dela, não vi a culpa que eu esperava, mas algo que beirava a ofensa.

— Eu nunca menti para você, Ricardo. Nem no dia em que você saiu de casa, nem hoje. Eu e o Bruno temos um passado, sim. Mas desde o momento em que começamos a namorar, eu nunca mais tive nada com ele. — Ela fez uma pausa curta, certeira. — Bom … pelo menos até você me trair primeiro.

O golpe foi direto no estômago. Tentei balbuciar uma defesa, mas ela ergueu a mão, silenciando-me.

— Não. Me deixa terminar. Esse passado com o Bruno não é o romance épico que você construiu na sua cabeça. Eu não era o grande amor da vida dele; eu era um momento. Uma substituta. Um corpo conveniente quando ele estava sozinho ou sem opções melhores. Você acha que eu o guardava como um plano B? Não, Ricardo. Eu era o plano B.

Aquilo implodiu a narrativa que eu alimentava há meses. Encarei o chão, sentindo o peso das palavras dela.

— O Bruno é um colecionador de troféus. — Ela continuou, a voz agora mais firme. — Nada mais do que isso.

Ela se aproximou um poucos mais

— Eu usei o interesse dele e da Lívia para me sentir desejada de novo. Foi uma troca suja, eu admito. Mas não houve um segundo em que eu tenha sentido por ele um décimo do que sinto por você.

As palavras saíam de sua boca com convicção, sem espaços para dúvida ou manipulação.

— O que eu descobri com eles não foi um novo amor. Foi uma nova “Mariana”. Uma que gosta de ser vista, que gosta de explorar. Eu não quero o Bruno, mas quero esse mundo novo ao qual fui apresentada ... e queria você comigo nele.

Mariana segurou meu braço, me fazendo olhar em seus olhos.

— Quando você me acusou de estar mais preocupada com ele do que com a sua traição … eu paralisei. — Ela continuou, a voz baixa e controlada. — Eu me senti agredida. Não porque você estivesse totalmente errado, mas porque, no calor da briga, meus argumentos foram péssimos. É lógico que você entenderia daquele jeito.

— Então você entende o que pareceu? — Levantei o olhar.

— Hoje, sim. Eu estava ferida antes, agindo por instinto. E quando reagimos por causa da dor, não medimos o dano. — Ela respirou fundo, ganhando coragem para o que vinha a seguir. — E sendo honesta: eu não fui manipulada por ninguém. Nem pelo Bruno, muito menos pela Lívia.

As verdades saíam em sequência, ela estava disposta a colocar tudo às claras.

— Depois que eu cruzei a fronteira, tudo o que eu fiz é culpa minha. Eles me apresentaram um mundo novo, é verdade. Mas quem decidiu dar o segundo passo fui eu.

— E o que tem de tão especial nisso? — Eu rebati, a amargura subindo pela garganta. — O que tem de tão extraordinário em sair transando com estranhos? O que faltava aqui, Mariana? Eu estava lá, eu trabalhava, nós tínhamos planos ...

Ela soltou um riso curto, sem alegria, e se inclinou para a frente. A luz da fresta iluminava apenas metade do seu rosto, deixando o resto nas sombras.

— Você estava lá, Ricardo, mas não me via. A gente se tornou um projeto em uma planilha. Estabilidade, contas em dia, financiamento do apartamento ... Mas e eu? Onde eu entrava além de ser a mulher que dividia os boletos com você? O Bruno não me deu amor, ele me deu atenção. Ele me olhou como se eu fosse um ser humano com desejos, não uma engrenagem na sua vida organizada. E a Lívia ... ela me mostrou que eu não precisava ter vergonha de querer sentir coisas que você nunca se deu ao trabalho de perguntar se eu sentia.

— Você ainda não me respondeu o que eu perguntei. — Cortei. — O que tem de tão especial nesse troço de vida liberal?

— Você leu os artigos que deixei para você, não leu? Os depoimentos? — O maxilar dela travou quando percebeu minha hesitação. — Eu deixei aquilo de propósito. Queria que você visse com os próprios olhos, porque qualquer coisa que saia da minha boca já está contaminada para você. Você me escuta como promotor, Ricardo, não como marido.

O silêncio voltou, mas agora ele tinha gosto de derrota. Ela então disparou a pergunta que eu mais temia.

— E você, Ricardo? Por que me traiu? Éramos recém-casados. Nossa vida estava tão ruim assim para você procurar outra mulher?

Abri a boca, mas as justificativas morreram na garganta. Só sobrou a verdade crua.

— Aquela mulher … ela era tudo o que eu sempre soube que seria: ambiciosa, calculista. Ela me usou, brincou comigo e eu só entendi o jogo quando a merda já estava feita. — Levantei e comecei a andar pelo quarto, inquieto. — Ela tem um jeito de te fazer sentir único, como se fosse o único homem capaz de entendê-la. E quando você percebe, já está fazendo coisas que jurou que nunca faria. E o pior? Eu gostei da sensação. Gostei de me sentir desejado daquela forma. Não foi falta de amor por você, Mariana. Foi ego. Vaidade. Orgulho. Eu quis provar para mim mesmo que ainda podia.

— Então não foi sobre a gente? — Ela concluiu, me analisando.

— Foi sobre mim. — Confessei, o peso da verdade finalmente saindo do meu peito. — Foi o carimbo oficial de otário que eu merecia.

Mariana me observava como se estivesse analisando cada palavra.

— Já eu, fui para aquele mundo para deixar de me sentir invisível, Ricardo. Você me traiu para se sentir "único". Eu os segui para me sentir viva.

Ela respirou fundo, ganhando tempo para organizar os pensamentos.

— Lá, na primeira vez que eles me levaram, ninguém me conhecia como "a esposa do detetive" ou a nora exemplar que cuidava da sogra doente. Eu era apenas uma mulher. Senti que meu corpo me pertencia, e não que ele era uma extensão da nossa rotina de sábado à noite. Sempre do mesmo jeito. Sempre com a luz apagada.

Mariana me observou por longos segundos. A eloquência dando lugar a uma melancolia profunda.

— Sabe … eu sei que você não é um homem de romances de cinema. E eu também não sou assim. Eu deixei você entrar na minha vida porque tínhamos objetivos: estabilidade, construção. Mas eu me apaixonei. Eu te amei. E ainda amo.

Aquilo me desmontou.

— Eu sei que você só não pediu o divórcio ainda, porque não temos como pagar. — Ela continuou. — Mas será que não existe uma alternativa? Tentar de novo, sem fingimentos ou guerras?

— Você está disposta a abrir mão dessa vida liberal? — Perguntei, seco. Era o meu teste final.

Ela não hesitou, mas a resposta não foi a que eu esperava.

— E você? Aproveitando que ainda estamos tecnicamente separados … você estaria disposto a me acompanhar?

Ela fez uma pausa estratégica, mas logo concluiu:

— A uma festa liberal. Mas sem Bruno, sem Lívia. Só eu e você, em um lugar onde ninguém nos conhece. Sem pressão para fazer nada. Apenas observar, conversar. Entender.

Eu ri, incrédulo. O coração batia pesado contra as costelas.

— Você está falando sério? Quer que eu entre naquela aberração?

— Você sempre julgou esse mundo sem nunca pisar nele. Não peço que mude quem você é, peço que conheça a realidade antes de condená-la. Se depois, você ainda achar que é uma abominação, eu prometo: não insisto mais. Resolvemos nossa vida de outra forma.

A proposta pairou entre nós, densa e decisiva. Ela não estava me pedindo sexo promíscuo; estava pedindo confiança. Queria que eu saísse do pedestal de juiz para ser um participante da vida dela.

Percebi, com um frio na barriga, que o meu medo não era da festa em si, mas da possibilidade de descobrir que eu estava errado o tempo todo.

{…}

De volta ao presente:

Nos dias que se seguiram à descoberta da gravidez, a atmosfera na casa dos meus pais mudou. Havia uma leveza nova nas conversas de café da manhã e uma esperança quase tátil nos olhos da minha mãe. Mariana parecia ter encontrado um norte. Eu por outro lado, vivia em uma dualidade torturante. Por fora, eu tentava ser um marido presente e o futuro pai. Por dentro, eu era o investigador que não confiava nem na própria sombra.

Estávamos no quarto, o silêncio da noite apenas interrompido pelo som do ventilador. Eu observava Mariana organizar algumas roupas, e o assunto da gravidez ainda pairava entre nós como uma névoa que não se dissipava totalmente. Foi ela quem parou, me encarou pelo reflexo do espelho e decidiu cortar o ar.

— Ricardo, olha para mim. — Ela disse, virando-se de frente.

Aproximei-me, e ela segurou minhas mãos com uma firmeza que me surpreendeu.

— Eu sei o que passa nessa sua cabeça de investigador. Sei que, no mundo onde a gente circula, as certezas são mais frágeis. E eu não quero que esse filho carregue o peso de uma dúvida, nem que você olhe para ele daqui a alguns meses tentando encontrar traços de outra pessoa.

Eu tentei falar, mas ela me interrompeu com um toque leve nos lábios.

— Assim que for seguro para o bebê, nós vamos fazer o teste de DNA. Eu faço questão. Não é por falta de confiança no que eu sinto, ou no que eu sei que aconteceu. É por transparência. Eu quero que a gente comece essa nova fase sem nenhuma sombra, sem nenhum "e se" guardado na gaveta.

A honestidade dela foi um soco de realidade. Mariana não estava acuada; ela estava me oferecendo a única prova que eu ainda não tinha coragem de pedir.

— Mari, você não precisa ... — Comecei, mas minha voz falhou.

— Preciso sim. Por nós dois. E pelo Bruno também. — Ela completou, com o nome dele saindo com um peso diferente. — Ele teve a petulância de me questionar, e eu quero ter o papel na mão para calar a boca de qualquer um que ouse duvidar da minha palavra. Eu sou sua mulher, Ricardo. E esse filho é nosso.

Assenti, sentindo um nó na garganta. Aquele gesto me desarmou, mas também me deu um novo ângulo de visão: se ela estava tão segura da paternidade, eu não queria recusar ter a mesma certeza.

Aquela clareza foi o que me deu o sangue-frio necessário para os dias seguintes. Manter a máscara diante do Bruno era o teste definitivo, e ele não demorou a aparecer. Veio na tarde de quinta-feira, trazendo cervejas artesanais e uma alegria efusiva que, agora, me soava como vidro quebrado raspando no chão.

— E aí, “papai”? — Ele me deu aquele abraço de sempre. — Cara, eu ainda não acredito. Esse moleque vai ser o novo sócio da agência, hein?

Senti o músculo do meu maxilar travar, mas forcei um sorriso.

— É ... a vida tem dessas surpresas, Bruno. Muda todas as prioridades.

Eu o observei enquanto ele falava com Mariana. Notei detalhes que antes ignorava: o suor fino escorrendo apesar do ar-condicionado, a forma como ele conferia o relógio a cada dez minutos, o brilho ansioso no olhar. Ele não estava apenas feliz por mim, estava inquieto. Como se estivesse esperando uma notícia que nunca chegava.

Naquela mesma noite, Mateus finalmente voltou e nós nos reunimos no galpão dos fundos. O ar estava úmido e o cheiro de óleo de motor e madeira velha trazia a sobriedade necessária. Ele não tinha pilhas de documentos desta vez, apenas um caderno e um olhar preocupado.

— Chefe, eu comecei a investigar o Bruno, como você pediu. O buraco é feio.

— E? — Perguntei, cruzando os braços.

— O Bruno desviou uma quantia considerável da agência no segundo trimestre fiscal. O problema é que, para repor o caixa antes da auditoria semestral sem que você percebesse, ele foi para o caminho mais rápido.

Mateus hesitou, olhando para a porta antes de continuar.

— Ele está pendurado com agiotas, chefe. Gente pesada. Ele pegou uma grana alta para cobrir o rombo, mas os juros estão engolindo o que ele ainda tem. Ele está sendo pressionado.

Senti a gravidade da informação se acomodar no meu peito.

— Você sabe quem são os credores?

— Ainda não tenho os nomes no papel. Mas o modus operandi é familiar. Não são cobradores de esquina. São profissionais. Existe uma estrutura por trás, algo que cheira a lavagem de dinheiro e tráfico de influência.

Mateus fechou o caderno com um estalo seco.

— Estou seguindo duas pistas promissoras. Tem um escritório de fachada no centro que parece ser o ponto de entrega desses pagamentos. Em breve, eu vou ter os nomes de quem realmente está segurando a coleira do Bruno.

— Faça isso. — Eu disse, com a voz baixa. — Mas com cuidado redobrado. Se o Bruno está devendo para quem eu acho que está, ele não é mais dono das próprias escolhas.

— Você acha que isso pode ter algum envolvimento com a sua situação? — Mateus perguntou, expressando o que eu já temia.

Olhei para a escuridão do quintal.

— O Bruno sempre foi fraco para dinheiro e vaidade. É o perfil perfeito para ser usado. Se alguém queria me atingir, não precisava arrombar a minha porta. Só precisava comprar a chave de quem já tinha uma.

Mateus assentiu e saiu silencioso pela lateral. Fiquei sozinho no galpão, sentindo o peso daquela revelação. O Bruno estava em dívida. O Bruno estava acuado. A pergunta que ecoava no silêncio era: o que ele aceitou fazer para quitar esse débito?

No dia do crime, ele estava lá. Ele tinha acesso. Mas quem eram os homens na sombra que transformaram um desvio financeiro em um homicídio quase perfeito?

Voltei para dentro de casa. Mariana dormia com a mão sobre a barriga. Eu me deitei ao lado dela, mas meus olhos não fecharam. O jogo tinha acabado de subir de nível, e eu ainda não sabia se o meu "melhor amigo" era um cúmplice ... ou apenas a primeira vítima de uma engrenagem muito maior.

Continua …

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Comentários

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Houve uma mudança sensível na Mariana...

Ela foi apresentada de um jeito e mudou.

Sobre ela e o Bruno, ela disse que sempre foio plano B dele, mas esqueceu que pra ela ele sempre foi o plano A.

Eu duvido totalmente do amor da Mariana pelo Bruno, pode existir um carinho, mas amor...

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Conto muito bom. É um dos autores que mais admiro. Mas DECEPÇÃO com o protagonista é o sentimento do que li nesse capítulo.

Transformar Mariana que o enganou durante anos, com traição calculada, manipulação extrema, com mentiras e até crime, pois sedar alguém não é coisa de quem ama, ou é? Pelo que você contou estavam casados, e mesmo que não tenha sido ela que não o tenha sedado, ela sabia o que acontecia. Em nenhum momento do que vc escreveu ela demonstrou arrependimento, pelo contrário ela o enveredava para uma vida que ele não pediu.

Na minha opinião vc fez dele um grande otário fraco a ceder aos argumentos de uma mulher narcisista como a Mariana. Vc a premia por habilidade diabólica. Ela continua a ter a vida e o sexo liberal que quer com o mesmo trouxa que a banca que no caso é o protagonista.

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Mas não existe uma certeza de que Mariana alguma vez tenha dopado o Ricardo. Existe uma sugestão, e a interpretação de cada um da cena...

(Só vim colocar lenha na fogueira.)

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Caraca , quando acho q essa saga não poderia melhorar esse capítulo diz que foi melhor ainda .

O dialogo entre o casal esta fabuloso

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Porra, Lukinha... Aí tu quer me fuder... Joguei meu mural todo fora e vou ter que refazer mas pelo menos de uma coisa eu ainda tenho certeza: o Bruno dopou ela. Por isso ela não ouviu nada. E quando acordou, acordou zonza. Só que se ele fez isso com ela grávida, se eu fosse o Ricardo arrebentava ele!

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Mas ela já dopou ele pra transar com o Bruno, ela é um flor inocente agora?

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Os dois estão errados... Ela mesmo assume a desproporcionalidade. Porra, a maioria tá julgando a mulher mas esquecem que quem abriu a porteira do inferno foi o Ricardo. Aí tudo é culpa dela também? Porra, ela foi desproporcional pra caralho mas a desculpa dela pra mim é que ele começou primeiro e acho a desculpa dele um clichê escrotissimo: literalmente ele fez só pra se sentir desejado. E a mulher que desejava ele em casa, fodasse, né? Por outro lado ela caiu na orgia. Se perdeu na vingança. Fez com o melhor amigo dele. Cara, não tem certo nessa história.

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Maravilhoso!

Parabéns meu irmão!

👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼

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Nina vou entender como alguém consegue reatar um relacionamento com alguém que mentiu e traiu de forma tão fria e calculista por anos!!! Ele errou sim, mas não fez ela de idiota por anos com alguém conhecido!!!

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Mais alguns nos desatados !!!!

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