O Novinho Negão Quer Acabar com o meu Casamento - Parte 5

Um conto erótico de AuroraMaris
Categoria: Heterossexual
Contém 4578 palavras
Data: 16/02/2026 20:34:27

Clique. Clique. Roberto tentava abrir a porta. Estava trancada, Graças a Deus.

- Beatriz? - ele chamou novamente.

Meu coração martelava tão forte que parecia possível ouvi-lo do lado de fora. Num movimento desesperado, pulei da cama. Meus pés encontraram o chão frio e, antes que qualquer pensamento racional pudesse se formar, eu já estava diante da porta. Completamente nua.

- Querida? - Roberto chamou, um pouco mais alto. - Está tudo bem?

Olhei para trás, rápida. Victor estava sentado na cama, o corpo grande relaxado, a pele retinta brilhando na penumbra. E ele estava sorrindo. Um sorriso lento, divertido, como se tudo aquilo fosse a maior graça do mundo. Um acesso de fúria me atravessou. Ele acha graça? Eu estava prestes a ter minha vida destruída, e aquele moleque achava graça?

Mas não havia tempo para raiva. Virei para a porta, pressionando as palmas das mãos contra a madeira fria.

- Roberto, eu... - minha voz saiu estranha, rouca demais.

- Por que trancou a porta? - ele perguntou, e ouvi a confusão em seu tom. A maçaneta se mexeu de novo, um movimento automático, como se ele ainda estivesse processando o fato de não conseguir entrar no próprio quarto de hóspedes.

Minha mente funcionava a mil por hora, mas nenhuma mentira vinha. Nenhuma desculpa plausível. Eu estava nua, suada, e meu marido estava do outro lado daquela porta.

- É que... eu... - gaguejei, e então, num rompante de desespero, as palavras simplesmente escaparam: - Estou tendo um momento íntimo. Sozinha.

Silêncio.

Mesmo sem conseguir enxergar, pude imaginar a cara de espanto do meu marido através da madeira. Conhecia cada expressão daquele rosto depois de vinte e dois anos. Neste momento, devia estar com as sobrancelhas erguidas, a boca ligeiramente aberta, os olhos piscando sem entender.

- Fiquei com medo de te acordar - completei, a voz ainda trêmula. - Por isso vim pro outro quarto.

Outro silêncio. Dessa vez mais longo.

- Jura? - a voz de Roberto finalmente veio, e havia algo diferente nela. Uma nota que eu não ouvia há muito, muito tempo. Uma espécie de... emoção? Empolgação? - Eu... achei que você não tinha esse tipo de necessidade.

Minhas bochechas queimaram. "Necessidade". Que palavra horrível. Clínica. Distante. Como se desejo fosse uma doença, e eu, uma paciente assintomática.

- Abre a porta, querida - a voz dele continuou, e agora eu tinha certeza: havia uma excitação genuína ali. - Eu quero ver!

Meu estômago deu um nó. Olhei para trás instintivamente, e lá estava Victor. Ainda sentado na cama, o corpo nu exposto, a rola enorme descansando contra a coxa. E ele ria. Não abertamente, mas os olhos escuros brilhavam, e aquele sorriso torto no canto da boca dizia tudo. Ele está adorando isso.

A raiva voltou, quente e súbita. Como ousava ele achar graça da minha agonia?

- Não - minha voz saiu mais firme agora, direcionada a Roberto. - Não, é que... eu estou com vergonha.

Ouvi um movimento atrás de mim. Victor tinha se levantado da cama e vinha em minha direção com passos cautelosos, absolutamente silenciosos. Seu corpo grande se aproximou, e quando olhei para baixo, vi. A rola preta gigante dele estava completamente dura de novo.

Meu coração disparou de um jeito diferente. Ele já tinha tirado a camisinha usada, e agora tirava outra da carteira que ainda estava em cima da cama. Rasgou o plástico com os dentes, sem fazer barulho, os olhos fixos nos meus.

- Vergonha de mim? - Roberto disse do outro lado da porta, e sua voz soava quase magoada. - Não precisa... eu achei que... todos esses anos, achei que você nem gostasse de sexo, querida.

A declaração, dita assim, nua e crua, doeu mais do que eu esperava. Ele sabia. Ele sempre soube que eu não sentia prazer. E nunca fez nada para mudar isso.

- Eu gosto sim - respondi, e a voz saiu mais forte do que eu pretendia.

Naquele momento, Victor chegou atrás de mim. Suas mãos grandes encontraram meus quadris, e com uma pressão suave, quase delicada, ele empurrou minhas costas para a frente. Minhas mãos ainda estavam apoiadas na porta, e agora minha bunda estava empinada para trás, completamente exposta para ele.

- Você... - a voz de Roberto vacilou do outro lado. - Você está fazendo agora? Enquanto conversamos?

Senti a cabeça da rola de Victor pressionar minha entrada. Úmida, quente, pronta. Ele começou a empurrar devagar, abrindo caminho na minha buceta que ainda estava sensível do primeiro orgasmo.

- Estou, querido - respondi, e minha voz falhou no meio da palavra, porque naquele exato momento a rola inteira entrou.

Victor gemeu baixinho atrás de mim, um som que só eu podia ouvir. Minha testa pressionou a porta fria, os olhos revirando de tesão enquanto aquela pica enorme me arrombava pela segunda vez consecutiva. Minha buceta escorregava em volta dele, toda melada, quente, se adaptando ao tamanho como se já fosse dona dele.

Do outro lado da porta, ouvi Roberto respirar fundo.

- Eu posso ficar aqui... escutando? - a voz dele estava diferente. Mais grossa. Mais viva. - Essa conversa está me deixando muito excitado, Beatriz.

Victor começou a se mover. Devagar no começo, estocadas longas que me preenchiam completamente. Minhas mãos se fecharam em punhos contra a porta.

- Pode - sussurrei.

Victor me fodia por trás, cada estocada me empurrando suavemente contra a porta. Roberto do outro lado, ouvindo tudo. Eu, no meio, sendo comida pelo amante enquanto meu marido escutava, achando que eu estava sozinha. Comecei a gemer, sentindo a liberdade de não ter que reprimir meus sons de prazer.

- Me diz, querida - a voz de Roberto veio, e agora eu ouvia o esforço nela, a respiração alterada. - No que você pensa quando faz esse tipo de coisa sozinha?

Victor acelerou o ritmo. Sua mão agarrou minha cintura com força, me puxando contra ele a cada estocada.

- Penso... - comecei, com a voz abafada. - Penso em você, querido. Penso nas nossas noites de amor - a mentira escorreu da minha boca como mel envenenado.

Virei a cabeça para o lado, só um pouco, só o suficiente para ver Victor por cima do ombro. Ele estava me olhando, os olhos escuros brilhando na penumbra, e na boca dele havia um sorriso que dizia: “isso mesmo. Mente pro seu marido enquanto toma vara do novinho”.

Ele assentiu, quase imperceptivelmente, como se estivesse me dando permissão. Como se ele fosse o dono da mentira, o diretor daquela cena absurda.

E então eu ouvi. Do outro lado da porta, um som baixo. Um gemido. Abafado, contido, mas inconfundível. Roberto estava se masturbando.

Meu marido. O homem que há anos não me tocava com desejo, que me via como parte da mobília, que achava que sexo era um dever cumprido em poucos minutos e esquecido em seguida. Ele estava ali, do lado de fora, batendo punheta enquanto ouvia minha voz. E mal sabia ele que eu estava dando para outro bem na sua frente.

Victor continuava se movendo atrás de mim, as estocadas ritmadas, profundas, cada uma me lembrando do que eu realmente estava fazendo. Minha buceta latejava em volta da rola dele, viva de um jeito que nunca tinha estado antes.

- Você... - a voz de Roberto veio, ofegante. - Você pensa no meu pênis, Beatriz?

Quase ri. “Pênis”. Que palavra patética. Pequena. Insuficiente.

Olhei para trás de novo, para a rola preta que me arrombava naquele exato momento. Grossa, comprida, as veias contornando o volume, a cabeça aparecendo e sumindo dentro de mim. Aquilo sim era uma rola de verdade. Um monumento de ébano que me preenchia de um jeito que eu nem sabia que era possível.

- Sim, querido - gemi, e a voz saiu mais alta do que eu pretendia, porque Victor tinha encontrado um ângulo novo, um lugar dentro de mim que fazia minha visão embaçar. - É tão grande!

As palavras saíram, e eu estava olhando para Victor quando as disse. Para a rola dele. Para o sorriso dele. Para aquele olhar que me despia e me possuía ao mesmo tempo.

Nesse momento, eu percebi. Eu não me reconhecia mais. A mulher que estava ali, empinada contra a porta, sendo comida por um garoto de dezoito anos enquanto o marido se masturbava do lado de fora, não era a Beatriz que arrumava o cabelo sem um fio fora do lugar, que colocava a mesa de café com toalha de linho engomado.

Mas essa mulher existia. E ela estava pingando de tesão.

- Querida... - a voz de Roberto estava mais ofegante agora, mais urgente. - Eu preciso... preciso gozar.

Victor apertou minha cintura com mais força. Sua respiração também estava ficando pesada, as estocadas mais rápidas, mais profundas. Eu sentia o orgasmo se aproximando de novo, aquele vulcão que só ele sabia despertar em mim.

- Vamos gozar juntos - respondi, a voz trêmula.

Do outro lado da porta, os gemidos de Roberto ficaram mais altos, mais descontrolados. Eu o imaginava ali, na penumbra do corredor, com as calças abaixadas, se masturbando como um adolescente.

E atrás de mim, Victor se movia como um deus. Como um animal. Como tudo que Roberto nunca foi.

- Bia - Victor sussurrou, tão baixo que só eu podia ouvir. - Sua buceta melada vai me fazer gozar de novo.

Meu orgasmo veio como um tremor de terra. Minha buceta se contraiu em volta da rola dele, apertando, sugando, e eu ouvi ele gemer atrás de mim, um som grave e abafado que vibrou no meu corpo inteiro. Minhas pernas fraquejaram, e se não fosse a porta à minha frente e as mãos dele na minha cintura, eu teria caído. Gemi alto, sem me importar do que Roberto pensaria.

Do outro lado da porta, ouvi um gemido prolongado, o som abafado de quem tenta se controlar, e depois o silêncio.

Victor se afastou devagar, a rola saindo de mim com um som úmido que fez minha bochecha queimar.

- Beatriz, eu... Vou pro quarto agora. Se não, amanhã não acordo no horário.

Quase ri.

Ele ainda pensava no horário. Depois de tudo, depois de me ouvir gemer, depois de se masturbar no corredor como um adolescente, ele ainda pensava no despertador.

Essa era a diferença. Essa sempre foi a diferença.

- Tudo bem, querido - respondi, e minha voz saiu estranhamente calma. - Vou tomar um banho e já vou.

- Tá... tá bom. Boa noite, querida.

- Boa noite, Roberto.

Ouvi os passos dele se afastando pelo corredor. O rangido familiar da porta do nosso quarto. O silêncio. Só então me permiti respirar.

Me virei lentamente, o corpo ainda vibrando com os ecos do que acabara de acontecer. Victor estava em pé, no meio do quarto de hóspedes, a silhueta recortada pela luz pálida que entrava pela janela. Ele já tinha vestido o shorts, mas o peito ainda estava nu, a pele retinta brilhando suavemente na penumbra. Me encarava com uma expressão que eu não sabia decifrar, algo entre admiração e incredulidade.

Não pensei. Não deixei espaço para o cérebro sabotar o que o corpo já tinha decidido.

Atravessei o espaço entre nós em três passos, minhas mãos encontrando o peito quente dele, subindo para os ombros, para o pescoço. Puxei seu rosto para baixo e meus lábios encontraram os dele num beijo que começou feroz e só aprofundou.

Dessa vez a iniciativa era minha. Minha língua invadiu sua boca, e eu ouvi o pequeno som de surpresa que ele fez antes de corresponder, as mãos grandes encontrando minha cintura, me puxando contra seu corpo.

Beijamos como se não houvesse amanhã, e talvez não houvesse mesmo. Talvez a Beatriz de ontem tivesse morrido naquela noite, e essa nova mulher, essa que beijava um rapaz de dezoito anos com a fome de quem passou vinte anos em jejum, não soubesse o que viria depois.

Quando finalmente nos separamos, estávamos ofegantes. Testa contra testa. Respiração misturada.

- Eu nunca vivi algo tão tesudo assim - ele murmurou, a voz rouca, os olhos escuros queimando nos meus.

Soltei uma risada baixa. Curta. Quase sem graça. Me direcionei para onde estava o vestido vermelho, e o coloquei, sem me importar de vestir nada por baixo.

- Acho que posso falar o mesmo - respondi.

E era verdade. Vinte e dois anos de casamento, e nenhuma noite com Roberto tinha chegado perto das últimas horas com Victor.

Ele me puxou para a cama.

Deitamos um ao lado do outro e Victor esticou o braço para pegar a sacola que tinha trazido. O chocolate importado ainda estava lá, intacto. Ele partiu um pedaço com os dedos e levou à minha boca. O doce derreteu na língua, e eu fechei os olhos por um momento, sentindo o sabor se misturar com tudo que ainda vibrava no meu corpo.

- Gostou? - ele perguntou.

Assenti, sentindo o doce na boca.

- Imaginei mesmo que gostasse de chocolate preto - ele falou, com malícia.

Dei uma risada baixa. Comemos assim, deitados, partilhando chocolate como dois adolescentes escondidos dos pais. A diferença é que eu era mãe de um garoto mais novo que Victor. O pensamento deveria me chocar. Deveria me fazer levantar, vestir o roupão, correr para o banheiro e lavar o pecado da pele. Mas não fez.

- Me conta uma coisa - Victor disse, quebrando outro pedaço de chocolate. - Quando foi a última vez que você sentiu algo assim?

Pensei. Revirei memórias de vinte e dois anos, procurando alguma noite, algum momento, algum segundo em que eu tivesse sentido o corpo queimar daquele jeito. Não encontrei nada.

- Nunca - respondi, surpreendendo a mim mesma com a honestidade. - Acho que... nunca tinha sentido isso antes.

Ele não disse nada. Mas a mão dele encontrou a minha por baixo do lençol, os dedos entrelaçando nos meus, e aquilo, naquele momento, foi mais íntimo do que tudo que tínhamos feito.

Conversamos sobre coisas bobas. A cidade. A faculdade de Direito que ele tinha largado porque "não era pra ele". O sonho de abrir um negócio próprio, uma loja de roupas, talvez. A paixão por música, me dizendo: "funk é vida, Bia, você precisa aprender a ouvir de verdade".

Eu ria. Baixo, abafado, com medo de acordar Roberto. Mas ria. E quando foi que eu ri assim, de verdade, pela última vez?

O tempo passou num piscar de olhos. Olhei para o relógio na mesa de cabeceira e meu coração deu um salto.

- Quatro da manhã? - sussurrei, sentando na cama. - Impossível.

Victor sentou também, passando a mão no cabelo curto.

- Preciso ir - disse, com pesar genuíno na voz. - Daqui a pouco meu pai acorda para ir trabalhar. Se eu não estiver em casa quando ele levantar, ele me mata na hora que eu chegar.

Me levantei, sentindo o ar frio que entrava pela janela. Meu corpo doía deliciosamente. Peguei as camisinhas usadas que estavam no chão e caminhei até o banheiro do quarto de hóspedes. Joguei na privada. Puxei a descarga. “Estou eliminando as provas”, pensei. “Do meu crime. Do meu pecado.”

A palavra ecoou na minha cabeça, mas não encontrou ressonância no peito. Pecado. Crime. Palavras que o padre Mauro usava, que a igreja usava, que a Beatriz de antigamente usava para se julgar no escuro do quarto. A Beatriz de agora... essa não sabia mais o que era pecado.

Quando voltei, Victor já estava vestido. Descemos as escadas em silêncio, atravessamos a cozinha no escuro, e quando chegamos à porta dos fundos, ele parou. Nos beijamos mais uma vez. Longo. Molhado. Cheio de promessa.

- Até amanhã, Bia - ele sussurrou contra minha boca.

Abriu a porta e desapareceu na noite.

Quando subi as escadas, a porta do meu quarto estava entreaberta. Entrei em silêncio, vesti uma camisola comprida no escuro, e deitei na cama de casal. Ao meu lado, Roberto roncava como um porco, a boca aberta, um fio de saliva escorrendo pelo canto dos lábios. O som preenchia o quarto, grave e constante, o mesmo ronco que eu ouvia há vinte e dois anos e que sempre me impediu de dormir direito.

Fechei os olhos. Pela primeira vez em muito tempo, dormi em paz.

Acordei com o quarto claro demais.

A luz do sol entrava pelas frestas da persiana, cortando o quarto em listras douradas. Pisquei, confusa, e olhei para o lado. Roberto estava sentado na cama, já vestido, me olhando com uma expressão que misturava irritação e incredulidade.

- Beatriz - a voz dele estava estranha. - São quase sete horas.

Sentei num salto, o coração disparando. Sete horas?

- O café não está pronto - Roberto continuou, e agora a irritação predominava. - Eu tenho reunião às oito, preciso sair em vinte minutos.

- Desculpa - as palavras saíram automáticas, enquanto eu já corria para o banheiro. - Desculpa, não consegui dormir cedo por causa da insônia...

Escovei os dentes na velocidade da luz, passei um pano úmido no rosto, prendi o cabelo ruivo num coque malfeito, o primeiro coque malfeito da minha vida adulta, e desci as escadas quase tropeçando.

A cozinha estava impecável. Impecável e vazia. Nenhum café passado. Nenhuma mesa posta. Nenhuma geleia de laranja no pote de cristal.

Fiz tudo o mais rápido que pude, e Roberto desceu quando o café ainda estava pingando. Sentou-se à mesa sem dizer nada. Pegou o jornal. Murmurou um "obrigado" quando coloquei a xícara na frente dele, mas não levantou os olhos.

Ele comeu o café da manhã em silêncio. Um silêncio pesado, diferente do silêncio confortável de sempre. Um silêncio de acusação.

- A reunião é importante - disse finalmente, se levantando. - Não posso me atrasar por causa de café.

- Desculpa, Roberto - repeti, as mãos segurando a xícara com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.

Ele passou por mim sem um beijo. Sem um toque. A porta bateu com um som seco que ecoou pela casa vazia. Fiquei parada no meio da cozinha, ouvindo o silêncio.

Nem uma palavra sobre a noite passada. Nem uma menção ao que aconteceu no corredor. Ele tinha se masturbado ouvindo minha voz, tinha descoberto que eu me tocava (ou assim pensava), e na manhã seguinte a única coisa que importava era o café atrasado.

Essa era a minha vida. Essa sempre foi a minha vida.

Subi as escadas devagar. Entrei no banheiro principal e olhei no espelho. A mulher que me encarava não era a Beatriz de sempre. O cabelo ruivo, sem a escovação meticulosa de todas as manhãs, estava bagunçado, com mechas soltas escapando do coque malfeito. Os olhos claros estavam diferentes, mais brilhantes, mais vivos, com um brilho que eu não via há anos. A pele... a pele parecia ter ganhado cor, como se a noite passada tivesse injetado sangue novo nas minhas veias.

Tomei um banho demorado. Vesti uma roupa simples, calça jeans, algo que eu quase não usava, blusa branca. Peguei a bolsa, as chaves do carro, e saí.

Não pensei. Só dirigi.

Fui até a uma cidade maior, próxima da minha. O centro estava movimentado, mas encontrei vaga perto de uma praça. Caminhei sem destino até parar em frente a uma vitrine.

Uma loja de roupas. Mas não a loja de sempre, aquela de tecidos neutros e cortes recatados que eu frequentava há anos. Essa era diferente. As cores explodiam na vitrine: vestidos estampados, saias curtas, blusas coloridas. Entrei antes que a coragem fosse embora.

A vendedora era jovem, talvez vinte e poucos anos, com cabelos cacheados presos num coque alto e um sorriso fácil.

- Bom dia! Posso ajudar?

- Eu... - engoli o seco. - Quero experimentar algumas coisas.

Duas horas depois, saí da loja com três sacolas.

Um vestido vermelho, mas não como aquele antigo. Esse era mais curto, mais justo, com decote nas costas. Uma saia jeans que marcava a bunda de um jeito que eu nunca teria usado antes. Blusas coloridas: amarela, verde, roxa. Coisas que a Beatriz antiga chamaria de "extravagantes", "inadequadas", "chamativas demais". Coisas que a Beatriz nova queria vestir.

Antes de voltar para casa, passei no salão da Dona Célia, a mesma cabeleireira que cuidava do meu cabelo há quinze anos.

- Beatriz! - ela exclamou, surpresa. - Não é seu dia de vir, menina.

- Eu sei - sentei na cadeira e encarei meu reflexo no espelho do salão. - Hoje quero fazer uma coisa diferente.

Dona Célia arqueou as sobrancelhas.

- Diferente como?

Pensei em Victor. No beijo. Naquela rola preta que me fez sentir viva. Na noite passada. No brilho novo nos meus olhos.

- Quero repicar. Tirar esse comprimento todo. E quero... - hesitei por um segundo. - Quero luzes. Alguns reflexos mais claros. Pra dar mais vida.

O silêncio de Dona Célia durou apenas um segundo. Depois ela sorriu, um sorriso largo e genuíno.

Quando saí do salão, o cabelo ruivo dançava nos ombros com camadas suaves que emolduravam meu rosto. As luzes mais claras pegavam a luz do sol, criando reflexos que eu nunca tinha visto no meu próprio cabelo. Parei em frente à vitrine do salão e me olhei. A mulher do reflexo parecia mais jovem. Mais viva. Mais eu.

Aproveitei que estava no centro e comi em um restaurante ali perto, já que a volta pra casa iria me custar mais algumas horas.

Estacionei o carro na garagem de casa e desci com as sacolas. O sol da tarde já começava a perder força, criando sombras longas no asfalto quieto da rua.

Parei no portão e olhei para o canteiro em frente de casa. As flores estavam murchas, algumas pétalas caídas no chão seco. Precisavam de cuidado. Água. Atenção. Fazia dias que eu não dedicava um minuto sequer a elas.

Atravessei a calçada com as sacolas penduradas no braço, e foi então que ouvi a voz:

- Fez compras, vizinha?

Adriana estava no gramado da casa ao lado, de joelhos sobre uma pequena esteira de palha. Usava um vestido longo estampado, hoje com cores de pôr do sol, laranja e roxo entrelaçados, e luvas de jardinagem sujas de terra. O cabelo crespo estava preso num lenço colorido, e ela sorria aquele sorriso largo que parecia iluminar a rua inteira.

- Adriana! - respondi, atravessando instintivamente em direção a ela. - Como você está?

- Ah, menina, cuidando dessas plantas que o Vicente insiste em comprar e eu insisto em manter vivas - ela riu, um som gostoso e acolhedor. - E você? Nossa, mas o que é isso?

Ela tinha parado de mexer na terra, os olhos fixos em mim. Ou melhor, no meu cabelo.

- Você mudou o cabelo! - exclamou, se levantando num movimento ágil e vindo em minha direção. As luvas sujas foram arrancadas num gesto rápido. - Menina, que lindo! Ficou tão jovem! Essas luzes... realçaram demais seu ruivo, Beatriz. Tá linda!

Senti o rosto corar.

- Obrigada... é que eu... precisava de uma mudança.

- E olha essas sacolas! Comprou roupas novas?

- Algumas coisas - admiti, rindo sem graça. - Coisas mais... coloridas.

- Ah, amei! - ela soltou meus ombros e bateu palmas, um gesto tão genuíno que me fez sorrir de verdade. - Você merece, Beatriz. Toda mulher merece se sentir bonita, se sentir viva. Às vezes a gente se perde na rotina, né? Esquece que tem um corpo, uma beleza, uma... - ela procurou a palavra - ...uma chama.

A palavra acendeu alguma coisa dentro de mim.

- É... é isso mesmo - concordei, baixo. - Eu mesmo não poderia ter usado palavras melhores.

Adriana inclinou a cabeça, me olhando com uma curiosidade afetuosa.

- Tudo bem com você, amiga? - perguntou, e o "amiga" veio tão natural que quase doeu. - Você parece diferente. Não só o cabelo, não só as roupas. Tem um brilho novo no olhar.

Engoli em seco. Se ela soubesse que o brilho novo no meu olhar tinha a ver com o filho dela, com a noite passada, com o chocolate partilhado na cama e os beijos roubados...

- Estou bem - respondi, e pela primeira vez em muito tempo, a frase não soou como mentira. - Estou... mudando algumas coisas. Tentando me encontrar de novo.

Adriana sorriu, e aquele sorriso era tão puro, tão sem malícia, que meu coração apertou.

- Que bom, Beatriz. Que bom. Às vezes a gente precisa se perder um pouco pra se achar de novo, não é?

- É - murmurei.

Ela se virou para as plantas, mas parou, apontando para minha casa.

- Aliás, o Roberto chegou mais cedo hoje? Vi o carro dele na garagem há pouco.

Meu corpo congelou por um segundo.

- Não, ele... - minha voz falhou. - Ele estava de reunião hoje, não devia ter voltado ainda...

Adriana deu de ombros, já voltando para suas plantas.

- Deve ter chegado há uns vinte minutos. Ou talvez fosse outro carro igual, você sabe como é minha visão...

Ri, um som nervoso, e me despedi com um aceno.

Atravessei a calçada com o coração batendo forte. Será que ele sabia? Sabia do que eu tinha feito na noite passada? Talvez por isso tinha me tratado mal no café da manhã. Respirei fundo antes de abrir a porta. Deixei as sacolas no corredor e fui para a sala. Vazia. A cozinha também estava vazia.

Subi as escadas.

Ele estava no quarto, deitado na cama, ainda de terno, mas com os sapatos já tirados. Os olhos estavam abertos, fixos no teto.

- Roberto? - aproximei devagar. - Tudo bem? Você chegou mais cedo...

Ele não respondeu de imediato. Por um longo momento, ficou ali, olhando para o nada. Depois virou a cabeça lentamente e me encarou. Os olhos dele estavam estranhos. Diferentes.

- Você mudou o cabelo - disse. Não era pergunta. Era constatação.

- Sim... passei no salão hoje.

Ele continuou me olhando. Um olhar longo, analítico, que percorreu meu rosto, meu cabelo novo, minha roupa.

- Ficou bonito - disse finalmente, a voz plana. - Você está bonita.

Meu coração deu um salto estranho. Roberto não me elogiava há anos.

- Obrigada - respondi, sem saber o que mais dizer.

Ele voltou a olhar para o teto.

- Hoje de manhã... - começou, e parou. Engoliu em seco. - Hoje de manhã eu fui grosso com você. Por causa do café. Não devia ter feito isso.

Fiquei paralisada.

- Você... não precisa se desculpar...

- Preciso sim - ele cortou. - Você não é minha empregada. É minha esposa. E eu... - outra pausa. - Eu não tenho te tratado como esposa.

O silêncio se esticou entre nós. Eu não sabia o que dizer. Vinte e dois anos de casamento, e Roberto nunca tinha feito um discurso assim. Nunca tinha admitido falha. Nunca tinha se desculpado por nada.

- A noite passada... - ele continuou, e meu coração paralisou. - Aquilo... me fez pensar.

Aquilo. Ele estava falando do corredor, da porta trancada, dos meus gemidos.

- Eu achei que você não tinha esses... desejos. Que era uma mulher diferente. Mas você tem. E eu... - ele virou o rosto para mim de novo. - Eu queria te pedir desculpas. Por não ter percebido. Por não ter... tentado.

Minhas pernas fraquejaram. Sentei na borda da cama, longe dele, o coração martelando.

- Roberto, eu...

- Não precisa dizer nada agora - ele interrompeu, a voz cansada. - Só... pensei que devia falar. É isso.

Ficamos em silêncio por um longo tempo. Lá fora, o sol continuava se pondo. Lá fora, Adriana ainda devia estar cuidando das plantas. Lá fora, Victor devia estar em algum lugar, talvez no quarto dele, talvez pensando em mim. E aqui dentro, meu marido pedia desculpas por não me enxergar. Vinte e dois anos atrasado.

- Preciso guardar as compras - levantei, a voz estranhamente calma. - Depois começo o jantar.

Desci as escadas sem esperar resposta.

No corredor, peguei as sacolas e levei para o quarto de hóspedes - o mesmo quarto da noite passada. Abri o armário e comecei a pendurar as roupas novas.

Parei com uma blusa roxa nas mãos e encarei meu reflexo no espelho do armário. Quem era eu agora? A esposa arrependida? A adúltera em busca de prazer? A mulher de quarenta anos tentando se redescobrir?

Não importava mais quem eu era antes. Não importava o que Roberto pensava, ou o que a igreja diria, ou o que as vizinhas murmurariam se soubessem.

A única coisa que importava era que, pela primeira vez em vinte e dois anos, eu tinha acordado.

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Comentários

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Infelizmente Beatriz se tornou só mais uma vadia traidora, nada justifica o q ela fez, afinal ela é casada, independente do marido dar ou não atenção q ela merece,(ou acha q merece, pois muitas vezes queremos algo ao qual não entregamos também), ao trair o marido e ainda dentro de sua própria casa ficou claro q ela está pouco se fodendo pro marido, só mostrou o mau carátismo por parte dela, se as coisas não estão boas ou nunca foram boas, a culpa também é dela q não buscou melhor ou ao menos demostrar sua insatisfação ao marido, e na minha opinião a traição é sempre culpa da mulher, pois é dela o poder do não

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